João Cândido: vitória sobre a chibata

desafiando as chibatas

Por Mário Maestri

O destino prometia ao menino negro vida movimentada e, quem sabe, prazerosa. Seus pais haviam sido escravos e ele ingressava, aos 14 anos, na Escola de Aprendizes Marinheiros do Rio Grande do Sul, pela mão protetora do poderoso almirante Alexandrino de Alencar, seu conterrâneo. Mesmo sendo a vida de marujo coisa de índio mui macho, o jovem João Cândido Felisberto mostrou-se feito para a empreitada.

Em 1895, aos 15 anos, no Rio de Janeiro, entrou definitivamente na Marinha e embarcou-se no cruzador Andrada, apresentando, logo, dotes e aptidões especiais. Apesar da pouca idade, revelou-se um “apaziguador das brigas e conflitos” dos marujos, chegando, na função de sindicalista avant la lettre, a ser acusado de “bajulador de oficiais”, devido às boas relações com os superiores.

No encouraçado Riachuelo, conheceu Montevidéu e Buenos Aires e, no pequenino Jutahy, visitou Belém e Manaus, no caminho do Acre. Outras embarcações levaram-nos a inusitados destinos, sugerindo um mundo sem horizontes ao menino que nascera entre as cercas de uma fazenda perdida do interior gaúcho. Em fins de 1909, encontrava-se em New Castle, na Inglaterra, para habituar-se ao manejo do poderosíssimo encouraçado Minas Gerais.

Como a República do café, da borracha e do cacau vivia vacas gordas, os senhores da nação decidiram o aparelhamento faraônico da Marinha, dizimada na Revolta da Armada [1893]. Nada menos do que três couraçados, três cruzadores-couraçados, seis caça-torpedeiros, doze torpedeiros, três submarinos, um navio carvoeiro!

Porém, como já era assaz comum no Brasil da época, os senhores do Brasil embelezavam a fachada, enfeitavam o hall, mobiliavam a sala e despreocupavam-se, olimpicamente, com a cozinha. Os navios eram o que havia de melhor, as condições de vida e trabalho da maruja assemelhavam-se às dos navios tumbeiros dos tempos do tráfico!

O soldo era baixo; a comida ruim; o trabalho, duríssimo. As mínimas faltas eram castigadas com tronco, solitária e ginástica punitiva, executada até quase o desfalecimento, a temida “sueca”. Em plena República, os marinheiros apanhavam bolos e eram vergastados, como cativos dos tempos da escravidão. Piorando tudo: a soberba oficialidade orgulhava-se de seu “sangue limpo” e desprezava uma maruja formada por negros, mulatos e caboclos.

Na Inglaterra, os marujos conheceram o movimento sindical e socialista europeu e informaram-se sobre a revolta, de 1905, dos marinheiros russos do Potemkin, contra seus oficiais. A velha tradição de luta, expressa em pequenas revoltas anteriores, conheceu salto de qualidade, ensejando ampla e bem organizada conspiração pelo fim da chibata e por melhores condições de trabalho e vida.

Talvez a grande contribuição do ensaio biográfico de João Cândido, do jornalista Fernando Granato – O negro da chibata: o marinheiro que colocou a República na mira dos canhões [Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. 139 pp.] – seja a ênfase posta nas razões que levaram João Cândido, com apenas 30 anos, a transformar-se, quase naturalmente, no porta-voz da revolta dos marinheiros. Ou seja, sua liderança anterior à revolta entre os marujos e sua proximidade com a oficialidade.

Os sucessos de 22 a 26 de novembro 1910, abordados pioneiramente pelo jornalista Edmar Morel, em A revolta da chibata, subsídios para a história da sublevação na Esquadra pelo marinheiro João Cândido em 1910 [3ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979], são já conhecidos, ainda que importantes momentos dos acontecimentos teimem em permanecer no desconhecimento: o papel na revolta do marinheiro-paioleiro Francisco Dias Martins; as confabulações dos conspiradores; o sentido da segunda rebelião, de 10 e11 de dezembro; a divisão de posições entre os marujos, em novembro e dezembro etc.

Menos conhecida é a trajetória da vida de João Cândido após a ruptura da anistia, concedida e desrespeitada, iniquamente, pelo Parlamento e pelo presidente Hermes da Fonseca, que ensejou o massacre da ilha da Cobras e do navio Satélite, entre outros covardes crimes praticados contra marujos desarmados.

Aprisionado, internado, julgado e inocentado de todas as acusações, João Cândido foi libertado, aos 32 anos de idade, no Rio de Janeiro, tuberculoso e sem recursos, quando os fatos eram ainda candentes. Procurando adaptar-se à nova vida, tentou, com sucesso inicial, a sorte na marinha mercante, de onde foi rapidamente desembarcado pelo dedo acusador do comandante dos portos de Santa Catarina, que exigiu que o líder da maruja fosse lançado novamente no desemprego.

Fechando-se o mar ao Almirante Negro, por meio século, João Cândido navegou por entre os escolhos do desemprego, do subemprego e de uma aposentadoria miserável, rota de cabotagem singrada invariavelmente pela imensa maioria da população brasileira trabalhadora negra, daquelas e de nossas épocas.

As alegrias e agruras pessoais; a simpatia para com a Aliança Nacional Libertadora, em 1935; a militância destacada nas filas dos fascistas tupiniquins de Plínio Salgado, até 1938; sua atribulada visita ao Sul, em 1961; as homenagens prestadas pelos marinheiros, em 1964, são episódios de sua biografia abordados, em breves flashs, por Fernando Granato, num texto sempre agradável e ameno.

Em 6 de dezembro de 1969, no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar, encerrava-se a existência atribulada desse marinheiro que suportou, sobre as suas costas largas, as desditas normais do negro pobre brasileiro e as glórias de ter dirigido um dos mais fulgurantes movimentos sociais de nosso passado.

Um destino singular, que certamente esmaeceu as mais descomedidas expectativas do menino que assistia, embasbacado, a evolução vagarosa das barcaças do seu Jacuí natal, sem saber que a vida lhe reservaria o papel de Prometeu Negro, castigado, na eternidade de sua vida longa, pelo crime de desafiar os falsos mas poderosos deuses do Olimpo nacional


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