Juan Stam

 

Quando minha esposa Doris e eu chegamos a Basiléia em 1961, conhecemos um grupo de espanhóis, em sua maioria de igreja reformada, que havia começado um estudo bíblico e estava orando para que Deus enviasse um pastor de língua espanhola. Respondemos entusiasmados, porém havia um pequeno problema. O consistório da igreja reformada, com toda razão, queria saber de que igreja era eu. Minha resposta foi: “sou pastor da Asociación de Iglesias Bíblicas Costarricenses”, conhecida como “AIBC”. Todavia, veio a confusão no rosto do pastor reformado, e percebi que precisava esclarecer melhor minha afiliação eclesiástica. Uma semana depois o pastor me buscou de novo e me disse que o consistório não entendia o que era AIBC e que por favor eu voltasse para esclarecer melhor. Afortunadamente, tudo se resolveu e tivemos uma experiência pastoral excelente.

Nesta vida humana, é importante ter uma identidade, e uma identidade que os outros possam reconhecer. Dá muita segurança poder dizer, “Eu sou presbiteriano” ou “sou pentecostal” ou alguma outra afiliação respeitada. É um pouco inquietante possuir uma identidade não reconhecida. Porém, também nossa identidade pode nos limitar. Por exemplo, “sou presbiteriano e graças a Deus não sou batista” ou “sou um anglicano respeitável e decoroso e não como esses pentecostais escandalosos” (ou “sou pentecostal e não como esses anglicanos frios e espiritualmente mortos”). A igreja é uma só, e não devo ser o que sou contra o que são os outros, mas sim junto com eles e elas na grande comunidade de fé.

Eu sou evangélico e o sou com toda a convicção de meu ser. Para mim, essa palavra está escrita em meu coração e mente em letras de ouro. “Não me envergonho do evangelho, porque é poder de Deus…” Porém não sou no sentido dos “conservadores evangelicais” dos Estados Unidos, nem exatamente no uso latinoamericano como simples equivalente virtual de “protestante”. Sou evangélico porque tenho sido alcançado pela graça de Deus e essa graça é o firme fundamento de minha existência. Bem nos dizia Karl Barth que, ao fim, toda a fé evangélica se reduz a duas palavras: Graça como chave da teologia e gratidão como base e motivação da ética. Nas palavras comovedoras da Confissão de Heidelberg, as três coisas que necessito saber são: quão grande é o meu pecado, quão grande é a graça de Deus e quão grande deve ser a minha gratidão. (Como evangélico que sou, essas velhas confissões não deixam de comover-me com profunda emoção).

Para mim, teologia evangélica significa duas coisas fundamentais: Teologia da graça de Deus e Teologia da Palavra de Deus. Ser evangélico significa uma relação especial com a Palavra de Deus, tanto como Palavra encarnada de Cristo, Palavra inspirada nas Escrituras (testemunho da Palavra encarnada) e Palavra proclamada na pregação e no testemunho. Ser evangélico significa para mim um grande amor e uma paixão pelas escrituras, no entanto, sem pretender ter o monopólio da fidelidade bíblica. Sempre tenho insistido em que todo trabalho teológico tem que estar bem fundamentado na exegese cuidadosa do texto bíblico explicita ou implicitamente, ou não é um bom trabalho teológico. Por isso, me impressiona muito a afirmação de Barth no prólogo do primeiro tomo de sua Dogmática da igreja, que não podia seguir fundamentando sua teologia na existência, como havia feito, sim somente na Palavra de Deus.

Porém, uma surpresa: por ser evangélico, não deixo de ser católico! A palavra “católico” deriva-se da combinação de duas palavras gregas “kata” (segundo) e “holos” (o todo) para dar o sentido de “segundo o todo; universal”. Os pais da igreja falavam da igreja universal como hê ekklêsia katolikê e as “epístolas gerais” como “epístolas católicas”. Outro termo parecido é oikoumenê, e seu adjetivo correspondente, oikoumenikos, que se referem à totalidade do mundo habitado. Assim, de novo, a igreja universal, em todo o orbe, é por sua natureza “a igreja ecumênica”. Não reconhecê-lo seria desconhecer a unidade da igreja no corpo de Cristo.

Na tradição cristã, tanto católica como reformada, a igreja se identificava por certas “notas” clássicas, como “a igreja uma, santa, apostólica e católica”. Porém, como evangélico, creio o mesmo, interpretado em sentido bíblico. Cristo tem um só corpo e uma só esposa; a igreja é una. A Igreja é “sem mancha nem rugas” em Cristo e é chamada por Deus; é santa. A igreja é fundada sobre os apóstolos como testemunhas designados por Cristo (Atos. 1; I Cor. 15) e é chamada a ser fiel a esse testemunho; dessa maneira, a igreja é também apostólica. (A igreja é apostólica quando é bíblica, não quando pretende ter apóstolos hoje). E a igreja de Cristo é uma só em todo o mundo habitado, ou seja, é também católica e ecumênica. Meu coração evangélico e pentencostal pode gritar “Amém!”.

O problema não é com o adjetivo “católica” sim com o outro que acompanha a ele, que é “romana”. Esse é um adjetivo geográfico muito específico e limitante, e poderia interpretar-se como oposto a “católico” como universal e inclusivo. De fato, em amplos setores da igreja católico-romana tem havido, desde inícios do século vinte, importantes movimentos rumos a um catolicismo mais bíblico, evangélico e ecumênico, e, portanto, mais católico! – Tenho entre os livros da minha biblioteca um que se intitula, “Rumo a uma igreja católica mais evangélica”. Lembro-me de um sacerdote católico que participou de um encontro na Europa e confessou a nosso grupo, “Peço a Deus cada dia que minha igreja seja menos romana e mais evangélica”.

Creio que as igrejas evangélicas também têm muito que aprender com o amplo e generoso espírito católico. O contrário de “católico” é “sectário” e não há que analisar muito para descobrir que algumas igrejas evangélicas são sectárias (ainda quando não sejam “seitas” doutrinariamente). A catolicidade da igreja ecumênica significa empatia e solidariedade não somente com todo o cristão, sim com todo o humano. Um poeta latino disse, “Homo sum, nihil humanum a me alienum puto” (“Sou homem; não considero alheio nada humano”) e muito mais se somos cristãos. Por isso um pai da igreja (São Irineu, se recordo bem) aprofundou a expressão: “Christianus sum, nihil humanum mihi alienum est”.

Isto tem muito significado para a missão da Igreja. Primeiro, porque a igreja está chamada a fazer-nos mais humanos, mais sensíveis, menos fechados e prejudicados. Segundo, porque essa identificação com a outra pessoa é o secreto de uma evangelização autêntica. Don Henneth Strachan, pouco antes de sua morte, escreveu um valioso livro, “O chamado iniludível”, em que assinala que a base de nossa evangelização deve ser a comum humanidade que compartilhamos com todos e todas. Quando é assim, a evangelização será mais humana tanto aos evangelizados como aos que evangelizam.

Também sou pentecostal. Não concebo como pode haver cristãos que não sejam pentecostais, sim toda a igreja nasceu no dia de Pentecostes e nasceu profética. Parece-me um lamentável desvio semântico que o título de “pentecostal” se limita muito estreitamente a somente um setor da igreja cristã. Biblicamente entendida, são pentecostais quem aceita com alegria os dons do Espírito Santo (Atos 2.1-13), pregam expositivamente a Palavra de Deus (Atos 2.14-41) e praticam radicalmente, em uma comunidade revolucionária, as demandas do evangelho (Atos 2.42-47; 4.32-37). Nesse sentido, toda a igreja está chamada a ser pentecostal.

Graças a Deus pelo movimento pentecostal contemporâneo e todo o bem que tem trazido a Igreja, libertando-a de uma mentalidade estática e fechada. Pessoalmente, tenho sido muito edificado e abençoado por minhas experiências com este mundo. Por suposto, as vezes têm cometido erros e têm caído em extremos. Creio que enfrentamos hoje uma situação parecida à de São Paulo. Por um lado, ante os tessalonicenses “anti-pentecostais”, Paulo os exortava a não apagar o espírito e não menosprezar as profecias, porém deveriam examinar tudo (I Tes. 5.19-21). Ao contrário, com os coríntios, que eram “ultrapentecostais”, Paulo os exorta a fazer todas as coisas em ordem (I Cor. 14.27-31,40). O antipentecostalismo é estéril e não deve ser nossa atitude, porém tampouco os extremismos do ultrapentecostalismo.

Os dons do Espírito Santo são diversos, e Ele os reparte como quer (1 Cor. 12.11). Não há um só dom que define o pentecostalismo, sim o conjunto de carismas que reparte o Espírito, que temos de receber com gozo e gratidão. Ser pentecostal significa viver na transbordante alegria do Senhor na liberdade que dá o Espírito.

Bem, é por isso que me identifico como um evangélico católico pentecostal… e também menonita, também morávio, também metodista, e queira Deus, sobretudo cristão e humano.

(traduzido por Regina de Cássia Fernandes Sanches, Belo Horizonte)

Anúncios