Flávio Américo

 

Comece apagando o título desse texto, ele não passa de propaganda enganosa. Em que tela poderíamos pintar tal Criador? Contente-se com algumas pinceladas, em vê-lo, como fez Moisés, passar de costas; aí, então, poderemos começar a ver alguma coisa. Também não tema estar cometendo o pecado da idolatria, pois o que ofende a Deus não é representá-lo, é colocar algo no lugar d’Ele.

Um pastor amigo quis por na sua comunidade, ao lado de João 3:16, o detalhe do rosto de Jesus de Cristo Crucificado, de Velasquez. Há quem tenha dito que sairia de lá por causa disso, mas a mesma pessoa não se incomoda com desenhos do Senhor em revistas de escola dominical, nas lições dos pequeninos, em desenhos animados ou em peças (afinal, continua sendo uma representação). Aliás, tema o pecado da idolatria sim, é provável que você já o tenha cometido antes. Como saber que a imagem que você tem na cabeça de Deus não está no lugar dEle? Na verdade, d-EU’s está por trás de toda idolatria. No fundo dos olhos de quem ora, muitas vezes, se vê um espelho. Uma idéia errada de Deus, algo que nos impede de conhecê-lo de verdade, é tão idólatra quanto uma imagem de escultura.

Então, para começar a pincelar, ou seja, vê-lo como Ele é, quebre todos os ídolos, rasgue todas as telas, delete todos os arquivos. É necessário nascer de novo; se isso já aconteceu e você se gaba disso, é necessário nascer de novo. Faça isso quantas vezes for preciso, a idolatria é mestre na arte de enganar. Lembre-se que sempre que estivermos diante de Deus, não há espaço para arrogância, pois nossa vida acaba sendo quebrada como galho seco. A Bíblia está cheia de exemplos de pessoas que, diante da simples visão de um anjo ou algo do poder de Deus, ficaram apavoradas pensando que iriam morrer. Falo em “simples visão” porque estou comparando com Deus, pois para nós um anjo já é algo apavorante por causa do nosso pecado. Graças a Deus pelo “não temas”, pois sempre significa mensagem de aceitação, por não levar em conta a multidão das nossas dívidas.

Calvino afirma, na verdade ele estava citando Paulo, que, por sua vez, estava concordando com vários salmos, que é bom olhar para duas realidades. A primeira é a Criação, algo fora do homem. Para nossas pinceladas, dê uma olhadinha numa tempestade, ela nos lembra que nós somos nada (penso que Lutero aprendeu essa lição). Eu, particularmente, gosto de olhar árvores e pôr-do-sol; de sentir o cheiro de capim cortado e das flores; e ouvir o “louvorzão” dos passarinhos, pois sei que eles nem sabem que estou olhando. Já reparou no vento? Tanto faz ser a brisa ou o impetuoso, pois Ele sopra onde quer. Não se esqueça de olhar para as coisas boas da vida, elas também fazem parte da Criação: uma criança sorrindo, uma piada bem contada, o abraço da vovó, almoço de domingo, essas coisas que fazem tudo parecer o céu. Peça perdão e perdoe. Tenha um pai e uma mãe, não precisa ser os que te tiveram, mas, se forem eles, é melhor ainda. Tenha boas amizades, isso é muito importante, pois Deus nos deu uma dica para o quadro quando disse ser nosso amigo. Ame alguém e se deixe ser amado. Por ser noivo, mesmo não sendo dos melhores, entendo melhor, guardadas as infinitas proporções, porque Deus é amor.

Mas não pare aqui, de jeito nenhum, estamos apenas começando, não deixe que Pã (lembre de panteísmo) também te engane. A segunda coisa que Calvino, Paulo e os salmistas nos mandam olhar está dentro de você, atento leitor, isto é, sua própria consciência, os conceitos de certo e errado que você tem. Eles não foram aprendidos somente com a cultura, como nos lembra Lewis, pois muitos fazem parte do que o nosso amigo inglês chama de Lei Natural, Tao para os mais íntimos de A abolição do homem. Como ele nos mostrou, é natural as culturas não acharem muito legal alguém matar a mãe, não agir com caridade, não respeitar os mais velhos, pegar a mulher do outro etc. Alguns teimam em citar casos isolados como se fossem provas da não universalidade das ideias de certo e errado, ao invés de entenderem apenas como exceções à regra. Para piorar, citando mais uma vez Lewis (Cristianismo Puro e Simples), além de sabermos da existência da Lei Moral, não conseguimos praticar integralmente aquilo que achamos certo.

Mas que bom que o Senhor nos diz: “não temas”, pois, como nos ensinou Blaise Pascal, “o conhecimento de Deus sem o da própria miséria produz orgulho. O conhecimento da própria miséria sem o de Deus produz o desespero. […] Jesus Cristo é um Deus do qual nos aproximamos sem orgulho e perante o qual nos humilhamos sem desespero”.

Por falar em Jesus, acho que nossas pinceladas estarão indo muito bem se olharmos para Ele, pois, segundo suas próprias palavras, quem o vê está diante do Pai. Mas, como cantaram os Vencedores por Cristo,“muito embora um só Jesus exista, nem todos sabem vê-lo como é”. Qual você prefere? O menino segurando um cordeiro do início do Cristianismo? O legionário romano matando um dragão quando o Império se tornou oficialmente cristão? O germânico alto, loiro e de olhos azuis do período dos reinos bárbaros? O das revistas de Escola Dominical? O de Velasquez? O Jesus filósofo-comunista-hippie-naturalista da galera de hoje? Ou você já criou o seu? Delete todos esses, comece de novo. Olhe para o Jesus que recebeu as crianças; que sabia que o fluxo da mulher tinha cessado, mas queria que o mesmo acontecesse com a sua humilhação; aquele que perdoou a adúltera, a prostituta, o corrupto, o fariseu (acredite, está na Bíblia) e que pode perdoar você, caso vá até Ele.

Como dar umas pinceladas de Deus, ou melhor, como ajudar os outros a verem o Pai? Mostre o Jesus das Escrituras, Aquele que fez a Eternidade caber dentro de uma barriga de mulher, dormir numa manjedoura, andar de jumentinho e levou todos os nossos pecados sobre Ele. O Cristo que desceu ao Hades, ressuscitou, foi aos céus, habita em nós por meio do Consolador e há de voltar para sua Noiva. Quem tem olhos para ver faça silêncio diante do Rei dos reis e veja; não deixe de ir até Ele, pois sua promessa é de que não rejeitará quem O procurar.

[Texto publicado originalmente no Blog da ABUB]

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Flávio Américo é mestrando em História e assessor auxiliar em acompanhamento da ABU Campinas.

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