Robinson Cavalcanti

Na campanha presidencial desse ano, “sumiram” com os miseráveis, que apareciam, invariavelmente, quando alguns dos partidos “da base aliada” eram de oposição. O outro lado, desde Pedro Álvares Cabral, tem dificuldade de se comportar como oposição, sem jeito, vestido em um figurino de número diferente do seu manequim. Já os demais partidos foram, pelo sistema, decretados ou predestinados para serem eternamente pequenos, e não possuem tempo para mostrar a miséria. Um estrangeiro que aqui chegasse, e assistisse aos programas dos “grandes” candidatos somente veria coisas boas, otimismo, e mais promessas de coisas boas. De fato, “sumiram” com os pobres. Um país semelhante a casas de estúdios cinematográficos: belas fachadas.

E aí, surpresa das surpresas. A Rede Globo, além de participar do “pool” moralista denuncista que nos deixa saudosos de 1989, fez algo de positivo, e o senso de justiça nos leva a elogiar: botou para voar pelo Brasil a fora um jatinho do “Jornal Nacional”, onde, finalmente, aparece um pouco do Brasil real: casas de taipa cobertas de palha, meninos magros de subnutrição e de imensas barrigas de verminose, pessoas mal vestidas, analfabetos, desdentados, esgotos a céu aberto, crianças catando lixos, escolas caindo aos pedaços, postos de saúde sem médicos, estradas esburacadas. Ou seja, o Brasil dos “grotões” ribeirinhos da Amazônia, interiorano do Nordeste ou do Centro-Oeste, periféricos nas grandes cidades. O Brasil dos índices de IDH de Alagoas e do Maranhão, e não só dos Jardins (SP), da Barra da Tijuca (RJ), de Ponta Verde (AL). O Brasil dos sem comida, sem terra, sem teto, sem educação, sem profissão, sem esperança. O Brasil dos assaltos nossos de cada dia, e das drogas mil de cada dia que destroem a juventude.

Fiquei até aliviado, porque estava dando um nó em minha cabeça, já que passo o ano viajando pelo País, inclusive o seu interior, e pensei que um ou outro país (o que eu vejo ao vivo e o que eu vejo na TV no Programa Eleitoral Gratuito) era uma alucinação.

Acontece que esse “Brasil dos Desdentados” se encontra localizado não apenas na Federação, e o seu governo da “base aliada”, mas em Estados e Municípios governados por, praticamente, todos os partidos políticos existentes, da direita à esquerda. Não há, portanto, monopólio das injustiças sociais: A Miséria é de Todos! “Todos pecaram”, diz a Bíblia, inclusive todos os partidos e todos os líderes, e prosseguem as Escrituras: “não há um justo, nenhum sequer”. E Satanás não faz acepção de pessoas, ele é um“democrata” em suas tentações, induções e possessões. E o demo, o tinhoso, o fute, o coisa ruim, foi muito bem sucedido nessa Terra da Santa Cruz. Com esse tamanho e esses recursos naturais, só muita competência na elaboração do mal, na concentração de propriedade, renda, poder e saber, para se gerar tanta opressão, por 500 anos. Como Deus quer o bem e satanás quer o mal, está, pois, mais do que comprovado, que, por cinco séculos, temos sido governados por satanistas…

Dentro da Igreja, também nos diz a Bíblia, há dois partidos: o PJ, ou Partido do Joio e o PT, ou Partido do Trigo, e se supõe que os fiéis do PT (Partido do Trigo = nenhum parentesco com o seu homônimo secular) não estabeleçam alianças ou acordos com os satanistas. Isso seria coisa para o pessoal do PJ (Partido do Joio). Vamos, como gente do trigo, repreender satanás “em nome de Jesus”, promovendo o Reino de Deus, de justiça e de paz, em que a nossa Cidade do Homem reflita a Cidade de Deus e não a Cidade do Diabo, no melhor dos nossos esforços e talentos, até que nos venha a santa cidade, a Nova Jerusalém. Transformemos o próximo dia 03 de outubro em um imenso mutirão de descarrego: xô satanás!

PS: Pela primeira vez, desde 1962, os meus seis votos irão para uma “sopinha de letras”e não para um único partido em particular.

Recife (PE), 23 de setembro de 2010,

Anno Domini.

+Dom Robinson Cavalcanti, ose

Bispo Diocesano

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Texto do site da Diocese Anglicana do Recife

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