Oração


“Corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!” Amós 5:24

De acordo com a Transparência Internacional a corrupção é o abuso do poder público para ganhos particulares. Esta definição é aplicada aos setores público e privado. “Todos sabemos que a corrupção é um fenômeno mundial, sendo mais evidente em alguns lugares do que em outros. Embora tenha um custo para toda a sociedade, são os mais pobres os mais penalizados visto que os serviços de atendimento e de infraestrutura não chegam com a eficácia e a eficiência necessárias por conta da má administração e dos desvios dos recursos”, ressalta Serguem Jessui Machado da Silva, representante nacional da Tearfund Brasil.Com o objetivo de dar ouvidos à voz profética de Amós, um grupo de organizações evangélicas composto pela Tearfund, Rede FALE, Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS), Aliança Cristã Evangélica Brasileira, movimento das Igrejas Ecocidadãs, ministério Jeame, Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil (ANNEB) e Evangélicos Pela Justiça (EPJ) organizam em Brasília – DF, entre os dias 26 e 27 de abril, um Encontro sobre Governança & Transparência Pública. O evento contará com a presença de mais de 50 lideranças evangélicas de diversos estados da federação.
Este encontro se insere em uma mobilização global que ocorre anualmente no mês de outubro com o intuito de envolver os evangélicos de todo mundo nos processos de enfrentamento da corrupção em diferentes e variadas iniciativas. A mobilização para o evento começou em novembro de 2011, quando Tearfund, Rede Fale, Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), Aliança Evangélica, RENAS, A Rocha Brasil, Movimento das Igrejas Ecocidadãs, Ação Evangélica (Acev), Cadi, Ecoliber, Jeame, entre outras, se reuniram para debater o fenômeno da corrupção.

“Reconhecemos os esforços e avanços obtidos na luta por mais transparência e controle social por setores da sociedade brasileira e inúmeros órgãos como a Controladoria Geral da União (CGU), o Tribunal de Contas da União (TCU) e setores do legislativo e judiciário. No entanto, faz-se necessária uma mobilização permanente e sistemática da qual a igreja evangélica não pode esquivar-se”, destaca Morgana Boostel, secretária executiva da Rede FALE

O movimento deseja aprofundar a compreensão do tema em suas diferentes perspectivas, seja religioso, econômico, social ou cultural para uma ação mais qualificada com outros setores dos governos e da sociedade no enfrentamento da problemática. Além disso, percebe-se a necessidade de uma mobilização permanente da comunidade evangélica para atuar no combate à corrupção, tanto no seu interior, bem como em outras esferas onde ela se manifesta de forma mais aguda. “Com isso, desejamos criar e manter de forma articulada um grupo de organizações evangélicas que façam contribuições e intervenções no oferecimento de soluções e controle social, especialmente dos recursos públicos destinados à área social”, complementa Morgana.

Local do evento: Casa de Retiros Assunção – Avenida L-2 Norte 611 E – SGAN – 70860-110 BRASÍLIA

Indicação de fontes para entrevistas:
Serguem Silva – serguem.silva@tearfund.org
Representante para o Brasil da ONG cristã Tearfund

Morgana Boostel – morgana@fale.org.br
Secretária Executiva da Rede FALE
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Assessoria de Imprensa – Tearfund Brasil
Erica Neves – emrneves@gmail.com

Por Caio Marçal

Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Isaías 55:1

 

No sermão do monte, o bom Mestre nos diz que aqueles que têm sede de justiça são bem-aventurados. Parece paradoxal, mas quando encontramos a fonte da vida e da existência, sentimos sede. Sede de Justiça!

Ao encontrarmos verdadeiramente com o Senhor, somos contaminados por seus valores e instigados a vivê-los, pois cada vez que envolvemos com Deus, mais nos tornamos parecidos com Ele. Adoração verdadeira desemboca necessariamente em amar mais e promover o Reino e sua Justiça. Aliás, se adoração não tem levado nossas comunidades religiosas a promover defesa de direitos, desconfio que todas as nossas cerimônias são inúteis e reprováveis aos olhos de Deus – "Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei; porque as vossas mãos estão cheias de sangue." Isaías 1:15

Infelizmente, um dos grandes problemas de ativistas cristãos talvez seja como alimentamos nossos anseios por transformação. Como afirma Henri Nouwen "Uma das características mais óbvias das nossas vidas diárias é que estamos atarefados. Na nossa vida os dias são cheios de coisas para fazer, pessoas para encontrar, projetos para terminar, cartas para escrever, telefonemas para completar, e compromissos para guardar". Suamos a camisa vivendo freneticamente nossa militância, que quase não temos tempo para mais nada em nossas agendas. Piora mais ainda quando Deus é esquecido ou quando usamos o Seu nome para instrumentalizar para discursos cheios de chavões sem vida.

Estamos na maior parte de nosso tempo tão engajados em permear a sociedade com valores como justiça e equidade, que esquecemos a Fonte que jorra toda a excelência da Justiça. Quanto mais nos afastamos de Deus, nos enfraquecemos na caminhada e por vezes perdendo o foco e objetivo principal do que fazemos, empobrecendo nosso testemunho. Quantas vezes desanimamos ante as duras lutas e somos tentados a desistir dos sonhos do Reino de Deus?

Espiritualidade engajada começa sempre no quarto fechado e desemboca em testemunho público relevante. Ao falar de Jeremias, Eugene Peterson nos diz "Foram as suas orações, em segredo, porém constantes, que o levaram a desenvolver a integridade humana e a sensibilidade espiritual que tanto almejamos. O que fazemos em segredo determina a integridade do que somos em público. A oração é o ato secreto que desenvolve uma vida que é, ao mesmo tempo, totalmente autêntica e profundamente humana".

Quer alimentar sua sede de mudança? Beba da Fonte da Justiça.

Oração: Senhor, nos perdoa por nosso ativismo estéril, afastando-nos de Ti. Que nossa adoração desemboque em Justiça e retidão. Aceita-nos na tua presença amorosa, fortalece nossos pés, encharca nossos olhos, revigora nosso amor, reacende nossa devoção. Examina nossas motivações, reaviva nossas esperanças no Teu Reino. Suplicamos no nome de Jesus, nosso Libertador. Amém

Caio Marçal é Sec. de Mobilização da Rede FALE e Missionário da Igreja de Cristo de Frecheirinha – www.fale.org.br

Caio César S. Marçal

 

“Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava”. João 13:23

Feche os olhos e imagine que é você o discípulo amado reclinando a cabeça no peito de Jesus. Essa passagem, que é de uma beleza poética fantástica, nos mostra um Deus que acolhe os seus oferecendo o peito. Fica aqui uma grande lição: Somos chamados a ouvir as batidas do coração de Deus no espaço de nossa caminhada espiritual.

Qualquer proposta de espiritualidade que não torna a pessoa sensível ao pulsar apaixonado do Senhor, é fria e incapaz do exercício da encarnação. Sendo assim, sua adoração não levará a amar e se dar como o Messias o fez e a prática religiosa será cínica. A missão uma mera encenação descomprometida com a verdade libertadora do evangelho.

Mas como podemos também ter o privilégio de hoje repousar nossa cabeça no peito de Jesus? Seria possível ter essa experiência maravilhosa em nossos dias?

Encontramos essa resposta na própria boca de Jesus. No capítulo 25 de Mateus, ele se assemelha aos pequeninos, esfomeados, esquecidos e marginalizados. Cristo hoje se manifesta na pessoa do carente e excluído. Sua face está estampada daqueles que estão fora de qualquer processo de dignidade ou valor pela sociedade moderna.

Sim, Jesus hoje vive em nosso meio e tem cara de índio, favelado, sem-teto. Se a dois mil anos atrás ele se fez homem, hoje ele se faz criança obrigada a comer restos de comida do nosso lixo e a se prostituir para sobreviver. Dorme quase despido nas noites frias das praças de nossas cidades. Deus hoje é aquela mulher pedinte que ousamos bater a porta de nossas casas na cara, tratando-a como um estorvo. Cristo é o negro jovem da periferia sem oportunidade ou perspectiva de vida decente e alvo preferencial das batidas policiais por suas características que o torna “matável”. É o sem-terra massacrado pelos latifundiários e perseguido pela grande mídia. O “Eu Sou” é o aidético de pele acinzentada morrendo que tanto tememos tocar, quanto mais recostar o peito!

Infelizmente parece que a miopia espiritual de nossa geração leva alguns a procurar Deus apenas nos limites de ritos e práticas religiosas. O barulho intenso de nossas vidas fez com que esses desaprendessem a ver Deus se movendo em nosso meio. São capazes de dizer que O amam e ao mesmo tempo serem totalmente alheios ao padecimento humano. Afirmam calorosamente sua salvação, mas seu caminho tem mais jeito é de inferno. Aliás, muito mais do que um lugar de fogo e enxofre, sempre é preciso lembrar que o inferno é, antes de tudo, a impossibilidade do amor.

Os “benditos de meu Pai” que herdarão o Reino são aqueles que identificam no próximo a pessoa do Bendito Filho de Deus e a trilham a vereda da justiça. Esses são capazes de deitar a cabeça no peito de quem sofre e ouvir a vida de Deus pulsando.

Que a graça de Jesus nos torne graciosos e que as ricas misericórdias de Deus nos faça mais misericordiosos!

 

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”. ISAÍAS 9:6
Um dia Deus resolveu deixar seu trono, se esvaziou de si mesmo e se fez criança. Sim! Ele tornou-se um bebezinho carente de afeto, cuidado, peito e dedicação. A indefesa criança nascida na periferia do mundo e parida numa manjedoura revela que é nos espaços onde a miséria e a antivida mostram suas garras mais opressoras que o Criador despeja sua graça solidária para com os oprimidos.
Assim é Deus… Na imagem de uma criança, o Pai revela que sua prioridade é colocar no centro do palco de nossas agendas os pequeninos, pois delas é o Seu Reino. É por isso que todo discípulo de Jesus é renascido do ventre do Espírito para que sejam eternos meninos e meninas. Cheios de vida e pureza. Sem máscaras ou desejos de poder e controle. Transparentes, frágeis e dependentes de seu Pai Celeste…
Maria, mãe do Salvador, ofereceu ao seu filhinho todo carinho e dedicação que são próprios não apenas de uma mulher que colocou outro ser no mundo, mas ciente que toda criança é a maior expressão da presença e do amor de Deus no mundo. Ela sabia bem que elas não são miniaturas de adultos, mas seres que nos remetem para a verdade essencial que a vida é sagrada!
Ela o insere na vida não apenas lhe dando um nome, mas a espaços onde ele encontra plena aceitação, como no lar e no templo, por exemplo. Assim Jesus foi “ crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lucas 2: 52). Mas o que nós estamos fazendo para que as nossas crianças cresçam em estatura e graça diante de Deus e das pessoas?
Hoje crianças se tornam alvo do doente do mundo dos adultos, onde dez milhões de crianças alimentam a rede de prostituição e turismo sexual do planeta. São escravas da indústria vil do mercado ávido por lucro fácil, pois somente no Brasil, mais de meio milhão de crianças são exploradas como trabalhadoras. Muitas das que nascem na periferia de nossas cidades, tem seu futuro roubado pela falta de perspectiva de uma vida minimamente decente.  Cerca de 500 mil com até cinco anos morrem anualmente no Brasil, sendo que 30% das mortes são causadas por falta de saneamento.
O Deus que se fez menino nos delega a responsabilidade de ser voz em favor da criança e adolescente em situação de risco. Nós, da Rede FALE, desafiamos a todos para orar de olhos abertos e reconhecer em cada criança que hoje sofre a imagem de Jesus.
Juntemos nossas vozes em oração e ação para que de mãos dadas peçamos a graça de fazer com destemor a vontade de Deus no mundo, e como crianças encantadas, possamos embalar nossos sonhos de um novo mundo onde “morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará”…
Em Cristo, que transformoseia nossa vida de modo que sejamos abundantes de vida, plenos de esperança e sedentos por justiça!
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Texto publicado no Boletim de oração da Rede FALE –  JUNHO 2010

Orar é entrar em diálogo com Deus. É o encontro mais sublime que pode existir, pois não há privilégio maior do que falar com Ele. Estar em sintonia com Aquele em quem tudo foi criado e onde todas as coisas subsistem, é o momento mais precioso de que se pode desfrutar. Nesse instante, tudo se apequena e um êxtase inigualável toma conta ante a grandeza mística de algo que a mente humana não encontra palavras para definir. Aquele que ora, ao ser tomado pela viva presença da manifestação do sagrado, deleita-se na plenitude de um amor que não existe medida capaz de quantificar.

Mas até onde Deus ouve nossas orações e qual seria o empecilho que levaria o próprio Deus a se tornar insensível? É possível que a oração, em vez de ser um encontro com o Senhor, possa ser um monólogo vazio e sem sentido, capaz até de causar a repulsa divina?

No primeiro capítulo do livro de Isaías, o Senhor deixa claro que não suporta qualquer tipo de atividade religiosa que não leve à defesa da justiça. Na equação de Deus, ativismo religioso sem compromisso com a equidade é insuportável. “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembléias … não posso suportar a iniquidade e o ajuntamento solene” (Isaías 1:13).

A surdez de Deus para com aqueles que afirmam ser seu povo é fruto de mãos sujas de sangue da omissão ante a miséria, a exclusão e da falta de cuidado com o pobre. Os donos dessas mãos mal sabem que Deus se esconde ao vê-las levantadas, ‘para adoração’, e que tapa seus ouvidos na hora em que começam a orar. “Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei; porque as vossas mãos estão cheias de sangue” (Isaías 1:15).

Para que possamos ter o direito de ser ouvidos por Deus em nossas súplicas, é necessário que estejamos atentos para o chamado ao arrependimento, que se expressa não em declarações doutrinárias ‘corretas’, mas no compromisso efetivo com a bondade, a solidariedade e contra toda e qualquer opressão. “Lavai-vos, purificai-vos; tirai de diante dos meus olhos a maldade dos vossos atos; cessai de fazer o mal; aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, acabai com a opressão, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva” (Isaías 1: 15– 17).

Mais do que uma vida de oração, Deus espera que nossa vida seja uma oração que expresse sua misericórdia, justiça e compaixão. Se nossa vida devocional não nos leva à sensibilidade com o sofrimento e a dor dos que estão marginalizados, é possível que nossas mãos estejam ensangüentadas e Deus se afaste de nós e de nossa religiosidade hipócrita.

Uma vida de oração se avalia não pelo tempo que se ora e sim pelos frutos que procedem do Espírito Santo. Ao sermos tomados por Deus, descobrimos para onde pulsa o coração do Pai. Que nossa vida seja nossa maior oração. Sejamos nós os portadores da esperança de Redenção que o mundo precisa conhecer.

Em Cristo, que nos ensinou a orar pedindo que o Reino venha!

Caio Marçal

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” (JO 4:23)

Adoração é expressão de quem vive a missão. Só Adora quem faz e compreende a Missão. Só quem vive a missão de ser representante de Deus nesse mundo, quem O louva. Missão é ação de quem adora. Adoração é expressão daquele que entende o chamado de Deus.

Louvar não é cantar. Louvar não é ajoelhar. Louvar não é levantar as mãos. Louvar não pode ser definido por um gesto, louvar não pode ser comparado a um ritual. Posso cantar e não louvar. Posso pular, berrar, gemer, espernear, sapatear, uivar, tocar, ajoelhar, correr, gritar e até chorar e mesmo assim não estar adorando.

Alguns pensam que Deus está preocupado com a pompa ou com o que chamamos de “formas para agradar ao Senhor”. Esquecemos que não por causa de nós mesmos que alcançamos a Deus, mas por causa de sua maravilhosa graça nós temos acesso a Sua Presença. João está certo em dizer que não é por mérito: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”(JO 1:13).

Posso ser do coral ou do grupo de louvor da igreja, cantor evangélico, pastor, e mesmo assim estar longe de louvar a Deus. Podemos levantar as mãos, multiplicar minhas orações e apenas farei Deus esconder os Seus olhos com atos que causam náuseas por conta de minha religiosidade hipócrita, que é incapaz de se solidarizar com os oprimidos ( Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue – Isaías 1:15). Adoração deve nos levar a promover os valores do Reino De Deus, como justiça, paz e amor no mundo, senão nossos encontros e festas religiosas não apenas serão estéreis, mas também causaram nojo ao Senhor.

Louvar não é entrar em transe, repetir palavras mágicas, usar um meio ou fórmula mirabolante. Não é sentir frio na espinha ou buscar uma mera emoção que nos faz “flutuar”. Não é ir a simplesmente a igreja ou qualquer outra geografia delimitada pela religião, pois o templo próprio para a adoração está no infinito que mora em nós, e Deus pode e deve ser adorado onde estivermos.

Não louvo ao Senhor por que quero agradá-lo para depois Ele me dar um carro ou um emprego bacana, como é tão comum se ver hoje em certos grupos ditos cristãos. Não louvo a Deus por que “se eu não louvar eu não vou ter uma mansão no Céu”. Não o louvo por que eu tenho medo que ele me jogue dentro de um caldeirão fervente cheio de demônios que fariam arrepiar o maior de todos os lutadores de boxe. Momentos de louvor não podem ser transformados em comércio barato onde eu faço algo para convencer Deus de ficar do meu lado, achando que Deus é algum “gênio da Lâmpada” que tem que fazer todos os meus caprichos.

Louvar não é comprar cd’s de música gospel e colocar no volume mais alto no som de nossas casas. Louvar não é ir para a apresentação de nenhum “astro gospel”. Aliás, não é nada louvável alimentar essa indústria que usa o nome de Deus para ganhar dinheiro, onde muitos se comportam mais como vendilhões do templo no qual Jesus expulsou com chibatadas.

O que é um verdadeiro Adorador? Adorador é aquele cuja vida é culto. Tudo que ele faz aponta para Glória do Senhor. Aliás, culto não termina quando acabam nossas reuniões, pois Deus não é somente Deus no templo, mas também no trabalho, em casa, na rua. Portanto, tudo que fazemos deve ser para honra Dele. Lutero afirma que “é tão santo ordenar o culto quanto ordenhar uma vaca”. Aquele que de fato entende o sentido de ser adorador, sabe bem que onde ele vai ou onde estiver, ele pode louvar, não depende de templos. Quem depende de templos são religiosos. Adoradores são Templos de Deus. Adoradores não precisam de palavras(religiosos sim), porque manifestam sua devoção com atitudes de amor, misericórdia e obediência.

“Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”.

Mateus 26:39

Existem momentos em que não percebo mais nenhuma esperança. Existem momentos que não percebo Deus perto de mim e sinto-me jogado na frieza mórbida do meu inferno interior.

Existem momentos em que não desejo mais amar, seja por medo, decepção ou pela incompreensão de quem não entendeu o sentido do meu abraço, o esforço da minha entrega.

Existem momentos que me pergunto: – Quem sou? Sou mesmo o que pensam de mim? Ou aquilo que penso ser? Esse ou aquele?

Existem momentos que acredito que não adianta Deus mudar minha rota, sonhos e perspectivas, achando que os conceitos e preconceitos que os outros nutrem sobre mim criaram um muro intransponível, onde se torna inútil processar essas mudanças na minha vida.

Existem momentos em que levanto meus punhos pro céu e pergunto para Deus por que deixou que me ferisse no caminho que propôs para mim. Nessas horas me dá vontade de jogar tudo pro alto. Tudo, tudo mesmo!!!

Esses momentos realmente existem… Como se a presença de um anjo triste fosse a única e última visão. São nesses momentos onde o suor se confunde com sangue, onde não há esperança, força, ou calor das palavras amigas e da comunhão sincera, que nos assemelhamos a Cristo no Monte das Oliveiras. Local onde a alma chora e o coração desfalece. Aonde a dor é a nossa única companheira e a nuvem cinzenta da morte pousa sobre a cabeça. Aonde o gosto amargo do abandono é o único sabor que permanece na boca.

Mas apesar desses momentos, ao olhar para esse Cristo que se entrega totalmente ao destino horrendo que o espera no Calvário, creio que mesmo quando não vemos esperança, vale a pena lutar! Lutar pela integridade de nossa caminhada e pela grandeza dos Sonhos do Reino de Deus.

Sim! É possível dar um passo à frente mesmo quando não vemos mais saída e a incerteza se mistura a nossa fé, pois creio somente os que marcaram a vida e a história vencendo os desafios ao serem íntegros e relevantes, foram aqueles que não desistiram quando tudo parecia perdido. Posso passar por todos os problemas, sofrimentos, angústias, pois nEle me fortaleço. Ergo minha cabeça e nada temo, pois Deus se solidariza e chora comigo quando atravesso o Vale da Sombra da Morte. Continuo apostando no amor, uma vez que para quem ama nada mais importa!

Quando olho pro Cristo no monte das Oliveiras, não me importo mais com o que pensam ou deixam de pensar sobre mim. Também não mais importam aparências, conceitos, rancores, preconceitos. São aparências, nada mais… Importa unicamente saber quem sou: Sou teu, Senhor!

Caio Marçal – escrito em Fev de 2004

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