Deus é plural

Por Adroaldo Palaoro

“…batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19)

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A Igreja celebra, neste domingo, a Festa da Trindade, cume e compêndio de todas as festas do ano: do Deus que é Pai, é Filho e é Espírito.

Assim, a festa de hoje vem plenificar o tempo pascal, como uma espécie de “síntese”.

Síntese pascal

Síntese, não intelectual, mas “misterial”, ou seja, celebração de nossa participação no fluxo amoroso das pessoas divinas; pois a SS. Trindade não é uma questão especulativa, é, sobretudo, uma experiência de um Deus amoroso.

A liturgia nos convoca a viver a experiência do Deus “comunhão de Pessoas”; para isso, ela nos convida a fazer uma viagem ao interior de Deus, como vida de amor que se revela na história da humanidade, vida entendida como Pai, Filho e Espírito Santo.

A imensa maioria dos cristãos não sabe que, ao adorar a Deus como Trindade, está confessando que Deus, em sua intimidade mais profunda, é só amor, acolhida, ternura, misericórdia.

Essa viagem ao coração da Trindade culmina na grande comunhão humana, pois o Deus Pai, Filho e Espírito integra no amor todos os povos da terra.

Dessa forma, a viagem ao interior de Deus se converte em movimento ao exterior, no encontro expansivo com todos os homens e mulheres.

Quanto mais mergulhemos em Deus, comunidade de Amor, mais poderemos expandir-nos em solidariedade, amor e justiça para com todas as pessoas, porque o interior de Deus é princípio de reconciliação e unidade (na diversidade) de todos os povos e raças do mundo.

Foi-nos dito que o dogma da Trindade é o mais importante de nossa fé católica; no entanto, a imensa maioria dos cristãos não consegue compreender o que ele quer dizer. Com a Trindade, nós cristãos não queremos “multiplicar” Deus. O que queremos é expressar a experiência singular de que Deus é comunhãoe não solidão.

“No princípio está a comunhão dos TRÊS e não a solidão do UM” (Leonardo Boff).

Aproximar-nos do Deus de Jesus é descobrir a Trindade. E em cada um de nós a Trindade deixa-se refletir. Nossa vida deveria ser um espelho que em todo momento refletisse o mistério da Trindade. O grande ensinamento da Trindade é que só vivemos, se convivemos.

Viver a experiência do Deus Trino implica saber com-viver; fomos feitos para o encontro e a comunicação. Estamos, portanto, falando de uma única realidade que é relação.

Deus-Trindade é a relacionalidade por excelência; Deus só existe como ser em relação; Deus é só relação, porque Deus é só amor. “No princípio está a relação” (G. Bachelard).

E sendo Deus essencialmente relação, não poderia permanecer fechado n’Ele mesmo; num gesto de pura gratuidade, essa relação se manifesta como transbordamento de vida, chamando toda a Criação à existência e convidando a humanidade a entrar no fluxo dessa relação trinitária.

Mas, para nos aproximar do Deus comunhão de Pessoas, temos de superar o ídolo ao qual nos apegamos. Sim, o “falso deus” identificado com um ser poderoso que se manifesta como um déspota, um tirano destruidor, um ditador arbitrário; um ser onipotente que ameaça nossa pequena e limitada liberdade. É muito difícil abandonar-nos a alguém infinitamente poderoso. Parece mais fácil desconfiar, ser cautelosos e salvaguardar nossa independência.

Mas Deus Trindade é um mistério de Amor. E sua onipotência é a onipotência de quem só é amor, ternura insondável e infinita. É o amor de Deus que é onipotente. E sempre que esquecemos isso e saímos do fluxo do amor, nós fabricamos um Deus falso, uma espécie de ídolo que não existe.

A Trindade não é uma verdade para crer mas uma presença a ser acolhida, uma experiência a ser vivida. Uma profunda experiência da mensagem cristã será sempre uma aproximação ao mistério Trinitário.

A festa da Trindade deve nos libertar do “Deus Ser todo poderoso” e empapar-nos do Deus Ágape que nos identifica com Ele. A imagem do “Deus todo poderoso” não expressa bem a experiência do “Deus trino”. Deus é amor e só amor. Só na medida que amemos, poderemos conhecer a Deus.

Esta é talvez a conversão que muitos cristãos mais precisam: fazer a passagem de um Deus considerado como Poder a um Deus adorado alegremente como Amor.

Felizes aqueles que descobrem que a Trindade não é um mistério incompreensível, mas a cotidiana experiência do Amor, a partir de uma vida encarnada em nossa história, com um respiro, um ânimo e uma paixão especial por continuar vivendo cada dia com os mesmos sentimentos de Jesus, junto a tantas pessoas que trabalham por outro mundo mais fraterno, justo e solidário. A Trindade é o espelho que nos mostra como devemos ser e viver à luz da “melhor Comunidade”.

Ora, tal Mistério fonte de todo ser, constitui o modelo ideal de todo e qualquer convívio humano. Somos feitos à “imagem e semelhança da Trindade”.

Trazemos em nós impulsos de comunhão.

Sempre que construirmos relações pessoais e sociais que facilitem a circulação da vida, a comunhão de diferentes à base da igualdade, estaremos tornando visível um pouco do mistério íntimo de Deus.

Deus quer inserir-nos nesta sua comunhão eterna, como no-lo disse Jesus“Que todos sejam um como Tu, Pai, estás em mim, e eu em Ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo. 17,21).

Portanto, Trindade é a glória de Deus que se expressa na vida da humanidade; é o Amor mútuo, a comunhão pessoal, de Palavra (Filho) e de Afeto (Espírito Santo) que sustenta as relações entre os seres humanos. Assim é a Trindade na terra: quando todos compartilham a vida e se amam.

Não crê na Trindade quem simplesmente professa que há “em Deus três pessoas”, ou quem faz mecanicamente o sinal da Cruz, mas aquele que vive o impulso e a expansão do Amor Redentor, que se expressa como compaixão, reconciliação e compromisso. Crer na Trindade é amar de um modo ativo, como dizia S. Agostinho. Contempla-se a Trindade ali onde nos amamos e nos comprometemos com a libertação do próximo. Estamos envolvidos pelo mesmo movimento do Amor sem fim que parte do Pai, passa pelo filho e se consuma no Espírito.

Só quem tem coração solidário adora um Deus Trinitário, pois no compromisso libertador torna-se visível a presença trinitária.

Para meditar na oração

Como pessoas trazemos uma força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão.

Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas. (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade.

  • Em quê aspectos concretos de sua vida se manifesta o mistério do Deus trinitário como amor e vida?
  • Como poderia abrir-se mais à ação do Espírito da Verdade em sua vida, para que o(a) leve a um conhecimento existencial e atualizado do Evangelho de Jesus?
  • Com quais iniciativas concretas você poderia contar para que sua comunidade cristã seja cada dia mais imagem da comunidade de amor infinito que é a Trindade divina?
  • Quais diferenças estão criando divisões e intolerâncias em sua comunidade? Quais elementos da vida comunitária são fatores de união, fazendo-os crescer como irmãos(ãs) e fortalecendo a missão evangelizadora?
  • Sua comunidade é sinal e instrumento de salvação de Deus Trindade, através da iniciativa do amor (Pai), da entrega radical (Filho) e da abertura à novidade dos caminhos de Deus (Espírito)?

Traduzido e publicado no site do Instituto Humanitas, 25/05/2018.

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As evangélicas e a justiça de gênero

por Magali do Nascimento Cunha 

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As injustiças contra as quais as mulheres lidam atualmente são derivadas da ideologia de gênero patriarcal

Homens e mulheres são seres humanos dotados de diferenças biológicas. Os povos, ao longo da história da humanidade, construíram modos de vida (culturas) que determinaram papéis específicos para machos e fêmeas/homens e mulheres. Assim foi construída a cultura do patriarcado.

Nesse modo de vida, a organização coletiva é baseada no poder do homem como reprodutor da espécie, provedor da família: o patriarca – o pai, os irmãos, os tios, o marido, os filhos. Este poder é justificado pela ideia de que o homem é o ser com mais força física, mais inteligência e capacidade de liderar. A mulher teria seu próprio papel: participar da reprodução da espécie com a gestação, cuidar da sua cria e da moradia que abriga a família. Por ser considerada mais frágil, dotada de menor inteligência e baixa capacidade de liderança, a mulher é destinada a cuidar e servir.

Resultado disso é a submissão das mulheres ao poder do homem e a repressão e controle dos seus corpos. Com isso emergem a exploração sexual, a opressão do trabalho da mulher, a discriminação das mulheres que rompem com o papel de dominação, a condenação dos homens que se solidarizam com as mulheres.

Esta forma cultural é assimilada nas religiões, e entre os cristãos é fundamentada pela interpretação literalista dos escritos bíblicos. Nesta compreensão, a mulher seria responsável pela existência dos males no mundo, devendo se resumir ao cuidado com o lar e estar em silêncio nos espaços públicos destinados aos homens.

Esta ideologia de gênero continua sendo difundida pela educação formal, pelo conjunto de leis, pelos meios de comunicação, pelas religiões. Como o poder de uma ideologia é tornar as coisas naturais, homens e mulheres a reproduzem como algo “normal” e certo. E dela vêm o silenciamento, a conformação e também a violência nas suas mais diversas formas: física, psicológica, sexual, patrimonial.

Nos primórdios da Igreja Cristã, à luz das ações de Jesus de Nazaré, houve um rompimento com o patriarcado e abertura ao lugar de atuação das mulheres (várias narrativas da Bíblia mostram isto). O silenciamento das mulheres no Cristianismo se dá a partir da institucionalização do movimento cristão e o lugar delas volta a ser enfatizado como reprodutoras, domésticas, cuidadoras.

O questionamento desta lógica nas sociedades ocidentais emergiu, marcadamente, na Revolução Francesa, por meio das noções de cidadania, igualdade, liberdade, que deflagraram processos de transformação na compreensão de família, com a inserção da dimensão da afetividade.

Os movimentos feministas dos séculos 19 e 20, baseados nas descobertas da psicanálise, da filosofia e da biociência, consolidaram este processo com a desnaturalização do poder do homem sobre o corpo da mulher, com a emergência do conceito de gênero para além do feminino e do masculino, pela afirmação da sexualidade como autônoma em relação à reprodução humana. Garantiu-se mais direitos civis das mulheres ao próprio corpo, ao seu destino e à participação sociopolítica.

Cristãs identificadas com esta visão passaram então a buscar um novo olhar sobre o movimento de Jesus de Nazaré e das mulheres da Bíblia. Buscaram ocupar seu espaço nas igrejas em papéis de liderança como pastoras, bispas e leigas. Surge a teologia feminista com uma releitura da Bíblia sob a ótica das mulheres, bem como uma nova abordagem da história da Igreja e de suas teologias.

No Brasil, ganham destaque teólogas evangélicas como a luterana Romi Bencke (atual secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs/Conic), a metodista Nancy Cardoso, a batista Odja Barros, entre outras.

Também em nosso País, grupos como Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), liderado por Valéria Vilhena, de tradição pentecostal, se espalham em diferentes espaços, e cada vez mais mulheres de distintas faixas etárias se descobrem como sujeitos da ação libertadora de Deus e não do seu castigo.

É fato que todo este avanço tem provocado reações. Elas têm como alvo os movimentos por justiça de gênero dentro e fora das igrejas, interpretados por segmentos defensores da cultura patriarcal como inimigos a serem combatidos.

Às mulheres que rompem com a compreensão patriarcal do seu papel social é atribuída a culpa pela “destruição da família”, porque buscam mais estudo, trabalho e atuação na sociedade, liderança de processos, controle da natalidade. Com isso, lideranças reacionárias, homens e mulheres, pregam que as “as rebeldes” retornem para dentro dos lares, que se casem e vivam para agradar maridos e filhos, e evitar as “feminazis” destruidoras de famílias.

Esta reação se dá porque há avanços e transformação. Mas ainda há muito o que enfrentar. Doze mulheres são assassinadas todos os dias, em média no Brasil, e 135 sofrem estupro diariamente. Em 2017, houve aumento para 29% do número de mulheres brasileiras que sofreram violência doméstica. O rendimento médio dos brasileiros em 2015, segundo o IBGE, era de 1.808 reais, mas a média masculina era mais alta (2.012 reais), e a feminina, mais baixa (1.522 reais).

São dados alarmantes de muita injustiça ancorada na ideologia de gênero patriarcal! A leitura das mulheres cristãs que buscam justiça de gênero é que Deus não criou o patriarcado, algo contraditório com o seu amor, pois produz silenciamento, violência e morte. Pelo contrário, o Criador ama as mulheres, sua imagem e semelhança, e compartilha com elas do desejo de “vida e vida em abundância”.


Fonte: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/as-evangelicas-e-a-justica-de-genero

As raízes afro-americanas do cristianismo de Bonhoeffer

Alan Bean

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Dietrich Bonhoeffer foi o único cristão proeminente na Alemanha a compreender as terríveis implicações espirituais de Adolf Hitler e os nazistas desde o início. A famosa “primeira vez que eles vieram para” litania de Martin Niemoller esboçou um padrão típico na Alemanha do Terceiro Reich:

Primeiro eles vieram para os socialistas, e eu não falei – 
Porque eu não era socialista. 
Então eles vieram para os sindicalistas, e eu não falei – 
Porque eu não era um sindicalista. 
Então eles vieram para os judeus, e eu não falei – 
Porque eu não era judeu. 
Então eles vieram para mim – e não havia mais ninguém para falar por mim.

Bonhoeffer percebeu desde o início que Jesus estava ao lado dos socialistas, dos sindicalistas, dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais, dos intelectualmente desafiados e de todos os outros substratos da sociedade visados ​​pelos nazistas. Karl Barth, o principal autor da famosa Declaração de Barmen , tomou uma posição corajosa contra os nazistas, e ele não estava sozinho. Mas, como sugere o mea-culpa de Niemoller , “a Igreja Confessante” estava primariamente preocupada com a reescrita da teologia cristã pelos nazistas; a situação das vítimas não-cristãs de Hitler era estritamente secundária.

Reggie Williams, professor assistente de ética cristã no Seminário Teológico McCormick, argumenta em seu livro recente, Bonhoeffer’s Black Jesus , que Dietrich Bonhoeffer entendia a alma nazista porque via a realidade alemã através das lentes da teologia negra americana mediada pela pregação de Adam Clayton. Powell Sr., pastor da Igreja Batista Abissínia do Harlem.

Reggie Williams

Este não é um livro sobre a teologia de Bonhoeffer, por si só. Muita teologia trai a suposição de que o pensamento humano é abstraído das dificuldades da experiência. Felizmente, Williams não comete esse erro.

Williams começou a refletir sobre as raízes negras do cristianismo de Bonhoeffer durante um curso ministrado pelo Dr. J. Alfred Smith, pastor sênior da Allen Temple Baptist Church em Oakland, Califórnia. “A espiritualidade afro-americana é uma espiritualidade que nasceu e moldou no calor dA opressão e sofrimento ”, Smith disse aos seus alunos. “A negritude é uma metáfora para o sofrimento. Conhecer a negritude é estar ligado ao sofrimento, esperança e propósito dos negros. ”

Bonhoeffer passou a “conhecer a negritude” como bolsista de Sloane no Union Theological Seminary, em Nova York, durante o ano acadêmico de 1930-1931. Williams argumenta, persuasivamente, que o talentoso prodígio teológico manteve uma cosmovisão tipicamente alemã quando chegou à União.

A Alemanha foi humilhada pelo Tratado de Versalhes que responsabilizou o povo alemão pela carnificina da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha entrou na grande depressão mundial de 1929, já cambaleante sob as reparações econômicas paralisantes impostas em Versalhes.

Além disso, os vencedores da Primeira Guerra Mundial privaram a Alemanha de suas posses coloniais. Com a maioridade durante esse doloroso período, a teologia antiga de Bonhoeffer enfatizou a necessidade de solidariedade com o Volk alemão, um povo que, apesar de todo o seu infortúnio, representava o ápice da evolução humana. A religião era misturada com a vida cotidiana, e o principal negócio da vida cotidiana era restaurar o orgulho nacional alemão.

A expressão predominante do cristianismo na Alemanha do pós-guerra foi um mal-estar do luteranismo, do darwinismo social e do nacionalismo fundido em uma visão triunfalista da história descrita como a ordem de criação de Deus. … O conceito de ordens tornou-se um suporte teológico para a língua nazista de sangue e solo, ou superioridade racial e um puro Volk..

Tomando sua sugestão de Willie Jennings , Williams caracteriza a academia teológica européia como o produto de “uma imaginação social doentia”.

A infecção ocorreu quando a teologia se fundiu com o sistema colonial para fornecer autoridade religiosa para centrar o mundo no imaginário europeu, tornando Cristo um homem europeu branco e oferecer uma apologética para a dominação e o autoritarismo.

O que WEB Du Bois chama de “a linha da cor” foi um resultado direto da fidelidade européia a um Cristo branco. Williams argumenta que:

O projeto de teologia no colonialismo foi dividido nesta assembléia [européia]; era primariamente doutrinal e conceitual, sem conteúdo para a conduta cristã. Essa divisão era necessária para justificar a dominação de corpos estranhos que acompanhavam a classificação dos seres humanos pela raça, assegurando as vantagens da branquitude e acomodando as práticas do colonialismo.

A ideologia nazista, em outras palavras, era uma expressão notória da teologia imperialista e eurocêntrica que dominava o mundo branco. “O Cristo branco era o músculo teológico da estrutura de poder da linha de cor e suas manifestações globais”, diz Williams. “Colonização, imperialismo, nacionalismo e terrorismo branco na América” ​​faziam parte da mistura.

O livro é intitulado Black Jesus off Bonhoeffer porque, acredita Williams, o Jesus branco da teologia europeia não conseguiu captar o significado espiritual do racismo, do imperialismo ou, mais significativamente, do desafio nazista ao cristianismo.

Apenas a Igreja Negra, Williams afirma, poderia dar testemunho de um Jesus negro. Bonhoeffer, como qualquer estudioso de sua vida sabe, ficou angustiado com o tipo de espiritualidade oferecido no Union Seminary e as igrejas brancas que ele encontrou na América. Imerso no que muitos consideram o ponto alto da religião liberal americana, Bonhoeffer não se impressionou.

Em Nova York, eles pregam praticamente tudo; apenas uma coisa não é abordada, ou é abordada tão raramente que até agora não consegui ouvi-la, a saber, o evangelho de Jesus Cristo. … Então, o que está no lugar da mensagem cristã? Um idealismo ético e social sustentado por uma fé em progresso que – quem sabe como? – reivindica o direito de se chamar de “cristão”.

Cristãos conservadores usaram comentários desse tipo para reivindicar Bonhoeffer como um deles; mas Williams chama isso de um erro. Não havia nada mais tipicamente “conservador” na América do que o cristianismo de Jim Crow que floresceu no sul. O Jesus Negro de Bonhoeffer argumenta que Bonhoeffer entendeu a religião nazista observando-a através das lentes da linha de cor norte-americana e suas viagens no sul dos Estados Unidos foram particularmente instrutivas a esse respeito. O teólogo alemão não se inspirou em brancos cristãos americanos, liberais ou conservadores.

Williams não está sugerindo que todas as igrejas negras eram igualmente hábeis em discernir e proclamar o Jesus negro, mas (seguindo J. Alfred Smith) ele argumenta que o distintivo sofrimento da América negra, refletido de modo pungente no que então se chamava “espirituais negros, ”Implicou uma crítica do Jesus branco da Europa.

A imaginação teológica branca do período foi capturada pela tensão entre as versões fundamentalista e liberal do cristianismo. Oito anos antes de Bonhoeffer chegar à América, Harry Emerson Fosdick havia pregado “Shall the fundamentalists win”, um sermão que, através das ministrações de John D. Rockefeller Jr., acabaria por fazer de Fosdick o pastor fundador da Igreja Riverside de Manhattan, localizado logo abaixo. rua do Seminário da União. A preocupação cristã negra transcendia essa tensão liberal-conservadora porque tinha preocupações mais imediatas.

A maioria dos brancos liberais não via a supremacia branca como uma questão de atenção cristã e, como consequência, ignoravam os perigos constantes da vida cotidiana dos negros na América. Mas evitar o racismo não era uma escolha para os cristãos afro-americanos; era uma questão de vida ou morte em uma sociedade organizada pela raça e imposta pela violência.

O guia de Bonhoeffer para o mundo do cristianismo negro do Harlem foi Albert Fisher, o filho de Charles Fisher, pastor da Igreja Batista de 16th Street de Birmingham e, como Bonhoeffer, um membro da Sloan na Union. O jovem alemão podia descer a rua pela esplêndida Riverside Church de Fosdick por iniciativa própria; mas ele precisava da amizade de Albert Fisher para cruzar a linha da cor.

Williams não está sugerindo que o breve período de estudo de Bonhoeffer na América tenha sido a única influência significativa em seus pensamentos posteriores. Matthew Kirkpatrick argumentou recentemente que o “cristianismo sem religião” desenvolvido por Bonhoeffer em uma prisão nazista foi inspirado pela crítica radical de Soren Kierkegaard à cristandade e duvido que Williams discorde. O argumento é que o encontro de Bonhoeffer com o Jesus negro no Harlem permitiu que ele simpatizasse com o sofrimento do povo marginalizado tão profundamente que, em seu retorno à Alemanha, o espírito diabólico do Nacional-Socialismo de Hitler foi prontamente aparente.

O título completo do livro de 140 páginas de Williams é Black Jesus: A Teologia do Renascimento do Harlem e uma Ética da Resistência, de Bonhoeffer . O autor nos leva a um rápido tour pela Harlem negra de meados da década de 1930, apresentando-nos o trabalho de WEB Du Bois, Alain Locke, Claude McKay, Geórgia Douglas Johnson, Langston Hughes e Countee Cullen.

Como essas vozes muitas vezes discordantes debatiam, discutiam, faziam sermões, anatematizavam e batizavam, surgiu uma perspectiva única que transcendia os limites da teologia americana branca. Alguns no Harlem argumentaram que o cristianismo era indelevelmente associado à supremacia branca para ser útil aos afro-americanos.

Mas havia outra opção. Talvez os cristãos brancos que introduziram negros africanos ao Cristo não conhecessem seu Salvador muito bem. Talvez o horror da experiência negra na América pudesse lançar luz sobre esse homem de tristezas. Muitas vezes, os poemas e ensaios emergentes do Harlem Renaissance encontram espaço para todos os lados deste debate.

Countee Cullen, The Black Christ, explica

Como o Calvário na Palestina, 
Estendendo-se para mim e para o meu, 
Era apenas a primeira folha em uma linha, 
De árvores em que um Homem deveria balançar O 
mundo sem fim, em sofrimento.

Bonhoeffer fez referência ao The Black Christ em sua escrita e seguiu as principais figuras do Harlem Renaissance nas páginas da Crisis da NAACP e da Opportunity da National Urban League. Reinhold Niebuhr, um dos professores de Bonhoeffer na Union, às vezes fazia alusão aos escritores negros em suas palestras. Em uma carta a Niebuhr em 1933, Bonhoeffer aludiu a um ensaio (agora perdido) sobre literatura negra que escreveu durante o seu ano na América.

“A prática de unir-se aos afro-americanos no Harlem”, diz Williams, “deu a Bonhoeffer a capacidade de ver mais claramente a distinção entre uma teologia prejudicial da glória, representada por um Cristo branco que recusa encarnação e empatia, e a teologia mais saudável de a cruz que revela a presença de Deus escondida no sofrimento ”.

Williams sugere que Bonhoeffer aprendeu tanto com as jovens vozes desdenhosas que rejeitaram o Jesus branco como uma causa sem esperança, como ele aprendeu com aqueles, como Georgia Douglas Johnson, que abraçou um Jesus negro.

Venham irmãos, levante a sua voz, 
o Cristo nasce, vamos nos alegrar! 
E para toda a humanidade vamos orar, 
Esquecendo os erros neste dia. 
Ele foi desprezado e nós também, 
como ele, vamos ao Calvário; 
Ele nos conduz por sua mão sangrando, 
Por caminhos que não entendemos. 
Venham irmãos, levante a sua voz, 
o Cristo nasce, vamos nos alegrar! 
Não devemos ao mundo inteiro dizer – 
Deus te abençoe! É dia de Natal!

A associação de Bonhoeffer com a Igreja Batista Abissínia permitiu-lhe ir além das expressões literárias da América negra para a experiência vivida de uma congregação excepcional vivendo em tempos difíceis. As cartas de Bonhoeffer revelam a profundidade de seu envolvimento no Abyssinian:

Todos os domingos, às 2:30 da tarde e junto com meu amigo [Albert Fisher], e muitas vezes como seu substituto, [eu] tinha um grupo de jovens negros na escola dominical; Eu conduzi estudo bíblico para algumas mulheres negras e uma vez por semana ajudei em uma escola da igreja durante a semana. Assim, não só me familiarizei com vários jovens negros; Eu também visitei suas casas várias vezes. Essa familiaridade pessoal com os negros foi um dos eventos mais importantes e gratificantes da minha estada na América.

O abissínio era um mundo estrangeiro para o alemão aristocrático, mas isso era uma grande parte do seu charme. Bonhoeffer havia encontrado uma nova maneira de ver o mundo. Williams chama o Renascimento do Harlem de uma “transformação comunitária da consciência”. Muitas das novas idéias e teologias experimentais eram novas para Adam Clayton Powell Sr. também, e o pastor de Bonhoeffer estava elaborando os contornos de uma nova teologia nas manhãs de domingo.

Powell foi fortemente influenciado pelo movimento do evangelho social com sua ênfase no envolvimento criativo com o sofrimento humano, injustiça institucional e solidariedade com os pobres. Mas os ícones do evangelho social como Washington Gladden, Josiah Strong, Theodore Munger e Walter Rauschenbusch estavam cativos demais para um otimista modelo darwiniano de evolução cultural para prestar muita atenção aos perdedores na competição racial dos Estados Unidos. A sociedade humana estava evoluindo em uma direção gloriosa, o pensamento se foi, e a raça branca estava na vanguarda da revolução. Homens como Josiah Strong repreendiam a “raça branca” por sua exploração insensata das “raças menores”, mas a supremacia branca era simplesmente assumida .

Adam Clayton Powell

Powell herdou a estrutura básica de sua teologia dos teólogos evangélicos sociais brancos, mas nas mãos dos pensadores brancos essa tradição foi prejudicada pelo otimismo do racial chauvinismo que Williams disseca nas primeiras páginas deste livro. Powell entendeu que ele estava empurrando a lógica social do evangelho para o território virgem:

 

A igreja negra é a única igreja que se opõe persistentemente ao linchamento e o púlpito negro é o único púlpito que tem pregado incessantemente a irmandade do homem.

O Harlem Renaissance se desenrolou durante a pior depressão econômica da história americana e uma “Grande Migração” que atraiu centenas de milhares de afro-americanos da opressão racial severa do sul dos EUA para cidades do norte como Chicago, Detroit, Cleveland e, é claro, Harlem .

A Grande Migração trouxe os negros para o Harlem, esperançosos e sonhando com uma terra prometida, para enfrentar o desapontamento e o desespero. Em seu desespero, eles se voltaram coletivamente para a igreja negra como sua ajuda e centro familiar de comunidade.

Powell estava criando “uma experiência negra da igreja que é fortalecida por uma interpretação negra de Cristo no contexto da sobrevivência afro-americana”. Powell admitiu a realidade do “cristianismo opiáceo”, mas localizou a raiz do problema no que Williams chama de “o compartimentalização do cristianismo, em vez de cristianismo abrangendo toda a vida ”.

O tumulto social em torno da Abyssinian Baptist Church deixou Powell insatisfeito com os princípios relaxantes do liberalismo branco otimista. “O homem precisa ser terminado”, disse ele, “mas ele não pode ser terminado até que seja desfeito.” A ascensão intelectual a proposições teológicas não significava nada, ensinava Powell, se o que acreditamos está desconectado de um mundo em sofrimento. Os migrantes desesperadamente pobres que chegavam ao Harlem no auge da Grande Depressão pediam a conversão da Igreja.

É também nosso dever obter posições de homens e mulheres durante essa depressão do desemprego, como é levá-los à igreja. … Um homem faminto e frio não terá muita paciência com uma palestra sobre espiritualidade.

Foi essa ênfase na fé vivida, Williams acredita, que moldou como Bonhoeffer “entendeu o que a igreja deveria estar fazendo quando a luta da igreja começou em 1933.… A tradição de Jesus, o cosufferer escondido no sofrimento e vergonha que Bonhoeffer encontrou dentro do ministério de Powell e dentro do movimento literário do Renascimento do Harlem permaneceu com ele quando ele voltou para casa ”.

O Bonhoeffer que retornou à Alemanha depois de um ano tumultuado na América surpreendeu, encantou e muitas vezes confundiu luteranos sofisticados. Enquanto no Harlem, ele comprou dezenas de gravações de espirituais afro-americanos e jogou-os incessantemente para as classes e grupos de jovens que ele estava envolvido. A combinação tipicamente africana-americana de rigor acadêmico e simplicidade evangélica que Bonhoeffer descobriu nos Estados Unidos frequentemente surpreendeu seu público.

Um dos estudantes de Berlim de Bonhoeffer recordou a franqueza e “simplicidade” com que Bonhoeffer “nos perguntou se amamos Jesus”. Aquele diferente Bonhoeffer foi quem mais tarde se manifestaria contra o racismo nazista e se tornaria o célebre autor de Creation and Fall , Life Together. , Discipulado, e Ética.

Se a tese básica que Williams apresenta no Black Jesus de Bonhoeffer resiste ao escrutínio, os cristãos americanos devem lutar com um paralelo espiritual próximo entre a “pureza racial dos Volks” dos nazistas e nossa obsessão (geralmente não falada) com a supremacia branca. Williams joga a luva com força surpreendente (surpreendente para leitores brancos, isto é):

A devoção do Volkish ao puro sangue alemão, com seus anseios étnicos, nacionalistas e imperialistas, era o equivalente alemão da humanidade normalizada da versão americana da supremacia branca. … Ver a sociedade a partir da perspectiva oculta do Harlem ajudou Bonhoeffer a reconhecer a supremacia branca na Alemanha e a vê-la como um problema cristão que poderia exigir uma ação política cristã. … Por ter sido exposto ao racismo americano a partir da perspectiva dos cristãos a quem foi submetido, Bonhoeffer estava equipado com uma visão profética que seus colegas brancos alemães na igreja e na academia não tinham.

E isso, em poucas palavras, é o motivo pelo qual Bonhoeffer foi capaz de ter empatia com os judeus, os sindicalistas, os ciganos e o restante das vítimas de Hitler: ele havia visto esse movimento antes.

Poderia Bonhoeffer ter entrado no doloroso sofrimento da Igreja Batista Abissínia e do Renascimento do Harlem se ele tivesse vindo de Birmingham para Nova York em vez de Bonn? Provavelmente não. E é por isso que o livro de Williams deveria nos abalar. Se ele está certo (e ele é), os cristãos americanos brancos (e a Igreja americana branca), em todas as suas manifestações teológicas e ideológicas, deixaram de perceber algo crítico. Não podemos capturar a poderosa simplicidade de Jesus, a menos que nos arrependamos de nossa dependência da supremacia branca em pano de saco e cinzas.

É possível uma coisa dessas? Em grande escala, provavelmente não. Mas pouco a pouco, aqui e ali, de vez em quando, o Jesus negro insinua seu caminho em nossas almas brancas. E se isso for verdade, há esperança.


Alan Bean é diretor executivo da Friends of Justice, uma aliança de membros da comunidade para defender a reforma da justiça criminal. Ele mora em Arlington, Texas.
Texto publicado originalmente em  https://baptistnews.com/article/the-african-american-roots-of-bonhoeffers-christianity/#.WtuZX9PwYkg

Ataque à Síria: o perigo do uso ideológico da Bíblia

Por Juan Fonseca

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“Todo o reino da Síria deixará de existir, como a cidade de Damasco; Além disso, as cidades do norte, que são o orgulho de Israel, ficarão sem muros. Eu sou o Deus Todo-Poderoso, e juro que assim será “(Isaías 17: 3 ).

Estes dias, as redes sociais foram inundadas por este versículo da Bíblia a fim de sustentar a idéia incrível que a agressão pelas potências ocidentais para a Síria foi predito há séculos pelo profeta Isaías e, nesse sentido, é um cumprimento da vontade de Deus. A fraqueza desta abordagem foi fortemente refutada por vários teólogos e exegetas, então eu não pretendo para fazer uma nova refutação. Eu recomendo em particular a reflexão do teólogo Gabriel Gil. Este incidente me levanta sim uma reflexão sobre os perigos representados pelo fundamentalismo ideológico que faz uso da Bíblia, particularmente no contexto de expansão imperial.

Isso não é novidade, claro. Desde o cristianismo aliado com poder, teólogos e exegetas têm usado a Bíblia para justificar processos tais como as Cruzadas (XI de séculos XIII), a invasão européia da América (século XVI) ou a partição imperialista de África, Ásia e Oceania (século XIX). A este respeito, uma das melhores obras que li é a do RS Sugirtharajah (A Bíblia e o Império, Explorações Pós-coloniais, Madri: Akal, 2009). Neste trabalho, este biblista indiana mostra como os processos hermenêuticos construído nas comunidades cristãs da Inglaterra vitoriana apropriados, reapropriada e até mesmo mutilado as passagens bíblicas, não só para justificar a expansão imperialista, mas também para construir identidades religiosas e nacionais. Mas também mostra como,

Na América Latina, ambos os processos ocorreram, mas principalmente o primeiro. O fundamentalismo evangélico tem sido um dos principais proponentes desse uso colonialista da Bíblia.

Lembro-me quando ainda adolescente fiquei interessado em teologia, eu encontrei em livros da biblioteca de meu pai chamada “literatura profética” (Hal Lindsey, David Wilkerson e outros) que se dedicaram para relacionar os textos bíblicos com processos geopolíticos contemporâneos assumindo que tudo o que estava acontecendo séculos foi previsto atrás pelos autores bíblicos. Lembro-me ainda que as escolas bíblicas evangélicas da época foi o curso de “profecia bíblica”, em que os alunos foram treinados para manter esta abordagem pitoresca a história política e mundial. Como os alunos das “profecias” eram fundamentalistas cristãos e sionistas fervorosamente Republicano americano, todas as leituras associadas maus atores com a União Soviética (Gog e Magog em Ezequiel 38 e 39), Vaticano (a “grande prostituta” de Apocalipse 17 e 18), a União Europeia (a besta com “dez chifres” pois então a Comunidade Européia tinha apenas dez membros, Daniel 7: 7-8) e a China (o “exército do Oriente” na batalha do Armagedom, Apocalipse 16: 12-16). Após a queda do Muro de Berlim, eles “adaptaram” suas interpretações para associar os “bandidos” do simbolismo apocalíptico ao mundo islâmico (a chamada Janela 10-40).

Em contraste, os “mocinhos” sempre foram Israel e os Estados Unidos. Lembro-me, em particular, uma classe em que explicou a passagem em Apocalipse 12:14: “E eles foram dadas à mulher as duas asas de grande águia, para que voasse da serpente no deserto, ao seu lugar, onde é sustentado por um tempo e tempos e meio tempo “. O professor disse que a mulher grávida representado Israel (então eu encontrei uma outra interpretação que associado com a Igreja) eo “grande águia” foram os Estados Unidos, o poder político graça para Israel e / ou a Igreja da ameaça de ” grande dragão “(China?).

Todas essas lembranças vieram a mim agora, depois de ver como o fundamentalismo evangélico e o sionismo cristão, aliados inquebráveis, continuam sendo vitais em seu esforço de manipular a mensagem bíblica para colocá-la a serviço da política externa americana. Há alguns anos, Kevin Phillips, em seu livro American Theocracy (2005), denunciou como essa aliança ultraconservadora foi um dos fatores mais influentes na política externa dos EUA. Parece que ainda estão agora e recuperaram uma enorme força na era Trump.

Como crente, a vitalidade de uma corrente que destrói a essencialidade da mensagem bíblica para colocá-la a serviço do poder não deixa de parecer desanimadora. O fundamentalismo é realmente uma das maiores ameaças da fé cristã, porque sua abordagem enfraquece enormemente a possibilidade de que a Bíblia continue a ser relevante para o mundo no futuro. Se algo ficou claro na história cristã, é que uma das razões pelas quais a mensagem bíblica tem mantido sua relevância tem sido sua capacidade de “traduzir” para diferentes culturas e tempos, para ser interpretada a partir da experiência e ser reler da opressão para ser um instrumento de libertação. Foi isso que os cristãos afro-americanos fizeram nos Estados Unidos ou nas comunidades de base latino-americanas.

Em vez disso, o fundamentalismo é uma leitura que congela a vitalidade da Bíblia para transformá-la em um instrumento de opressão religiosa ou política. E isso acontece pela rigidez da ignorância, porque se alguma coisa caracteriza os fundamentalistas de todos os tempos é acreditar que a memorização e a leitura literal são as únicas habilidades para demonstrar que “você conhece a Bíblia” e que, além disso, isso é O suficiente para “ler os tempos”. Foi isso que os fariseus da época de Jesus fizeram, assim como seus herdeiros contemporâneos nos seminários fundamentalistas. Eles até mesmo falam sobre política, ciência, cultura ou arte a partir da visão limitada dos versículos bíblicos que eles interpretaram mal ou mutilaram para atender aos seus interesses.

A outra coisa que caracteriza os fundamentalistas é a tendência ao dualismo em suas visões do mundo: eles o “bom” e o resto o “mau”, “perdido”, “hereges”, etc. Nesse sentido, para aqueles que não compartilham esse ponto de vista, é sempre recuperar o sentido cristocêntrico da hermenêutica: a mensagem de amor de Jesus como um paradigma que ilumina (ou deveria iluminar) qualquer interpretação da Bíblia. Então poderíamos recuperar essa virtude do texto sagrado dos cristãos: narrar como Deus agiu em meio a diferentes épocas e culturas, através de pessoas de diferentes identidades e crenças, a fim de reconciliar o ser humano consigo mesmo, com seu próximo, com a terra e com deus. Para fazer isso, devemos ir alémda carta e procurar a marca do amor que está por trás dela. Se não há amor nas letras, então a carta deixa de ser relevante para a fé e se afasta do espírito libertador dos ensinamentos de Jesus. E neste momento não há nada mais carente de amor do que justificar guerras e bombardeamentos com a Palavra de Deus.


Texto publicado originalmente por ALC Notícias

A empatia como compaixão

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[Por: José Neivaldo de Souza]

As coisas que nos custam mais são as que mais valorizamos. E nos custa muito mais dar do que receber. Michel de Montaigne

O tempo e as experiências, negativas e positivas, têm me ensinado que a “Empatia” é essencial para a paz interior. É um instinto de projeção, uma emoção. Faz-nos unir e fundir ao outro, ser humano, animal ou objeto. Em outras palavras, nos colocamos no lugar do outro e nos comunicamos com ele.

Porém, minha ideia, diferente de alguns autores que veem só lado amoroso desta comunicação, vai em direção ao seu duplo caminho, à sua contradição. Ela pode gerar compaixão e, ao mesmo tempo, indiferença, antipatia, inveja. Eis o verso e o reverso da mesma moeda: ou nos enxergamos com os olhos do outro e isso nos provoca a mudanças ou nos vemos refletidos nos olhos dele e isso para nós pouco importa; ou o rosto alheio nos ajuda a enxergar o que não percebemos, ou projetamos nele o que gostaríamos que ele fosse: nossa extensão. Assim, a Empatia pode nos levar à admiração, ao cuidado e à compaixão, como também pode nos ejetar no preconceito, na inveja e na indiferença em relação ao sofrimento alheio. No primeiro momento quero pensar a Empatia enquanto compaixão e o assunto sobre a indiferença fica para outra semana.

A Empatia como compaixão. Edith Stein, filósofa judia, convertida à fé cristã, produziu em textos o que viveu na Alemanha nazista. Simpática ao amor de Cristo, procurou vivenciar a compaixão, mas experimentou a antipatia, o ódio e o preconceito de seus detratores, sendo perseguida, torturada e morta numa câmara de gás em Auschwitz. Para ela, a Empatia é uma vivência fundamental na formação da pessoa humana, porém deve ser direcionada à compaixão.

Rubem Alves, em tom poético, dizia que a compaixão nos faz ter vontade de abraçar e sentir o que a outro sente. Enxergar no outro, o que eu gostaria que enxergassem em mim, não é fácil. É preciso exercitar, treinar muito. Adélia Prado diz que viver de mal com o mundo é muito fácil, faz parte de nossa natureza, difícil é amar, envolver a alma, cuidar da vida. Numa perspectiva psicanalítica, é a luta que o Eros, pulsão de vida, trava contra o Tânatos, pulsão de morte.

A palavra compaixão quer dizer: sentir “com” o outro o que ele “sente”. Viver no mesmo sentimento. Não é melhor cultivarmos ternura, solidariedade em relação ao ser humano, aos animais e à natureza? Para Dalai Lama, o estado de serenidade das pessoas depende deste sentimento. O líder budista observa que a falta de compaixão abre as portas para os crimes. Concordo!

Jesus Cristo ensinou e viveu esta serenidade em meio à perseguição. Levado ao tribunal e condenado como culpado, pelos criminosos, se colocou no lugar das pessoas aflitas e desamparadas e as via como “ovelhas sem pastor”, perdidas, sem encontrar um caminho. Se resumissem o ensinamento de Jesus talvez diriam: “saia do seu lugar e coloque-se no lugar dos que sofrem. Procure uma oportunidade para a salvação de ambos e da humanidade. Este é o caminho”.

Lyndon de Araújo: “Temos que abandonar a lógica da conquista como missão”

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Por Lyndon de Araújo Santos* 

Equidade – O que significa isto? Qual a relevância deste conceito para a Igreja de Cristo? Temos sido fieis na busca pela equidade enquanto cristãos? 

Equidade – Não falamos de algo que esteja distante de nós na América Latina e no Brasil. A partir da situação e do contexto em que nos encontramos, quero falar sobre equidade começando com 3 inflexões:

1 – O lugar de onde falamos: Sabemos que nos encontramos em espaços onde existem agudos déficits históricos e sociais em todas as esferas. Nos encontramos sob arraigadas estruturas promovedoras da desigualdade. Somos o resultado de uma sociedade formada pelas lógicas da invasão, exploração da sociedade e da escravidão. Somos síntese desses vetores e forças históricas, sociais e religiosas. O cristianismo foi um elemento que fez parte deste projeto. Organicamente inserido e cúmplice deste projeto, mas em vários momentos se contrapondo a ele.

Somos resultado de uma missão que obedeceu à lógica da conquista. E se pensamos em equidade como missão da igreja, temos que abandonar a lógica da conquista como missão. Se a equidade é o centro da missão, temos que renunciar à qualquer lógica da conquista.

2 – A igreja da qual falamos:

3 perspectivas:

  • igreja vista de baixo pra cima
  • igreja na sua horizontalidade
  • igreja na sua capilaridade social

Se eu pensar na igreja na lógica da conquista eu não posso chegar na equidade. Se falamos de equidade como missão da igreja, não entendemos ser possível nas suas estruturas que se comprometem com outras estruturas de poder. A igreja corpo como contraponto à igreja estrutura de poder e como lugar de comunidade integral.

3 – O tempo do qual falamos: a concepção de que a equidade não é possível para todos. Isso está no germe do pensamento moderno.

Por outro lado, se existe desigualdade, ela é responsabilidade dos que não conseguem ser iguais. Se a equidade só pode ser experimentada por um segmento social, deixa de ser igualdade, resultando portanto em uma falácia.

Nos encontramos diante de um paradigma que predominou durante o “infeliz século XX”: todas as promessas deste século desembocam frustradas no início do século XXI. Se o mundo está desigual, sobretudo na América Latina, podemos pensar na nossa condição. Liberalismo.

Os sentidos e as dimensões da equidade:

Político, social e teológico. A igualdade e a equidade são princípios fundamentais que norteiam as lutas por uma sociedade melhor. Os sentidos da palavra equidade que se relacionam com igualdade são vários e as dimensões dessa palavra são pelo menos três à igualdade, reparação, simetria, imparcialidade, justiça, justa distribuição, equilíbrio, imparcialidade e compensação.

Ela agrega as dimensões:

Jurídica – lei e sua aplicação.

Econômica – compreende a relação entre a produção de víveres, de bens e riquezas extraídas da natureza pela instrumentalização da tecnologia e a sua distribuição suficiente ou justa para a satisfação de necessidades materiais. A maneira como essa distribuição é concentrada pode gerar equidade ou iniquidade. Essa dimensão econômica exige a administração da casa. Temos que distribuir conforme as necessidades numa relação de equidade que pressupõe distribuição, eficiência e satisfação dessas necessidades.

Relacional – essas relações interpessoais são mediadas por conflitos, dramas e conciliações em que há equidade ou não.

Essas dimensões não se separam, estão fundidas no mundo. A questão ambiental tem dimensões jurídicas, econômicas e relacionais. Esgotamento dos recursos naturais explorados segundo a lógica que reduz as dimensões humanas a uma mera mercadoria: mercantilização da vida. O que vemos nos últimos tempos é o esvaziamento dessa dignidade em que trabalhador, o seu trabalho e o produto do seu trabalho perdem a condição de dignidade.

Como igreja, qual o nosso lugar diante dessa coisificação do humano e da natureza? Ética da solidariedade: está presente na Lei Mosaica, nos profetas, na literatura de sabedoria, na pregação e exemplo do Senhor Jesus e na pregação apostólica. Aquele que ama o seu próximo cumpre toda a lei, logo pratica a equidade. Se buscamos a justiça do Reino, a equidade está nela.

Na história da igreja isto está na pregação patrística. Os movimentos monásticos, com as abençoadas heresias e ordens mendicantes medievais que foram movimentos de protestos social, e também no pensamento reformado.

Cristianismo primitivo – o etos do amor ao próximo e a renúncia ao status à isso gerou uma experiência de equidade incomum no mundo antigo. Essa experiência das igrejas macedônicas, da Acaia e de Corinto foi resultado da Graça de Deus.

A ética da solidariedade só é possível em uma relação de horizontalidade. A coragem do amor radical ao próximo e de renúncia ao status nós precisamos reaver e retomar.

Alguns norteamentos para a missão:

A equidade como princípio, valor e prática exemplificada na encarnação de Jesus e da experiência da abundante graça comunitária. A ação generosa e voluntária resulta da graça, a propriedade privada se torna relativa ante a proporcionalidade da contribuição de acordo com as posses, “nem alívio para uns, nem sobrecarga para outros”, “para que haja igualdade”.

Citando John Stott:

  • Deus tem provido o suficiente para satisfazer as necessidades de todos;
  • Toda marca da disparidade entre abundância e carência e pobreza lhe é inaceitável;
  • Quando surge uma situação de séria disparidade, deve ser corrigida mediante um ajuste com o fim de lograr a igualdade ou a justiça;
  • A motivação de buscar a igualdade é o amor.

Uma agenda da missão:

Construir as possibilidades de uma ética da solidariedade.

Dizer que a concentração de poder religioso equivale à concentração de renda, à iniquidade.

Denunciar a falácia da equidade desde a lógica do capital.

Anunciar a equidade como vontade de Deus.

Praticar a equidade na dinâmica social das igrejas e comunidades.

Agregar-se a movimentos sociais que se propõem à construção da equidade em todas as dimensões.

 


* Lyndon de Araújo Santos é historiador, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica Congregacional em São Luís, MA. Equidade foi um dos três eixos temáticos que nortearam as palestras e exposições bíblicas do Congresso Caminhos da Missão: A Igreja e seu tempo, realizado entre os dias 26 e 29 de junho de 2017 em Vitória (ES). 

Texto publicado originalmente em http://tearfundbrasil.org/lyndon-de-araujo-temos-que-abandonar-logica-da-conquista-como-missao/

Quem é o meu próximo? Uma pergunta que não se faz…

Texto de Carlos Mesters publicado originalmente pelo Observatório da Evangelização

O porquê da perguntado doutorcross-jesus-bible-god-161034.jpeg

Quem é o meu próximo? Foi o doutor da Lei que fez a pergunta. Ele a fez, foi mais para justificar-se (Lc 10,29). Diante da reação de Jesus à sua pergunta anterior, ele ficou com vergonha. Perguntara: Mestre, o que devo fazer para obter a vida eterna? (Lc 10, 25). E Jesus, em vez de responder diretamente, disse: O que está escrito na lei? O que você lê ali? (Lc 10,26). Foi como se dissesse: Você, então, não sabe uma coisa tão evidente, você que se diz conhecedor da lei! E, querendo ou não, ele mesmo teve que dar a resposta: amar a Deus e amar ao próximo (Lc 10,27). Perguntara uma coisa já sabida de todos. Parecia uma desonestidade da sua parte. Por isso, para justificar-se, tornou a perguntar: E quem é o meu próximo?.

Mas não foi só para justificar-se e para salvar a sua reputação de doutor da Lei. Para ele, doutor da Lei, aquela pergunta era importante mesmo. Já imaginou: se o pagão não fosse próximo, se o romano, o pobre, o operário, a empregada em casa, não caíssem na categoria de próximo, isso faria uma diferença muito grande e tiraria da vida uma grande preocupação. Estaria livre de prestar-Ihes um serviço por amor. A miséria do mundo e a injustiça generalizada já não seriam uma acusação contra ele. Passaria tranqüilo ao lado dos pobres e das favelas, sem que a consciência lhe mordesse e lhe fizesse aqueles apelos incômodos. Pois a Lei, isto é, Deus, mandava amar somente os próximos, e aquela gente não era próximo. Já não haveria motivo para preocupar-se tanto. Saber direitinho quem era o próximo daria mais tranqüilidade. Realmente, para ele, o doutor, aquilo era uma pergunta muito importante, mas muito importante mesmo.

A resposta de Jesus

Jesus respondeu, mas respondeu a seu modo, como sempre, por meio de um exemplo tirado da vida. Tais exemplos ou histórias falam mesmo a quem não quer ouvir, pois da vida todos entendem ao menos alguma coisa. Jesus falou de um homem que desceu de Jerusalém para Jericó (Lc 10, 30), uns vinte quilômetros de viagem, pelo deserto perigoso de Judá, cheio de bandidos e ladrões, fugidos da polícia, e de subversivos e guerrilheiros, dispostos a matarem qualquer romano que passasse por lá. Esse homem passou por lá, e aconteceu o que se podia esperar. Caiu na mão de ladrões que o roubaram e o deixaram meio morto, ao lado da estrada, de tanta pancada que deram nele. Fugiram com o dinheiro (Lc 10,30). Quem sabe, naqueles dias mesmo tivesse ocorrido um assalto desse tipo. Estaria ainda bem vivo na lembrança de todos. Nada mais eficiente do que fazer um sermão com fatos da vida.

Passa um sacerdote no local onde agonizava a vítima. Era o doutor da Lei, passando ao lado da miséria do povo, agonizante, devido às feridas, feitas pela sociedade sem amor. O sacerdote era alguém que estava por dentro das coisas da religião, conhecia teologia, sabia situar-se, com a sua fé, neste mundo complicado. Chega lá olha e percebe o fulano indefeso que necessitava de ajuda urgente. Mas, na história que Jesus estava contando, o sacerdote olhou e passou, desviando para o outro lado da estrada. Deixou o homem ali. Não ajudou. Era o doutor da lei, passando ao lado da miséria do mundo e raciocinando consigo mesmo: Aquela gente não cai dentro da categoria de próximo. Portanto, não tenho nenhuma obrigação para com ela. Deus, aqui, nada me pede. Posso passar tranqüilo, sem correr o risco de perder a recompensa que Ele prometeu àqueles que observam fielmente a sua Lei. Estou dentro da Lei. A Lei está do meu lado! O sacerdote passou, como o doutor passava pela vida, tranqüilo, sem que a consciência lhe acusasse. O doutor, porém, pelo que parece, já não andava de todo tranqüilo, pois, do contrário, não teria feito aquela pergunta. Alguma coisa, lá dentro dele, o devia estar incomodando.

Passa, em seguida, um levita, um sacerdote de segunda categoria (Lc 10,32). Seria como um sacristão de hoje, alguém que, como o sacerdote e o doutor, estava por dentro das coisas da religião. Sabia aplicar as distinções necessárias, para não se sentir angustiado, neste mundo tão confuso, com tantos apelos. Também ele chegou, olhou e passou, pelo outro lado da estrada, tranqüilo com Deus e consigo. Não ajudou. O homem continuou estendido no chão, sangrando, meio morto. O mundo com a sua miséria continuava aí, sangrando pelas feridas aplicadas pela falta de justiça e não curadas por falta de amor entre os homens. E eram precisamente os que professavam sua fé no Deus justo e bondoso, os que deveriam protestar, reagir, ajudar, esses nada faziam: o doutor, o sacerdote, o levita. A esses, o outro não importava nem um pouco. Importava ter a consciência tranqüila, juridicamente tranqüila.

Chega um samaritano (Lc 10, 33). Na opinião do doutor, um samaritano era um energúmeno, um herege, um renegado, um bandido, um comunista ateu. O que é que esse samaritano vinha a fazer na história que Jesus estava contando? Até agora o doutor pôde segui-lo perfeitamente. Identificou-se com o sacerdote e o levita. Gente direita. Mas agora? Onde é que esse Jesus queria chegar? O samaritano chega, olha, pára, fica com dó, desce do cavalo, se aproxima, aplica curativo, joga azeite e vinho nas feridas, coloca o homem no seu próprio cavalo, vai a pé ao lado dele, leva-o até à hospedaria, recomenda o caso ao dono, cuida dele, paga pelos gastos e deixa ainda o aviso: Cuide bem desse homem. Caso as despesas forem mais, eu, na volta, pagarei tudo (Lc 10, 33-35). Depois continuou a sua viagem, também ele, tranqüilo. E para o samaritano, Deus não entrou, nem a lei. Foi o bom senso de um homem que não pode ver o outro sofrer.

A nova pergunta lançada por Jesus

Foi essa a história que Jesus contou como resposta àquela pergunta do doutor: Quem é o meu próximo? A história de um assalto. Não tirou nenhuma conclusão. Aliás, o doutor nem via como se poderia tirar alguma conclusãodessa história estranha. O que é que tudo isso tinha a ver com a pergunta que ele fizera? Também não era do interesse de Jesus dar uma resposta. Em vez de tirar uma conclusão e de dar uma resposta, ele prefere formular, ele por sua vez, uma nova pergunta.Perguntas incomodam mais do que respostas, porque forçam o outro a pensar: Jesus termina a história: Qual dos três lhe parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Era, novamente, a vez do doutor de falar. A pergunta de Jesus era bem diferente daquela que o doutor tinha feito. O doutor queria saber: Quem é o meu próximo?. Jesus nada respondeu, mas perguntou: Quem dos três se mostrou mais próximo? E o doutor teve que responder, querendo ou não: Aquele que usou de misericórdia para com ele (Lc 10, 37). De tanta raiva que tinha dos samaritanos, dos comunistas, nem sequer o identificou, e disse simplesmente: Aquele que usou de misericórdia. Então, Jesus encerra o assunto: Vai e faça o mesmo! (Lc 10,37). Terminou a conversa. O que será que o doutor pensou? Encontrou ou não encontrou uma resposta para a sua pergunta?

Jesus inverteu tudo. O doutor queria saber: Quem é o meu próximo? Queria ter um critério mais seguro para poder distinguir nos outros quem era e quem não era o seu próximo. Queria viver com a consciência mais tranqüila. Queria ficar livre do medo de não ter cumprido a Lei de Deus. Queria enquadrar os outros nos esquemas do seu próprio pensamento. Estava preocupado com o seu problema. Pouco ligava os outros. Mas, em vez de receber um critério nesse sentido, acaba de receber exatamente o contrário: um conselho de como ele mesmo devia fazer para tornar-se próximo dos outros. Não recebe um critério para poder julgar e classificar os outros, mas um estímulo para agir e aproximar-se dos outros. Caso, no futuro, não ajudasse o fulano caído nas mãos de ladrões e dele não se aproximasse, ele é que não estaria amando o próximo como Deus, isto é, a Lei, o mandava. Ele estaria fora da Lei. Em vez de tranqüilo, ficou mais angustiado ainda.

Pela história do assalto, Jesus fez saber que o erro do doutor estava na pergunta dele. Não se deve perguntar: Quem é o meu próximo? Isto é fuga! Isso é querer colocar em segurança a sua própria consciência, ao abrigo das exigências de Deus, que chegam até nós, em todas as esquinas da vida. Isso é querer obter mérito diante de Deus à custa do outro, identificado como próximo. O outro a quem se ama, por ser ele próximo, já não é amado por ele mesmo; mas é amado apenas porque eu, para poder salvar-me, devo amar o outro, o próximo. O outro, então, já não interessa mais. Já não interessa aquele que é amado nem aquele que não é amado. Interessa só eu que devo amar. Tal atitude é matar o amor na raiz. Faz cair o homem num egoísmo fechado, que já não permite abertura. A preocupação de saber quem é o próximo que deve ser amado, mata, na raiz, o amor ao próximo.

Próximo? Jesus o faz saber: isso depende de você mesmo. Se você se aproximar, você é que faz com que o outro fique mais próximo. Se você não se aproximar, ele jamais será o seu próximo. Não existe gente com rótulo na cabeça: Eu sou próximo! Então, vai depender de mim mesmo decidir quem é o meu próximo? Certo! E se eu não me aproximar dos outros, não terei próximo e não terei ninguém para amar e a Lei não se aplica a mim. Estarei dentro da Lei, sem fazer nada! Sem dúvida!, a aplicação e a execução da Lei fica a seu critério, fica a critério da sua aproximação do outro. Nesse caso, sobra ainda uma outra pergunta: Quando é que devo aproximar-me do outro? Leia a história do assalto que Jesus contou, veja quem cruza o seu caminho. Se ele precisar dos seus cuidados, então: Vá e faze o mesmo que o samaritano fez. Depende de sua generosidade e criatividade. Se esse outro é bom ou mau, ateu ou crente, protestante ou católico, comunista ou capitalista, terrorista ou cidadão cumpridor da Lei, samaritano ou herege, homossexual ou heterossexual, isso não vem ao caso. É homem? Precisa de você? Então, vá, e faça o mesmo. Em outro lugar, Jesus deu o seguinte critério: Tudo aquilo que você gostaria que o outro lhe fizesse, faça-o você a ele: isso é, em resumo, toda a Lei e os Profetas (Mt 7,12).

Conclusão

Próximo é todo aquele que cruzar o seu caminho, seja ele quem for, e do qual você se aproxima. Ou melhor, próximo não existe. Existe é você, com a sua obrigação de fazer-se próximo do outro. Fazer-se próximo, como o samaritano o fez, já é amar o outro como Jesus o quer. Com isso, tudo mudou totalmente.

A sociedade do doutor da Lei estava baseada no principio de que alguns são próximos, outros não. Hoje, na sociedade, existe a mesma coisa. Existem os que estão por dentro e os que estão por fora. Existem os que são aceitos, porque se adaptam aos critérios vigentes, e existem os que são marginalizados, porque não se adaptam ou porque não querem ou porque não podem. E todo mundo acha isso normal. Nós nos identificamos perfeitamente com o sacerdote e o levita da história do assalto. Se nós fôssemos hoje aplicar a parábola do bom samaritano, muita coisa iria mudar. Seria a revolução mais radical que jamais houve na história. Seria a coisa mais subversiva que a gente se possa imaginar. Somos todos como os doutores da Lei, querendo saber quem é o próximo. Tratar e conviver com alguém que a sociedade não aceita, que a Lei declara como não-próximo, isso poderia comprometer a nossa vida. E isso, nós não o queremos. Teremos que ouvir de novo que tais perguntas não se fazem. Seria querer esconder, debaixo da capa de uma suposta caridade, o apego que temos à segurança que a sociedade nos dá. Mas a miséria do mundo nos acusa, como ao doutor. Ninguém fica realmente tranqüilo. De vez em quando, incomodado pela realidade, todo o homem honesto faz como o doutor: quer saber quem é mesmo o próximo. E nesse sentido, a intranqüilidade da qual nasce a pergunta, essa é boa.