outubro 2010


 

Derval Dasilio

Caros pastores,
Acabamos de conferir os resultados. Os senhores foram reeleitos para o Congresso Nacional representando o expressivo “voto evangélico”. Seus eleitores ignoram que certas candidaturas “evangélicas” estiveram envolvidas com a corrupção. Se os demais, figurões da política nacional, magistrados, os acompanham, não interessa. Eles não são pastores ordenados para cuidarem do rebanho de Deus. O déficit político nacional já é muito grande. Não esperamos dos senhores que aprofundem o rombo. Já vimos pastor congressista pego com a boca na botija recebendo cheques vultuosos do crime organizado para ajudá-lo na campanha. Vimos o envolvimento comprovado de dezenas de pastores nas fraudes do sistema de saúde, por exemplo na famosa Operação Sanguessuga. Não foram punidos.
Não sou eu quem afirma, mas a imprensa que acompanha suas carreiras políticas. Vimos figuras evangélicas, acusadas de roubo do erário, no camburão da polícia com a Bíblia na mão. Rima horrorosa, vergonha inominável.

Vimos um senador em exercício preso por fraude e roubo do erário. Vimos um juiz evangélico que vendia sentenças e mandados de soltura de criminosos perigosos, pistoleiros e traficantes do crime organizado, preso enquanto acusado de mandante do assassinato de um jovem juiz federal que o investigava. Vimos pastores presos com milhões de reais transportados na mala do carro alegando serem ofertas da igreja, e outros flagrados por câmeras enchendo meias e cuecas de propina e suborno. Centenas de casos, todos envolvendo parlamentares e congressistas evangélicos.Alguns foram inocentados, assim como vários outros políticos apontados por corrupção e outros crimes, embora tenham alcançado o Jardim do Éden na política. Aproveitem a sua sorte. Mas cuidado se acham que são deuses. A impunidade geral talvez os favoreça, porém não à consciência pública. A vaidade não deixa reconhecer, talvez. Aliás, sobre o paraíso, têm-se muita dificuldade em compreender a inutilidade dos projetos humanos. Oram a Deus para que se livrem do pecado da soberba e da prepotência, além de agradecer a propina da corrupção? Não? Deviam fazê-lo.Um amigo viajava com um parlamentar, vinham de Brasília. Perguntou-lhe como se sentia no Congresso. O político respondeu: “Sou um estranho no ninho”, sugerindo ser uma reserva moral da nação, como pastor evangélico. Tentação digna de Adão, guardião do paraíso (perdão, do Congresso Nacional). Querendo apresentar-se acima do bem e do mal, a agitação em torno de crimes sexuais no clero católico romano rende dividendos eleitorais preciosos.

Oferece garantia para reduzir a maioridade penal – por enquanto recusada como inconstitucional –, sem referir-se a quem induz ao crime ou explora a criança e o adolescente. Interessa punir o mais fraco e vulnerável. Generalização injusta, falácia retórica. Milhares de jovens entre 14 e 19 anos, adolescentes, são os que mais sofrem mortes violentas no Brasil. Por que vivem em situação de miséria e abandono; por que são identificados em locais sem saneamento; por que moram em favelas e cortiços entre 70 milhões de brasileiros; por que não têm educação de qualidade; por que habitam em cenários de morte e violência, são candidatos, todos, ao crime ou à delinquência? Devem ser ameaçados ou auxiliados pelo congressista que irá buscá-los na adolescência excluída?

Na verdade, eles precisam dos senhores para melhorar suas vidas, e de suas famílias e comunidades, e não para serem ainda mais oprimidos pela corrupção policial associada ao crime organizado. Continuarão a estimular a vingança darwiniana da sociedade contra os mais fracos, sabendo que há um imenso contingente de adolescentes inocentes que jamais poderão defender-se de acusações ou pressupostos de delinquência? Originários das classes privilegiadas chegarão ao banco dos réus, contrariando a regra?

Outra coisa que queremos lembrar-lhes: seu compromisso cristão e de pastores, quando ordenados ministros evangélicos. Certamente lhes foi lembrado que deveriam guardar o rebanho de Deus contra todas as ameaças. Que o grande inimigo do homem e da sociedade é a presunção humana de querer situar-se no lugar de Deus. Que pastores cuidam do bem comum, devendo voltar-se para os rebanhos dos vários redis, tendências, diferenças, o universo equilibrado segundo a criação de Deus. Que toda a sociedade, embora dividida, seja beneficiada pelo cuidado com a vida humana aviltada pela exclusão, fome e miséria, em favor da paz, nas diversas pastagens e lugares onde o equilíbrio possa ser turbado. Para que não vença o preconceito, a discriminação, os ódios entre grupos e pessoas. Sejam quais forem as suas crenças e religiões. Assim, a nação agradecerá, respeitando então o povo evangélico na política.

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

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Nós, evangélicos e evangélicas, brasileiros, eleitores e cidadãos comprometidos com a verdade e a justiça, manifestamos profeticamente as nossas rejeições e defesas diante da onda de conservadorismo que se abateu sobre o país nesse processo eleitoral.

Rejeitamos os posicionamentos de alguns líderes evangélicos, que em vez de preparar cidadãos, com plenos conhecimentos de seus direitos e deveres, encaminham seus fieis para um exercício equivocado da fé.

Rejeitamos a disseminação de boatos e inverdades com fim de manipular o eleitorado.

Rejeitamos a manipulação, seja ela de que forma for, e a redução das questões cruciais e relevantes no processo eleitoral a temas presos ao mero moralismo.

Rejeitamos o uso da fé como instrumento de manipulação política no momento em que temas como erradicação da pobreza, sustentabilidade ambiental e desigualdade social precisam ser discutidos pela sociedade.

Rejeitamos o papel da mídia, que dá voz e espaço, para que a onda de conservadorismo ganhe visibilidade, desviando o foco das propostas dos candidatos.

Rejeitamos a demonização dos candidatos e partidos, além do processo eleitoral.

Rejeitamos a difusão de informações equivocadas dos papéis que cabem ao Executivo e ao Legislativo no país.

Rejeitamos qualquer forma de intolerância religiosa.

Dessa forma,  defendemos que as eleições devem girar em torno das questões programáticas e dos planos de governo.

Defendemos,  como herança do Protestantismo, a manutenção e o fortalecimento do Estado Laico.

Defendemos a necessidade de uma reforma política e eleitoral que leve o Brasil, do sistema proporcional, no máximo, ao distrital misto, para que os candidatos tenham vínculos comunitários.

Defendemos o aprofundamento do Estado de Direito e a consecução do estabelecimento do Estado de Equidade social, política e econômica.

Defendemos uma Igreja independente, que não se submeta aos interesses políticos e eleitorais. Ao contrário, que exerça sua função profética produzindo cidadãos livres e conscientes de seu papel cívico.

Defendemos a manutenção e o avanço das conquistas sociais que, nos últimos anos, fizeram com que uma parcela significativa de brasileiros saísse dos níveis de pobreza inaceitáveis em que viviam.

Defendemos a manutenção de políticas públicas que promovam a erradicação da pobreza e a maior igualdade entre os brasileiros.

Por fim, assumimos o compromisso de continuarmos orando e contribuindo solidariamente com a construção de um Brasil sustentável, economicamente viável, socialmente justo.

Ariovaldo Ramos, pastor

Welinton Pereira, pastor

Eduardo Nunes, cientista social

Levi Araujo, pastor

Nilza Valeria Zacarias, jornalista

Caio Marçal, Missionário

Especialista destaca que, neste segundo turno presidencial – nem Dilma, nem José Serra (PSDB) têm perfil religioso. Para ela, qualquer um dos dois tem chances de ganhar o apoio desses grupos por negociação.

A pressão de setores religiosos – principalmente evangélicos – sobre uma definição contra o aborto da campanha da presidenciável Dilma Rousseff (PT) não tem motivação religiosa, mas é uma forma de barganhar por poder, avalia a cientista Maria das Dores Campos Machado.

– Eu percebo que existe um pragmatismo muito grande nos grupos religiosos. Eles sabem que estão lidando com dois candidatos que não são religiosos.

Para a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os pastores viram na polêmica uma chance de se estabelecerem na política.

– É um jogo e o que estas lideranças querem mostrar é que estão sendo reconhecidas.

Autora dos livros “Os Votos de Deus” e “Política e Religião”, Maria das Dores é diretora de um núcleo de estudos sobre religião e política. Em entrevista a Terra Magazine, ela critica o uso da discussão em torno da descriminalização do aborto nas eleições. “O fato de isso aparecer na eleição, mostra como o debate na sociedade é incipiente”. “Esse tema está sendo usado na eleição porque a sociedade não tem uma posição clara”.

Leia a entrevista na íntegra.

 

Terra Magazine – O que a senhora está achando do fato de os votos dos religiosos entrarem no centro dessa disputa pelo segundo turno? A questão do aborto, principalmente, está se tornando crucial para os presidenciáveis.

 

Maria das Dores Campos Machado – A religião sempre teve uma dimensão muito importante na cultura brasileira e aparece sempre em momentos importantes das eleições. Nos últimos anos, o movimento feminista conquistou alguns avanços junto ao Poder Executivo, há a questão do Plano Nacional de Direitos Humanos. Isso expressava um certo avanço dos setores mais progressistas do governo. O que há é uma reação dos grupos conservadores. Você não tem nenhum grupo religioso com uma única posição com relação às candidaturas que estão representadas agora. Tanto os evangélicos como os católicos estão divididos. Eles também percebem que a própria candidatura de José Serra também tem mais afinidade com posturas mais liberais. Ele já foi ministro da Saúde, tem medidas que facilitaram a contracepção de emergência.

 

Como é essa divisão?

 

No caso de Serra, os contatos que ele mantém são muito mais graças ao Geraldo Alckmin, que é um católico mais conservador, e alguns movimentos de renovação carismática muito ligados ao Geraldo Alckmin no interior de São Paulo. No caso de Dilma, a candidatura dela tem o apoio tanto do bispo Edir Macedo (líder da Igreja Universal) como do bispo Manoel Ferreira, que é uma grande liderança da Assembleia de Deus. Mas há uma grande resistência de grupos mais conservadores e grupos que não conseguem estabelecer um canal direto com as grandes candidaturas. Não se pode esquecer que os evangélicos têm um caráter muito pragmático. Eles sabem estabelecer uma separação entre o que é do mundo legislativo e o que é essa doutrina religiosa. Nesse sentido, eu acho que existe possibilidade de os dois candidatos conquistarem apoio desses grupos para além da visão ideológica ou da visão mais doutrinária de ser contra ou a favor do aborto. Eles sabem muito bem que eles estão lidando com dois atores políticos que não são religiosos, mas que podem dialogar com suas lideranças e podem dar um tratamento de ouvir mais essas lideranças na maneira de encaminhar o debate do aborto.

 

Mas essa possibilidade de negociar com os dois lados independe, então, da questão religiosa em si?

 

Eu percebo que existe um pragmatismo muito grande nos grupos religiosos. Até o final dos anos 90, o Lula era visto como um representante do “demônio” por vários pastores. Os pastores diziam que o Lula era endemoniado. Eu lembro que, na campanha em que o Lula foi vitorioso, o bispo Carlos Rodrigues disse: Nós criamos o veneno – que era considerar o Lula um demônio – nós vamos criar o antídoto. Existe por parte das lideranças certo pragmatismo. Uma vez convencidos de que as alianças políticas podem ser proveitosas para os seus grupos, eles podem rever toda a posição.

 

 

 

Mas esse apoio não iria, neste caso, ao candidato que se comprometesse a não descriminalizar o aborto?

 

Sim. O que eu estou querendo dizer é que esse tipo de intervenção – como o do pastor Malafaia (que declarou voto em Serra) – é criado em função de entenderem que eles estariam tendo uma maior capacidade de influência junto à Dilma ou ao Serra. Eu acho que há um pragmatismo aí por trás. Eu acredito que o pastor Silas Malafaia, quando declara o seu voto, ele é uma pessoa que faz a opinião pública. É um caráter extremamente pragmático. Eu acho que ele está aí tentando se cacifar no jogo da política. Ele não é só um ator religioso. Tem aí também um jogo das lideranças religiosas no sentido de serem reconhecidas enquanto atores políticos, atores que vão estabelecer uma série de acordos e vão ter acesso ao cenário político. A questão doutrinária é colocada na mesa para negociar ou para forçar um reconhecimento enquanto ator político.

 

Colocar essa questão do aborto às vésperas da eleição é uma ação eleitoreira? Em especial, o questionamento direto feito à postura da candidata Dilma por ela não ter se definido sobre o tema.

 

Existem coisas que acontecem dentro das igrejas. E existem coisas que, da Igreja, são levadas para a mídia. Que a mídia tem mais simpatia pela candidatura do Serra, isso é inegável. Mas, por exemplo, o Silas Malafaia está distribuindo CDs e DVDs contra o aborto. O que é curioso é que, por exemplo, não houve uma discussão em torno da homofobia – que também é um tema difícil. Por quê? Porque os homossexuais têm uma mobilização dentro da sociedade, então eles conseguem dar uma resposta de pronto, acionando a Justiça. Eles têm uma capacidade de mobilização muito maior que o movimento a favor do aborto. No caso dos homossexuais, por mais que os líderes religiosos sejam contra, eles não conseguem interferir nesse debate e nem trazer isso para o momento eleitoral. São temas que estão sendo usados porque a sociedade civil brasileira ainda não tem uma posição clara com relação ao aborto. Então, permitiu que esse tema fosse usado dessa forma.