julho 2014


Hernán Zin*

James Miller era um dos melhores realizadores de documentrários de sua geração. Rodou reportagens em regiões de conflito como Kosovo, Chechênia, Coréia, Argélia, Serra Leoa, Sudão e Afeganistão. Algumas de suas imagens, como as que mostram talibãs matando uma mulher a pedradas num estádio de futebol, deram voltas ao mundo. Seu trabalho o fez ganhar os prêmios mais importantes do jornalismo audiovisual.

Em 2 de maio de 2003 estava ao sul da Faixa de Gaza filmando um documentário sobre a situação das crianças que ali vivem, no meio do conflito, quando recebeu um disparo na nuca feito por um franco-atirador do exército israelense. Era de noite. Miller levava nas mãos uma bandeira branca para evitar ser confundido com um miliciano, e uma lanterna com que iluminava o rosto. Sua companheira, Saira Shah, gritava: “Somos jornalistas britânicos!” Mesmo assim, o soldado israelense numa torre de controle assim mesmo disparou.

O documentário pelo qual James Miller perdeu a vida chama-se “Morte em Gaza” (“Death in Gaza”) e mostra o momento em que foi assassinado. Tinha 35 anos e era pai de dois filhos. Produzido pela HBO, está chocando a opinião pública mundial, que a cada dia que passa percebe ser progressivamente mais difícil engolir o domínio israelense sobre a população palestina de Gaza.

James Henry Dominic Miller nasceu em 18 de dezembro de 1968 no seio de uma família galesa que contava já com inúmeras gerações de militares. Dizia que não foi soldado porque a disciplina não era o seu forte. Porém, seus colegas de profissão afirmam que ele sempre fora disciplinado e meticuloso na hora de trabalhar.

James era casado com Sophie Miller, hoje a principal porta-voz da luta de familiares e amigos do jornalista para que se faça justiça. Tinha dois filhos pequenos, Alexander e Charlotte. Os três continuam a viver na casa da família, ao sul da Inglaterra.

James Miller, que trabalhou sempre como câmera e diretor free lance, se uniu ao grupo Frontline News en 1995 para realizar documentários em conflitos armados.

Desde o princípio, Miller se mostrou um homem de grande talento, decidido, que não hesitava na hora de estar no cerne de um conflito. Seus companheiros o descrevem como um jornalista prudente, que não corria riscos desnecessários.

Quatro anos mais tarde ele se uniu à produtora Hardcash, onde contaria com o apoio de uma equipe que tiraria dele o melhor como narrador. Cada um de seus documentários que rodou nesse período ganhou importantes prêmios.

A investigação de seu assassinato

Primeiro, o Exército israelense afirmou que James Miller morrera em conseqüência de fogo cruzado. Porém, as imagens de seu documentário mostram que, naquele momento, quando o franco-atirador israelense ? tenente Haib ? deu um tiro certeiro em sua nuca a 200 metros de distância, não havia nenhum tiroteio. Os depoimentos de testemunhas sustentam essa afirmação.

Em 2 de maio de 2005, três anos depois da morte de Miller, o Exército israelense deu por encerradas as investigações, argumentando que não havia provas conclusivas. Porém, segundo pesquisas do perito independente e especialista em armas Chris Cobb-Smith, seria impossível que um disparo tão preciso tivesse sido conseqüência de um erro.

O tenente Haib, membro do Batalhão Beduíno de Reconhecimento, não somente não foi condenado como sequer recebeu uma admoestação ou castigo algum dentro do exército. Assim havia sido solicitado por um dos fiscais gerais de Israel, mas o brigadeiro Guy Tzur se negou publicamente a castigar um de seus homens.

“Seguiremos lutando contra a cultura da impunidade”, afirmou em uma de suas últimas declarações públicas Sophie Miller. “Esperamos que a condenação da pessoa responsável faça com que os soldados israelenses pensem duas vezes antes de disparar contra civis inocentes”.

 

O que tem de novo no Oriente Próximo para que Israel e a Palestina retomem as negociações suspendidas há três anos? Por quais razões os dois protagonistas aceitam sentar ao redor de uma mesa de diálogo? Um objetivo importante é o de redourar a imagem do presidente Obama, visto como alguém quem tem feito pouco pela paz no Oriente Médio e que ficou submisso aos interesses de Israel.

Outra razão é que para dar resultados, as negociações devem ser justas. No caso do Oriente Médio, as condições do diálogo são totalmente desiguais. Israel se beneficia do apoio sem limites dos EUA e dos países europeus nos campos militar, político, diplomático e econômico. Falta um mínimo de igualdade para que as negociações sejam viáveis e deem frutos. 

 

Há vários temas centrais, sobre os quais o diálogo está bloqueado há três anos. Entre outros, destacam-se: 1) os assentamentos em Jerusalém-Leste e na Cisjordânia ocupada; 2) o Estatuto de Jerusalém; 3) o recuo do território israelense para as fronteiras anteriores à guerra dos seis dias (1967); 4) o reconhecimento da Palestina como Estado constituído politicamente, com representação completa na ONU, e não apenas como observador não-membro; 5) os refugiados palestinos da guerra de 1948; 6) a segurança de Israel; 7) os recursos hídricos. 

 

Sobre os assentamentos na Cisjordânia ocupada desde a guerra dos seis dias (1967) e na parte oriental de Jerusalém lembre-se que, atualmente, 59% da Cisjordânia estão oficialmente sob o controle civil e de segurança israelenses. Leis recentes aprovadas antes do começo das negociações autorizam a construção de mais 2.129 casas em 60 colônias. Mesmo que instâncias internacionais declarem que a ocupação dos territórios é ilegal, o governo israelense não tem nenhuma intenção de renunciar à sua política expansionista: “as construções decididas em Jerusalém e nas colônias estão situadas em territórios que permanecerão israelenses”, disse o porta-voz do primeiro ministro.

 O estatuto de Jerusalém. “Devido a seu valor histórico e religioso, Israel reivindica toda a cidade para si, o que não é reconhecido pela comunidade internacional. A parte oriental de Jerusalém, território palestino ocupado por Israel desde 1967, é reivindicada pelos palestinos para ali estabelecer sua capital”. 

 A 29 de novembro de 2012, a Palestina foi eleita como “observador não-membro” da ONU. Depois de muitos anos de luta para ser reconhecida, essa eleição representa uma importante vitória diplomática para a Autoridade Palestina e seu presidente Mahmoud Abbas. Houve 9 votos contra, 41 abstenção e 139 a favor. Desafortunadamente tamanho avanço não foi aceito por Israel como oportunidade de negociar. Naquele dia, Netanyahou, primeiro-ministro israelense, declarou que o discurso de Abbas era “difamador, venenoso, e que a decisão da ONU não mudaria nada no terreno”. 

A gestão da água é outra forte fonte de conflitos. Israel se reserva aproximadamente 80% dos lençóis freáticos no subsolo da Cisjordânia. Os palestinos não podem cavar poços e têm que comprar sua água da companhia israelense de águas. Os palestinos querem uma repartição mais equitativa. 

 Há muitos outros temas a negociar. Os negociadores têm oito meses para fazer propostas concretas e as negociações são secretas.

 

(Da Análise de Conjuntura de Agosto de 2013 – CNBB)

 Frei Bento Domingues, O.P.(**)

 

1.Quando se fala da perseguição aos cristãos no Médio Oriente, não se tem em conta a situação especial na Palestina. O Conselho Ecuménico das Igrejas publicou, agora, um documento elaborado pelos cristãos e teólogos palestinos que, perante o drama do seu povo, perguntam: o que faz a comunidade internacional? Que fazem os chefes políticos na Palestina, em Israel e no mundo árabe? Que faz a Igreja? (1).

Pancarta-portadaNos limites deste espaço, o melhor é dar-lhes a palavra, porque o documento é, também, um convite às Igrejas: “vinde e vede”, conhecer os fatos e descobrir as gentes desta terra, palestinos e israelenses. Condenamos todas as formas de racismo, religioso ou étnico, incluindo o anti-semitismo e a islamofobia. Vamos aos fatos.

O muro da separação, construído em terrenos palestinos, confisca uma parte do nosso território, transforma as cidades e as vilas em prisões, faz cantões separados e dispersos. Gaza, depois da guerra cruel desencadeada por Israel (Dez.2008-Jan.2009), continua a viver em condições desumanas sob embargo permanente e corta-a, geograficamente, do resto dos territórios palestinos.

As colónias israelenses, ao apoderarem-se da nossa terra em nome de Deus ou da força, controlam os nossos recursos naturais, sobretudo a água e as terras agrícolas, privando delas centenas de milhar de palestinos. Esta realidade é um obstáculo a qualquer solução política.

Para nos deslocarmos ao nosso trabalho, às escolas e aos hospitais somos, diariamente, submetidos à humilhação, nos postos de controlo militar.

A separação entre os membros da mesma família, quando um dos cônjuges não é portador de um bilhete de identidade israelense, torna a vida familiar impossível a milhares de palestinos.

A própria liberdade religiosa, a liberdade de acesso aos lugares santos, é limitada a pretexto de segurança. Os lugares santos de Jerusalém são inacessíveis a um grande número de cristãos e muçulmanos da Cisjordânia e de Gaza. Os próprios habitantes de Jerusalém não podem aceder aos seus lugares santos, em certos dias de festa, assim como os nossos padres árabes não podem entrar em Jerusalém sem dificuldade.

Os refugiados fazem parte da nossa realidade. A maior parte deles vive ainda nos campos de refugiados em condições difíceis, inaceitáveis para seres humanos. Esperam o seu retorno há várias gerações. Qual será a sua sorte?

Milhares de pessoas detidas nas prisões israelenses também fazem parte da nossa realidade. Os israelenses removem o céu e a terra por um só dos seus prisioneiros, mas quando verão a liberdade esses milhares de prisioneiros palestinos que permanecem indefinidamente nas prisões israelenses?

2. Jerusalém é o cora
ção da nossa realidade. É, ao mesmo tempo, símbolo de paz e sinal de conflito. Desde que o “muro” criou a separação entre os bairros palestinos da cidade, as autoridades israelenses não param de os esvaziar dos seus habitantes palestinos, cristãos e muçulmanos. É-lhes retirado o bilhete de identidade, isto é, o seu direito a residir em Jerusalém. As suas casas são demolidas ou confiscadas. Jerusalém, cidade da reconciliação, tornou-se a cidade da discriminação e da exclusão e, por isso, fonte de conflito em vez de fonte de paz.

Por outro lado, Israel despreza o direito internacional e as resoluções internacionais, contando com a impotência do mundo árabe e com a da comunidade internacional perante este desprezo. Os direitos humanos são violados, apesar dos múltiplos relatórios das organizações locais e internacionais.

(…) Face a esta realidade, os israelenses pretendem justificar os seus actos como actos de legítima defesa. (…) Do nosso ponto de vista, o contrário é que é verdade. Há uma resistência palestina à ocupação. Se não houvesse ocupação, não havia resistência e não haveria nem medo nem insegurança. Apelamos aos israelenses a acabar com a ocupação. Verão, então,
um novo mundo, no qual não haverá nem medo nem ameaças, mas segurança, justiça e paz.

A resposta palestina a esta realidade revestiu numerosas formas. Uns escolheram a via das negociações: é a posição oficial da Autoridade Palestina, o que, no entanto, não fez avançar o processo de paz. Outros partidos políticos recorreram à resistência armada. Israel serviu-se disso como pretexto para acusar os palestinos de terroristas, o que lhe permitiu alterar a verdadeira natureza do conflito, apresentando-o como uma guerra israelense contra o terrorismo e não como uma resistência palestina legítima à ocupação israelense.

O conflito interno entre palestinos, assim como a separação de Gaza, só agravaram a tragédia. Convém notar que, embora a divisão tenha afectado os próprios palestinos, a responsabilidade depende muito da comunidade internacional, porque ela recusou acolher, positivamente, a vontade do povo palestino como ela se exprimiu nos resultados das eleições, democrática e legalmente conduzidas, em 2006.

3. (…) O Ocidente quis reparar a injustiça que tinha cometido em relação aos judeus nos países da Europa. Fê-lo à nossa custa, na nossa terra. Deste modo, reparou uma injustiça, criando outra. Mais uma vez, proclamamos que a nossa palavra cristã, no meio de qualquer tragédia, é uma palavra de fé, de esperança e de amor, sem recurso à violência.

É essa palavra que é explicitada e justificada no resto do documento que todos os peregrinos à Terra Santa deviam meditar.

(1) La Documentation Catholique, 03. 01.2010, nº24-37, pp. 33-42

 (*) Este texto foi publicado no jornal «Público» em 16 de Janeiro de 2011

(**) Frei Bento Domingues é Vice-Presidente do MPPM