OUVINDO O CORAÇÃO DE CRISTO

Caio César S. Marçal

 

“Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava”. João 13:23

Feche os olhos e imagine que é você o discípulo amado reclinando a cabeça no peito de Jesus. Essa passagem, que é de uma beleza poética fantástica, nos mostra um Deus que acolhe os seus oferecendo o peito. Fica aqui uma grande lição: Somos chamados a ouvir as batidas do coração de Deus no espaço de nossa caminhada espiritual.

Qualquer proposta de espiritualidade que não torna a pessoa sensível ao pulsar apaixonado do Senhor, é fria e incapaz do exercício da encarnação. Sendo assim, sua adoração não levará a amar e se dar como o Messias o fez e a prática religiosa será cínica. A missão uma mera encenação descomprometida com a verdade libertadora do evangelho.

Mas como podemos também ter o privilégio de hoje repousar nossa cabeça no peito de Jesus? Seria possível ter essa experiência maravilhosa em nossos dias?

Encontramos essa resposta na própria boca de Jesus. No capítulo 25 de Mateus, ele se assemelha aos pequeninos, esfomeados, esquecidos e marginalizados. Cristo hoje se manifesta na pessoa do carente e excluído. Sua face está estampada daqueles que estão fora de qualquer processo de dignidade ou valor pela sociedade moderna.

Sim, Jesus hoje vive em nosso meio e tem cara de índio, favelado, sem-teto. Se a dois mil anos atrás ele se fez homem, hoje ele se faz criança obrigada a comer restos de comida do nosso lixo e a se prostituir para sobreviver. Dorme quase despido nas noites frias das praças de nossas cidades. Deus hoje é aquela mulher pedinte que ousamos bater a porta de nossas casas na cara, tratando-a como um estorvo. Cristo é o negro jovem da periferia sem oportunidade ou perspectiva de vida decente e alvo preferencial das batidas policiais por suas características que o torna “matável”. É o sem-terra massacrado pelos latifundiários e perseguido pela grande mídia. O “Eu Sou” é o aidético de pele acinzentada morrendo que tanto tememos tocar, quanto mais recostar o peito!

Infelizmente parece que a miopia espiritual de nossa geração leva alguns a procurar Deus apenas nos limites de ritos e práticas religiosas. O barulho intenso de nossas vidas fez com que esses desaprendessem a ver Deus se movendo em nosso meio. São capazes de dizer que O amam e ao mesmo tempo serem totalmente alheios ao padecimento humano. Afirmam calorosamente sua salvação, mas seu caminho tem mais jeito é de inferno. Aliás, muito mais do que um lugar de fogo e enxofre, sempre é preciso lembrar que o inferno é, antes de tudo, a impossibilidade do amor.

Os “benditos de meu Pai” que herdarão o Reino são aqueles que identificam no próximo a pessoa do Bendito Filho de Deus e a trilham a vereda da justiça. Esses são capazes de deitar a cabeça no peito de quem sofre e ouvir a vida de Deus pulsando.

Que a graça de Jesus nos torne graciosos e que as ricas misericórdias de Deus nos faça mais misericordiosos!

 

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