AranaPedro Arana 

Secretário executivo da Sociedade Bíblica do Peru

Queremos pensar as bases bíblicas da missão integral da Igreja a partir de Mateus 9.35 – 10.1. esse texto contém, em forma embrionária, a perspectiva, o conteúdo, a motivação e o impulso para a missão. Tanto a perspectiva da missão da Igreja como a própria missão, em sua totalidade, são vistas na vida e ação de nosso Senhor Jesus, de forma histórica e concreta. A perspectiva dessa missão tem como ponto determinando e determinado a vida da missão da Igreja em sua oração sacerdotal e intercessora: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.” (Jo 17.18)
Depois de sua morte e ressurreição, a oração se transforma, em seus lábios, num mandamento missionário: “Assim como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (Jo 20.21), sugere que a missão da Igreja deve corresponder à própria missão de Cristo. Dito de outra maneira, a missão de Cristo é o modelo para a missão da Igreja: Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”. Isso quer dizer que, da compreensão da missão de Jesus Cristo, a Igreja deve deduzir a compreensão de sua própria missão.

Como foi que o Pai enviou o seu filho unigênito ao mundo?

(1)Enviou-o como homem: Adão, novo Adão (Sl 8, Hb 2).

(2)Como Filho do homem e servo sofredor (Dn 7.14, Is 53)

(3)A síntese cristológica (Mc 10.45, Lc 22.27)

(4)O novo Adão (Fl 2.5-8, Hb 4)

Jesus nos oferece o modelo perfeito de serviço e envia sua igreja ao mundo para que seja uma igreja serva. Ele expressou seu amor em serviço, e este é o caminho de igreja. De que forma é essencial que recuperemos esta ênfase bíblica em nosso ministério? PATRÕES E SERVOS. CAPITALISTAS E DEPENDENTES.

O destino do Filho de Deus foi o mundo de Deus: “Assim como o Pai me enviou”. “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu vos enviei ao mundo”. O Cristo-homem veio ao mundo dos homens. Não a um mundo ideal, mas ao mundo tal e qual ele é. Ele se reduziu a uma cultura particular – ou, dito de outra maneira, a um espaço-tempo-recado. Por que toda cultura está limitada pela geografia, pela história e pela situação de pecado. Jesus enviou sua igreja “como ele foi enviado” ao mundo da história, da geografia e do pecado, o qual, no entanto, é o mundo de Deus, o mundo das Escrituras.
Devbemos identificar-nos com este mundo, sim, mas sem perder nossa identidade cristã. O que significa isto em termos práticos? Significa conhecer, conviver, compartilhar e comprometer-se com o mundo.

Conhecer: este mundo deve ser conhecido, devido à natureza de nosso trabalho. O conhecimento da situação que nos rodeia é a base para uma missão séria da igreja. Conhecer as pessoas com o respeito que merecem aqueles a quem iremos servir. Temos de fazer o melhor por eles, como pessoas no mundo. O amor é a direção única que leva ao conhecimento. Amor a Deus e amor ao próximo.

Conviver: temos de aprender a conviver com nós mesmos e com as pessoas a quem Deus nos enviou, pessoas com as quais Ele se preocupa.

Compartilhar: tudo que o Senhor nos tem dado. Isto é, compartilhar o evangelho em sua dimensão integral e lutar pelos valores deste evangelho: justiça, paz, preocupação pelas necessidades humanas.

Comprometernos: Cristo estava comprometido com a vontade do Pai, pelo que também se comprometia com os seus. Não se trata de servirmo-nos a nós mesmos, mas de comprometermo-nos com os demais: “Este mundo espera a revelação dos filhos de Deus”.
Como podemos ser melhores servos na igreja? O poder corrompe e a igreja não está livre dessa corrupção.

A vida de Jesus foi uma vida itinerante, uma vida peregrina; uma vida, como diria João A. Mackay, do caminho. “Jesus percorria os povos e aldeias”.

A igreja, assim como o Senhor Jesus, deve ser uma igreja do caminho e não do balcão. Ela não pode permanecer como espectadora da história: tem de descer para onde se travam as lutas reais dos homens. Ali se encontram as necessidades, que são o chamado premente da Igreja para que possa cumprir sua missão. A passagem também nos fala do conteúdo da missão. Diz que o Senhor ensinava, pregava e servia. Talvez seja isso que a igreja tem esquecido. De testemunha ocular dos acontecimentos humanos, ela tem de passar a identificar-se e solidarizar com as necessidades reais das pessoas. Deve participar como portadora de Cristo e de sua graça, oferecendo os recursos que seu Senhor lhe confiou para a transformação, não somente da situação, mas também da natureza dos participantes.

Essa imersão nas necessidades humanas deve levar ao nítido reconhecimento de que a necessidade fundamental do homem é de natureza espiritual. A ruptura entre Deus e os homens deve-se à lamentável realidade do pecado humano. O pecado é o agente de toda desarmonia, seja com Deus e o próximo, seja consigo mesmo e com a criação. O pecado é essencialmente pessoal; suas conseqüências sociais, porém, são trágicas e imediatas.
Jesus veio para salvar os pecadores. Cabe à Igreja dazer chegar essa salvação, hoje, aos pecadores. Jesus, em sua tarefa, envolveu-se com os pecadores, não com seu pecado. A Igreja, em sua história, muitas vezes participou dos pecados dos pecadores (orgulho, egoísmo, cobiça), afastando-se, porém, dos pecadores. Não poucas vezes, em seu distanciamento, ao invés de fazer chegar a eles a salvação e a redenção, ofereceu-lhes somente crítica e juízo.

Quando as igrejas esquecem algumas dessas dimensões do conteúdo de sua missão, entram em discussões estéreis que polarizam as posições e, diria eu, caem na infidelidade, pois infidelidade quer dizer não obedecer ao que Cristo manda e ensina. Não somente pelo preceito, mas pelo exemplo. Jesus ensinou, anunciou o evangelho e serviu. Cada uma dessas dimensões tem lugar dentro da missão da Igreja, sem mescla nem combinação. E se a Igreja quiser ser fiel, tem de cumprir estas dimensões em sua tarefa missionária.
O texto fala também da motivação da missão:”Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, por que estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não tem pastor.” A motivação, a causa que moveu Jesus, a força interna que o impulsionou, foi a compaixão: do latim “com-paixão”, padecer junto a; do grego “sun-patiens”, sofrer com. Quando nos é dito que o Senhor sentiu compaixão, isto significa que ele se identificou com essa gente, solidarizou com suas necessidades, colocou-se em sua pele. A Igreja também tem de fazer o mesmo.

Não pode fazê-lo, no entanto, sem a presença e o poder do Espírito santo, que dominava a vida de Jesus Cristo, mas que nem sempre domina a vida da Igreja.
Aqui fica muito evidente para onde o Senhor direcionava sua compaixão: “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas”. A Cristo importavam e importam as pessoas. Mesmo que para a Igreja hoje importem mais os números e as estatísticas, os edifícios, os auto-falantes e as luzes de efeito, para Cristo o importante eram as pessoas. Hoje, uma igreja que queira ser fiel a Cristo tem de enxergar além das estatísticas, isto é, ver as pessoas e as suas necessidades. Deverá enxergar além das estruturas que possui ou das facilidades materiais que desfruta e ver as mentes, os corações e a fome espiritual, emocional e física das pessoas.
Tudo que Cristo fez, ele o fez pelo homem-em-comunidade e pelo homem de carne e osso. Não por uma idéia do homem, não por uma alma desencarnada, mas pelo homem vital e vivente, cheio de necessidades, angústias e problemas, cheio de aspirações e esperanças. A este homem é que Cristo se dirigiu, atendendo a suas necessidades.

A passagem, porém, fala não somente da perspectiva, do conteúdo e da motivação para a missão, mas também do impulso missionário. Esse é um impulso comprometido: “E então se dirigiu a seus discípulos: A seara na verdade é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para sua seara.” Não entrarei na exegese do texto. O certo é que o dono da colheita é Deus, que ele tem um povo e que seus discípulos, a Igreja, devem reunir este povo, para que façam “conhecidas, entre os povos, as obras do Senhor”.

Esta é uma oração que compromete: “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para sua seara”. Observem como surge a resposta: “Tendo chamado os seus doze discípulos, deu-lhes Jesus autoridade sobre espíritos imundos para os expelir, e para curar toda sorte de doenças e enfermidades”. Afirmo que, para a igreja, o maior perigo é orar, pois o Senhor responde a oração e nós fazemos parte da resposta. Se ele mandou que eles orassem, deviam estar dispostos a fazer parte da resposta dessa oração. A igreja que olha o mundo, que entende o chamado do Senhor e que escuta a Cristo, essa é a igreja que é chamada e convocada para ser a resposta de sua própria oração, assim como aconteceu com os discípulos.

Nós poderíamos dar aqui por encerrado o assunto. Afinal, a passagem já foi exposta. Mas é preciso continuar observando como se abre a flor, que é esta passagem, para que se lancem novas luzes e novos elementos sobre a missão.

A primeira coisa que convém ressaltar é que nos encontramos, nestes últimos quinze anos, na era da missiologia. É difícil enumerar quantas conferências missionárias já houve, quantos institutos missionários se abriram, quantos departamentos de missiologia estão em pleno funcionamento nos seminários de todas as denominações e confissões cristãs, inclusive católicos. O certo é que, segundo parece, a missiologia não é coisa nova. A igreja a praticou desde seu próprio início, e o povo de Deus esteve em missão desde que ele o convocou.

Como, porém, o pensamento se desenvolve e a doutrina não permanece estática, surgem novas ciências teológicas. Não lhes falo como teólogo, mas como pastor. Têm-se realizado muitas conferências sobre a missão da Igreja, e frases têm sido cunhadas em diferentes ocasiões. Ouve-se dizer por aí: “A época das missões passou; estamos no tempo da missão”. Quer dizer, já não devemos esperar que as organizações missionárias nos enviem, a nós povos subdesenvolvidos, somente missionários. As missões tradicionais passaram. A missão diz respeito à igreja toda, seja do primeiro, do segundo ou do terceiro mundo. Onde quer que se encontre a igreja de Cristo, deve se desenvolver uma igreja missionária. O teólogo Brunner disse certa vez: “A igreja existe para a missão, como o fogo existe para queimar”. Se a igreja não está cumprindo sua missão, então ela não é igreja. Ou a igreja é essencialmente missionária ou não é igreja.

O que eu tenho ouvido de melhor sobre a Teologia da Libertação é isto: “As teologias da libertação não são teologias, mas missiologias”. Afirmou-o o pastor Emílio Castro. E creio que tem razão, pois ele mesmo se encarrega de dizer (que testifiquem disso quem têm lido os livros do teólogo católico Gustavo Gutierrez e de outros) que na realidade a teologia da libertação não está preocupada em responder às grandes perguntas da teologia: Quem é Deus? Quem é o homem? Qual a situação do homem? O que fez Cristo pelo homem? Não. Sua preocupação é como ser pertinente para as necessidades do povo latino-americano, que é pobre e está oprimido, e ter para este uma palavra significativa em sua situação. Isso não é teologia, é antes, a busca de um caminho para a missão.

Falar das bases bíblicas da missão é apresentar – a partir da flor que já foi um pouco aberta – algumas reflexões preliminares, que sem dúvida todos vocês se encarregarão de fazer germinar, como sementes aqui plantadas. Ao sairmos daqui, com certeza, haverá uma rica colheita, não somente de idéias, mas de ações, pois aqui estamos fazendo nossa teologia da missão. Dizia o apóstolo de Cuba, José Marti: “Ainda que nosso vinho seja azedo, é nosso vinho”. Eu creio que estamos aqui para fazer nossa teologia da missão como peruanos. E, ainda que para alguns nossa teologia seja azeda, é nossa teologia. Nós a estamos fazendo juntos, como uma igreja que tem responsabilidade aqui e agora, isto é, em nossa pátria e neste particular momento histórico.

Permito-me certa abrangência. Parece-me que não podemos separar em compartimentos estanques a missão urbana da missão rural no Peru. A primeira razão: o novo contexto do âmbito secular. O doutor Matos tem um livro que se intitula Extravasamento Popular e Crise do Estado. Ali há duas referências muito interessantes à missão desenvolvida pelas igrejas pentecostais em uma Lima que não é limenha, mas andina, pois as pessoas que vivem em Lima, em sua maioria, não são gente da cidade, mas do campo. E se muitas vezes não conseguimos comunicar adequadamente o evangelho a certas áreas dos bairros populosos de Lima, é por que ali não se fala castelhano, mas simplesmente quéchua. E alguns que, como eu, não entendem nossa língua nativa, não vão poder cumprir acertadamente sua missão.

A segunda razão provém das agências missionárias que há em nosso país. O privilégio do sofrimento missionário nós o temos deixado para os missionários que são enviados da Europa ou dos Estados Unidos. O que fazer com os Andes e a selva? Isso fica para os gringos. Nós, os peruanos, somos citadinos. Tudo bem daqui a Ica ou a Trujillo… Mas meter-se na selva, não! Nisso, as damas, para grande honra delas, continuam nos dando lições do que é a iniciativa missionária.

Uma terceira razão é que as cidades devem pagar uma dívida que possuem para com as regiões esquecidas e marginalizadas de nosso país. A dívida de ter recebido mais educação, de poder desfrutar de comodidades de que outros não dispõe. Assim como se há de pagar esta dívida, devemos pagar bem a dívida do evangelho para com eles. Creio que a igreja do Peru, tomando consciência deste binômio indissolúvel – campo-cidade – poderá cumprir de forma mais adequada a missão que está à sua frente.

Para apresentar estas reflexões preliminares (e abrir um pouco mais a flor de que venho falando), vou tentar desenvolver duas aproximações, ambas bíblicas, mas que chegam, por assim dizer, por caminhos diferentes. Não que uma seja mais bíblica que a outra; antes, são duas entradas de acesso à Bíblia.

A primeira aproximação será a da teologia bíblica, que, partindo do Gênesis, trata de acompanhar o relato da história da redenção até sua culminação. Vê a Deus atuando desde o gênesis até ao Apocalipse. Sua ênfase, sem dúvida, está no “Deus missionário” que aparece na Bíblia.

Segundo a teologia bíblica, travamos conhecimento com o Deus missionário assim que abrimos as Escrituras. O Deus da Bíblia, ´Pai da glória, o Senhor Jeová, é um Deus missionário. É um “ser centrífugo”, na expressão de J. Davies. É um Deus que vai ao encontro do homem em comunidade. É o Deus da pergunta a Adão: “Onde estás?” É o Deus que faz um pacto com Noé. É o Deus que chama a Abraão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei. De ti farei uma grande nação.” É o Deus de Moisés que, a partir da sarça, o chama pelo seu nome, para confiar-lhe uma missão. O Deus da história da redenção é o Deus da Aliança, em cujo propósito se inclui o chamado de um povo para que seja “seu tesouro especial”. E para que, através deste, sejam abençoadas todas as nações da terra.

O pacto de Deus com Abraão é o pacto de seu chamamento, a fim de que este o conheça como Deus, e seja ele, e o povo que o Senhor há de formar deste homem de fé, um povo que dê testemunho de Deus. A missão é o empreendimento divino na Bíblia, e é iniciativa do Deus trino. Provavelmente não há nenhum texto que explique isso melhor que Gálatas 4.4-6: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, por que vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”. Deus Pai, Deus Filho e Deus, o Espírito Santo.
O Deus que busca um homem caído no pecado, um homem hostil à sua vontade, é o Deus que convocou um povo para ser sua testemunha. O povo desobedeceu, falhou e fracassou. Porém, Deus permitiu que se levantasse um remanescente fiel (que, entretanto, só por pouco tempo continua sendo remanescente fiel, pois também falha e não reconhece o Salvador). Deus, historicamente, enviou a seu Filho. Deus se fez homem. Deus entrou na história por que é um “Deus missionário”, que se aproximou, rompendo todas as distâncias quantitativas, para, a partir da própria história, salvar o homem.

Ele enviou seu Filho, que foi à cruz pelos pecados de seu povo. A redenção realizada na cruz torna-se eficaz pela obra do Espírito Santo, surgindo assim esta noca comunidade de filhos de Deus, que diz: “Pai nosso que está nos céus…”. essa é a descoberta do Deus da Bíblia: um Deus que é Pai e um homem que deve aproximar-se dele e dizer-lhe: “Pai, pequei… já não sou digno de ser chamado teu filho”. E o unigênito Filho de Deus nos recebe, fazendo-nos entrar novamente em comunhão com seu Pai.

A tônica bíblica é que esse homem que se relaciona com Deus é um homem em comunidade. Isso nos leva a uma consideração importante: qual é a finalidade principal da missão de Deus? A partir do ponto de vista do Deus missionário, é a auto-revelação de sua glória, pois Deus se aproxima do homem em toda sua necessidade, para fazer-lhe ver que sua glória, o peso do que ele é em sua santidade, revela-se radiante na cruz, onde se manifesta um coração cheio de amor, que ama o homem tal qual ele é. Tudo o que Cristo fez, sendo enviado por Deus, ele o fez para cumprir a vontade de Deus, para servir à glória de Deus. Tudo o que o Espírito faz para que o homem possa entender quem é Deus, em face de Jesus Cristo, é para das a glória a Deus. E o que o povo de Deus tem de fazer para ser-lhe fiel, ele o faz em obediência ao Pai, glorificando assim a Deus.

Isso nos leva a uma segunda consideração nesta teologia bíblica do “Deus missionário”. Deus, o Pai, é um “Deus missionário”, porém, Deus, o Filho, é também um “Deus missionário”. A mais importante confissão da igreja cristã é que Jesus Cristo é o Senhor. É a afirmação da vinda do reino de Deus. Jesus, sua vida, sua mensagem e a formação da comunidade de seus discípulos eram a afirmação de que o reino de Deus havia chegado. Jesus começa seu ministério pregando o evangelho do reino de Deus, dizendo: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo, arrependei-vos e crede no evangelho”.
Jesus Cristo foi o único que cumpriu integralmente a vontade de Deus. Nesse sentido, houve aproximação do reino dos céus, por que o reino dos céus é um estado de boas relações entre Deus e o homem, e entre os homens mutuamente. Talvez existam outras definições mais teológicas, mas certamente se há de estabelecer que onde quer que se faça a vontade de Deus, é aí que Deus reina. Isso é suficiente para se entender por que o reino de Deus veio com a chegada de nosso senhor Jesus Cristo.

Nessa vinda do reino de Deus na pessoa de Cristo, temos uma inversão da história. Em que sentido? O primeiro homem, Adão, criado à imagem de Deus, fracassa; e com ele toda a raça humana fica afastada de Deus. Com o segundo Adão, Jesus Cristo, entra a justificação, e por ela, uma nova relação do homem com Deus.

Houve um remanescente fiel que fracassou, por que “veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome.” Cristo escolhe os doze, e estes, com todos os seus erros, com todas as suas fraquezas, são o primeiro degrau para a formação da igreja. Jesus Cristo forma sua igreja, a constrói. Houve um povo escolhido, que apostatou por não ser obediente ao Senhor. Agora há um novo povo que espera a vitória final, uma vez que saiba ser fiel a esse Senhor. Sim. A história sofreu uma inversão.
Diz-nos um hino, com muita base bíblica: “Da igreja o fundamento é Cristo, o Salvador”. Essa igreja, que tem futuro, é o podo de Deus. O povo do destino, que está fundado sobre sua fé no Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus. O senhor Jesus Cristo, desde sua vinda a este mundo até sua glorificação nos céus, passando pelos eventos do Gólgota e do sepulcro vazio, está em contenda com os senhores deste mundo. Esta contenda sempre se manteve e se manterá até o fim dos tempos, entre aquele que é o Senhor (por direito próprio, por ser ele quem é, por haver feito o que fez e pelo poder que lhe foi entregue por seu Pai) e os senhores (desde César até as ideologias dos diferentes movimentos) que desafiam ao Senhor e a sua autoridade.

O que significa para a igreja afirmar que Jesus Cristo é o Senhor? Significa voltar ao texto fundamental do grande mandato redentor: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações”. Uma leitura cuidadosa nos permitirá ver que o senhorio de Jesus Cristo se estende sobre o céu e a terra. “Toda a autoridade”, disse o Senhor, “me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações.” Que significa o senhorio de Cristo? Significa por acaso que ele tem autoridade somente sobre o que nós normalmente chamamos “o âmbito espiritual”, sobre as almas das pessoas? Ou o texto é uma afirmação de que o senhorio de Cristo é um senhorio sobre todas as forças espirituais que possam existir, que são criação de Deus, e sobre as realidades terrestres e históricas que este mundo possa conhecer?

“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”. Entender esta declaração é poder entrar um pouco mais no pensamento Paulino sobre os principados e potestades que Jesus Cristo destronou na cruz. É também ser cuidadoso com nossa linguagem, quando dizemos que Cristo triunfou na cruz e que este mundo, no entanto, continua sendo do diabo. A luz do senhorio de Jesus, a expressão anterior beira a heresia. Por que, se Cristo é o Senhor, ele o é sobre toda realidade espiritual e terrenal, histórica e humana. Não há outro senhor como Jesus Cristo. Afirmar que Jesus Cristo é Senhor sobre todas as coisas é dizer que seu poder é a única base de sustentação segura para que se creia que a missão da igreja tem futuro, por que ele disse: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto (por que eu sou Senhor) ide e fazei discípulos.” A igreja peregrina sabe que sua tarefa de disciplinar pessoas do mundo tem futuro garantido, por que Jesus Cristo é o Senhor.

No ano passado, visitando a sede da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, sofri um tremendo impacto ao compreender, de maneira clara e detalhada, o que significa este senhorio de que estamos falando. Trata-se de um edifício grande e limpo, atravessado por um corredor bastante comprido. Avança ao longo dele quando avistei uma cruz – uma peça de fino lavor trabalhada em madeira. Comecei a observá-la atentamente, atraído pela figura esculpida em um de seus braços – um alfaiate munido de agulha, dando pontos num pedaço de pano. Logo adiante aparecia uma enfermeira usando um termômetro, um juiz no exercício da função, um mineiro escavando a entrada de uma galeria, um pescador apanhando peixes. A cruz se cobria, assim, de alto a baixo, com símbolos e representações de quase toda atividade humana socialmente consagrada. E a tudo isso, por fim, vinha somar-se, gravada num dos cantos do madeiro, a palavra iluminada de Paulo aos Coríntios: “Tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o para a glória do Deus.”

Este é o discipulado baseado na compreensão de que Cristo é o Senhor: que nenhum setor da vida humana seja separado de seu senhorio. Essa é a missão que pode fazer da igreja uma igreja conquistadora, que não fuja das potestades deste mundo, mas que glorifique a Jesus Cristo em cada diferente aspecto da vida humana. Somente assim ela terá sentido nos propósitos de salvação de Deus. Jesus Cristo exerce seu senhorio, com disse João Calvino, “com o cetro de sua Palavra” e com o poder de seu Espírito. É ali que se estabelece o senhorio de Cristo. Ali onde se proclama, se ensina e se vive o Cristo que reina por sua Palavra, a Bíblia (que é vida, saúde, orientação e poder), por ação do Espírito Santo, a Igreja cumpre seu ministério integral.

É disso que a igreja necessita para que haja realmente um avivamento espiritual. Onde quer que se receba e obedeça à Palavra, onde quer que o Espírito quie e sustente a vida dessa comunidade que é a Igreja, aí mesmo é que começamos a viver os primeiros frutos do reino de Deus. Por que aí o homem Jesus Cristo é o Senhor.
Não obstante tudo isso, o senhorio de Jesus Cristo tem diante de si o desafio de sua igreja e dos cristãos. Quando a igreja, em vez de meditar na Palavra, de refletir sobre ela, ensina-la e exigir que seja obedecida, buscando assim presença e o poder do Espírito Santo, se mete com os programas de realização humana, se enreda nas especulações (na maioria das vezes estéreis) de tantos estadistas religiosos e teólogos que vivem afastados da realidade vital do mundo, acaba perdendo o caminho e o desafio do Senhor.

Quando a igreja exige que as mulheres não usem brincos ou qualquer coisa que seja adorno feminino, “por que é mau”, mas dá ouvidos à mentira, à fraude, à corrupção, ali não reina Jesus Cristo. Ali está o espírito contrário a Cristo. Quando nós, cristãos, dizemos que há uma moral para a igreja e outra para o trabalho, ou que não se pode pretender, como cristão, viver o cristianismo e as demandas éticas do Evangelho numa sociedade como a nossa, “por que aí há fraude” (e então é preciso mentir), “por que aí há suborno” (e é preciso praticá-lo), “por que, para conseguir algo, tenho que, de alguma maneira, fazer vista grossa…” Quando o cristão se empenha em desafiar a Cristo, é inevitável que receba seu troco.

O chamado é sério, pois Cristo nos convoca, não somente a dizer-lhe “Senhor, Senhor”, mas a obedecer-lhe; por que “nem todo o que me diz Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.”
Irmãos, creio que há uma exigência muito forte da parte do Senhor para que, se ele é de fato o que dizemos, então, em nossa vida pessoal, familiar, eclesiástica e de trabalho diário, seja ele quem dirija e controle nossos pensamentos, atitudes e ações. Caso contrário, como Jesus Cristo nos ensinou, estaremos desafiando seu senhorio.

Nessa visão da teologia bíblica, é Deus, o Pai (o criador e formador de seu povo), Cristo (Senhor do universo, da história e da igreja) e o Espírito Santo (que habita constantemente com seu povo), o Deus uno e trino, quem envia sua igreja ao mundo.
Cristo, assim nos diz o evangelho, e as epístolas o repetem, batizou os seus em seu Espírito. O que Cristo criou foi um povo novo, o novo Israel de Deus. Um povo que cresce. Por que o reino de Deus está crescendo e deve crescer em todas as direções de que nos fala Efésios. E, ainda que a igreja não seja o reino, nela se iniciam os frutos do reino.

Este é um povo sem fronteiras. Um povo que sai de Jerusalém, que chega a samaria e que tem seu grande dia missionário em Antioquia. Gostaria de fazer aqui uma breve menção a isto, por que é interessante que, a partir de Antioquia, se começa a olhar a missão aos não judeus. Entretanto, o mais importante de tudo é que, a partir de Antioquia, aqueles que realizam a missão são conhecidos somente por Deus e jamais irão se tornar personagens de alguma história eclesiástica. Eu diria, quando há tantas revistas evangélicas, tanta literatura evangélica, tantas pessoas empenhadas em tornar seus nomes conhecidos, para ver a grandeza da obra missionária que estão realizando, os que realmente dão o impulso missionário à igreja permanecerão anônimos e seus nomes serão conhecidos pelo Senhor da igreja.

O capítulo 16 de Atos é majestoso. Quem se converte? Vocês recordam? Uma vendedora de púrpura, mulher rica, asiática, aparentemente de classe social superior; uma moça prostituída, marginalizada, endiabrada, louca; e um burocrata do império romano. Todos juntos, na primeira igreja européia de Filipos, adorando a Deus. Esta é uma igreja que rompe fronteiras, um povo que desfaz todos os obstáculos que os homens possam estabelecer. É um povo da esperança. Por que em Antioquia, cidade corrupta, e em Corinto, não menos corrupta, em situações de grandes obstáculos e hostilidades, a igreja soube avançar, sabendo quem era seu Deus, seu Salvador e quem habitava nessa igreja. A igreja que vemos, é uma igreja sem fronteiras, sem fronteiras étnicas, de classes sociais, sem barreiras econômicas entre seus membros.

Bem, como lhes disse, vocês saberão desfolhar as pétalas que faltam. Essa foi a primeira aproximação. Vejamos agora a segunda aproximação: a aproximação da teologia pastoral, que aos pastores e líderes das igrejas provavelmente interessa mais. Tentarei explicar isso mais rapidamente. Agora, falando de pastor para pastores: tudo isso que acabamos de ver, como é que se leva à prática em nossa congregação local? O que significa crer que há um Deus missionário, um Deus Filho que é missionário e um Espírito Santo que impulsiona a missão? Que significa isso para cada um de nós, como pastores em nossas congregações locais?

No capítulo 43 de Isaías, o profeta fala da parte de Deus, dizendo que o povo de Israel foi escolhido e chamado por Deus para ser um povo testemunha. Em Atos 1.8, o Cristo ressuscitado diz a seus discípulos: “E sereis minhas testemunhas…”. sem dúvidas, há uma relação histórica e orgânica entre os dois povos-testemunhas. Entre o Israel de Deus e o novo-Israel de Deus. Por que? Primeiro, por que Jesus foi judeu. Segundo, seus peimeiros discípulos foram judeus. O que ele promete agora é que seu Espírito vai permanentemente com eles e que vão ser um povo testemunha. Entretanto, por que isso é importante? Por que isso nos faz precisar melhor que, para termos uma compreensão cabal da missão da igreja, temos de ler a passagem de Mateus 9 com a luz que nos dá toda a Bíblia. É ali que começam para nós, evangélicos, muitas dificuldades.

Vou explicar-me melhor. Se eu ler Mateus 9 isoladamente, chegarei à conclusão de que a missão da igreja se resume apenas e unicamente em ensinar o evangelho, pregar o evangelho e servir em nome de Cristo. Mas isso seria um equívoco. Por uma simples razão: Deus nos deu a Bíblia toda. Quando lemos a Bíblia toda, vemos que o povo de Deus, no AT foi libertado do Egito. E para quê? Para adorar a Deus. E se o povo de Deus não adorar a Deus, não haverá mais ninguém para adorá-lo.

Vou mais além. O livro de Êxodo nos explica, não comente a libertação que Deus concede a seu povo, mas quem é esse Deus libertador do povo. O Deus que liberta esse povo é o Deus do pacto. Por ali começa a conversação com Moisés. O Deus que liberta esse povo é um Deus ético. Para que Deus o liberta? Para dar ao povo os 10 mandamentos, que passarão a ser sua regra de conduta. No centro da personalidade de Deus está sua santidade. Para que Deus liberta a esse povo, histórica e espiritualmente? Para que ele se submeta à autoridade de Deus e tenha a capacidade de adorá-lo.

O livro de Êxodo termina no tabernáculo, o lugar de adoração. Então, se o povo de Deus não o adora, não está cumprindo o propósito para o qual Deus criou o homem, salvou o seu povo e está criando uma nova humanidade. A adoração é parte da missão da igreja. Se a igreja não adora a Deus, está fracassando na sua missão. Assim como somos tão cuidadosos em preparar uma campanha de evangelização, devemos ser igualmente cuidadosos em preparar o culto de família. Essa é a parte prática. Não se pode simplesmente improvisar, pois é também uma prática da adoração. Deus é Deus, e nós, suas criaturas, temos de nos aproximar dele com humildade e reverência.

ARANA, Pedro “Bases Bíblicas da Missão Integral da Igreja”. In: STEUERNAGEL, Valdir (Ed), A Serviço do Reino, Um Compêndio Sobre a Missão Integral da Igreja, Editora Missão Mundial, Belo Horizonte, 1992, 312 páginas.

 

[1] Fonte: http://www.faculdadelatinoamericana.com.br/teologia_integral/bases.html

 

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