Moro e Neymar: a vaidade é o pecado favorito do Diabo

 Wilson Roberto Vieira Ferreira

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Em 72 horas os maiores investimentos semiótico-ideológicos da grande mídia foram desconstruídos: Sérgio Moro e Neymar Jr. O primeiro caiu na armadilha do habeas corpus que supostamente iria soltar Lula. E o segundo, na arapuca tautista midiática que fez o jogador acreditar que era intocável, até a viralização do mote “cai-cai” em vídeos pelo mundo eliminá-lo junto com a Seleção. Duas bombas semióticas: uma intencional (o objetivo não era soltar Lula, mas criar um fato político para o mundo) e outra involuntária (efeito da blindagem tautista da mídia e mercado publicitário).

Al Pacino fazendo o papel do próprio demônio em “O Advogado do Diabo” tinha razão: “a vaidade é meu pecado favorito…”. A vaidade dos juízes e do jogador deixou-os cegos. A mídia sentiu o golpe: enquanto o Fantástico teve que se desfazer de Neymar (“hoje não se tolera mais ludibriar o juiz”, fuzilou Tadeu Schmidt), Globo News começou a falar em “instabilidade jurídica” e “politização do Judiciário”. Bombas semióticas perfeitas que produzem efeitos fatais: detonação, letalidade, impasse midiático e dissonância cognitiva.

“Vaidade… definitivamente é o meu pecado favorito!”, diz Milton, o Diabo disfarçado de advogado em O Advogado do Diabo, 1999, ao ver Keanu Reeves cair mais uma vez na mesma armadilha criada por ele no início do filme.

Essa foi a casca de banana jogada pelos advogados e deputados Wadih Damous e Paulo Pimenta com o pedido de habeas corpus no TRF-4. Em férias, o juiz de primeira instância Sérgio Moro caiu na verdadeira arapuca da vaidade. Criou um imbróglio e expôs a autofagia do Judiciário.

Como um verdadeiro homem-bomba, o desembargador plantonista Rogério Favreto expediu o habeas corpus no domingo e determinou a soltura imediata de Lula dos cárceres da PF de Curitiba. Moro acusou o golpe e, desesperado e com orgulho ferido, ligou para o diretor-geral da Polícia Federal para os carcereiros não acatarem a ordem. E em seguida, também para o relator da Lava Jato no TRF-4, Gebran Neto.

Criado o impasse, teve que entrar em cena o presidente do TRF-4, Eduardo Thompson Flores (o campeão da Globo com uma entrevista de destaque aoFantástico, antes do julgamento de Lula em segunda instância no Tribunal Federal de Porto Alegre) para por fim à “batalha de decisões”, o que só explicitou todo o freak out de juízes feridos no orgulho.

De repente, todos voltaram de férias. Todos querendo ser o juiz de plantão, reivindicando ser o juiz natural do processo – fogueira das vaidades: como assim, um juiz petista vai libertar Lula depois que todos correram e leram milhares de páginas de processos em tempo recorde para prender Lula antes das eleições?

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Tudo começou no triplex do Guarujá

A estratégia do Empate

Quebra de hierarquia e um cabo de guerra que poderiam ser sido facilmente evitados libertando Lula para, em 24 horas, o STF indeferir a decisão do desembargador plantonista. Mas a armadilha da vaidade foi bem armada: expos os intestinos do Judiciário, o voluntarismo político de Moro, além de criar um explosivo fato político num momento em que Lula estava “esquecido” pela grande mídia.

Bomba semiótica perfeita, com timing mas, principalmente, pela estratégia ativista do “empate” – tática intermediária entre o pacifismo e o belicismo para criar um impasse institucional. Que lembrou um outro gol anterior da esquerda: a invasão do triplex do Guarujá pelo MTST e a Frente Povo Sem Medo em abril.

Lá a ocupação criou um potencial impasse institucional (se o apartamento é de Lula, então estavam autorizados pelo dono para invadirem; se não, quem vai pedir a retomada de posse? – clique aqui). Mas aqui, na expedição dohabeas corpus, o impasse se deteriorou em um cabo de guerra, quebra de hierarquia, desobediência e posicionamento político explícito em decisões supostamente processuais.

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Moro e a isca

Era óbvio que e a libertação de Lula cairia rapidamente no STJ. Mas era o que menos importava. O ardil estava em outra cena, assim como em abril no Guarujá: lá, foi o vídeo gravado no interior do tríplex desmentindo os supostos 1,2 milhões investidos pela OAS; em Porto Alegre, a isca da vaidade que expôs a politização do Judiciário. Tão politizado quanto a bomba semiótica de efeito retardado jogada pelo PT.

Como vimos na postagem anterior sobre a invasão do tríplex, a perfeita bomba semiótica produz como efeito: Detonação, Letalidade, Dilema Midiático e Dissonância Cognitiva.

(a) O timing da Detonação

Uma bomba de efeito retardado aproveitando o timing da eliminação do Brasil na Copa. A derrota brasileira foi à tarde. À noite, os advogados deram entrada com o habeas corpus no TRF-4.

Aliás, o mesmo timing da grande mídia: seguindo a denúncia da Globo no portal G1 e no Jornal nacional na noite de sexta, a mídia repercutiu a denúncia contra o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, de oferecer facilidades de serviços públicos para pastores, igrejas evangélicas e fiéis. Além da Globo voltar ao bate-bumbo da Lava Jato no Estado do Rio.

Eliminada a Seleção, a opinião pública sai do transe. Para a bomba semiótica da vaidade explodir em pleno domingo.

Será que a esquerda está aprendendo a lutar no mesmo campo simbólico da grande mídia?

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Valdo e Camarotti: pegos de surpresa nas suas residências gaguejando

(b) Letalidade: Globo sentiu o golpe

Não tem preço ver apresentadores e comentaristas de política da Globo News como Gerson Camarotti e Valdo Cruz pegos de surpresa no domingo, falando de suas residências via Internet, todos gaguejando e tentando costurar alguma narrativa para dar sentido a tudo.

Primeiro, tentando desautorizar o desembargador que determinou a soltura de Lula: filiado ao PT por 19 anos etc. Argumento fraco, já que ministros como Joaquim Barbosa foram indicados por Lula e nem por isso deixaram de colaborar com o golpe de 2016. Sem falar de juízes e ministros do STF com íntimas relação com políticos tucanos flagrados em festas e eventos.

No mínimo, a esquerda estaria lutando com as mesmas armas tão familiares a seus adversários. 

Segundo, com o argumento de que o PT faz o jogo de “politizar decisões judiciais”.

Para no dia seguinte mostrarem que sentiram o golpe: Natuza Nery teve que admitir a “instabilidade jurídica”, “quebra de hierarquia”, “cabo de guerra” e “politização do Judiciário” que deve ser resolvida pelo STF com uma “mudança de legislação”… Bola passada para a presidenta do STF Carmen Lúcia.

Mais tarde na TV aberta,  no Jornal Nacional, o episódio nem mereceu figurar na escalada. Acabou espremido entre as notícias da Copa e da família real inglesa… A Globo parecia tentar superar o dilema midiático do domingo, simplesmente não falando mais do assunto.

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Como mostrar aquilo que se deseja esconder…

(c) Dilema midiático: como noticiar aquilo que prova o que se pretende esconder?…

Típico dilema, efeito do marketing de guerrilha que está na essência da bomba semiótica: como sócia do consórcio jurídico-midiático que atualmente pauta a vida política nacional, como deixar de noticiar um evento cuja própria descrição desmente a narrativa dos comentaristas da Globo?

Todas últimas munições foram gastas para tentar provar que não havia “fato novo” (a prisão de Lula que supostamente atrapalharia a isonomia entre os candidatos à eleição presidencial), como justificou Rogério Favreto na expedição dohabeas corpus. Porém, a própria mobilização atabalhoada de juízes em tempo recorde para manter Lula preso confirmaram que há, sim, um fato novo: a proximidade da campanha à presidência com um dos candidatos preso.

Sentindo esse dilema, o Jornal Nacional decidiu nem colocar o assunto na escalada da edição de segunda-feira.  

(d) Dissonância cognitiva: desconstrução da narrativa

Até esse momento, a narrativa sustentada pela grande mídia era que todo o processo judicial e a sentença que levou o ex-presidente à cadeia eram “tecnicamente irrepreensíveis”, “imparciais”, resultado do “exame irretocável das provas dos autos”.

A ação desesperada, transformando magistrados em lutadores num ringue no qual tentavam, a todo custo, manter as aparências através de todas as “data vênias” que o “juridiquês” pode proporcionar, foi a dissonância suficiente para contradizer a narrativa dominante da imparcialidade – que nem os colunistas políticos conseguiram mais sustentar: agora, clamam para Carmen Lúcia fazer alguma coisa para manter a “estabilidade jurídica”.

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Tadeu Schmidt: depois de defender em jogos anteriores, finalmente teve que despachar o Neymar

Desconstruindo Neymar

A grande mídia (liderada pela Globo) e o mercado publicitário criaram na mente de Neymar Jr. a ilusória blindagem tautista. E mais uma vez, Al Pacino tem razão: a vaidade é o pecado favorito do Diabo.

O jogador sentiu-se no centro de todos os olhares com a narrativa midiática do “craque caçado em campo”. Com toda a sua autoindulgência, esqueceu de jogar bola graças à performance “overacting” ridicularizada no mundo inteiro. Tal como um ator canastrão. Quando caiu em si (desculpem o trocadilho…), já era tarde.

Até a Globo teve que despachá-lo com uma crônica, cheia de dedos e pisando em ovos, feita pelo apresentador Tadeu Schmidt no Fantástico desse último domingo.

Mais uma vez, a Globo sentiu o golpe. E ironicamente, enquadrando Neymar Jr. no indefectível discurso anticorrupção que martela diariamente: “Houve um tempo que era bonito ludibriar o juiz, não incomodava ninguém. Hoje, não se tolera mais… que as imagens de Neymar no chão não escondam todas as jogadas e o brilho que produziu…”, alertou Schmidt.

Ou seja, para a Globo, Neymar foi corrupto, tentando enganar juízes na Copa.

Enquanto isso, Moro e o imbróglio dos desembargadores some da escalada do telejornal da rede.

A esquerda está aprendendo a lutar no mesmo campo simbólico dos seus adversários.


Texto publicado originalmente em https://cinegnose.blogspot.com/2018/07/moro-e-neymar-vaidade-e-o-pecado.html#more

 

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O dia em que Fernando Holiday descobriu que é preto

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Como diz aquele velho ditado: “Nada como um dia após o outro”. E não é que esse dia chegou para o vereador e ex-menudo do MBL, Fernando Holiday? O mesmo, que durante a campanha prometeu aos seus eleitores que as suas primeiras medidas como vereador seriam combater o vitimismo, acabar com as cotas raciais em concursos públicos e revogar o dia da consciência negra.

O problema é que Fernando Holiday sempre se comportou como branco, ou como o preto de alma branca, que a casa grande costuma adotar como seu. E só descobriu que é tão preto, como todos os outros, os quais ele costuma ignorar o preconceito sofrido, ao ser chamado de “Capitãozinho do mato” pelo presidenciável Ciro Gomes. “Esse Fernando Holiday aqui é um capitãozinho do mato. Porque a pior coisa que tem é um negro usado pelo preconceito para estigmatizar, que era o capitão do mato no passado”, disse Ciro.

Ciro Gomes se referia, justamente, às ideias expressas por Holiday e ao seu posicionamento diante da questão racial no país. Posicionamento este que fez com que ele (Holiday) se tornasse o queridinho da direita branca, neoliberal e racista, que sempre precisou de um preto para chamar de seu ou para servir como exemplo de uma meritocracia forjada nas entrelinhas do nosso racismo estrutural e institucionalizado.

O mote do preto, gay e favelado, como o próprio Fernando Holiday já se apresentou, é o enredo ideal para contar uma história de igualdade racial e de justiça social, escrita pela parte mais racista, preconceituosa e seletiva da nossa sociedade. E o que passar disso, é vitimismo, “mi mi mi” ou qualquer outra bobagem que valha. De certa forma, os capitães do mato de outrora eram usados de forma semelhante.

Normalmente, eram pretos alforriados ou até mesmo ainda escravizados, que eram selecionados pelos senhores de engenho, para vigiar escravos rebeldes e capturar os fugitivos. Podendo inclusive, serem encarregados de açoitá-los ou de aplicar-lhes castigos ou punições. Devido a autonomia e o “cargo de confiança” que exerciam, estes pretos já não se consideravam iguais aos outros e faziam de tudo para servir aos seus senhores como todo zelo e empenho, para provar que nem todos os pretos eram “iguais” e que eles podiam ser considerados diferenciados. Tanto devido ao bom trabalho realizado, quanto a negação de suas origens.

Fernando Holiday se comporta, sim, como um capitão do mato moderno. O cavalo foi substituído pelo carro oficial e o chicote deu lugar a uma caneta, cujo uso parlamentar tem como prioridade, açoitar os direitos conquistados a duras penas, pela comunidade preta. Tudo para agradar aos seus senhores. Os mesmos que financiaram a sua campanha e o concedeu a chancela de ser um preto bem aceito. Nunca igual a eles, porém, aceito. Pelo menos até quando ele estiver do lado certo.

Ao dizer que vai processar Ciro Gomes por injúria racial, o vereador feriado contradiz a sua superioridade meritocrática e sucumbe ao mesmo “vitimismo” que ele tanto condena. Mas pelo menos o seu “mi mi mi” pode ser considerado legítimo e literal. Porque é por conveniência e tem a finalidade de atrair o apoio daqueles os quais, ele sempre desprezou os sentimentos. Em seu Twitter, o vereador do DEM publicou que “Ciro Gomes responderá na justiça pela injúria racial proferida e, não tenho dúvida, será rejeitado pelo povo brasileiro, brancos e negros, que não admitem o atraso do racismo.”

O oportunismo de Holiday é digno de um capitão do mato, covarde e vendido que ao primeiro revez desce do cavalo, põe o chicote entre as pernas e chama os escravos que ele sempre açoitou para beber um copo d’água e descansar um pouco na sua companhia e à sombra da sua falsidade. Uma prova disso é o outro twitter que ele publicou e que diz: “Ser acometido por ataques racistas como esse é a triste realidade de todos os negros deste país, julgados e apontados pela cor de sua pele, e não por sua capacidade, suas ideias e realizações.”

A bipolaridade de Holiday é mais do que oportuna. O seu Alzheimer ideológico é providencial, mas é apenas em sua legítima defesa. Deve ter sido bem doloroso para alguém que se julga incomparável com os outros de sua mesma etnia, ver-se retratado de forma tão precisa, fiel e conveniente, nas palavras de um branco. Que decepção! Pensara ele que todos os brancos fossem iguais aos “sinhozinhos” e as “sinhás”, que o patrocinaram e delegaram a ele função de “caçar” os pretos “fugidos” de hoje em dia, que se recusam a se submeterem a opressão estrutural e sistêmica, e devolver-lhes na condição de novos escravizados.

Tem preto que gosta de sentir o único branco da turma. Holiday é desse jeito. Não foi fácil chegar onde ele chegou. Tem que ter estômago forte e caráter fraco. Não é justo, que depois de todo o apoio dado a direita golpista, toda reverência prestada ao pato amarelo, todo combate aos direitos adquiridos por seus irmãos de etnia e toda a dignidade perdida, trocada por uma cadeira na câmara municipal de São Paulo, ele agora seja comparado com um preto.

É muita injúria!


Nêggo Tom é músico. Texto publicado originalmente em https://www.brasil247.com/pt/colunistas/neggotom/359029/O-dia-em-que-Fernando-Holiday-descobriu-que-%C3%A9-preto.htm

As próprias pedras Gritaram – relato de tortura de Frei Tito

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Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, então com 24 anos. Dominicano. O texto redigido por ele mesmo na prisão. Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.
Fui levado do presídio Tiradentes para a “Operação Bandeirantes”, OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno”. Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.
Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.
Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me “telefones” (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do “pau-de-arara”. O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pe sada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.
Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.
Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. “Vai ter que falar senão só sai morto daqui”, gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na “cadeira do dragão” (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao “pau-de-arara”. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.
“Nosso assunto agora é especial”, disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. “Quando venho para a OB – disse – deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede… Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo “não” que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber”. Eram três militares na sala. Um deles gritou: “Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)”. Quando respondi: “não sei” recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.
Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte “metidos na subversão”. Partiu para a ofensa moral: “Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?”. Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido “a toque de caixa” e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo “tratamento”. Disse que a “Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo”. Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.
Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma “explicação”. Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O “interrogatório” reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estômago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo “corredor polonês”. Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no “pau-de-arara”. Mas o capitão Albernaz objetou: “não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis”. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”.
Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.
Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.
Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: “o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos”. Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a “gillete” para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pron to-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: “Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos”. No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.
No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: “A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo”. Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.
Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era “uma estupidez” e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.
De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.
É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.
A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo.
“Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2Cor, 8-9).
Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.
Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970

Moradia e movimentos sociais: ‘Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito’

via Rede Brasil Atual*

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Entidades prestam solidariedade às famílias desalojadas de ocupação incendiada em São Paulo, repudiam a criminalização dos movimentos sociais e exigem enfrentamento da questão da moradia pelo poder público

São Paulo – Em notas divulgadas na noite de terça-feira (1˚), um total de 38 movimentos sociais ligados à luta por moradia manifestaram solidariedade às cerca de 150 famílias vítimas do incêndio que destruiu uma ocupação no centro da capital paulista, na madrugada do mesmo dia. As entidades também repudiam a tentativa – pela mídia tradicional e pelo poder público – de responsabilizar os moradores pela tragédia e cobram políticas públicas que atendam à demanda por moradia popular na cidade e no país.

“Reafirmamos mais uma vez: as ocupações não são uma escolha, mas a única opção para milhares de famílias, diante da grave crise que assola o país e da falta de políticas públicas de habitação”, disse o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto(MTST), em nota própria.

As entidades, além de reafirmar a unidade dos movimentos por moradia, exigem a responsabilização do Estado pelas omissões que resultaram na tragédia – em que ao menos uma pessoa morreu e, até a manhã de hoje (2) 44 estavam desaparecidas –, e medidas que façam o enfrentamento à especulação imobiliária, que inviabiliza o acesso à habitação para as famílias de baixa renda.

“Enquanto a população de baixa renda é penalizada, os latifúndios urbanos concentram dívidas milionárias e descumprem reiteradamente a Constituição Federal. Quantos prédios ainda irão cair até que sociedade e governos entendam que a moradia é um direito de todos e um dever do Estado? Permaneceremos mobilizados?”

O MTST explica ainda que não tem ocupações no centro de São Paulo e que não cobra das famílias nenhuma taxa por fazerem parte das ocupações organizadas, como foi divulgado de forma mentirosa.

Leia as íntegras das notas:

Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) tem mais de 20 anos de história de luta por moradia no Brasil. Nesse período colaborou para que milhares de pessoas tivessem acesso à moradia digna, um direito constitucional negado a mais de 6 milhões de famílias no país.

Nos últimos dois anos, estivemos na linha de frente das lutas e denúncias contra os cortes no orçamento da habitação. No ano de 2017, o governo Temer destinou apenas 9% dos valores previstos com moradia no orçamento. A faixa mais afetada foi a de baixa renda, que compreende famílias que recebem até 1.800 reais. Enquanto isso a Caixa Econômica ampliou o limite de financiamento para imóveis de luxo, uma completa inversão de prioridades.

O incêndio no edifício no Centro de São Paulo essa madrugada (1º de maio) deixou mais de 150 famílias desalojadas; não se sabe ainda o número exato de vítimas.

A solidariedade às famílias que perderam tudo nessa tragédia é dever de todos nesse momento. Não podemos aceitar que uma catástrofe como essa seja utilizada para criminalizar aqueles que lutam por uma vida mais digna. Por isso repudiamos notícias tendenciosas da imprensa e comentários como o do governador Marcio França, que culpam as próprias famílias pelo seu infortúnio. Repudiamos também comentários preconceituosos que se amontoam nas redes.

Reafirmamos mais uma vez: as ocupações não são uma escolha, mas a única opção para milhares de famílias, diante da grave crise que assola o país e da falta de políticas públicas de habitação.

Aproveitamos o momento para esclarecer alguns pontos:
  • A ocupação vítima do incêndio não era organizada pelo MTST e sim por outro movimento de moradia, o Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM);
  • Desde que tivemos acesso às notícias do incêndio, integrantes do MTST, juntamente com outros movimentos de moradia de São Paulo se mobilizaram para discutir estratégias de solidariedade às famílias;
  • O MTST não tem ocupações no centro de São Paulo e não pratica a cobrança de nenhum valor das famílias organizadas em nossas ocupações.

‘Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito’

Na madrugada do dia 1º de maio de 2018, em São Paulo, uma tragédia aconteceu na ocupação do Largo Paissandu. As entidades e movimentos sociais que atuam na defesa do direito à moradia vêm manifestar solidariedade às famílias que estavam no imóvel. É inadmissível que este momento de tristeza e dor seja manipulado pelos verdadeiros responsáveis por tais situações para criminalizar os movimentos e os trabalhadores de baixa renda, que não têm alternativa senão viver nas ocupações.

As famílias que vivem em ocupações são vítimas do descaso, da irresponsabilidade do Estado e da especulação imobiliária – que impõem alto custo de habitação, sobretudo nas áreas centrais. Não é a primeira e não será a última tragédia, enquanto o investimento público para o enfrentamento do problema habitacional não for significativo e comprometido com o acesso à moradia como um direito.

Enquanto a população de baixa renda é penalizada, os latifúndios urbanos concentram dívidas milionárias e descumprem reiteradamente a Constituição Federal.

A Prefeitura desrespeita o Plano Diretor, uma vez que há mais de um ano deixou de notificar os proprietários de imóveis que não cumprem a função social da propriedade, o Governo Federal corta o Programa Minha Casa Minha Vida para os mais pobres e o Governo do Estado tem apostado suas ações na implantação das Parcerias Público-Privadas, que não atendem os mais pobres e enriquecem as empreiteiras e donos de imóveis.

Ainda, o Poder Judiciário – que goza de um imoral auxílio moradia – ignora o descumprimento da lei pelos proprietários e se posiciona, via de regra, pelo despejo e remoção de milhares de famílias, agravando a desigualdade social. Existem inúmeros imóveis públicos em plenas condições de reforma para uso habitacional.

As ocupações são a resposta das famílias organizadas frente a essa situação. Os atuais Governos, ao acusar os movimentos, demonstram uma atitude covarde por parte daqueles que são os principais responsáveis por essa crise e, em aliança com o mercado, pelo aprofundamento da tragédia urbana.

Por fim, reiteramos unidade na resistência de cada ocupação e exigimos: a responsabilização do Estado em cada recusa à regularização de energia elétrica, saneamento e prevenção de riscos em ocupações; o investimento público na viabilização de moradias dignas; o enfrentamento à especulação imobilária; políticas de mediação de conflitos fundiários com participação popular; a conversão dos edifícios ociosos em moradia popular; e a regularização fundiária de ocupações.

Quantos prédios ainda irão cair até que sociedade e governos entendam que a moradia é um direito de todos e um dever do Estado? Permaneceremos mobilizados.

São Paulo, 1º de maio de 2018

Assinam:

Central de Movimentos Populares
Frente de Luta Por Moradia
UMM SP – União dos Movimentos de Moradia
MTST
Movimento de Moradia para Todos
Frente Brasil Popular
Frente Povo Sem Medo
Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Peabiru TCA
Usina CTAH
Laboratório Justiça Territorial UFABC
Coletivo de ocupações, favelas e cortiços da cidade de São Paulo
Observatório de Remoções
Observa SP
Labcidade FAU USP
LabHab FAU USP
Fórum Aberto Mundaréu da Luz
Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo – SASP
Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico – IBDU
Instituto Pólis
Rede Mulher e Habitat
Secretaria Latino Americana de Vivienda y Habitat Popular
Hic – Coalizão Internacional Habitat
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1
Movimento de Moradia da Região Sudeste
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra da Zona Oeste
Unificação das Lutas de Cortiços e Moradia
Movimento em Defesa do Favelado da Região Belem
Movimento de Defesa dos Favelados – Santo André
Associação dos Sem Teto Taboão Diadema
Associação Independente Da Vila Nova Esperança
Associação de Moradores da Sólon
Movimento de Moradia City Jaraguá
Movimento de Moradia na Luta por Justiça
Associação Nossa Luta Nossa Terra Diadema
Central Pró Moradia Suzanense Cemos
Movimento Independente de Luta Por Habitação de Vila Maria – Ocupação Douglas Rodrigues
Associação de moradores Pantanal capela do socorro
Movimento Terra Livre

As raízes afro-americanas do cristianismo de Bonhoeffer

Alan Bean

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Dietrich Bonhoeffer foi o único cristão proeminente na Alemanha a compreender as terríveis implicações espirituais de Adolf Hitler e os nazistas desde o início. A famosa “primeira vez que eles vieram para” litania de Martin Niemoller esboçou um padrão típico na Alemanha do Terceiro Reich:

Primeiro eles vieram para os socialistas, e eu não falei – 
Porque eu não era socialista. 
Então eles vieram para os sindicalistas, e eu não falei – 
Porque eu não era um sindicalista. 
Então eles vieram para os judeus, e eu não falei – 
Porque eu não era judeu. 
Então eles vieram para mim – e não havia mais ninguém para falar por mim.

Bonhoeffer percebeu desde o início que Jesus estava ao lado dos socialistas, dos sindicalistas, dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais, dos intelectualmente desafiados e de todos os outros substratos da sociedade visados ​​pelos nazistas. Karl Barth, o principal autor da famosa Declaração de Barmen , tomou uma posição corajosa contra os nazistas, e ele não estava sozinho. Mas, como sugere o mea-culpa de Niemoller , “a Igreja Confessante” estava primariamente preocupada com a reescrita da teologia cristã pelos nazistas; a situação das vítimas não-cristãs de Hitler era estritamente secundária.

Reggie Williams, professor assistente de ética cristã no Seminário Teológico McCormick, argumenta em seu livro recente, Bonhoeffer’s Black Jesus , que Dietrich Bonhoeffer entendia a alma nazista porque via a realidade alemã através das lentes da teologia negra americana mediada pela pregação de Adam Clayton. Powell Sr., pastor da Igreja Batista Abissínia do Harlem.

Reggie Williams

Este não é um livro sobre a teologia de Bonhoeffer, por si só. Muita teologia trai a suposição de que o pensamento humano é abstraído das dificuldades da experiência. Felizmente, Williams não comete esse erro.

Williams começou a refletir sobre as raízes negras do cristianismo de Bonhoeffer durante um curso ministrado pelo Dr. J. Alfred Smith, pastor sênior da Allen Temple Baptist Church em Oakland, Califórnia. “A espiritualidade afro-americana é uma espiritualidade que nasceu e moldou no calor dA opressão e sofrimento ”, Smith disse aos seus alunos. “A negritude é uma metáfora para o sofrimento. Conhecer a negritude é estar ligado ao sofrimento, esperança e propósito dos negros. ”

Bonhoeffer passou a “conhecer a negritude” como bolsista de Sloane no Union Theological Seminary, em Nova York, durante o ano acadêmico de 1930-1931. Williams argumenta, persuasivamente, que o talentoso prodígio teológico manteve uma cosmovisão tipicamente alemã quando chegou à União.

A Alemanha foi humilhada pelo Tratado de Versalhes que responsabilizou o povo alemão pela carnificina da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha entrou na grande depressão mundial de 1929, já cambaleante sob as reparações econômicas paralisantes impostas em Versalhes.

Além disso, os vencedores da Primeira Guerra Mundial privaram a Alemanha de suas posses coloniais. Com a maioridade durante esse doloroso período, a teologia antiga de Bonhoeffer enfatizou a necessidade de solidariedade com o Volk alemão, um povo que, apesar de todo o seu infortúnio, representava o ápice da evolução humana. A religião era misturada com a vida cotidiana, e o principal negócio da vida cotidiana era restaurar o orgulho nacional alemão.

A expressão predominante do cristianismo na Alemanha do pós-guerra foi um mal-estar do luteranismo, do darwinismo social e do nacionalismo fundido em uma visão triunfalista da história descrita como a ordem de criação de Deus. … O conceito de ordens tornou-se um suporte teológico para a língua nazista de sangue e solo, ou superioridade racial e um puro Volk..

Tomando sua sugestão de Willie Jennings , Williams caracteriza a academia teológica européia como o produto de “uma imaginação social doentia”.

A infecção ocorreu quando a teologia se fundiu com o sistema colonial para fornecer autoridade religiosa para centrar o mundo no imaginário europeu, tornando Cristo um homem europeu branco e oferecer uma apologética para a dominação e o autoritarismo.

O que WEB Du Bois chama de “a linha da cor” foi um resultado direto da fidelidade européia a um Cristo branco. Williams argumenta que:

O projeto de teologia no colonialismo foi dividido nesta assembléia [européia]; era primariamente doutrinal e conceitual, sem conteúdo para a conduta cristã. Essa divisão era necessária para justificar a dominação de corpos estranhos que acompanhavam a classificação dos seres humanos pela raça, assegurando as vantagens da branquitude e acomodando as práticas do colonialismo.

A ideologia nazista, em outras palavras, era uma expressão notória da teologia imperialista e eurocêntrica que dominava o mundo branco. “O Cristo branco era o músculo teológico da estrutura de poder da linha de cor e suas manifestações globais”, diz Williams. “Colonização, imperialismo, nacionalismo e terrorismo branco na América” ​​faziam parte da mistura.

O livro é intitulado Black Jesus off Bonhoeffer porque, acredita Williams, o Jesus branco da teologia europeia não conseguiu captar o significado espiritual do racismo, do imperialismo ou, mais significativamente, do desafio nazista ao cristianismo.

Apenas a Igreja Negra, Williams afirma, poderia dar testemunho de um Jesus negro. Bonhoeffer, como qualquer estudioso de sua vida sabe, ficou angustiado com o tipo de espiritualidade oferecido no Union Seminary e as igrejas brancas que ele encontrou na América. Imerso no que muitos consideram o ponto alto da religião liberal americana, Bonhoeffer não se impressionou.

Em Nova York, eles pregam praticamente tudo; apenas uma coisa não é abordada, ou é abordada tão raramente que até agora não consegui ouvi-la, a saber, o evangelho de Jesus Cristo. … Então, o que está no lugar da mensagem cristã? Um idealismo ético e social sustentado por uma fé em progresso que – quem sabe como? – reivindica o direito de se chamar de “cristão”.

Cristãos conservadores usaram comentários desse tipo para reivindicar Bonhoeffer como um deles; mas Williams chama isso de um erro. Não havia nada mais tipicamente “conservador” na América do que o cristianismo de Jim Crow que floresceu no sul. O Jesus Negro de Bonhoeffer argumenta que Bonhoeffer entendeu a religião nazista observando-a através das lentes da linha de cor norte-americana e suas viagens no sul dos Estados Unidos foram particularmente instrutivas a esse respeito. O teólogo alemão não se inspirou em brancos cristãos americanos, liberais ou conservadores.

Williams não está sugerindo que todas as igrejas negras eram igualmente hábeis em discernir e proclamar o Jesus negro, mas (seguindo J. Alfred Smith) ele argumenta que o distintivo sofrimento da América negra, refletido de modo pungente no que então se chamava “espirituais negros, ”Implicou uma crítica do Jesus branco da Europa.

A imaginação teológica branca do período foi capturada pela tensão entre as versões fundamentalista e liberal do cristianismo. Oito anos antes de Bonhoeffer chegar à América, Harry Emerson Fosdick havia pregado “Shall the fundamentalists win”, um sermão que, através das ministrações de John D. Rockefeller Jr., acabaria por fazer de Fosdick o pastor fundador da Igreja Riverside de Manhattan, localizado logo abaixo. rua do Seminário da União. A preocupação cristã negra transcendia essa tensão liberal-conservadora porque tinha preocupações mais imediatas.

A maioria dos brancos liberais não via a supremacia branca como uma questão de atenção cristã e, como consequência, ignoravam os perigos constantes da vida cotidiana dos negros na América. Mas evitar o racismo não era uma escolha para os cristãos afro-americanos; era uma questão de vida ou morte em uma sociedade organizada pela raça e imposta pela violência.

O guia de Bonhoeffer para o mundo do cristianismo negro do Harlem foi Albert Fisher, o filho de Charles Fisher, pastor da Igreja Batista de 16th Street de Birmingham e, como Bonhoeffer, um membro da Sloan na Union. O jovem alemão podia descer a rua pela esplêndida Riverside Church de Fosdick por iniciativa própria; mas ele precisava da amizade de Albert Fisher para cruzar a linha da cor.

Williams não está sugerindo que o breve período de estudo de Bonhoeffer na América tenha sido a única influência significativa em seus pensamentos posteriores. Matthew Kirkpatrick argumentou recentemente que o “cristianismo sem religião” desenvolvido por Bonhoeffer em uma prisão nazista foi inspirado pela crítica radical de Soren Kierkegaard à cristandade e duvido que Williams discorde. O argumento é que o encontro de Bonhoeffer com o Jesus negro no Harlem permitiu que ele simpatizasse com o sofrimento do povo marginalizado tão profundamente que, em seu retorno à Alemanha, o espírito diabólico do Nacional-Socialismo de Hitler foi prontamente aparente.

O título completo do livro de 140 páginas de Williams é Black Jesus: A Teologia do Renascimento do Harlem e uma Ética da Resistência, de Bonhoeffer . O autor nos leva a um rápido tour pela Harlem negra de meados da década de 1930, apresentando-nos o trabalho de WEB Du Bois, Alain Locke, Claude McKay, Geórgia Douglas Johnson, Langston Hughes e Countee Cullen.

Como essas vozes muitas vezes discordantes debatiam, discutiam, faziam sermões, anatematizavam e batizavam, surgiu uma perspectiva única que transcendia os limites da teologia americana branca. Alguns no Harlem argumentaram que o cristianismo era indelevelmente associado à supremacia branca para ser útil aos afro-americanos.

Mas havia outra opção. Talvez os cristãos brancos que introduziram negros africanos ao Cristo não conhecessem seu Salvador muito bem. Talvez o horror da experiência negra na América pudesse lançar luz sobre esse homem de tristezas. Muitas vezes, os poemas e ensaios emergentes do Harlem Renaissance encontram espaço para todos os lados deste debate.

Countee Cullen, The Black Christ, explica

Como o Calvário na Palestina, 
Estendendo-se para mim e para o meu, 
Era apenas a primeira folha em uma linha, 
De árvores em que um Homem deveria balançar O 
mundo sem fim, em sofrimento.

Bonhoeffer fez referência ao The Black Christ em sua escrita e seguiu as principais figuras do Harlem Renaissance nas páginas da Crisis da NAACP e da Opportunity da National Urban League. Reinhold Niebuhr, um dos professores de Bonhoeffer na Union, às vezes fazia alusão aos escritores negros em suas palestras. Em uma carta a Niebuhr em 1933, Bonhoeffer aludiu a um ensaio (agora perdido) sobre literatura negra que escreveu durante o seu ano na América.

“A prática de unir-se aos afro-americanos no Harlem”, diz Williams, “deu a Bonhoeffer a capacidade de ver mais claramente a distinção entre uma teologia prejudicial da glória, representada por um Cristo branco que recusa encarnação e empatia, e a teologia mais saudável de a cruz que revela a presença de Deus escondida no sofrimento ”.

Williams sugere que Bonhoeffer aprendeu tanto com as jovens vozes desdenhosas que rejeitaram o Jesus branco como uma causa sem esperança, como ele aprendeu com aqueles, como Georgia Douglas Johnson, que abraçou um Jesus negro.

Venham irmãos, levante a sua voz, 
o Cristo nasce, vamos nos alegrar! 
E para toda a humanidade vamos orar, 
Esquecendo os erros neste dia. 
Ele foi desprezado e nós também, 
como ele, vamos ao Calvário; 
Ele nos conduz por sua mão sangrando, 
Por caminhos que não entendemos. 
Venham irmãos, levante a sua voz, 
o Cristo nasce, vamos nos alegrar! 
Não devemos ao mundo inteiro dizer – 
Deus te abençoe! É dia de Natal!

A associação de Bonhoeffer com a Igreja Batista Abissínia permitiu-lhe ir além das expressões literárias da América negra para a experiência vivida de uma congregação excepcional vivendo em tempos difíceis. As cartas de Bonhoeffer revelam a profundidade de seu envolvimento no Abyssinian:

Todos os domingos, às 2:30 da tarde e junto com meu amigo [Albert Fisher], e muitas vezes como seu substituto, [eu] tinha um grupo de jovens negros na escola dominical; Eu conduzi estudo bíblico para algumas mulheres negras e uma vez por semana ajudei em uma escola da igreja durante a semana. Assim, não só me familiarizei com vários jovens negros; Eu também visitei suas casas várias vezes. Essa familiaridade pessoal com os negros foi um dos eventos mais importantes e gratificantes da minha estada na América.

O abissínio era um mundo estrangeiro para o alemão aristocrático, mas isso era uma grande parte do seu charme. Bonhoeffer havia encontrado uma nova maneira de ver o mundo. Williams chama o Renascimento do Harlem de uma “transformação comunitária da consciência”. Muitas das novas idéias e teologias experimentais eram novas para Adam Clayton Powell Sr. também, e o pastor de Bonhoeffer estava elaborando os contornos de uma nova teologia nas manhãs de domingo.

Powell foi fortemente influenciado pelo movimento do evangelho social com sua ênfase no envolvimento criativo com o sofrimento humano, injustiça institucional e solidariedade com os pobres. Mas os ícones do evangelho social como Washington Gladden, Josiah Strong, Theodore Munger e Walter Rauschenbusch estavam cativos demais para um otimista modelo darwiniano de evolução cultural para prestar muita atenção aos perdedores na competição racial dos Estados Unidos. A sociedade humana estava evoluindo em uma direção gloriosa, o pensamento se foi, e a raça branca estava na vanguarda da revolução. Homens como Josiah Strong repreendiam a “raça branca” por sua exploração insensata das “raças menores”, mas a supremacia branca era simplesmente assumida .

Adam Clayton Powell

Powell herdou a estrutura básica de sua teologia dos teólogos evangélicos sociais brancos, mas nas mãos dos pensadores brancos essa tradição foi prejudicada pelo otimismo do racial chauvinismo que Williams disseca nas primeiras páginas deste livro. Powell entendeu que ele estava empurrando a lógica social do evangelho para o território virgem:

 

A igreja negra é a única igreja que se opõe persistentemente ao linchamento e o púlpito negro é o único púlpito que tem pregado incessantemente a irmandade do homem.

O Harlem Renaissance se desenrolou durante a pior depressão econômica da história americana e uma “Grande Migração” que atraiu centenas de milhares de afro-americanos da opressão racial severa do sul dos EUA para cidades do norte como Chicago, Detroit, Cleveland e, é claro, Harlem .

A Grande Migração trouxe os negros para o Harlem, esperançosos e sonhando com uma terra prometida, para enfrentar o desapontamento e o desespero. Em seu desespero, eles se voltaram coletivamente para a igreja negra como sua ajuda e centro familiar de comunidade.

Powell estava criando “uma experiência negra da igreja que é fortalecida por uma interpretação negra de Cristo no contexto da sobrevivência afro-americana”. Powell admitiu a realidade do “cristianismo opiáceo”, mas localizou a raiz do problema no que Williams chama de “o compartimentalização do cristianismo, em vez de cristianismo abrangendo toda a vida ”.

O tumulto social em torno da Abyssinian Baptist Church deixou Powell insatisfeito com os princípios relaxantes do liberalismo branco otimista. “O homem precisa ser terminado”, disse ele, “mas ele não pode ser terminado até que seja desfeito.” A ascensão intelectual a proposições teológicas não significava nada, ensinava Powell, se o que acreditamos está desconectado de um mundo em sofrimento. Os migrantes desesperadamente pobres que chegavam ao Harlem no auge da Grande Depressão pediam a conversão da Igreja.

É também nosso dever obter posições de homens e mulheres durante essa depressão do desemprego, como é levá-los à igreja. … Um homem faminto e frio não terá muita paciência com uma palestra sobre espiritualidade.

Foi essa ênfase na fé vivida, Williams acredita, que moldou como Bonhoeffer “entendeu o que a igreja deveria estar fazendo quando a luta da igreja começou em 1933.… A tradição de Jesus, o cosufferer escondido no sofrimento e vergonha que Bonhoeffer encontrou dentro do ministério de Powell e dentro do movimento literário do Renascimento do Harlem permaneceu com ele quando ele voltou para casa ”.

O Bonhoeffer que retornou à Alemanha depois de um ano tumultuado na América surpreendeu, encantou e muitas vezes confundiu luteranos sofisticados. Enquanto no Harlem, ele comprou dezenas de gravações de espirituais afro-americanos e jogou-os incessantemente para as classes e grupos de jovens que ele estava envolvido. A combinação tipicamente africana-americana de rigor acadêmico e simplicidade evangélica que Bonhoeffer descobriu nos Estados Unidos frequentemente surpreendeu seu público.

Um dos estudantes de Berlim de Bonhoeffer recordou a franqueza e “simplicidade” com que Bonhoeffer “nos perguntou se amamos Jesus”. Aquele diferente Bonhoeffer foi quem mais tarde se manifestaria contra o racismo nazista e se tornaria o célebre autor de Creation and Fall , Life Together. , Discipulado, e Ética.

Se a tese básica que Williams apresenta no Black Jesus de Bonhoeffer resiste ao escrutínio, os cristãos americanos devem lutar com um paralelo espiritual próximo entre a “pureza racial dos Volks” dos nazistas e nossa obsessão (geralmente não falada) com a supremacia branca. Williams joga a luva com força surpreendente (surpreendente para leitores brancos, isto é):

A devoção do Volkish ao puro sangue alemão, com seus anseios étnicos, nacionalistas e imperialistas, era o equivalente alemão da humanidade normalizada da versão americana da supremacia branca. … Ver a sociedade a partir da perspectiva oculta do Harlem ajudou Bonhoeffer a reconhecer a supremacia branca na Alemanha e a vê-la como um problema cristão que poderia exigir uma ação política cristã. … Por ter sido exposto ao racismo americano a partir da perspectiva dos cristãos a quem foi submetido, Bonhoeffer estava equipado com uma visão profética que seus colegas brancos alemães na igreja e na academia não tinham.

E isso, em poucas palavras, é o motivo pelo qual Bonhoeffer foi capaz de ter empatia com os judeus, os sindicalistas, os ciganos e o restante das vítimas de Hitler: ele havia visto esse movimento antes.

Poderia Bonhoeffer ter entrado no doloroso sofrimento da Igreja Batista Abissínia e do Renascimento do Harlem se ele tivesse vindo de Birmingham para Nova York em vez de Bonn? Provavelmente não. E é por isso que o livro de Williams deveria nos abalar. Se ele está certo (e ele é), os cristãos americanos brancos (e a Igreja americana branca), em todas as suas manifestações teológicas e ideológicas, deixaram de perceber algo crítico. Não podemos capturar a poderosa simplicidade de Jesus, a menos que nos arrependamos de nossa dependência da supremacia branca em pano de saco e cinzas.

É possível uma coisa dessas? Em grande escala, provavelmente não. Mas pouco a pouco, aqui e ali, de vez em quando, o Jesus negro insinua seu caminho em nossas almas brancas. E se isso for verdade, há esperança.


Alan Bean é diretor executivo da Friends of Justice, uma aliança de membros da comunidade para defender a reforma da justiça criminal. Ele mora em Arlington, Texas.
Texto publicado originalmente em  https://baptistnews.com/article/the-african-american-roots-of-bonhoeffers-christianity/#.WtuZX9PwYkg

Ataque à Síria: o perigo do uso ideológico da Bíblia

Por Juan Fonseca

juan

“Todo o reino da Síria deixará de existir, como a cidade de Damasco; Além disso, as cidades do norte, que são o orgulho de Israel, ficarão sem muros. Eu sou o Deus Todo-Poderoso, e juro que assim será “(Isaías 17: 3 ).

Estes dias, as redes sociais foram inundadas por este versículo da Bíblia a fim de sustentar a idéia incrível que a agressão pelas potências ocidentais para a Síria foi predito há séculos pelo profeta Isaías e, nesse sentido, é um cumprimento da vontade de Deus. A fraqueza desta abordagem foi fortemente refutada por vários teólogos e exegetas, então eu não pretendo para fazer uma nova refutação. Eu recomendo em particular a reflexão do teólogo Gabriel Gil. Este incidente me levanta sim uma reflexão sobre os perigos representados pelo fundamentalismo ideológico que faz uso da Bíblia, particularmente no contexto de expansão imperial.

Isso não é novidade, claro. Desde o cristianismo aliado com poder, teólogos e exegetas têm usado a Bíblia para justificar processos tais como as Cruzadas (XI de séculos XIII), a invasão européia da América (século XVI) ou a partição imperialista de África, Ásia e Oceania (século XIX). A este respeito, uma das melhores obras que li é a do RS Sugirtharajah (A Bíblia e o Império, Explorações Pós-coloniais, Madri: Akal, 2009). Neste trabalho, este biblista indiana mostra como os processos hermenêuticos construído nas comunidades cristãs da Inglaterra vitoriana apropriados, reapropriada e até mesmo mutilado as passagens bíblicas, não só para justificar a expansão imperialista, mas também para construir identidades religiosas e nacionais. Mas também mostra como,

Na América Latina, ambos os processos ocorreram, mas principalmente o primeiro. O fundamentalismo evangélico tem sido um dos principais proponentes desse uso colonialista da Bíblia.

Lembro-me quando ainda adolescente fiquei interessado em teologia, eu encontrei em livros da biblioteca de meu pai chamada “literatura profética” (Hal Lindsey, David Wilkerson e outros) que se dedicaram para relacionar os textos bíblicos com processos geopolíticos contemporâneos assumindo que tudo o que estava acontecendo séculos foi previsto atrás pelos autores bíblicos. Lembro-me ainda que as escolas bíblicas evangélicas da época foi o curso de “profecia bíblica”, em que os alunos foram treinados para manter esta abordagem pitoresca a história política e mundial. Como os alunos das “profecias” eram fundamentalistas cristãos e sionistas fervorosamente Republicano americano, todas as leituras associadas maus atores com a União Soviética (Gog e Magog em Ezequiel 38 e 39), Vaticano (a “grande prostituta” de Apocalipse 17 e 18), a União Europeia (a besta com “dez chifres” pois então a Comunidade Européia tinha apenas dez membros, Daniel 7: 7-8) e a China (o “exército do Oriente” na batalha do Armagedom, Apocalipse 16: 12-16). Após a queda do Muro de Berlim, eles “adaptaram” suas interpretações para associar os “bandidos” do simbolismo apocalíptico ao mundo islâmico (a chamada Janela 10-40).

Em contraste, os “mocinhos” sempre foram Israel e os Estados Unidos. Lembro-me, em particular, uma classe em que explicou a passagem em Apocalipse 12:14: “E eles foram dadas à mulher as duas asas de grande águia, para que voasse da serpente no deserto, ao seu lugar, onde é sustentado por um tempo e tempos e meio tempo “. O professor disse que a mulher grávida representado Israel (então eu encontrei uma outra interpretação que associado com a Igreja) eo “grande águia” foram os Estados Unidos, o poder político graça para Israel e / ou a Igreja da ameaça de ” grande dragão “(China?).

Todas essas lembranças vieram a mim agora, depois de ver como o fundamentalismo evangélico e o sionismo cristão, aliados inquebráveis, continuam sendo vitais em seu esforço de manipular a mensagem bíblica para colocá-la a serviço da política externa americana. Há alguns anos, Kevin Phillips, em seu livro American Theocracy (2005), denunciou como essa aliança ultraconservadora foi um dos fatores mais influentes na política externa dos EUA. Parece que ainda estão agora e recuperaram uma enorme força na era Trump.

Como crente, a vitalidade de uma corrente que destrói a essencialidade da mensagem bíblica para colocá-la a serviço do poder não deixa de parecer desanimadora. O fundamentalismo é realmente uma das maiores ameaças da fé cristã, porque sua abordagem enfraquece enormemente a possibilidade de que a Bíblia continue a ser relevante para o mundo no futuro. Se algo ficou claro na história cristã, é que uma das razões pelas quais a mensagem bíblica tem mantido sua relevância tem sido sua capacidade de “traduzir” para diferentes culturas e tempos, para ser interpretada a partir da experiência e ser reler da opressão para ser um instrumento de libertação. Foi isso que os cristãos afro-americanos fizeram nos Estados Unidos ou nas comunidades de base latino-americanas.

Em vez disso, o fundamentalismo é uma leitura que congela a vitalidade da Bíblia para transformá-la em um instrumento de opressão religiosa ou política. E isso acontece pela rigidez da ignorância, porque se alguma coisa caracteriza os fundamentalistas de todos os tempos é acreditar que a memorização e a leitura literal são as únicas habilidades para demonstrar que “você conhece a Bíblia” e que, além disso, isso é O suficiente para “ler os tempos”. Foi isso que os fariseus da época de Jesus fizeram, assim como seus herdeiros contemporâneos nos seminários fundamentalistas. Eles até mesmo falam sobre política, ciência, cultura ou arte a partir da visão limitada dos versículos bíblicos que eles interpretaram mal ou mutilaram para atender aos seus interesses.

A outra coisa que caracteriza os fundamentalistas é a tendência ao dualismo em suas visões do mundo: eles o “bom” e o resto o “mau”, “perdido”, “hereges”, etc. Nesse sentido, para aqueles que não compartilham esse ponto de vista, é sempre recuperar o sentido cristocêntrico da hermenêutica: a mensagem de amor de Jesus como um paradigma que ilumina (ou deveria iluminar) qualquer interpretação da Bíblia. Então poderíamos recuperar essa virtude do texto sagrado dos cristãos: narrar como Deus agiu em meio a diferentes épocas e culturas, através de pessoas de diferentes identidades e crenças, a fim de reconciliar o ser humano consigo mesmo, com seu próximo, com a terra e com deus. Para fazer isso, devemos ir alémda carta e procurar a marca do amor que está por trás dela. Se não há amor nas letras, então a carta deixa de ser relevante para a fé e se afasta do espírito libertador dos ensinamentos de Jesus. E neste momento não há nada mais carente de amor do que justificar guerras e bombardeamentos com a Palavra de Deus.


Texto publicado originalmente por ALC Notícias