Raphael Freston

A origem por trás dessa última onda de violência na Faixa de Gaza se deve a proposta de um governo palestino unido e seu subsequente colapso. Com efeito, havia muita esperança do povo palestino na formação de um governo nacional unido entre Hamas e Fatah. O bloqueio ilegal de Israel condena a população de Gaza à miséria e à fome e efetivamente a torna a maior prisão do mundo a céu aberto, uma situação insustentável para os palestinos. Procurando escapar desse isolamento, Hamas se aproximou de seu inimigo interno, Fatah, e consentiu às três condições que a comunidade internacional estabelecia para abrir negociações de paz e a formação de um Estado palestino: o reconhecimento de Israel, respeito aos acordos diplomáticos anteriores e renúncia à violência.

Todavia, a divisão e a inimizade entre os dois grupos palestinos tem sido um dos pilares da política de Israel, que teme a possibilidade de uma palestina unida e tem se demonstrado apática a qualquer possibilidade de um Estado palestino com soberania plena. Israel respondeu interrompendo as negociações de paz, aumentando os assentamentos ilegais e intensificando as incursões e assassinatos, incluindo ataques a civis palestinos na região da Cisjordânia ocupada. De fato, em maio, dois adolescentes palestinos foram mortos, na Cisjordânia, pelo exército israelense sem sequer receber um lampejo de atenção internacional. A mensagem era clara: Fatah teria que escolher entre paz com Israel ou paz com Hamas. Antes, no entanto, vale lembrar que Israel dizia que não podia negociar com o Fatah porque este não representava o Hamas, o que levou, então, os dois grupos palestinos a se aproximarem no início.

Com o êxito de Israel em frustrar, utilizando violência e uma lógica implacável, a formação de um governo unido dos palestinos e a crescente situação econômica insustentável, três adolescentes israelenses foram sequestrados e assassinados na Cisjordânia ocupada, em junho. Hamas nega qualquer envolvimento. Israel, em uma narrativa cuidadosamente criada, lançou ataques a faixa de Gaza matando militantes do Hamas, alegando retaliação. Como consequência, o Hamas retomou os ataques de foguetes a Israel. Em suma, a ideia de que Israel está se defendendo de ataques externos sem provocação é um absurdo.

Ademais, apesar da retirada de Israel dos assentamentos em 2005, Gaza continua sendo, na realidade, um território ocupado ao sofrer um bloqueio perverso, onde a escassez de combustível tem levado a frequentes cortes de energia, afetando hospitais, escolas, abastecimento de água e esgoto. Assim, os palestinos em Gaza e na Cisjordânia são um povo que sofrem uma ocupação brutal nas mãos dos israelenses e, portanto, tem o direito de resistir – mas não deliberadamente mirar em civis. Israel, por outro lado, não tem o direito de autodefesa em territórios que ocupa ilegalmente. Ao contrário, ele tem a obrigação de se retirar.

Somente acabando com a ocupação israelense (que perdura há 48 anos), com o bloqueio de Gaza, com os assentamentos ilegais e promovendo a formação de um Estado para os palestinos, poderá uma paz segura e duradoura ser cogitada. No entanto, sem o compromisso de Israel em colaborar com um Estado para os palestinos, restará apenas um único Estado que age de modo semelhante ao que já vimos na segregação étnica do apartheid, como afirmou Nelson Mandela.

Raphael Freston estuda ciências sociais na Universidade de São Paulo e foi membro da diretoria nacional da ABUB.

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