Gênero não é ideologia: explicando os Estudos de Gênero

Georgiane Garabely Heil Vázquez

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Nos últimos anos, este campo de estudos acadêmicos tem sofrido com a difusão de termos estranhos a ele, como o de “ideologia de gênero”, e com a propagação de informações falsas ou questões há tempos superadas.

Nos últimos anos, pesquisadores e pesquisadoras dos Estudos de Gênero vêm sofrendo uma série de ataques (alguns, violentos) contra as temáticas que estudam e problematizam. A princípio, nada de novo, uma vez que os Estudos de Gênero foram durante muito tempo marginalizados por setores dentro das próprias universidades. No entanto, o aumento da propagação de discursos equivocados sobre o campo nos últimos anos, especialmente no Brasil, chama a atenção para um de seus principais combustíveis: a desinformação.

A fim de desfazer certas confusões – algumas mal-intencionadas – proponho discutir o que é, afinal de contas, o conceito de gênero. De uma forma simples, direta e acadêmica, pretendo contribuir para um debate bastante pertinente tanto no campo das pesquisas como nos debates públicos que ocorrem pelo país.

 

Gênero e Feminismos

Não é possível entender o que são Estudos de Gênero sem compreender o movimento feminista, que começa no cenário internacional no século XIX e reivindica direitos civis para as mulheres. É muito reconhecida a luta pelo direito ao voto, mas é importante lembrar que essa não era a única reivindicação – as mulheres tinham pouco direitos e muito pelo que lutar. A mulher casada, por exemplo, era considerada pela lei brasileira “incapaz” e sob tutela do marido – o que somente foi alterado na legislação em 1962, com a Lei 4.121.

No espaço universitário, os feminismos – no plural devido à heterogeneidade do movimento – iniciaram uma trajetória em meados do século XX. Na História, por exemplo, a incorporação da categoria mulher está relacionada a todo um movimento historiográfico de renovação no campo de conhecimento. A história demográfica, a história da família e a ideia de uma história “vista de baixo”, na qual também deveriam ser contadas as vidas de pessoas comuns, de operários e operárias, de camponeses e camponesas, entre outros, contribuíram significativamente para a compreensão de que era necessário se escrever sobre Mulher – nesse primeiro momento ainda no singular, ou seja, ainda pensada como uma categoria homogênea.1

Entre o fim dos anos de 1970 e o início da década de 1980 as historiadoras feministas – principalmente ligadas ao feminismo norte-americano – começaram a problematizar as particularidades que existiam entre elas próprias. A categoria Mulher já não dava conta de explicar a multiplicidade de experiências e subjetividades. Joana Maria Pedro argumenta que as mulheres negras, particularmente, questionaram o gesto excludente da escrita da História das Mulheres, revelando as fraturas internas não só da História, mas do próprio feminismo acadêmico ao mostrar as armadilhas e ilusões da categoria Mulher. Desde então, feministas como Angela Davis e Bell Hooks, colocaram o dedo na ferida ao dizer que as mulheres não viviam da mesma forma a experiência de ser mulher. Outras variáveis precisavam ser levadas em consideração, como classe, cor, escolaridade, dentre outros aspectos que precisavam ser compreendidos.

 

Gênero: que negócio é esse?

É neste contexto que chegamos à questão do uso da palavra Gênero no final da década de 1980. Quando Joan Scott publicou seu famoso artigo “Gênero: uma categoria útil de análise”, na American Historical Review, em 1986 (clique para ver o original em inglês e traduzido para o português em 1990), ela visava demonstrar que a imensa produção da História das Mulheres havia chegado a um impasse: ou ficava numa categoria suplementar ao mainstream historiográfico, ou forçava uma transformação no interior da disciplina e do conhecimento histórico. Defendendo a segunda posição, Scott então propõe o gênero como categoria de análise e não como um tema ou um objeto. E como categoria, ela propõe a perspectiva de gênero para análise, inclusive, das estruturas e dos discursos políticos:

O gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político tem sido concebido, legitimado e criticado. Ele não apenas faz referência ao significado da oposição homem/mulher; ele também o estabelece. Para proteger o poder político, a referência deve parecer certa e fixa, fora de toda construção humana, parte da ordem natural ou divina. Desta maneira, a oposição binária e o processo social das relações de gênero tornam-se parte do próprio significado de poder; pôr em questão ou alterar qualquer de seus aspectos ameaça o sistema inteiro (SCOTT, 1990, p.92).

Scott aponta, de maneira muito interessante, para um dos eixos mais polêmicos que os Estudos de Gênero enfrentam hoje no Brasil. Não se trata de negar as diferenças sexuais e corporais entre homens e mulheres, mas de compreendê-las não como naturais e determinadas, mas como relações sociais e de poder, que produziram hierarquias e dominação. Para Scott, gênero é a organização social das diferenças sexuais. É um saber que estabelece significados para as diferenças corporais.

Já em 1989, Judith Butler publica “Gender Trouble“, que no Brasil foi lançado em 2003 com o título “Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade“, mostrando o caráter performativo do gênero. Nele, Butler questionou a ideia de que sexo está exclusivamente ligado à biologia e de que gênero relacionado à cultura, como o debate era apresentado até aquele momento por boa parte das pesquisadoras e pesquisadores da área. Ela questionou a ideia de que o gênero fosse uma espécie de “interpretação cultural do sexo”.

Para Judith Butler, a ideia de performatividade de gênero compreende a noção de que sexo e gênero são discursivamente criados e que, ao se desnaturalizar o sexo, deve-se também desnaturalizar o gênero. Portanto, não se trata de negar a existência de sexo ou de gênero, mas de historicizar tais diferenças, procurando analisar as estratégias discursivas que as consolidaram. Nesse ponto, a meu ver, encontra-se uma das contribuições mais significativas da obra de Judith Butler: dar visibilidade ao fato de que existem corpos que “importam” – corpos enquadrados no sistema heteronormativo – e corpos que “não importam” – o que a autora chama de corpos abjetos. Esses, dentro da lógica binária, podem ser vistos como “corpos desviantes”, culturalmente inintelegíveis e que ameaçam as estruturas de poder. Pessoas gays, lésbicas, transexuais e intersexuais acabam por demarcar fronteiras que não deveriam ser cruzadas dentro do sistema heteronormativo e, dentro desse sistema excludente, seus corpos não são aceitos, ou melhor, a existência dessas pessoas não é aceita. Tal exclusão acabou por colocar em risco a vida dessas pessoas, gerando intolerância, mortes e inúmeras outras violências.

Assim, Butler propôs a reflexão sobre as armadilhas na naturalização do gênero. De lá para cá, se passaram 30 anos. E todo esse período foi de muita luta para a consolidação de um campo de investigação acadêmica.2

A expressão “ideologia de gênero”, que tanto tem sido empregada nos dias de hoje para criticar os Estudos de Gênero, não é uma categoria acadêmica ou um objeto de pesquisa. Como vimos, os pesquisadores e pesquisadoras que se dedicam o entendem justamente no contrário: que gênero não é uma ideologia. Para eles, a expressão “ideologia de gênero” é estranha, uma anomalia. Quem fala (e muito) em “ideologia de gênero” são os movimentos conservadores – muitas vezes com explicações falsas e sem fundamento.

 

Estudos de gênero hoje

Os Estudos de Gênero nunca tiveram como objetivo modificar a sexualidade de ninguém – até porque os pesquisadores e pesquisadoras da área não acreditam que a orientação sexual ou a identidade de gênero das pessoas sejam modificáveis como querem fazer crer seus detratores. Nunca defenderam pedofilia ou incentivaram a erotização infantil. Nunca foram “ideologia”.

Aliás, os Estudos de Gênero possuem como uma de suas principais características a interdisciplinaridade, o que amplia seus temas de pesquisa. Diferentes áreas, não só das Ciências Humanas, mas também as Ciências Sociais Aplicadas, as Ciências da Saúde e as Ciências Exatas vêm se dedicando às pesquisas em Gênero.

Trata-se, ainda, de respeitar as diferenças sexuais e enxergar sujeitos históricos que têm sido apagados das narrativas históricas: gays, lésbicas, trans, intersexuais e bissexuais. Significa compreender que o “mundo privado” também é político e que, portanto, o direito à cidadania deve efetivamente ser de todas, todos e todes.

Pesquisas sobre sexualidades existem dentro dos Estudos de Gênero, porém – e parece ser necessário repetir – não se trata de conspirar para mudar a orientação sexual de ninguém. As pesquisas sobre sexualidade variam em quantidade proporcional e, na maioria das vezes, procuram analisar trajetórias, sociabilidades ou mesmo subjetividades dos indivíduos relacionando tais conceitos à sexualidade – sejam os indivíduos heterossexuais ou não.

Também são temas dentro dos Estudos de Gênero: a maternidade, os sentimentos, a religiosidade, a assistência, a participação política, os racismos, as interseccionalidades e o próprio movimento feminista, isso só para citar algumas poucas áreas.

Não existe ideologia de gênero! E se os Estudos de Gênero puderem impactar de forma transformadora em nossa sociedade, será na construção de um mundo mais justo e igualitário. Um mundo em que meninas não sejam mortas por namorados. Um mundo sem violência doméstica, sem exploração sexual. Um mundo em que ninguém tenha medo da igualdade de direitos e deveres.

 

Notas:

1 É importante destacar, assim como fez Joana Maria Pedro (2011), que não existe, pelo menos no Brasil uma total linearidade entre as categorias mulher, mulheres, gênero. Tais palavras/conceitos/categorias, transitam em títulos de artigos e projetos variados, sem um rigor cronológico.

2 Os Estudos de Gênero hoje figuram como uma das áreas mais consolidadas nas universidades internacionais e brasileiras. No Brasil contam com revistas especializadas de alto impacto como a REF (Revista de Estudos Feministas) vinculada à UFSC e os Cadernos Pagu, da UNICAMP, dentre inúmeras outras especializadas no tema. Além disso, a área já possui um curso de bacharelado específico (Bacharelado em Gênero e Diversidade, na UFBA), disciplinas de graduação e pós-graduação em várias áreas, além de inúmeros projetos de pesquisa e extensão.

Referências Bibliográficas

ALVES, B. PITANGUY, J. O que é feminismo. 8aed. São Paulo: Brasiliense, 2003

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. 8aed. São Paulo: Civilização Brasileira, 2015.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Revista Educação e Realidade. v.lS, n.2, jul./dez. 1990.

PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o Debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. HISTÓRIA, São Paulo, v.24, N.1, P.77-98, 2005.

________. Relações de Gênero como categoria transversal na historiografia contemporânea. Topoi, v. 12, n. 22, jan.-jun. 2011, p. 270-283.

Georgiane Garabely Heil Vázquez é historiadora e feminista. Doutora e Mestra em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). É professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), coordenadora do GT Estadual de Estudos de Gênero da Associação Nacional de História – Seção Paraná, (ANPUH/ PR) e membro fundadora do LAGEDIS – Laboratório de Estudos de Gênero, Diversidade, Infância e Subjetividades.

Fonte: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/explicando-estudos-de-genero/. Publicado em: 27 nov. 2017.

 

 

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O “Pai-Nosso” e a conjuntura brasileira

Maurício Abdalla

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No século I, na Palestina, o domínio romano extorquia os agricultores por meio de pesados impostos. Adicionalmente, na região camponesa da Galileia, o reinado perdulário de Herodes Antipas acrescentava outros tributos que sobrecarregavam ainda mais os que viviam da terra – que ainda tinham que pagar o imposto do Templo para os governantes judeus.

Como os impostos levavam a maior parte da colheita (principalmente nos períodos das grandes obras de Antipas), sobrava pouco para o sustento da família e para estoque para a próxima semeadura. Os agricultores eram, então, obrigados a recorrer a empréstimos. Os ricos proprietários de terra, que sustentavam o poder judaico e se aproveitavam de maneira submissa da dominação romana, passaram a ganhar ainda mais com os juros dos empréstimos e, principalmente, com o confisco das terras dos que não conseguiam saldar as pesadas dívidas. Esses eram os saduceus, que orbitavam o Templo, sede do poder judaico, e apresentavam-se como líderes religiosos e da tradição.

Um jovem líder daquela época, de origem camponesa (da Galileia), ao ensinar em público como se deve dirigir a Deus, disse: “Diga a Deus que perdoe as suas dívidas do mesmo jeito que você perdoa a de seus devedores…” Esse era Jesus.

Como essas palavras devem ter soado aos ouvidos religiosos dos saduceus, cuja riqueza sustentava-se e crescia justamente na cobrança, e não no perdão, das dívidas? Era como forçá-los a dizer “Deus, condene-nos”.

Com isso, Jesus expressava também a condenação ao sistema que levava ao endividamento e ao consequente enriquecimento de uns à custa do empobrecimento de muitos. Não se preocupou em fazer referência ao “compromisso de honra” do tomador do empréstimo com o seu pagamento. Preferiu chamar à consciência para o sentido ético-social de uma cobrança que tinha em sua raiz original um sistema de dominação e injustiça. Tem coragem de pedir a Deus que faça com você a mesma coisa que você faz com os outros? Se não, algo está errado, independente das justificativas.

Traduzida na fórmula de oração católica do “Pai-Nosso” por “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” e mantida na tradição protestante como “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, a oração de Jesus contém uma crítica social e econômica fulminante, inseparável da sua espiritualidade e só compreensível dentro de seu contexto.

O sentido original da oração foi um dos tantos fatores que levaram o jovem da Galileia a sofrer o castigo que os romanos reservavam aos contestadores da ordem: o assassinato político na cruz.

A retirada do contexto e o esvaziamento do sentido crítico das palavras de Jesus é a única coisa que permite que muitos sejam a favor da ordem atual e, paradoxalmente, se digam cristãos.

Com as riquezas do Brasil sendo entregues à rapina de banqueiros e empresários, o empobrecimento da população, a destruição do patrimônio e dos serviços públicos em nome de uma dívida não auditada, insolvível e fruto de um sistema injusto, onde você acha que Jesus estaria? No Facebook defendendo as privatizações, a destruição das leis trabalhistas e da previdência e o engessamento do orçamento primário em nome de uma ideologia liberal de comentadores de TV, ou com o chicote na mão liderando uma invasão ao Templo, chamando Herodes de raposa e dizendo que o diabo é a Legião (nome das tropas de ocupação romana)?

Pense nisso na próxima vez que for orar o “Pai-nosso”.

 

Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

(Texto publicado originalmente no site do Movimento Nacional de Fé e Política).

Os profetas em épocas de transformações políticas e sociais (Rev. Joaquim Beato)

Texto publicado no livro 2 do Congresso “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”, realizado em 1962 no Recife.

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QUEM SÃO “OS PROFETAS”?
Duas coisas devem ficar definidas desde já, neste começo de conversa: quem são “os profetas” e o que eram os profetas? Dizer quem são, para nós, os profetas, não é muito difícil, mesmo porque se trata de uma escolha que poderia ser feita arbitrariamente. Ao dizermos, porém, o que “os profetas” são para nós, os profetas hebreus, não estamos de modo algum fazendo uma escolha arbitrária, pois que na história das religiões, embora o fenômeno do profetismo não seja exclusivamente israelita, não há nada que se possa comparar, nem de longe à obra deles. Os profetas de Israel não constituem somente o movimento de mais alto valor espiritual que jamais eclodiu no seio das religiões semíticas; nem somente a fase mais criadora e normativa da religião de Israel. Embora não tendo sido os originadores da religião do Antigo Testamento, foram eles que, aprofundando à luz de novas situações, o conteúdo da revelação universal, forneceram a linha principal pela qual o cristianismo se insere na corrente central da tradição judaico-israelita; e é deles pela mediação do cristianismo que recebemos o conceito de unidade e propósito na História, e a interpretação da História do povo de Deus como âmbito e meio especifico da revelação divina.

QUE ERAM OS PROFETAS
Dizer o que eram os profetas não é tão simples, por causa de uma persistente distorção, que nossos dicionários na sua maioria, ajudam a perpetuar e difundir. Na acepção popular, profecia é, antes de tudo, “predição de futuro” e profeta é “aquele que prediz o futuro”. Embora reconhecendo, que a palavra grega usada na LEX para designar os profetas verdadeiros possa prestar-se a tal equívoco, e que a etimologia da palavra hebraica ainda constitui um enigma para os especialistas, certas passagens bíblicas (Ex 4:15-16; Ex 7:1; Amós 3:7-8) deixam claro que os profetas eram concebidos e se concebiam a si mesmos como porta-vozes de Deus, e como aqueles que, de posse do segredo do Senhor, eram os únicos capazes de perceber o sentido íntimo dos acontecimentos da história do povo de Deus, e os únicos chamados para proclamá-lo a seus contemporâneos. Graças à interpretação profética, as crises da história de Israel foram compreendidas como atos do Deus que age em juízo e em misericórdia contra o seu povo e pelo Seu povo (Am 3:1-2; Am 5:6-11; Os 11:1-9): “Ouvi a palavra do Senhor. Ouvi a palavra que o Senhor fala contra vós outros, filhos de Israel, contra toda a família que fiz subir da terra do Egito, dizendo: “…De todas as famílias da terra somente a vós outros escolhi, portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades”. Daí ser impossível uma boa inteligência da mensagem dos profetas sem um razoável conhecimento da situação histórica que lhe serve de fundo.

Que a predição não era, portanto, o elemento fundamental da profecia, mas que o era a proclamação da verdade religiosa, pode-se ver de passagens como Dt. 13: 1-3; 18: 21,22. Elas mostram que o cumprimento da predição de um profeta não seria suficiente para demonstrá-lo falso. Por outro lado, essas passagens demonstram que a predição tinha de referir-se ao futuro imediato, pois o que se estava tentando resolver era como os contemporâneos do profeta, aqueles que o ouviam, podiam saber se ele fora ou não enviado por Deus (Dt 18:21).

A predição aparece só nos oráculos proféticos de ameaça ou promessa. É evidente que, pôr força, ambas têm de estar associadas com a situação histórica em que se encontram os profetas e seus ouvintes. A ameaça segue-se, normalmente, a acusação e a promessa, a exortação. A predição contida na ameaça ou na promessa constitui um apelo ao arrependimento, que pode obstar o cumprimento da ameaça e é necessário ao cumprimento da promessa.

O monoteísmo é menos importante no Antigo Testamento do que o fato de que foi Yahweh que tirou Israel da casa do Egito e, por isto, Israel deve amá-lo com todas as veras d’alma (Dt 6:4-5) e, demonstrar esse amor na mais completa obediência (Ex 28:1-17). Que ninguém se escandalize, pois em o Novo Testamento se vê, também, a mesma coisa. Não é o monoteísmo que faz o cristão, mas o confessar a Jesus como Senhor (Rm 10:9; Jo 1:14; Jo 20:31; At 8:36-37; 2Co 5:19; Fp 2:9-11; 2Tm. 2.5-6). É possível ser monoteísta sem ser cristão, como era possível ser israelita fiel sem ser monoteísta teórico. O que não era possível ao verdadeiro israelita era não amar e servir exclusivamente a Yahweh. Esse fora o Deus que amara Israel, quando ele era menino, e chamara seu filho do Egito. A fé em Yahweh era por isso, um extremo amor, um interesse vital, uma dedicação total, que se nutrira da memória de seus feitos gloriosos de poder e graça na história de seu povo.

A FÉ QUE O PROFETA COMPARTILHA COM SUA GENTE 
Essa fé que transfigurava a história de Israel e a transformava na manifestação do propósito de Deus, o profeta a compartilhava com seu povo. Sua origem vinha de Moisés. Embora, tirando dela conclusões inteiramente diversas a tantas vezes opostas às do vulgo, ele, o profeta, não deixaria de recitar com o adorador comum esta confissão que alguém denominou “O coração do Pentateuco”, a saber, Dt. 6.20-24; Js. 24: 2-13. Assim, pois mesmo divergindo tão radicalmente, muitas vezes da mentalidade e da atitude do povo em certos momentos cruciais era de dentro de um patrimônio comum de fé e de experiência, de teologia e de história que o profeta apelava para seus contemporâneos israelitas; e era em nome de seu Deus e do melhor de sua herança cultural que lhes apelava. Os profetas eram, pois, verdadeiros homens de Israel.

OS PROFETAS NAS CRISES POLÍTICAS 
Crendo que nos acontecimentos históricos se revelara a intenção, o propósito de Deus para com seu povo, os profetas não se limitavam a interpretar esses acontecimentos.
Procuravam influir neles por todos os meios. Dispunham-se a imiscuir-se até mesmo na política, não por despeito de serem líderes religiosos, mas pelo fato mesmo de que o eram, e procuravam influir não só pela palavra, mas também pela ação.
Aliás, o movimento profético em Israel estava associado com a política desde seu nascimento. A primeira referência a um bando de profetas aparece em relação com a ameaça dos filisteus, ameaça tão séria que exigiu o estabelecimento da monarquia. Bandos de profetas, com os quais Saul encontraria no dia de sua escolha (lSm 10: 5-13), empenhavam-se em despertar o fervor patriótico do povo e incitá-lo a empenhar-se numa guerra santa contra os filisteus. E foi Samuel, o profeta-juiz, que ungiu os dois primeiros reis de Israel em resposta a essa necessidade.

A estrutura política de Israel era, até então, simples. Israel era uma confederação de tribos-livres com um culto comum e um santuário central. Nas horas de emergência, as tribos eram convocadas para a ação em nome do Deus do pacto. Essa estrutura que resistira bem enquanto os adversários a enfrentar foram as tribos do deserto ao sul e da Transjordânia, e de príncipes canaanitas, diante dos filisteus demonstrava-se inadequada. Não havia uma autoridade central permanente. Nas horas de crise a resposta das tribos independentes à convocação de Yahweh dependia da fidelidade delas ao pacto (Jz 5:16-17 e 23). E era natural que quanto mais distantes geograficamente do epicentro da perturbação tanto menos interessadas se demonstrassem em atender ao apelo e ao chamado à guerra santa.
O teste final da confederação de tribos foi a invasão dos filisteus. Estes eram parte do que os egípcios denominavam “povos do mar”. Vinham das ilhas do Mar Egeu. Inundaram a Grécia e destruíram na Ásia Menor, o Império Hitita; atacaram o Egito, pela Líbia e por mar. Repelidos, um grupo deles, conhecido como “filisteus”, enquistou-se no litoral sul de Canaã, pouco depois de 1.200 A.C. de onde começou a tentar conquistar a terra.

Culturalmente superiores, os filisteus mantinham, além disso, ciumento monopólio do uso do ferro, o que lhes garantia supremacia militar incontestável (lSm 13:19-22). Foi, pois nesta séria emergência que se estabeleceu a monarquia. Isto é, a antiga estrutura simples da federação de tribos livres deu lugar a uma forma de governo mais centralizada e a liderança passou dos carismáticos para uma dinastia, ficando com o profeta a função de porta-voz daquelas coisas da antiga ordem carismática que deviam ser preservadas em a nova, para conservação do caráter específico de Israel como povo de Yahweh. Entre essas coisas a mais importante, talvez, era a idéia expressa por Gideão (Jz 8:23) que rejeitou o reino dizendo: “Yahweh será o vosso Rei”. A ideia de Yahweh como rei de Israel é uma idéia central; que vem desde os tempos da Anfictionia (1). O rei só seria aceito como ungido de Yahweh, cuja voz ele, deveria obedecer e o alçançaria por mediação do profeta. Por ocasião da morte de Saul, o perigo filisteu não fora conjurado; ao contrário, seu domínio separava de novo, o norte do centro e sul da Canaã, visto como mataram Saul no Monte Gilboa dominavam a cidade de Betsehem no vale do Jordão.

Coube a Davi submeter os filisteus e estabelecer um governo central forte. Davi concluiu também a conquista de Canaã e submeteu os arameus, amonitas, moabitas, edomitas e amalequitas. Pela primeira vez, a Palestina foi unificada, e os israelitas passaram a desfrutar um nível mais alto de vida propiciado pela revolução econômica resultante da introdução do ferro no uso popular. Nós passamos nesse período em 1.200, da idade do bronze para a idade do ferro. E foi a vitoria sobre os Filisteus que tornou fácil o uso popular do ferro, cujo monopólio os Filisteus mantinham para seu domínio militar sobre Israel.

NATà
No fim do reinado de Davi, em 961 A.C, coube ao profeta Natã uma importante parte nas maquinações que levaram Salomão ao trono (e realmente foram intrigas palacianas que levaram Salomão ao trono) (1Rs 1:11-31)
Mas ao fim do reinado de Salomão, coube a outro profeta insuflar a divisão do reino, restando à dinastia davídica somente o domínio sobre Judá (1Rs 11:28-12.24). Um profeta que lutava contra a ordem política em nome de Yahweh.

AIAS SILONITA
Salomão tornara-se monarca no estilo luxuoso e despótico, tão comum ao Oriente Próximo, mas tão contrário à maneira de vida de Israel. Estabelecera uma corte faustosa, um imenso harém, e dividira seu reino em distritos fiscais. O objetivo desta última medida era sem dúvida, centralizar o poder na coroa, substituindo o velho sistema tribal pelos distritos administrativos, que alteravam deliberadamente os limites de metade dos antigos territórios tribais. Acrescente-se a isso seu programa de trabalho forçado (1Rs 5:13-18). Embora os povos conquistados fornecessem certamente muitos milhares de escravos para execução do programa de construções de Salomão, o texto nos informa que cerca de 30.000 israelitas eram obrigados a trabalhar de graça para o rei um mês em cada três. Havia ainda, oitenta mil nas pedreiras e setenta mil que levavam as cargas. Eram aproximadamente, portanto, 180.000 homens israelitas, talvez um décimo da população do tempo de Salomão, o que corresponderia hoje (1962 D.C.), entre nós a 7.000.000 de brasileiros em trabalho escravo para o Estado. O aviso de Samuel tornara-se realidade (1Sm 8:10-18). Um rei como os monarcas orientais, limitaria drasticamente a liberdade do povo, secularizaria seu modo de ser, e solaparia os próprios fundamentos da comunidade pactual. Por meio da ação de Aia, o silonita, o Deus de Israel se fez conhecido nos acontecimentos políticos que abalaram os próprios alicerces do reino que Salomão procurara construir a tão alto preço.

ELIAS, ELISEU
Do fim do reinado de Salomão e da divisão do reino, em 922 A. C., demos um salto quase de um século, e vamos ao tempo do reinado de Acabe sobre Israel (869 a 850 A. C.).
Acabe era filho de Onri, o “Davi” do Reino do norte. Onri conseguira o que nenhum dos reis de Israel fizera antes dele, isto é, estabelecer uma dinastia. Foi ele que construiu Samaria num local estratégico. Fez paz com Judá e estabeleceu a política de boa vizinhança com os Fenícios casando seu filho Acabe com a filha de Itobaal, rei do Tiro, a tristemente famosa Jezabel. Os registros assírios, muitos anos depois de sua morte, referiam-se ao reino do norte como “a terra da casa de Onri”, e dos reis de Israel como “filhos de Onri”. A aliança com os Fenícios, selada como o casamento de Acabe com Jezabel, não poderia deixar de ter consequências desfavoráveis para o Javismo (a religião de Israel). Toda gente conhece a luta de Elias contra Jezabel e os profetas de Baal e de Azerá, de modo que não é preciso repetir que realmente foi um período de crise para o Javismo, esse período de prosperidade econômica no tempo de Acabe. Por isso, vemos a atividade dos profetas Elias, Eliseu e outros, insuflando os ânimos e preparando a derrubada da dinastia onrita (1Rs 19:15-17; 2Rs 8:7-15; 2Rs 9:10). Este golpe de Estado promovido pela iniciativa dos profetas afetou o reino vizinho da Síria (2Rs 8:7-15), e o reino irmão de Judá (2Rs 9: 27-29; 2Rs 11:1-16). Suas conseqüências políticas não foram boas para Israel como se poderá ver no século seguinte; e sua violência foi condenada por Oséias, um século depois (Os 1:3-5). Mas os profetas do século IX, no reino do Norte, tomaram ativamente a iniciativa de produzi-lo.

ISAÍAS, DE JERUSALÉM 
Como a fé profética pode tornar-se atuante nas crises políticas pode-se ainda ver melhor, talvez, na carreira de Isaias, de Jerusalém. Em diversas ocasiões este profeta teve de aconselhar reis em Judá quanto ao curso que devia ser dado à política internacional do reino. A primeira foi a crise siro-efraimita. Em 738 A.C. Menaém, rei de Israel, e Rezim, rei de Damasco, pagaram tributo à Tiglate-Pileser, rei assírio, reconhecendo sua soberania. Mas essa capitulação, embora tivesse firmado nas mãos de Menaém e de seu filho Pecaias, o trono de Israel, era grandemente impopular, e isto devido ao fato de que o tributo era levantado por meio de pesados impostos sobre os ricos.

Esta impopularidade da política de Menaém e de seu filho facilitou a revolução chefiada por Pecá, que assassinou Pecaias em 737 A. C. Pouco depois, enquanto a Assíria estava envolvida com inimigos do Norte, Pecá e Rezim de Damasco tentaram formar uma coligação antiassíria nos moldes de uma que fôra bem sucedida no século anterior, e que enfrentara Salmanasar III, em 853 A.C., em Qargar, com bom êxito. Pecá e Rezim, em 733-732 investiram contra Jerusalém, ou para forçarem Acaz, rei de Judá, a entrar na aliança, ou para colocarem um títere em seu lugar (Is 7:6). O coração de Acaz e de todo o povo tremeu de medo (Is 7:2). Aterrorizado, o rei queimou seu filho em sacrifício (2Rs 16:3), esperando com esse rito pagão conjurar a ira divina (cf. 2Rs 3:26-27). Nessa situação desesperada, Acaz só via duas alternativas: a derrota diante dos invasores ou um pedido de socorro a uma grande potência. Isso o levava a inspecionar o suprimento d’água da cidade, essencial no caso de Jerusalém ter de resistir a um assédio, a um cerco militar. Nesse momento crítico, Isaías vai a seu encontro com a mensagem necessária e relevante para a hora (Is 7:3-9). O caminho é abandonar alianças humanas e depositar inteira confiança em Yahweh (Is 3:9). Tal fé exige completo e inabalável devotamento a Deus na confiança de que ele é o verdadeiro Rei (Is 28:16; Is 30:15). É esta atitude que Martin Buber intitulou “Teopolítica”. Sua aceitação cancelaria o plano de Acaz de apelar para a Assíria em favor de Judá. Yahweh subverteria a aliança siro-efraimita. Acaz, porém não podia crer nisso. Apelou para Tiglate-Pileser, com imensos prejuízos para Judá (2Rs 16:7-13; Sf 1:45; Ez 8:15-16; Jr 44:15-20).

Em duas ocasiões teve Isaías de aconselhar Ezequias que se afastasse de coligações. Ezequias subira ao trono em 715 A.C. e empreendera grande reforma religiosa. Assim como as alianças políticas envolviam o reconhecimento das religiões ou das divindades nacionais dos aliados, as reformas religiosas com sua ênfase num culto exclusivo e depurado de Yahweh tinham implicações políticas, nacionalistas e libertárias.
Que Ezequias era governante politicamente enérgico pode se ver no fato de ter garantido o suprimento d’água a Jerusalém, que constituiu um problema para o seu antecessor, construindo o túnel de Siloé, de uns 590 metros, escavando na rocha viva. Ampliou as muralhas e reforçou as fortificações de Jerusalém (2Rs 18:1-8; 2Rs 20:20-21; 2Cr 32:30; 2Cr 32:5)

Em 711 A. C. Ezequias foi tentado a participar de uma revolta contra a Assíria, insuflada pelo Egito e que estourou na cidade de Asdode, na Filistia (Is 14:28-32). Para dramatizar o juízo de Yahweh contra a conspiração, Isaias teve de realizar um ato simbólico (cap. 20): Ele andou nu e descalço durante três anos, para mostrar que o povo do Egito e da Etiópia iria para o cativeiro como, resultado daquela rebelião contra o rei da Assíria. Em conseqüência da influência de Isaías possivelmente, Ezequias evitou envolver-se demasiadamente na revolta e Judá escapou de ser invadida pelos exércitos de Sargão, que destruíram Asdade e outras cidades dos filisteus. Quando Sargão morreu em 705 A.C. parecia ter soado a hora final do Império Assírio. Por toda parte estouravam revoltas. O rei Marduk-apal-iddiana (o Merodaque-Baladã da Bíblia), de Babilônia, era o líder. A história da embaixada que ele enviou a Ezequias, e do veemente protesto de Isaías contra ela aparece em 2Rs 20:12-19 (cf. Is 39.1-8). O Egito, que sob o rei etíope Sabaco, desejava recuperar a glória antiga, parece que enviou também embaixadores a Ezequias para garantir a participação deste na revolta geral, fiel ao seu método de hostilizar a Assíria por meio de intriga diplomática. O oráculo que aparece em Isaias 18 parece provir desse tempo.

Condenou especialmente a recepção favorável que tiveram os enviados do Egito mencionados no capítulo 18, assim como denunciou as negociações secretas com Marodaque-Baladã (2Rs 20:12-19). Eloquentes são suas palavras contra os que procuravam a ajuda do Egito (Is 31:1-3). Tais esforços políticos eram evidência clara de que os homens não confiavam no “Santo de Israel”. Em Is 30:1-15 o profeta Isaías enfatiza a loucura de procurar “abrigo à sombra do Egito”. Um eco de seu conselho a Acaz aparece em Is 30:15, que é um resumo do significado da “fé” para o profeta.
“Em vos converterdes e sossegardes está a vossa salvação. Na tranqüilidade e na confiança, a vossa força; mas não o quisestes.”

A história do Crescente Fértil tem sempre estes dois pontos: ou na Mesopotâmia a Assíria ou Babilônia, ou o Egito no Sul. De modo que o povo de Deus era sempre envolvido na trama da política internacional, girando sempre entre esses dois pontos; uma facção a favor do Egito, uma facção a favor da Síria e facção defendendo uma política independente de confiança integral no Deus de Israel.

Apesar de tudo, o rei Ezequias se deixou envolver na conspiração. E assim, após haver dominado a situação na parte oriental do império, Senaqueribe marchou para o oeste. Marchou triunfantemente através da Fenícia, desceu à Filistia onde venceu um grande exército egípcio na cidade de Ecrom; daí avançou para o interior pela região montanhosa de Samaria e Judá, e ameaçou Jerusalém. Em Miquéias 1:10-16 e Is 10:28-32, temos passagens que refletem a inexorabilidade e a velocidade do avanço assírio. Os anais de Senaqueribe relatam que nessa campanha foram tomadas 46 cidades fortificadas de Ezequias, e numerosas pequenas cidades satélites, e foram levadas em cativeiro 200.150 pessoas (2Rs 8:13). Pouco mais restava do que Jerusalém, isolada de todo socorro externo. Senaqueribe diz que prendeu nela Ezequias como um “pássaro engaiolado”. Em linguagem mais forte ainda, Isaías, compara a catástrofe à destruição de Sodoma e Gomorra (Is 1:4-9). Mas desta vez, surpreendentemente, o profeta não aconselha a rendição da Assíria.

Em qualquer hipótese, ficará confirmada a veracidade da interpretação profética dos acontecimentos em que o profeta e seus ouvintes estejam envolvidos. Nisso se vê, por outro lado, uma vez mais, que o profeta é, antes de tudo, um intérprete do presente, da história contemporânea, que ele e ouvintes estão vivendo.

Não se pode negar, porém, nem é nosso interesse fazê-lo, que os profetas tenham falado, às vezes, de um futuro mais distante, não causal ou imediatamente relacionado com sua situação contemporânea. No entanto, comparadas com o volume total da literatura a que chamamos profecia, na Bíblia, essas predições não justificam a transformação dos profetas em meros prognosticadores gratuitos de um futuro além do horizonte histórico e das situações concretas e existenciais de seus ouvintes e contemporâneos.

OS PROFETAS – HOMENS DO SEU TEMPO
Definir assim o que eram os profetas pode parecer a muitos, reduzi-los injustamente a figuras do passado. Não se poderá fazer justiça aos profetas, porém, sem ter sempre presente que sua mensagem foi dirigida aos seus contemporâneos, dentro das condições e circunstâncias em que viviam. O reconhecimento desse condicionamento temporal dos profetas é essencial à correta interpretação de sua mensagem e é o único modo de protegê-lo de um interesse malsão (que não é sadio) em seu ensino, interesse que o desfigura, colocando no seu centro os elementos periféricos, e na periferia, os elementos centrais.

OS PROFETAS – HOMENS DO POVO
Outra limitação, se assim se pode dizer, muito importante, é o fato de que os profetas eram homens que falavam a Israel como porta-vozes do Deus de Israel. Este era um Deus particular, com nome particular e com povo particular. O fato de no sexto século A.C. se ter chegado a afirmar sua unicidade e conseqüente soberania universal, foi mais uma conclusão de fé coerente e aventurosa do que uma conclusão da lógica fria, silogística e cerebral.

Isto é uma evidência de que sua perspectiva não era política, mas religiosa. O poder dado a Assíria provinha de Deus, e era, portanto, um poder que seria anulado ou retirado quando aprou-vesse a Deus. Para ver que ele tinha razão, basta ler os relatos em 2Rs 18:19; Is 36:37. Jerusalém foi salva.

JEREMIAS
O grande profeta de Judá que acompanhou os últimos dias da nação até o fim, isto é, até a queda e destruição de Jerusalém, em 586 A.C., ter-se-ia poupado de amargos sofrimentos se tivesse fugido de imiscuir-se ativamente na política. Mas Jeremias não teria sido fiel a seu chamado, caso não tivesse ido até às últimas conseqüências práticas de sua mensagem. Principalmente no reinado de Zedequias, de 597 a 586 A.C., período de que provém grande parte do material que aparece nos capítulos 1 a 25, especialmente os capítulos 21-24, nos quais ele defendeu sozinho e corajosamente uma posição política que tem sido confundida com pacifismo ou colaboradorismo. Mas, não era nada disso, pois para o profeta, acima dos expedientes e concessões que o momento podia ditar, estava a convicção de que a Babilônia era agora para Judá o que no século anterior tinha sido a Assíria para Israel. Nabucodonosor era o “servo” de Yahweh (Jr 27:6-7), o instrumento de seu propósito na história. A Mensagem do profeta para Zedequias e para os líderes do povo era, portanto: “Metei o vosso pescoço no jugo do rei da Babilônia, servi-o… e viverás.” ( Jr 27:12-22 ).

Em 588 A.C, com a subida ao poder de um novo Faraó egípcio, Apries, chamado Hofra em Jr 44:30, o Egito retomou sua política militar de agressão, abandonando a de intriga diplomática dos predecessores imediatos de Hofra. O despertamento militar do Egito, com a nova possibilidade de mudança no jogo de poder da política internacional deu nova esperança às nações que estavam debaixo do jugo da Babilônia desde o ano de 612 A.C, quando se deu a queda de Nínive. Estourou a revolta cujo centro desta vez era Amom e Judá.

Nabucodonosor agiu rapidamente para sufocar a revolta. Nesse mesmo ano de 588 A.C., sitiou Jerusalém. Zedequias tinha esperança de que, como acontece por ocasião do cerco de Jerusalém por Senaqueribe em 701 A.C., Yahweh lançasse miraculosamente a retirada de Nabucodonosor. Mas Jeremias nunca vacilou em sua convicção de que o caminho único e certo era a rendição à Babilônia (Jr 21:8-9). Com o avanço do exército do faraó Hofra (Jr 37:5) para Jerusalém, tomando novo alento com a situação, Zedequias mandou uma mensagem a Jeremias, pedindo-lhe que orasse pelo povo. A reposta de Jeremias foi violenta (Jr 33:5-10), e foi a última gota. Era evidente que o profeta era “perigoso” demais para continuar andando “livre entre o povo”. (Jr 37:4). Aproveitando-se de um simples pretexto, os príncipes o prenderam. É de notar-se em tudo isto a fraqueza de Zedequias que sendo rei, e ansioso por ouvir a palavra de Yahweh por Jeremias (Jr 37:16-21; Jr 38:7-28), não teve coragem moral de opor-se a seus nobres pró-Egito e de defender a vida e a liberdade do profeta do Senhor (Jr 37:14-16; Jr 38:1-6 e 24-27). A coragem sobre-humana de Jeremias tirada de sua própria fraqueza (Jr 37:20), só poderia provir de sua íntima convicção de que naquela situação política estavam envolvidos princípios transcendentes a que ele devia mais fidelidade do que a segurança e sobrevivência de seu povo. E a história confirmou sua convicção.

OS PROFETAS NAS GRANDES CRISES SOCIAIS
A TRADIÇÃO NÔMADE PASTORIL 

Três diferentes sistemas de vida vieram a encontrar-se na sociedade israelita, em conseqüência da conquista de Canaã da historia posterior. No período pré-canaanita (antes de estabelecerem-se em Canaã) os israelitas foram nômades ou seminômades. Seu sustento dependia dos rebanhos, e, apenas como suplemento secundário da lavoura branca, plantada onde paradas mais longas o permitissem. Esse tipo de sociedade pastoril tinha características próprias. A mais fundamental era a “consciência de família”, o laço de parentesco, o senso de fraternidade que governava a maior parte das atividades do grupo social.

A sociedade era uma família de famílias. As famílias formavam os clãs, os clãs formavam as tribos, as tribos formavam o povo, que era uma federação pactual de tribos. Economicamente, a riqueza da comunidade era de fato, riqueza de todos, não havia pobres ou ricos no clã, senão na medida em que o clã inteiro fosse pobre ou rico. A autoridade pertencia aos chefes das famílias, e na agregação maior, a tribo pertencia ao conselho de anciãos. Este decidia as, questões, segundo a moral e os costumes aceitos da tribo. Não havia poder absoluto e despótico. A vida no deserto e o forte sentimento da fraternidade no clã redundaram em forte a duradouro amor pela liberdade e pela justiça igualitária.

SOCIEDADE AGRÍCOLA E SEDENTÁRIA 
Em Canaã, Israel encontrou uma sociedade agrícola sedentária. Ao aculturar-se, duas características fundamentais da sociedade agrícola sedentária chocavam-se contra a estrutura social pastoril serninômade: a ênfase na localidade, na vila, e não no clã, como ponta de aglutinação e de unidade; e o novo conceito de propriedade, da terra, o bem imóvel, permanente, diferente da propriedade em rebanhos, que podiam, da noite para o dia, ser tomados por assaltantes. Ao assimilar esse conceito, Israel modificou-o para harmonizá-lo com sua fé, transformando a propriedade de terra em usufruto apenas, sem direito de alienação (Lv 25:25; Dt l5:1-3; Lv 25:8-17 e 23). Não havia dono da terra em Israel. A terra era do clã, e o chefe de família só era dono da terra como representante do clã; não podia alienar senão temporariamente a terra. Então havia no clã, a distribuição mais equitativa para o labor pastoril.

SOCIEDADE COMERCIAL URBANA
O terceiro sistema de vida: a sociedade urbana comercial que aumentou as complexidades e tensões da sociedade israelita, e em que o espírito de Canaã encontrou sua expressão mais desenvolvida e característica (Pv 31:24). Esse tipo de sociedade urbana e comercial fez um grande impacto sobre os israelitas no reinado de Davi. Os fatores que contribuíram para tanto foram a conquista das restantes cidades canaanitas e sua assimilação por Israel, inclusive com seus costumes estabelecidos; o estabelecimento que, de uma capital que com sua corte e forças militares, não podia ser sustentada pelo solo imediatamente vizinho, mas dependia do superávit econômico de toda a terra; e o começo, no reinado de Davi, de relações comerciais internacionais em alta escala com os Fenícios, ou seja, os canaanitas do norte.

CRISE SOCIAL DO 10° SÉCULO A.C.
Mas foi no reinado de Salomão que Israel experimentou uma revolução social e econômica ainda maior do que a experimentada no tempo em que o povo passara da vida nômade para a sedentária. Os pesados impostos, o trabalho forçado, o despotismo que se manifestava num tipo de capitalismo de Estado, acabaram com a liberdade dos súditos, fazendo-os escravos do rei, e transformando a propriedade deles em propriedade do monarca, ou seja, do Estado. Só este tirava proveito da exportação de cobre de Edom, e, possivelmente, até da exportação de israelitas para servirem no Egito, como mercenários.

A importação de grande quantidade de ouro e prata provocou uma repentina inflação. Os cidadãos eram forçados a hipotecar suas terras, suas pessoas e seus filhos, para atender às exigências dos impostos. Os juros eram altos, e muitos israelitas livres perderam as terras e se tornaram escravos; enquanto outros que tinham tido alguma vantagem inicial, amontoavam terras e dinheiro. A fraternidade dos tempos do deserto desapareceu para sempre, dando lugar à permanente separação entre os poderosos e os oprimidos; os ricos e os pobres. A riqueza e o poder tornando-se a meta dos esforços do indivíduo, a pobreza, a injustiça e a luta de classes se estabeleceram para sempre na sociedade israelita.

CRISE SOCIAL DO 8° SÉCULO A.C.
A outra grande época de prosperidade econômica em Israel foi também acompanhada de males semelhantes, a respeito dos quais, temos farto testemunho na literatura profética do 8° século. Foi a época em que reinava em Israel Jeroboão II (786-746) e, em Judá, Uzias (783-742). Adade Nirari III, da Assíria, conquistara Damasco em 803 A.C., enfraquecendo-a de tal modo que os Sírios nunca mais foram ameaça séria em Israel. Em seguida, os armênios mantiveram os Assírios ocupados e enfraquecidos até que Tiglate-Pileser usurpasse o trono em 745. Essa trégua, em que Israel e Judá ficaram livres dos Assírios e Arameus foi suficiente para um renascimento dos dois reinos irmãos, só comparável à prosperidade do tempo de Davi e Salomão. Jeroboão II conquistou o norte da Galiléia e a Transjordânia, obtendo assim o controle das rotas comerciais. Tinha o cuidado de mantê-las livres de ladrões e salteadores, recebendo pelo serviço, como Davi e Salomão anteriormente compensadoras taxas. Samaria tornou-se um empório internacional, com todo tipo de mercadorias, suplantando muitos outros centros em quantidade e em qualidade. Em Ezequiel cap. 27, onde ele fala do rei de Tiro, podemos ver como o comércio já naquele tempo era bastante próspero. Samaria repetia esta situação.

A crescente prosperidade comercial foi acompanhada de maior luxo e imponência nos edifícios (Amós 3:15). Havia muitos palácios em Samaria (Amós 3:10), pertencentes não só ao rei, mas também aos novos príncipes mercadores que se tinham enriquecido no comércio. A pedra lavrada substituira os antigos tijolos e o cedro do Líbano o plebeu sicômoro (Is 9:10). Havia o luxo ilimitado dos ricos, tanto em Samaria como em Jerusalém. Havia a cupidez (2) os comerciantes gananciosos (Amós 8:5). Havia a dureza e a ambição das mulheres ricas (Amós 4.l). Os novos ricos atrás de riqueza e luxo espezinhavam os pobres. Havia as medidas e os pesos falsos; compravam por um padrão, e vendiam por outro padrão de medidas. O refugo de trigo, vendido como se fosse bom trigo (Amós 2:8). Os ricos sempre conseguiam sentenças favoráveis nos tribunais (Amós 2:6: Amós 8:6).

Além de tudo isso, havia outro grande mal, talvez maior: a extinção do pequeno proprietário. Os luxos da época e o crescente custo de vida levaram o pequeno proprietário a contrair dividas. Os pequenos tratos de terra eram absorvidos nos grandes latifúndios. Os proprietários ricos e os capitalistas das hipotecas devoravam homens e terras, mantendo o agricultor na terra como colono ou vendendo-o com sua família como escravos (Amós 5:11; 2Rs 4:1-7).

Havia assim, junto com o crescente enriquecimento de uns poucos, o crescente empobrecimento da maioria. No meio da abastança e do supérfluo, a miséria e a carência.

De par com o luxo e o ócio, a escravidão e a fome.

Essa total canaanitização era a negação absoluta da tradição do deserto. Contra ela eram os mais extremados em sua atitude contra a aculturação (Jr 35). Repudiavam toda a civilização, encontrando nela a causa de todos os males da situação. Ecos da negação da civilização agrícola, e da civilização urbana comercial, podem ser percebidos também, nas histórias de Caim e Abel e da Torre de Babel (Gn 4:1-16; Gn 11:1-9).

OS PROFETAS E A SUA REAÇÃO
Os profetas, também, como esses outros grupos, consideravam normativa a tradição do deserto. A época da peregrinação no deserto fora o tempo ideal (Amós 5:25; Os 9:10; Os 2:14; Jr 2:l-3). Mas eles não eram reacionários simplistas que considerassem possível ou suficiente um retorno à vida nômade, e sua condenação à ordem social se baseava no fato de que ela não encarnava nem protegia os valores humanos e sociais inerentes ao Javismo, à religião de Israel, e até os destruía. Os alicerces da estrutura econômica e política, segundo os profetas, deviam ser éticos e religiosos. Mas Israel tinha confundido um sistema devido mais elevado com uma civilização mais complexa, e tinha preferido as vantagens imediatas desta, aos valores fundamentais da religião de Israel.

OS PECADOS QUE ELES CONDENAVAM
Mas os profetas não se limitavam a condenar de maneira vaga e geral a estrutura social de seus dias. Apontavam pecados específicos e particulares, corajosa e desassombradamente. Pecados que podiam ser do homem comum ou dos líderes, do latifundiário ou do comerciante, dos nobres ou do rei. Eles condenavam apaixonada e veementemente, a opressão, a violência, a sensualidade, a ganância, o roubo, a desonestidade, a sede de poder, a desumanidade cruel, a falsidade. Pecados de homens e mulheres, pecados que podem aparecer em qualquer sociedade, dessa maneira, qualquer sociedade em que tais ou semelhantes pecados prevaleçam, cai sob a mesma condenação (Jr 7:9-10; Mq 3:11; Os 4:1-2; Amós, 8:5-6). Eles descrevem a situação ao vivo. Retiram o véu que encobre as aparências e exibem desnuda, a podridão e a corrupção (Amós 3:10; Os 6:8-9: Amós 2:6; Mq 2:8; Mq 3:l-3).

SUA DENÚNCIA CONTRA
OS BENEFÍCIOS DAS INIQUIDADES
E o peso de sua denúncia recai também sobre os beneficiários do sistema existente. O rei e os que exercem autoridade; os gordos sacerdotes, os gananciosos profetas profissionais, e os “sábios” parasitários (eram líderes e orientadores da comunidade, e todos eram condenados); os que vivem no luxo sem se incomodarem com os necessitados à sua porta; e em especial as mulheres ricas, vazias e irresponsáveis; os juízes venais, os credores em coração, os donos de casas suntuosas, e os cúpidos proprietários de terras (Os 4:4-6; Os 5:1; Mq 3:5-6 e 11; Am 4:l; Am 6:1-7; Is 3:1-3 e 13-15). À sua ira contra os opressores e sua piedade pelas vítimas, os profetas acrescentavam a denúncia da apatia e degeneração popular. Se os príncipes eram Sodoma, o povo era como o povo de Gomorra (Os 4:5; Is 1:10).

Duas coisas importantes que devemos notar, ainda: os males condenados não eram simples aberrações individuais, comuns, mas excepcionais. Eram características da sociedade como tal, permeando sua estrutura política, suas atividades econômicas, sua cultura e seus padrões morais aceitos, e afetando profundamente a religião.
E não eram males que aparecessem como fruta estranha; eram males, infelizmente, correspondentes à forma e aos fins da própria ordem social, correspondentes aos princípios sobre os quais ela se assentava, e aos valores que ela representava e defendia.

CONCLUSÕES
O assunto é vasto, mas não tratamos senão de alguns aspectos que consideramos mais importantes para este nosso encontro. Não podemos, no entanto, encerrar sem apontar algumas conclusões que nos parecem fundamentadas, pelo menos parcialmente, no que acabamos de dizer.

1. Para os profetas, religião não era, principalmente, assunto de experiência íntima e interna, nem pura questão de ritual, mas era interpretação da condição humana total à luz do propósito de Deus.

2. Os profetas eram porta-vozes de Deus para uma situação específica. A palavra que eles traziam, vinda de Deus, era eficaz e operante; mas muitas vezes eles mesmos se tornavam instrumentos do propósito de Deus. Não apenas como porta-vozes, antes como atores nos dramas da História.

3. Os profetas eram, por isso, homens de ação. Sujeitos a limitações humanas, suas ações eram susceptíveis de erros; mas mesmo assim incorporavam-se ao propósito de Deus para o momento que viviam.

4. Os profetas eram homens de seu povo e do seu tempo. Sua “particularidade” é o segredo de sua universalidade.

5. A ação política dos profetas era realizada à luz de seu entendimento do destino de seu povo, segundo o propósito de Deus.

6. A pregação social dos profetas não era, propriamente, democrática ou humanitária; seu pressuposto básico era o “pacto” que tornara Israel o povo de Yahweh.

7. Para os profetas, justiça e juízo, amor e integridade, eram mais importantes que a estrutura política, a religião organizada, e a organização e as instituições econômicas da nação.

8. Por isso os profetas só tinham compromisso com o Deus que os chamara e enviara. Seu ministério não era uma busca de aceitação humana, mas um desafio a toda ordem humana, criada à parte de Deus.

9. O Deus dos profetas entrava na luta pela justiça social, como o grande Aliado dos injustiçados e expoliados. Seu propósito era (como ainda o é!), criar comunidade, isto é, uma ordem de relações com e entre os homens, em que sua justiça encontrasse perfeito cumprimento.

Que diriam os profetas em nosso tempo? Que fariam os profetas em nosso tempo? Qual o propósito de Deus para como o povo brasileiro? Que testemunho daremos diante da nossa presente ordem social? Estas e outras perguntas que nos devemos fazer seriamente, se é que somos parte de uma igreja, que em Jesus Cristo é herdeira legítima de uma missão profética, para com o mundo contemporâneo. Estas perguntas não podem ter respostas pré-fabricadas, mas constituem o desafio que vamos corajosamente enfrentar nestes dias, sob orientação do mesmo Deus que falou “muitas vezes, e, de muitas maneiras, aos pais, nos profetas” (Hb 1:1).

CITAÇÕES:
(1) Reunião dos Anfictiones, direito de ser representado no conselho deles. Anfictiones: cada membro do Conselho de representantes dos antigos Estados gregos, que se reuniam para deliberar sobre negócios de interesse geral.
(2) Qualidade ou caráter de cúpido. Ávido de dinheiro ou bens materiais, cobiçoso.

Presidente Soares, 19 de julho de 1962.

Anglicanos pedem ao governo inglês asilo para cristãos iraquianos

Um grupo de bispos da Igreja Anglicana da Inglaterra pediu ao Governo britânico que dê asilo no Reino Unido aos cristãos do Iraque que estão sendo ameaçados de morte pelos jihaidistas para se converterem ao Islã.

Milhares de cristãos fugiram da cidade iraquiana de Mossul depois que o grupo jihaidista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS) começou a ameaçá-los. Diante disso, vários bispos anglicanos consideraram que o Reino Unido tem uma “obrigação moral” de acolher estas pessoas, pelo papel que o país desempenhou na invasão do Iraque, em operação com os EUA em 2003, à qual seguiram anos de instabilidade.

Cerca de 750 mil cristãos que viviam no Iraque em 2003 tiveram que deixar o país devido à violência sectária e os 60 mil que compunham a sólida comunidade cristã de Mossul – uma das mais antigas do mundo – se reduziram a 35.000 desde a irrupção do ISIS em junho passado.

Em declarações divulgadas pelo jornal dominical “The Observer”, o bispo de Manchester, David Walker, opinou que o Reino Unido ‘fracassaria’ se não oferecesse refúgio a estes cristãos. “Depois de intervir de modo tão extenso no Iraque, temos, mais do que outros países, uma obrigação moral”, apontou.

Também o bispo de Worcester, John Inge, revelou ao mesmo dominical que se sentiria ‘desgostado’ se o Governo de David Cameron ‘se negar a fazer alguma coisa para estas pessoas ameaçadas’. Na mesma linha, se manifestou o bispo de Leeds, Nick Baines, para quem “o Governo britânico não pode continuar calado ou simplesmente emitir palavras. É preciso fazer algo mais. Não fazê-lo seria equivalente a uma traição da nossa moral e de nossas obrigações históricas”, completou Baines.
(CM)

Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/bra/articolo.asp?c=817395
do site da Rádio Vaticano

Evangélicos organizam Encontro sobre Governança & Transparência Pública em Brasília

“Corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!” Amós 5:24

De acordo com a Transparência Internacional a corrupção é o abuso do poder público para ganhos particulares. Esta definição é aplicada aos setores público e privado. “Todos sabemos que a corrupção é um fenômeno mundial, sendo mais evidente em alguns lugares do que em outros. Embora tenha um custo para toda a sociedade, são os mais pobres os mais penalizados visto que os serviços de atendimento e de infraestrutura não chegam com a eficácia e a eficiência necessárias por conta da má administração e dos desvios dos recursos”, ressalta Serguem Jessui Machado da Silva, representante nacional da Tearfund Brasil.Com o objetivo de dar ouvidos à voz profética de Amós, um grupo de organizações evangélicas composto pela Tearfund, Rede FALE, Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS), Aliança Cristã Evangélica Brasileira, movimento das Igrejas Ecocidadãs, ministério Jeame, Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil (ANNEB) e Evangélicos Pela Justiça (EPJ) organizam em Brasília – DF, entre os dias 26 e 27 de abril, um Encontro sobre Governança & Transparência Pública. O evento contará com a presença de mais de 50 lideranças evangélicas de diversos estados da federação.
Este encontro se insere em uma mobilização global que ocorre anualmente no mês de outubro com o intuito de envolver os evangélicos de todo mundo nos processos de enfrentamento da corrupção em diferentes e variadas iniciativas. A mobilização para o evento começou em novembro de 2011, quando Tearfund, Rede Fale, Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), Aliança Evangélica, RENAS, A Rocha Brasil, Movimento das Igrejas Ecocidadãs, Ação Evangélica (Acev), Cadi, Ecoliber, Jeame, entre outras, se reuniram para debater o fenômeno da corrupção.

“Reconhecemos os esforços e avanços obtidos na luta por mais transparência e controle social por setores da sociedade brasileira e inúmeros órgãos como a Controladoria Geral da União (CGU), o Tribunal de Contas da União (TCU) e setores do legislativo e judiciário. No entanto, faz-se necessária uma mobilização permanente e sistemática da qual a igreja evangélica não pode esquivar-se”, destaca Morgana Boostel, secretária executiva da Rede FALE

O movimento deseja aprofundar a compreensão do tema em suas diferentes perspectivas, seja religioso, econômico, social ou cultural para uma ação mais qualificada com outros setores dos governos e da sociedade no enfrentamento da problemática. Além disso, percebe-se a necessidade de uma mobilização permanente da comunidade evangélica para atuar no combate à corrupção, tanto no seu interior, bem como em outras esferas onde ela se manifesta de forma mais aguda. “Com isso, desejamos criar e manter de forma articulada um grupo de organizações evangélicas que façam contribuições e intervenções no oferecimento de soluções e controle social, especialmente dos recursos públicos destinados à área social”, complementa Morgana.

Local do evento: Casa de Retiros Assunção – Avenida L-2 Norte 611 E – SGAN – 70860-110 BRASÍLIA

Indicação de fontes para entrevistas:
Serguem Silva – serguem.silva@tearfund.org
Representante para o Brasil da ONG cristã Tearfund

Morgana Boostel – morgana@fale.org.br
Secretária Executiva da Rede FALE
– – –
Assessoria de Imprensa – Tearfund Brasil
Erica Neves – emrneves@gmail.com

COMO DEVE O CRISTÃO ENCARAR O COMUNISMO

Martin Luther King

“… Mas que jorre a equidade como uma fonte e a justiça como torrente que não seca” (Amós 5:24).

Poucos assuntos exigem um estudo mais completo e mais sério do que o do Comunismo. Há, pelo menos, três razões que obrigam um ministro cristão a falar sobre o assunto.

A primeira razão é a de reconhecer que a vasta influência comunista se tem espalhado, como uma maré imensa, pela Rússia, China, Europa Oriental e até, atualmente, pelo nosso hemisfério. Existe no mundo quase um bilhão de pessoas que perfilham as suas doutrina e muitas delas professam-na como uma nova religião a que inteiramente se submetem. Não podemos ignorar tal força.

A segunda razão é a do Comunismo ser o único adversário perigoso do Cristianismo. Religiões importantes como o Judaísmo, Budismo, Hinduísmo ou Maometanismo são possíveis alternativas para o Cristianismo, mas ninguém versado nos fatos do mundo moderno pode negar que o Comunismo é o maior rival do Cristianismo.

A terceira razão é que seria desleal, e decerto pouco científico, condenar um sistema antes de saber do que ele trata e por que está errado.

Deixai-me agora fixar claramente a premissa básica deste sermão: o Comunismo e o Cristianismo são fundamentalmente incompatíveis. Um cristão autêntico nunca poderá ser um comunista autêntico, porque as duas filosofias são antitéticas e não há dialética de lógico que possa reconciliá-las. Porquê?

Primeiro, porque o Comunismo se baseia numa visão materialista e humanista da história e da vida. Segundo a teoria comunista, não é a inteligência nem o espírito que decidem do universo, mas apenas a matéria; esta filosofia é declaradamente secularista e ateísta. Para ela, Deus é um simples mito criado pela imaginação; a religião, um produto do medo e da ignorância; e a Igreja, uma invenção dos governantes para controlarem as massas. O Comunismo, tal como o Humanismo, mantém, além disto, a grande ilusão de que o homem pode salvar-se sozinho, sem a ajuda de qualquer poder divino, e iniciar uma nova sociedade.

“Luto sozinho, e vença ou morra,

não preciso de ninguém que me liberte;

Não quero nenhum Cristo que me diga

Poder um dia morrer por mim”.

Ateísmo frio, mascarado de materialismo, o Comunismo não admite Deus nem Cristo.

No centro da fé cristã está a afirmação de que existe um Deus no Universo, base e essência de toda a realidade. Ser de infinito amor e de poder ilimitado, Deus é o criador, o defensor e o conservador de todos os valores. O Cristianismo, ao contrário do materialismo ateu do Comunismo, afirma um idealismo teísta. A realidade não pode explicar-se por matéria em movimento ou tensão de forças econômicas opostas. O Cristianismo afirma que existe um Coração no coração da realidade, um Pai extremoso que trabalha através da História para a salvação dos seus filhos. O homem não pode salvar-se a si próprio porque não é ele a medida de todas as coisas e a humanidade não é Deus. Preso pelas cadeias do seu próprio pecado e das suas próprias limitações, o homem necessita dum Salvador.

Em segundo lugar, o Comunismo assenta num relativismo ético e não aceita absolutos morais estabelecidos. O bem ou o mal são relativos aos métodos mais eficientes para o desenvolvimento da luta de classes. O Comunismo emprega a terrível filosofia de que os fins justificam os meios. Apregoa pateticamente a teoria duma sociedade sem classes, mas, infelizmente, os métodos que emprega para realizar esse nobre intento são quase sempre ignóbeis. A mentira, a violência, o assassinato e a tortura são considerados meios justificáveis para realizar esse objetivo milenário. Será isto uma acusação falsa? Escutai as palavras de Lenine, o verdadeiro estrategista da teoria comunista: “Devemos estar prontos à empregar o ardil, a fraude, a ilegalidade e a verdade encoberta ou incompleta”. A História moderna tem passado por muitas noites de agonia e por muitos dias de terror por causa desta opinião ter sido tomada a sério por muitos dos seus discípulos.

A contrastar com o relativismo ético do Comunismo, o Cristianismo estabelece um sistema de valores morais absolutos e afirma que Deus colocou dentro da própria estrutura deste universo certos princípios morais, fixos e imutáveis. O imperativo do amor é a norma de todos os atos do homem e o autêntico cristianismo recusa-se também a seguir a filosofia dos fins que justificam os meios. Os meios, quando destrutivos, nunca podem construir seja o que for, porque os meios são a representação do ideal na realização e na confirmação do objetivo pretendido. Os meios imorais não podem conseguir os fins morais, porque os fins já pré-existem nos meios.

Em terceiro lugar, o Comunismo atribui o máximo valor ao Estado; o homem é feito para o Estado, em vez do Estado para o homem. Poderão objetar que o Estado, na teoria comunista é uma “realidade intermediária” que “desaparece” quando emergir a sociedade sem classes. Em teoria, isto é verdade; mas também é verdade que, enquanto o Estado se mantém, é ele a finalidade. O homem é o meio para esse fim e não possui quaisquer direitos inalienáveis; os únicos que possui derivam ou são-lhe conferidos pelo Estado. A nascente das liberdades secou sob um tal regime. Restringe-se no homem a liberdade da imprensa e da associação, a liberdade de voto e a liberdade de ouvir ou de ler. Arte, religião, educação, música ou ciência, tudo depende do Estado, e o homem é apenas o servo dedicado do Estado onipotente.

Tudo isto não só é contrário à doutrina de Deus, como também à valorização cristã do homem. O Cristianismo insiste que o homem é um fim porque é filho de Deus, criado à sua imagem e semelhança. O homem é mais do que um animal reprodutor dirigido pelas forças econômicas; é um ser com alma, coroado de glória e de honra, dotado de liberdade. A maior deficiência do Comunismo está em tirar ao homem exatamente a qualidade que faz dele um homem. Diz Paul Tillich que o homem é homem porque é livre; e essa liberdade traduz-se na capacidade que tem de deliberar, decidir e reagir. No Comunismo, a alma do indivíduo está amarrada pelas cadeias do conformismo, e o espírito pelas algemas da obediência ao partido. Despojam-no da consciência e da razão. O mal do Comunismo está em não ter uma teologia nem uma Cristologia; revela assim uma antropologia muito confusa, tanto acerca de Deus, como acerca do homem. Apesar dos discursos brilhantes sobre o bem-estar das massas, os métodos do Comunismo e a sua filosofia despem o homem da sua dignidade e do seu valor, reduzindo-o à despersonalização duma simples roda na engrenagem do Estado.

Tudo isto, claro, sai fora da harmonia do pensamento cristão. Não procuremos enganar-nos: estes sistemas de idéias são por demais contraditórios para poderem reconciliar-se. São maneiras totalmente opostas de encarar o mundo e a sua evolução. Temos obrigação, como Cristãos, de rezar sempre pelos comunistas, mas nunca poderemos, como verdadeiros cristãos, tolerar a filosofia do Comunismo.

Há, contudo, no espírito e na ameaça do Comunismo alguma coisa que nos diz respeito. O falecido Arcebispo de Cantuária, William Temple, considerava o Comunismo como uma heresia cristã. Queria significar com isso que algumas das verdades de que o Comunismo se apossou são parte integrante da doutrina cristã, embora misturadas com teorias e práticas que nenhum cristão pode aceitar.

A teoria do Comunismo, mas não decerto, a prática incita-nos a preocuparmo-nos mais com a justiça social. Com todas as suas falsas assunções e com todos os seus métodos cruéis, o Comunismo surgiu como um produto contra as injustiças e indignidades infligi das sobre os desprivilegiados. O Manifesto Comunista foi escrito por homens apaixonados pela justiça social. Karl Marx, filho de judeus que, por sua vez, descendiam duma família de rabinos, e eram, portanto versados, como é natural, nas Escrituras Hebraicas nunca conseguiu esquecer as palavras de Amós:

“Mas que jorre a equidade como uma fonte e a justiça como uma torrente que não seca” (Amós 5:24).

Os pais de Marx adotaram o Cristianismo quando ele tinha apenas seis anos, acrescentando assim o Novo ao Antigo Testamento. Embora o seu ateísmo e anticlericalismo finais, Marx nunca esqueceu completamente o interesse de Jesus por “esses mais pequeninos”. Nas suas obras advoga a causa dos pobres, dos explorados e dos deserdados.

O Comunismo, na teoria, insiste numa sociedade sem classes. Embora o mundo saiba através de tristes experiências que o Comunismo criou classes novas e um novo Código de injustiça, na sua formulação teórica prevê uma sociedade mundial que transcenda as futilidades da raça ou da cor, da classe ou da casta. Teoricamente, para pertencer ao partido comunista não é exigida a cor de pele dum homem nem o tipo do sangue que lhe corre nas veias.

Os Cristãos são obrigados a reconhecer todo ou qualquer interesse apaixonado pela justiça social. Esse interesse é fundamental na doutrina cristã da Paternidade de Deus e da fraternidade dos homens. Os Evangelhos abundam em manifestações de interesse pela situação dos pobres. Ouçamos as palavras do Magnificat: “Derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes; saciou de bens os famintos e despediu os ricos de mão vazia” (Lucas 1:52-53). Nunca nenhum doutrinador comunista expressou uma tal paixão pelos pobres e pelos oprimidos, como a que encontramos no Manifesto de Jesus quando afirma: “O Espírito do Senhor está sobre Mim pelo que Me ungiu; e enviou-Me para anunciar a boa-nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista; para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor” (Lucas 4:18-19).

Os cristãos também são intimados a reconhecer esse ideal de unidade, num mundo onde sejam abolidas todas as barreiras da casta ou de cor. O Cristianismo repudia o racismo. O amplo universalismo centrado no evangelho torna moralmente injustificável a injustiça racial tanto na teoria como na prática. O preconceito rácico é a negação flagrante da nossa unidade em Cristo, porque em Cristo não há judeu ou gentio, cativo ou livre, preto ou branco.

Apesar da nobreza das afirmações cristãs, nem sempre a Igreja tem demonstrado um grande interesse pela justiça social, contentando-se muitas vezes com pronunciar sentenças piedosas ou trivialidades beatas. Tão preocupada tem estado com a felicidade futura “do além”, que se tem, por vezes, esquecido dos males presentes “cá da terra”. Mas a Igreja é também desafiada a mostrar toda a importância do Evangelho de Cristo dentro da situação social. É tempo já de perceber que existem dois rumos no Evangelho Cristão. Um, onde se procura transformar a alma dos homens e promover assim a sua união com Deus; outro, em que se tenta modificar as suas condições de vida a fim de que as suas almas tenham possibilidades de salvação. Toda a religião que manifeste preocupação pelas almas sem se preocupar com as condições econômicas e sociais que as destroem ou atabafam, é apenas, como dizem os marxistas, urna espécie de “ópio do povo”.

Também a honestidade nos obriga a admitir que nem sempre a Igreja foi fiel à sua missão na questão da justiça racial; nesse campo, falhou miseravelmente perante Cristo. E não só pelo fato de ter mantido um espantoso silêncio e urna indiferença desastrosa em relação ao problema rácico corno, além disso, por ter tanta vez participado ativamente na organização e na manutenção de exemplos desse sistema rácico ou de casta. Se a Igreja Cristã se tivesse realmente oposto, nunca o colonialismo teria durado tanto. A Igreja Holandesa da Reforma Protestante é ainda hoje urna das principais defensoras do vicioso sistema do apartheid na África do Sul. Nunca a escravatura se poderia ter mantido quase duzentos e cinqüenta anos na América, se a Igreja a não sancionasse; nem a segregação e a discriminação poderiam ter existido se a Igreja cristã não se tivesse calado ou até mesmo apoiado verbalmente. Temos de admitir também o vergonhoso fato da Igreja ser a maior instituição segregada da sociedade americana, e de o momento de maior segregação durante a semana ser, como o Professor Liston Pope apontou, o das onze horas da manhã de domingo. Quantas vezes a Igreja não tem sido mais um eco do que uma voz; ou a luz que está por detrás do Supremo Tribunal ou doutras quaisquer instituições seculares, em vez de ser a que guia e encaminha os homens, de forma progressiva e decisiva, para um mais alto nível de compreensão.

Deus julga a sua Igreja. Na alma dela existe um cisma que tem de acabar. Quando os futuros historiadores disserem que, em pleno século vinte, a Igreja era um dos maiores baluartes da supremacia racial considerar-se-á isto, decerto, como um dos maiores dramas da história cristã.

Perante o desafio comunista, devemos examinar honestamente a fraqueza do capitalismo tradicional forçoso admitir sinceramente que o capitalismo cria, na maioria dos casos, um abismo entre a riqueza supérflua e a miséria abjeta assim como as condições que permitem ir tirar a muitos o que lhes é indispensável para dar a alguns o luxo de que usufruem, e que cultiva a mesquinhez dos homens, tornando-os frios e inconscientes, a ponto de ficarem, como o homem rico diante de Lázaro, indiferentes perante a humanidade sofredora e necessitada. Apesar das reformas sociais permitidas pelo capitalismo americano a fim de se reduzirem tais tendências, ainda falta realizar muita coisa. Deus quer que todos os seus filhos gozem de condições básicas para uma vida sã e significativa. É, com certeza, pouco cristão e pouco ético, refastelarmo-nos em camas fofas e luxuosas, enquanto outros se afundam na mais negra miséria.

O lucro, quando é a base única dum sistema econômico, estimula a competição brutal e a ambição egoísta, e instiga os homens a procurar viver bem, de preferência a realizarem uma vida. De tal maneira lhes desenvolve o seu "eu" que deixam de se interessar pelos outros. Não haverá em nós uma grande propensão para avaliarmos o êxito pelo índice dos vencimentos ou pela potência do motor dos carros, em vez de o avaliarmos pela qualidade do nosso serviço ou da nossa solidariedade em relação aos outros? O Capitalismo pode levar a um materialismo prático tão prejudicial como o materialismo teórico dos comunistas.

Admitamos honestamente que, nem o capitalismo tradicional, nem o marxismo contêm a verdade; ambos representam apenas uma verdade parcial. Historicamente, o capitalismo falhou no discernimento da verdade no empreendimento coletivo, assim como ao Marxismo faltou o discernimento da verdade no empreendimento individual. O Capitalismo do século dezenove não soube perceber que a vida é social, e o marxismo não soube ver, nem ainda o sabe que a vida é individual e social. O Reino de Deus não é a tese do empreendimento individual nem a antítese do empreendimento coletivo; é a síntese que reconcilia a verdade de ambos.

Somos ainda desafiados a dedicar as nossas vidas à causa de Cristo, pelo menos, tanto como os comunistas dedicam as deles ao Comunismo. Nós, que não podemos aceitar o credo dos comunistas, temos de reconhecer neles o zelo e a dedicação a uma causa que consideram capaz de criar um mundo melhor. Possuem determinação e propósito, e trabalham apaixonada e assiduamente na conquista de adeptos para a sua causa. Quantos Cristãos estarão empenhados em conseguir novos adeptos para Cristo? Nem o zelo por Cristo nem o interesse pelo seu Reino são muito correntes. Para muitos cristãos, o Cristianismo é uma atividade dominical que à segunda-feira deixa de interessar, e a Igreja pouco mais do que um local de reuniões sociais, com um certo tom religioso. Jesus representa para nós um símbolo antigo ao qual nos dignamos chamar Cristo, e nas nossas vidas inconsistentes não o manifestamos nem o reconhecemos. Se ao menos a chama dos corações de todos os cristãos ardesse com a mesma intensidade daquela que arde nos corações comunistas! Não será pelo nosso zelo cristão que o Comunismo ainda se mantém tão vivo no mundo?

Entreguemo-nos de novo à causa de Cristo e procuremos readquirir o espírito da Igreja primitiva. Por toda a parte por onde andaram, os cristãos eram as testemunhas triunfantes de Cristo; ou nas ruas das aldeias, ou nas cadeias das cidades, proclamavam sempre aberta- mente a boa-nova do Evangelho. E a recompensa que geralmente recebiam por esse audacioso testemunho era a cruciante agonia num covil de feras ou o sofrimento pungente do martírio. Mas, mesmo assim, consideravam a sua causa tão grande, e tão divina a transformação operada pelo Salvador, que o sacrifício lhes parecia pequeno. Quando chegavam a uma cidade, a estrutura do poder ficava abalada; o Novo Evangelho que anunciavam trazia um novo calor primaveril a homens cuja vida até então se endurecera ao longo inverno do tradicionalismo. Incitavam os homens a revoltar-se contra os antigos regimes de injustiça e contra as velhas estruturas da imoralidade. Quando as autoridades se opunham, esse povo extraordinário, embriagado pelo vinho da graça de Deus, prosseguia na proclamação do Evangelho até convencer a própria gente da casa de César, até que os carcereiros atirassem fora as chaves, até que os reis vacilassem nos seus tronos. T. R. Glover escreveu que os primeiros cristãos “ultrapassaram no pensamento, na vida e na morte” (The Jesus of Hystory, 1917), qualquer outra pessoa.

Onde existe atualmente um tal fervor? Onde haverá hoje essa entrega audaz e revolucionária à causa de Cristo? Estará oculta atrás de cortinas de fumo ou dos altares? Estará enterrada no túmulo a que chamamos respeitabilidade? Estará inextricavelmente ligada a um inaudito statu quo, ou prisioneira nas celas rígidas dos hábitos e das regras? Temos de despertar de novo essa devoção; temos de entronizar Cristo outra vez nas nossas vidas.

Esta será a nossa melhor defesa contra o Comunismo. A guerra não é solução; nunca o Comunismo será destruí do por bombas atômicas ou armas nucleares. Não nos aliemos aos que reclamam a guerra e procuram, com desenfreada paixão, forçar os Estados Unidos a abandonarem as Nações Unidas. Vivemos numa época em que os cristãos têm de demonstrar uma sensatez prudente e um raciocínio calmo. Não devemos apelidar de comunista ou de pacifista todo aquele que reconhece não serem o histerismo e o ódio a resolução para os problemas dos nossos dias. Não nos empenhemos num anticomunismo negativo, e procuremos antes afirmar uma confiança positiva na democracia, compreendendo que a nossa maior defesa contra o Comunismo será a de tomar uma ofensiva entusiástica a favor da justiça e do direito. Depois de bem expressa a condenação da filosofia comunista, devemos empreender ainda uma ação positiva, tentando remover as condições da pobreza, da insegurança, da injustiça e da descriminação racial, que são o terreno propício para o crescimento e desenvolvimento da semente do Comunismo; esta só medra quando as portas das oportunidades se fecham, ou as aspirações humanas são abafadas. Como os primeiros cristãos, temos de caminhar, num mundo muita vez hostil, armados com o revolucionário evangelho de Jesus Cristo. Com ele, podemos desafiar audaciosamente o statu quo e as práticas injustas, abreviando o tempo em que:

“todo o vale seja entulhado

toda a montanha e colina sejam abaixadas

os cimos sejam aplainados

e as escarpas sejam niveladas

e então a glória de Deus manifestar-se-á”.

Isaías 40:4-5

A dificuldade da nossa resposta ao incitamento e a nossa sublime oportunidade será a de criarmos um autêntico mundo cristão que testemunhe o espírito de Cristo. Se aceitarmos o desafio com dedicação e valor, os sinos da História dobrarão pelo Comunismo e poderemos construir um mundo livre para a democracia e seguro para o povo de Cristo.

João Cândido: Negro, protestante na Luta por Justiça – Revolta da Chibata


João Cândido: vitória sobre a chibata

desafiando as chibatas

Por Mário Maestri

O destino prometia ao menino negro vida movimentada e, quem sabe, prazerosa. Seus pais haviam sido escravos e ele ingressava, aos 14 anos, na Escola de Aprendizes Marinheiros do Rio Grande do Sul, pela mão protetora do poderoso almirante Alexandrino de Alencar, seu conterrâneo. Mesmo sendo a vida de marujo coisa de índio mui macho, o jovem João Cândido Felisberto mostrou-se feito para a empreitada.

Em 1895, aos 15 anos, no Rio de Janeiro, entrou definitivamente na Marinha e embarcou-se no cruzador Andrada, apresentando, logo, dotes e aptidões especiais. Apesar da pouca idade, revelou-se um “apaziguador das brigas e conflitos” dos marujos, chegando, na função de sindicalista avant la lettre, a ser acusado de “bajulador de oficiais”, devido às boas relações com os superiores.

No encouraçado Riachuelo, conheceu Montevidéu e Buenos Aires e, no pequenino Jutahy, visitou Belém e Manaus, no caminho do Acre. Outras embarcações levaram-nos a inusitados destinos, sugerindo um mundo sem horizontes ao menino que nascera entre as cercas de uma fazenda perdida do interior gaúcho. Em fins de 1909, encontrava-se em New Castle, na Inglaterra, para habituar-se ao manejo do poderosíssimo encouraçado Minas Gerais.

Como a República do café, da borracha e do cacau vivia vacas gordas, os senhores da nação decidiram o aparelhamento faraônico da Marinha, dizimada na Revolta da Armada [1893]. Nada menos do que três couraçados, três cruzadores-couraçados, seis caça-torpedeiros, doze torpedeiros, três submarinos, um navio carvoeiro!

Porém, como já era assaz comum no Brasil da época, os senhores do Brasil embelezavam a fachada, enfeitavam o hall, mobiliavam a sala e despreocupavam-se, olimpicamente, com a cozinha. Os navios eram o que havia de melhor, as condições de vida e trabalho da maruja assemelhavam-se às dos navios tumbeiros dos tempos do tráfico!

O soldo era baixo; a comida ruim; o trabalho, duríssimo. As mínimas faltas eram castigadas com tronco, solitária e ginástica punitiva, executada até quase o desfalecimento, a temida “sueca”. Em plena República, os marinheiros apanhavam bolos e eram vergastados, como cativos dos tempos da escravidão. Piorando tudo: a soberba oficialidade orgulhava-se de seu “sangue limpo” e desprezava uma maruja formada por negros, mulatos e caboclos.

Na Inglaterra, os marujos conheceram o movimento sindical e socialista europeu e informaram-se sobre a revolta, de 1905, dos marinheiros russos do Potemkin, contra seus oficiais. A velha tradição de luta, expressa em pequenas revoltas anteriores, conheceu salto de qualidade, ensejando ampla e bem organizada conspiração pelo fim da chibata e por melhores condições de trabalho e vida.

Talvez a grande contribuição do ensaio biográfico de João Cândido, do jornalista Fernando Granato – O negro da chibata: o marinheiro que colocou a República na mira dos canhões [Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. 139 pp.] – seja a ênfase posta nas razões que levaram João Cândido, com apenas 30 anos, a transformar-se, quase naturalmente, no porta-voz da revolta dos marinheiros. Ou seja, sua liderança anterior à revolta entre os marujos e sua proximidade com a oficialidade.

Os sucessos de 22 a 26 de novembro 1910, abordados pioneiramente pelo jornalista Edmar Morel, em A revolta da chibata, subsídios para a história da sublevação na Esquadra pelo marinheiro João Cândido em 1910 [3ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979], são já conhecidos, ainda que importantes momentos dos acontecimentos teimem em permanecer no desconhecimento: o papel na revolta do marinheiro-paioleiro Francisco Dias Martins; as confabulações dos conspiradores; o sentido da segunda rebelião, de 10 e11 de dezembro; a divisão de posições entre os marujos, em novembro e dezembro etc.

Menos conhecida é a trajetória da vida de João Cândido após a ruptura da anistia, concedida e desrespeitada, iniquamente, pelo Parlamento e pelo presidente Hermes da Fonseca, que ensejou o massacre da ilha da Cobras e do navio Satélite, entre outros covardes crimes praticados contra marujos desarmados.

Aprisionado, internado, julgado e inocentado de todas as acusações, João Cândido foi libertado, aos 32 anos de idade, no Rio de Janeiro, tuberculoso e sem recursos, quando os fatos eram ainda candentes. Procurando adaptar-se à nova vida, tentou, com sucesso inicial, a sorte na marinha mercante, de onde foi rapidamente desembarcado pelo dedo acusador do comandante dos portos de Santa Catarina, que exigiu que o líder da maruja fosse lançado novamente no desemprego.

Fechando-se o mar ao Almirante Negro, por meio século, João Cândido navegou por entre os escolhos do desemprego, do subemprego e de uma aposentadoria miserável, rota de cabotagem singrada invariavelmente pela imensa maioria da população brasileira trabalhadora negra, daquelas e de nossas épocas.

As alegrias e agruras pessoais; a simpatia para com a Aliança Nacional Libertadora, em 1935; a militância destacada nas filas dos fascistas tupiniquins de Plínio Salgado, até 1938; sua atribulada visita ao Sul, em 1961; as homenagens prestadas pelos marinheiros, em 1964, são episódios de sua biografia abordados, em breves flashs, por Fernando Granato, num texto sempre agradável e ameno.

Em 6 de dezembro de 1969, no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar, encerrava-se a existência atribulada desse marinheiro que suportou, sobre as suas costas largas, as desditas normais do negro pobre brasileiro e as glórias de ter dirigido um dos mais fulgurantes movimentos sociais de nosso passado.

Um destino singular, que certamente esmaeceu as mais descomedidas expectativas do menino que assistia, embasbacado, a evolução vagarosa das barcaças do seu Jacuí natal, sem saber que a vida lhe reservaria o papel de Prometeu Negro, castigado, na eternidade de sua vida longa, pelo crime de desafiar os falsos mas poderosos deuses do Olimpo nacional