novembro 2010


Queremos partilhar com você nossa caminhada e aventuras na luta em favor do Reino!

Segue abaixo algumas fotos de atividades e viagens pelo Brasil afora. Gente boa dos encontros da ABU em Vitória e Montes Claros, turma da MPC de Garanhuns e ter o privilégio de tocar com o Stênio Marcius!

Para visualizar maior as imagens, basta clicar nelas:


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Caio César S. Marçal

 

“Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava”. João 13:23

Feche os olhos e imagine que é você o discípulo amado reclinando a cabeça no peito de Jesus. Essa passagem, que é de uma beleza poética fantástica, nos mostra um Deus que acolhe os seus oferecendo o peito. Fica aqui uma grande lição: Somos chamados a ouvir as batidas do coração de Deus no espaço de nossa caminhada espiritual.

Qualquer proposta de espiritualidade que não torna a pessoa sensível ao pulsar apaixonado do Senhor, é fria e incapaz do exercício da encarnação. Sendo assim, sua adoração não levará a amar e se dar como o Messias o fez e a prática religiosa será cínica. A missão uma mera encenação descomprometida com a verdade libertadora do evangelho.

Mas como podemos também ter o privilégio de hoje repousar nossa cabeça no peito de Jesus? Seria possível ter essa experiência maravilhosa em nossos dias?

Encontramos essa resposta na própria boca de Jesus. No capítulo 25 de Mateus, ele se assemelha aos pequeninos, esfomeados, esquecidos e marginalizados. Cristo hoje se manifesta na pessoa do carente e excluído. Sua face está estampada daqueles que estão fora de qualquer processo de dignidade ou valor pela sociedade moderna.

Sim, Jesus hoje vive em nosso meio e tem cara de índio, favelado, sem-teto. Se a dois mil anos atrás ele se fez homem, hoje ele se faz criança obrigada a comer restos de comida do nosso lixo e a se prostituir para sobreviver. Dorme quase despido nas noites frias das praças de nossas cidades. Deus hoje é aquela mulher pedinte que ousamos bater a porta de nossas casas na cara, tratando-a como um estorvo. Cristo é o negro jovem da periferia sem oportunidade ou perspectiva de vida decente e alvo preferencial das batidas policiais por suas características que o torna “matável”. É o sem-terra massacrado pelos latifundiários e perseguido pela grande mídia. O “Eu Sou” é o aidético de pele acinzentada morrendo que tanto tememos tocar, quanto mais recostar o peito!

Infelizmente parece que a miopia espiritual de nossa geração leva alguns a procurar Deus apenas nos limites de ritos e práticas religiosas. O barulho intenso de nossas vidas fez com que esses desaprendessem a ver Deus se movendo em nosso meio. São capazes de dizer que O amam e ao mesmo tempo serem totalmente alheios ao padecimento humano. Afirmam calorosamente sua salvação, mas seu caminho tem mais jeito é de inferno. Aliás, muito mais do que um lugar de fogo e enxofre, sempre é preciso lembrar que o inferno é, antes de tudo, a impossibilidade do amor.

Os “benditos de meu Pai” que herdarão o Reino são aqueles que identificam no próximo a pessoa do Bendito Filho de Deus e a trilham a vereda da justiça. Esses são capazes de deitar a cabeça no peito de quem sofre e ouvir a vida de Deus pulsando.

Que a graça de Jesus nos torne graciosos e que as ricas misericórdias de Deus nos faça mais misericordiosos!

 

Por Hernani Francisco da Silva

Nascido em 24 de julho de 1908, em Recife, filho de Manoel Abílio Trindade, sapateiro, e Merenciana de Jesus, doceira. O negro presbiteriano Francisco Solano Trindade, poeta, cineasta, pintor, homem de teatro e um dos maiores animadores culturais brasileiros do seu tempo, foi para vários críticos, o criador da poesia “assumidamente negra” no Brasil. As comemorações pelo centenário de Solano Trindade concentram-se nas três cidades em que ele viveu mais tempo. No Recife, onde fundou, em 1936, o Centro Cultural Afro-Brasileiro e a Frente Negra Pernambucana. Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde sofreu perseguições, prisões e apreensão de livros durante o governo Dutra. E em Embu, município de São Paulo, que ele ajudou a batizar como Embu das Artes, onde fica a sede do Teatro Popular Solano Trindade comandado por sua filha e herdeira artística Raquel Trindade.

 

Solano Trindade foi um dos fundadores do que mais tarde se conheceria como movimento negro. Reconhecia a necessidade do negro brasileiro assumir orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação, achava que isso deveria ser feito valorizando a cultura popular brasileira de matriz negra, sem excluir os brancos. Por isso fundou, o Teatro Popular Brasileiro, o sucesso do Teatro Popular foi tão grande que era convocado a realizar espetáculos especiais para todas as companhias estrangeiras que passavam por aqui. Solano desenvolveu também carreira de ator, participou de peças teatrais e vários filmes.

 

No final da década de 1920, Solano Trindade torna-se protestante, onde conheceu Maria Margarida Trindade, que era presbiteriana, do seu casamento com Maria Margarida nasceram seis filhos, dois mortos prematuramente e um assassinado pela ditadura militar após o golpe de 1964. Solano teve uma ação importante na igreja, chegou a ser diácono da Igreja Presbiteriana, fazia poemas e citava trechos bíblicos com facilidade, voltado principalmente para o Gólgota e os apóstolos Pedro, Tiago e João evangelista. Foi ali que ele começou o legado da sua vida, seus poemas foram publicados na revista protestante do Colégio XV de Novembro, de Garanhuns, e em jornais do Recife. Só depois dessa fase começaria a nascer a sua poesia negra.

 

Decepcionado com o distanciamento do protestantismo com as questões sociais, incluindo a discriminação contra os negros, ele deixa a igreja, justificando sua saída com um versículo da própria Bíblia: “Se não amas a teu irmão, a quem vês, como podes amar a Deus, a quem não vês?”

 

Assim como Solano Trindade passaram também pelo protestantismo João Cândido, o marinheiro negro, membro da Igreja Metodista de São João de Meriti, que liderou a Revolta da Chibata um importante movimento social ocorrido, no início do século XX, na cidade do Rio de Janeiro. E também o líder camponês João Pedro Teixeira, negro, crente da Igreja Evangélica Presbiteriana, fundador da Liga Camponesa de Sapé na Paraíba. Retratado no filme “Cabra Marcado para Morrer” de Eduardo Coutinho, um marco qualitativo da cinematografia brasileira. Estes e muitos outros, negros e negras passaram por nossas igrejas e deixaram um legado para a humanidade.

 

Em 2008, ano do centenário do nascimento do “poeta negro” o “poeta do povo”, é hora da Igreja Protestante Brasileira resgatar sua memória, dando o reconhecimento a Solano Trindade e muitos outros negros e negras, que contribuíram e contribui para o reino de Deus aqui na terra.


João Cândido: vitória sobre a chibata

desafiando as chibatas

Por Mário Maestri

O destino prometia ao menino negro vida movimentada e, quem sabe, prazerosa. Seus pais haviam sido escravos e ele ingressava, aos 14 anos, na Escola de Aprendizes Marinheiros do Rio Grande do Sul, pela mão protetora do poderoso almirante Alexandrino de Alencar, seu conterrâneo. Mesmo sendo a vida de marujo coisa de índio mui macho, o jovem João Cândido Felisberto mostrou-se feito para a empreitada.

Em 1895, aos 15 anos, no Rio de Janeiro, entrou definitivamente na Marinha e embarcou-se no cruzador Andrada, apresentando, logo, dotes e aptidões especiais. Apesar da pouca idade, revelou-se um “apaziguador das brigas e conflitos” dos marujos, chegando, na função de sindicalista avant la lettre, a ser acusado de “bajulador de oficiais”, devido às boas relações com os superiores.

No encouraçado Riachuelo, conheceu Montevidéu e Buenos Aires e, no pequenino Jutahy, visitou Belém e Manaus, no caminho do Acre. Outras embarcações levaram-nos a inusitados destinos, sugerindo um mundo sem horizontes ao menino que nascera entre as cercas de uma fazenda perdida do interior gaúcho. Em fins de 1909, encontrava-se em New Castle, na Inglaterra, para habituar-se ao manejo do poderosíssimo encouraçado Minas Gerais.

Como a República do café, da borracha e do cacau vivia vacas gordas, os senhores da nação decidiram o aparelhamento faraônico da Marinha, dizimada na Revolta da Armada [1893]. Nada menos do que três couraçados, três cruzadores-couraçados, seis caça-torpedeiros, doze torpedeiros, três submarinos, um navio carvoeiro!

Porém, como já era assaz comum no Brasil da época, os senhores do Brasil embelezavam a fachada, enfeitavam o hall, mobiliavam a sala e despreocupavam-se, olimpicamente, com a cozinha. Os navios eram o que havia de melhor, as condições de vida e trabalho da maruja assemelhavam-se às dos navios tumbeiros dos tempos do tráfico!

O soldo era baixo; a comida ruim; o trabalho, duríssimo. As mínimas faltas eram castigadas com tronco, solitária e ginástica punitiva, executada até quase o desfalecimento, a temida “sueca”. Em plena República, os marinheiros apanhavam bolos e eram vergastados, como cativos dos tempos da escravidão. Piorando tudo: a soberba oficialidade orgulhava-se de seu “sangue limpo” e desprezava uma maruja formada por negros, mulatos e caboclos.

Na Inglaterra, os marujos conheceram o movimento sindical e socialista europeu e informaram-se sobre a revolta, de 1905, dos marinheiros russos do Potemkin, contra seus oficiais. A velha tradição de luta, expressa em pequenas revoltas anteriores, conheceu salto de qualidade, ensejando ampla e bem organizada conspiração pelo fim da chibata e por melhores condições de trabalho e vida.

Talvez a grande contribuição do ensaio biográfico de João Cândido, do jornalista Fernando Granato – O negro da chibata: o marinheiro que colocou a República na mira dos canhões [Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. 139 pp.] – seja a ênfase posta nas razões que levaram João Cândido, com apenas 30 anos, a transformar-se, quase naturalmente, no porta-voz da revolta dos marinheiros. Ou seja, sua liderança anterior à revolta entre os marujos e sua proximidade com a oficialidade.

Os sucessos de 22 a 26 de novembro 1910, abordados pioneiramente pelo jornalista Edmar Morel, em A revolta da chibata, subsídios para a história da sublevação na Esquadra pelo marinheiro João Cândido em 1910 [3ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979], são já conhecidos, ainda que importantes momentos dos acontecimentos teimem em permanecer no desconhecimento: o papel na revolta do marinheiro-paioleiro Francisco Dias Martins; as confabulações dos conspiradores; o sentido da segunda rebelião, de 10 e11 de dezembro; a divisão de posições entre os marujos, em novembro e dezembro etc.

Menos conhecida é a trajetória da vida de João Cândido após a ruptura da anistia, concedida e desrespeitada, iniquamente, pelo Parlamento e pelo presidente Hermes da Fonseca, que ensejou o massacre da ilha da Cobras e do navio Satélite, entre outros covardes crimes praticados contra marujos desarmados.

Aprisionado, internado, julgado e inocentado de todas as acusações, João Cândido foi libertado, aos 32 anos de idade, no Rio de Janeiro, tuberculoso e sem recursos, quando os fatos eram ainda candentes. Procurando adaptar-se à nova vida, tentou, com sucesso inicial, a sorte na marinha mercante, de onde foi rapidamente desembarcado pelo dedo acusador do comandante dos portos de Santa Catarina, que exigiu que o líder da maruja fosse lançado novamente no desemprego.

Fechando-se o mar ao Almirante Negro, por meio século, João Cândido navegou por entre os escolhos do desemprego, do subemprego e de uma aposentadoria miserável, rota de cabotagem singrada invariavelmente pela imensa maioria da população brasileira trabalhadora negra, daquelas e de nossas épocas.

As alegrias e agruras pessoais; a simpatia para com a Aliança Nacional Libertadora, em 1935; a militância destacada nas filas dos fascistas tupiniquins de Plínio Salgado, até 1938; sua atribulada visita ao Sul, em 1961; as homenagens prestadas pelos marinheiros, em 1964, são episódios de sua biografia abordados, em breves flashs, por Fernando Granato, num texto sempre agradável e ameno.

Em 6 de dezembro de 1969, no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar, encerrava-se a existência atribulada desse marinheiro que suportou, sobre as suas costas largas, as desditas normais do negro pobre brasileiro e as glórias de ter dirigido um dos mais fulgurantes movimentos sociais de nosso passado.

Um destino singular, que certamente esmaeceu as mais descomedidas expectativas do menino que assistia, embasbacado, a evolução vagarosa das barcaças do seu Jacuí natal, sem saber que a vida lhe reservaria o papel de Prometeu Negro, castigado, na eternidade de sua vida longa, pelo crime de desafiar os falsos mas poderosos deuses do Olimpo nacional


Nos dias 13, 14 e 15 de novembro, preguei no Encontro Nacional de Jovens da ACEV. O tema foi “SEDE DE JUSTIÇA”. O encontro foi em Patos, na Paraíba.

Muito jóia ver jovens pentecostais do sertão paraibanos desejosos de viver um evangelho verdadeiro, que promove o Reino e sua Justiça!

Segue algumas fotos(clique em cima para aumentar a imagem):

Segue depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, 24 anos. Dominicano. (redigido por ele mesmo na prisão). Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo. Esperamos que ao divugá-lo, possamos nos manter vigilantes na defesa da liberdade e da democracia!


Fui levado do presídio Tiradentes para a “Operação Bandeirantes”, OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno”. Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.

Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.

Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me “telefones” (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do “pau-de-arara”. O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pesada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.

Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.

Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. “Vai ter que falar senão só sai morto daqui”, gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na “cadeira do dragão” (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao “pau-de-arara”. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.

“Nosso assunto agora é especial”, disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. “Quando venho para a OB – disse – deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede… Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo “não” que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber”. Eram três militares na sala. Um deles gritou: “Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)”. Quando respondi: “não sei” recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.

Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte “metidos na subversão”. Partiu para a ofensa moral: “Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?”. Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido “a toque de caixa” e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo “tratamento”. Disse que a “Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo”. Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.

Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma “explicação”. Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O “interrogatório” reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estomago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo “corredor polonês”. Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no “pau-de-arara”. Mas o capitão Albernaz objetou: “não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis”. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”.

Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.

Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.

Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: “o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos”. Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a “gillete” para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pronto-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: “Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos”. No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.

No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: “A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo”. Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.

Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era “uma estupidez” e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.

De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.

É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.

A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo

“Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2Cor, 8-9).

Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.

Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970

cartaz pronto-reduzido

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