Enéas Alixandrino

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Em Mateus cap. 5:21- 22 Jesus se vale de uma expressão sírio ao utiliza-se da palavra “raká-imbecil-cretino” e um outro palavrão grego “môurós-parvo-louco-renegado”, sinalizando que nas relações comunitárias, ele abre novo inquérito contra ofensores, cuja intenção é desqualificar ou estigmatizar o irmão nas relações em comunidade. Diante das interpretações estereotipadas do Sinédrio em sua aplicabilidade do mandamento “não matarás”, reduzindo o assassinato somente ao ato físico, Jesus chama atenção para outras facetas do assassinato e da morte, que possuem desdobramentos psicológicos no ofendido. Portanto, um julgamento por parte daquele que sonda as intenções, está em pleno vigor com certo rigor no meio da comunidade, juízo este que não passa pelo crivo do Sinédrio, mas será executado em uma dimensão escatológica.

Ao utilizar-se da hipérbole, Jesus demonstra ao ofensor as implicações morais de suas ofensas que não passarão desapercebidas como algo inofensivo.
Raká-Imbecil: era uma forma de desqualificar o outro na comunidade como alguém incapaz de exercer seu direito de voto, uma anulação, completa ausência de alteridade. Para Jesus tais ofensas são sintomáticas, elas precedem o assassinato físico, assim como também a fumaça ao fogo. Entretanto, tais ofensas possuem o potencial de transformar ofensor em assassino por serem uma completa anulação do outro.

Môrós-Louco: normalmente usado nos escritos sapienciais como uma forma de chamar alguém de tolo, desobediente ou incrédulo.Uma aniquilação do outro, principalmente por desqualifica-lo no que se refere à capacidade de relacionar-se com seu o criador. Por isto que na fala de Jesus o “geena” é uma forma de juízo para o ofensor, pois da mesma forma que ele julga seu “irmão” de ser incapaz de se relacionar com Deus, ao mesmo tempo ele assume em suas ações para com outro, um completo afastamento de Deus no presente, que se concretiza com juízo do geena no escaton…

Portanto, o fato de Jesus empregar a hipérbole e a construção do texto se dar de forma poética, em nada diminui seu efeito como juízo sobre nossas ações, mas é uma advertência às nossas frivolidades, pois costumamos ser levianos quando o outro tem um ponto de vista diferente do nosso, seja nas reflexões teológicas ou mesmo nas discussões “politicas”, se não o anulamos, as vezes, é comum lançá-lo ao inferno. Nas recente polarizações do embate politico via redes social, o esteriótipos como “Coxinha” ou “petralhas” esconde mais do que uma completa despolitização e, sim, ódio, intolerância aqueles que se posiciona de forma diferente.  Tenho receios de lideres religiosos que, usam de seu populismo para promover ódio e intolerância em tempos como estes…

Joaquim Beato
Am 9.7; Is 18.1-2

É num texto bíblico que tem sido procurada a justificação do escravismo e do racismo anti-negro, entre os cristãos (Gn9e20-27). Por isso, convém lançar um olhar, ainda que rápido, sobre a Bíblia, num sentido mais amplo, para uma verificação mais segura do testemunho das Escrituras Sagradas sobre o negro.

Temos na Bíblia o testemunho da presença do negro no quotidiano da sociedade israelita:

Um escravo negro (cuxita) foi o mensageiro escolhido para levar a Davi a notícia da morte de seu filho e adversário, Absalão (28m 18.21-32). Um escravo ou um mercenário negro, por ser um estrangeiro foi, talvez por isso, preferido pelo comandante Joab, para levar ao rei a trágica notícia.

2. Depois de ter lido em público os oráculos de denúncia e ameaça do profeta Jeremias, Baruque, seu secretário, foi intimado a comparecer diante dos grandes de Judá, levando-lhes o rolo (Jr 36.1- 26). O mensageiro enviado para convocar Baruque foi Jeudi, bisneto de um negro (cuxita; Jr 36.14; CNBB e NTLH).

3. Por sua mensagem, que aconselhava abertamente a rendição de Judá a Nabucodonosor, rei de Babilônia, Jeremias foi perseguido como traidor da pátria e entregue pelo rei Zedequias ao arbítrio dos príncipes. Estes o jogaram num poço em que não havia água, só havia lama (Jr 38.1-6). E o profeta se atolou na lama, correndo o perigo de se afogar e morrer. Aparece, então, um negro, um cuxita, cujo nome é dado como Êbed-Mélekh (literalmente, servo, isto é, ministro do rei). Ele vai ao rei, intercede por Jeremias e consegue permissão para salvar a vida do profeta. Esse negro é, portanto, alguém em alta posição na corte, tendo acesso direto ao rei, que o devia ter em alta consideração, e, por isso, atendeu seu pedido, embora fosse em desafio à decisão dos príncipes, diante dos quais o rei se confessara sem nenhum poder (Jr 38.3, 7-13). Essa foi uma ação tão notável que o etíope Êbed-Mélekh recebeu, em recompensa, um oráculo, por intermédio do próprio Jeremias, em que lhe era prometido livramento, quando acontecesse a destruição de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor. Sua vida seria poupada, porque ele confiara no Deus Eterno (Jr 39.15-19).

4. Duas coisas chamam a atenção no cabeçalho do livro de Sofonias (Sf 1.1). A primeira: é o único entre os profetas que tem seus antepassados citados até a quarta geração. Charles Taylor Jr. afirma: “A razão é, sem dúvida, porque o Ezequias mencionado é o rei daquele nome, que governara Judá de 715 a 687 a. C.,, A segunda: Sofonias é declarado filho do Negro (Cuxita). Podem ser formuladas duas hipóteses, para explicar esse caso:

a) uma dama nobre, neta do rei Ezequias, casara-se com um etíope, com um negro, que veio a ser o pai do profeta;
b) ou, então, seu pai, este sim, neto de Ezequias, recebera o nome de Cuxita (etíope), em homenagem ao Egito, pais com que Judá se aliara em oposição à Assíria. Qualquer que seja a hipótese adotada, torna-se evidente a alta conta em que eram tidos os cuxitas (etíopes, negros) pela família real de Judá.

5. Abraão foi o pai dos crentes, para judeus e cristãos, seu primeiro antepassado na fé (Gn 12..1-4a), que teve a honra de ser considerado um dos dois amigos de Deus, no AT (Antigo Testamento) (Is 41.8). Para os maometanos, ele foi um dos quatro grandes profetas: Ibraim, Musa, Issa e Maomé. Seu primeiro filho, Ismael, nasceu de sua relação com Agar, escrava egípcia, camita, portanto, negra, visto como Gn 10.6 e lCr 1.8 colocam Etiópia, Egito, Líbia e Canaã como filhos de Cam. Além disso, Deus sustentou, no deserto, essa mulher negra e seu filho e, mais ainda, concedeu-lhe o privilégio de uma teofania, isto é, apareceu diante dela e lhe falou (Gn 16..1-16; 17.23-27; 21.8-21). Através de Ismael, Agar se tornou a matriarca de numerosos povos beduínos que habitavam o sul da Palestina. E, segundo outras traduções, tornou-se uma ancestral de Maomé, o fundador do islamismo, tido como descendente de Ismael.

6. Da máxima importância, neste contexto, é uma tradução que envolve o próprio Moisés, o líder máximo do povo de Deus, no AT (Antigo Testamento), libertador do povo de Israel, em seu Êxodo do Egito, fundador da fé “javista.” Grande profeta, que também teve o privilégio de ser considerado, como Abraão, um amigo de Deus. Homem ímpar, de quem se diz: “Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés” (Dt 34.10-12). Existem três diferentes traduções sobre a origem étnica de sua esposa. Uma atribui a ela origem midianita (Ex 2.16-22; 3.1; 4.24-26; 18.1; Nm 10.29). Outra, uma origem quenita (Jz 1.16; 4.11). A terceira fala de seu casamento com uma cuxita (etíope, negra; Nm 12.1).. Em todas as três, o grande libertador de Israel tem por esposa uma mulher estrangeira. A terceira tradução fala de uma esposa etíope, embora num texto que contém algumas dificuldades. Qualquer que seja a solução das dificuldades, o texto indica, de maneira suficientemente clara, que se trata de um casamento recente e, por conseguinte, a esposa mencionada não era Zípora. E mais, que a causa da rebelião de Minam foi a posição de Moisés como mediador único entre Deus e o povo (Nm 12.2). Conclui-se, então, que não há nenhuma recusa contra o fato, que é aceito, portanto, como normal, de que o fundador e legislador do povo de Israel, — o homem com quem Deus falava “face a face”, a quem colocara “como responsável” por todo o seu povo, — o fato de que Moisés tivesse desposado uma cuxita, uma mulher etíope, uma mulher negra.

7. Salomão foi, segundo a tradição, o mais sábio, o mais rico e o mais famoso dos reis de Israel, e construtor do primeiro templo de Jerusalém. Pois bem, entre as mais importantes raínhas-esposas de Salomão, estava a filha de um faraó da 2 ia dinastia, o faraó Shishak (cerca de 945-924 a.C.), pertencente a uma dinastia de famosos mercadores. Essa egípcia era a mais importante das raínhas-esposas. Seu pai tomou a cidade de Guézer dos canaanitas e deu-a como dote à filha, à esposa camita, à rainha-esposa negra de Salomão (1Rs 3.1; 9.16; 11.1).

II

Temos, na Bíblia, o testemunho sobre a imagem dos negros como pareciam aos olhos dos israelitas:

1. Os etíopes habitavam num país distante, remoto (Ez 29.10; Et1.1; 8.9), que ficava nos confins da terra (Sl 72.8-9).. No mundo da cultura grega, igualmente, Homero, no nono ou oitavo século a. C., dizia: “Posêidon, porém, partira para longe, em visita aos etíopes, que vivem nos confins da Terra…” (Odisséia 1.22-24).

2. Seu país era muito rico (Is 45.14a; Jó 28.19). Também no mundo da cultura grega, talvez um século depois dessa passagem bíblica, Heródoto fala de presentes enviados por Cambises, da Pérsia, a um rei dos etíopes: “um traje de púrpura, um colar de ouro, braceletes, um vaso de alabastro cheio de essência e um barril de vinho de palmeira”; e registra que só em relação ao invento do vinho o rei etíope admitiu a superioridade dos persas. Relata que, na prisão a que o soberano etíope levou, em visita, os emissários de Cambises, todos os presos estavam agrilhoados com correntes de ouro, pois, afirma Heródoto, entre os etíopes não era o ouro o metal mais raro e precioso, mas o cobre (História, livro m, cps. XX-XXIII).

3. Eram um povo guerreiro. Um povo forte e orgulhoso, de quem o mundo inteiro tinha medo (Is 18.2; cf. 2Cr 14.8). Esse capítulo de Isaías de Jerusalém (8o. século a..C.) fala-nos de mensageiros, de diplomatas etíopes, que tinham vindo tentar conseguir a participação de Judá numa rebelião geral contra a dominação dos assírios (Is 18.1-2a). A Etiópia estava no auge de seu poder. Em cerca de 725 a.C., Pianki empreendeu uma vitoriosa campanha militar para o norte, chegando até o mar Mediterrâneo, e unificou o Egito. Pianki tornara-se, assim, o primeiro conquistador estrangeiro desse pais. Por cerca de sessenta anos, na 25a. dinastia, os soberanos etíopes controlaram todo o vale do rio Nilo, até 663, quando os assírios, sob Assurbanipal, tiraram, finalmente, o Egito de sob seu poder. Um desses soberanos, Tiraká, parece ter até tentado proteger Ezequias, rei de Judá, contra a segunda invasão de Senaqueribe, rei da Assíria (2Rs 19.9; Is 37.9), entre 689 e 686 a.C. Um século mais tarde, ao prever a queda de Ninive (portanto, do império assírio), o profeta Naum cita a destruição de Tebas e, recordando o período áureo do poderio etíope, diz: “A Etiópia era a sua força.” (Na 3.9). Isaias, no oitavo século a.C., diz da Etiópia do seu tempo: «Povo forte e poderoso; um povo de quem o mundo inteiro tem medo” (Is 18,2df).

4. Mas é em Jr 13.23,– que alguns comentadores cristãos têm interpretado como se os antigos israelitas compartilhassem o moderno preconceito racial ocidental, que identifica o negro com o mal — onde pode, ao contrário, ser encontrada uma confirmação da fama guerreira dos etíopes: “Pode um etíope mudar a sua pele, ou um leopardo tirar as suas manchas?” Temos aqui um claro paralelismo, recurso estilístico dos mais importantes da poesia hebraica. Aqui ele é sinonímico, isto é, os termos do hemistíquio se eqüivalem, um por um, termo por termo:

pode um etíope / b. mudar a sua pele,

a’. ou um leopardo / b’. tirar as suas manchas?

A associação dos termos é bastante espontânea e significativa: Etíope, homem de uma nação poderosa e ameaçadora, que causava medo por seu valor militar; Leopardo: animal feroz, imagem da força, da rapidez no bote, da agressão violenta (Os 13.7; Is 11.6; Jr 5.6; Hab 1.8; Ct 4.8; De 7.6).

Não se trata, portanto, de preconceito racial. Quando muito, se trata de um ressentimento implícito, gerado pelas freqüentes situações de guerra, nas quais esse “povo de quem o mundo inteiro tem medo” aparecia, ou no papel de inimigo ou como guerreiros mercenários, lutando lado a lado com o Egito, apoiando seu imperialismo (1Rs 14.25s; 2Cr 14.8-14; Na 3.9; Jr 46.9; Ez 38.53). O etíope, o negro, temível guerreiro, é comparado, por uma livre associação de idéias, a um verdadeiro leopardo feroz. À imagem do etíope associava-se a imagem do leopardo, o que, nem de longe, se compara aos estereótipos que se ligam à imagem do negro, em nossa sociedade.

5. Os etíopes, os negros, eram vistos pelos olhos dos israelitas antigos, como homens belos. As palavras lisonjeiras da diplomacia com que Isaias se refere a eles (Is 18.2bcd) transpiram admiração. Falam de sua alta estatura, de sua pele lisa, lustrosa, suave. Também nisso concorre e concorda o mundo da cultura grega. Heródoto, já citado anteriormente, diz a respeito dos etíopes: “Dizem que os etíopes são, de todos os homens, os de maior estatura e de mais bela compleição física… Entre eles, o mais digno de usar a coroa é o que apresenta maior altura e força proporcional ao seu porte” (História, Livro III, cp. XX).

6. No Cântico dos Cânticos 1.5, fazem da noiva-rainha uma mulher morena, uma mulher trigueira, uma mulher escura. Mas bons dicionários da língua hebraica nos garantem afirmá-la uma mulher negra. Ela não diz: “Sou morena”, mas, “Sou negra” (heb. Sh.hora ‘ani). E não diz: “Sou negra, mas sou formosa”; Diz: “Sou negra e formosa” (heb. W.na’wah). A conjunção waw pode ter sentido adversativo, mas é, normalmente uma simples conjunção aditiva. Pode-se, portanto, com fez a LXX, traduzir: “Sou negra e formosa” – Mélaina elmi kai kalê.. Fica quase a certeza de que o senso estético preconceituoso e etnocêntrico dos tradutores ocidentais não lhes permite dizer, simplesmente, “negra e formosa”; preferem dizer “negra, porém formosa” ou «formosa, embora negra”. E nem mesmo «negra” a dizem. Como grande parte dos brasileiros, inconscientemente (?) preconceituosos, preferem chamá-la “morena”. E nada empana, nem mesmo essa noiva negra e formosa, esse amor entre a noiva e o noivo, descrito de maneira tão poética, tão livre e eloqüentemente, que faz do Cântico dos Cânticos um dos mais belos poemas de amor da literatura universal.

III

Mais do que isso, temos na Bíblia o testemunho bastante explícito sobre o lugar dos etíopes, dos negros, no propósito universal e escatológico de Deus:

1.. Sua conversão está anunciada abundantemente. Haverá o dia em que também eles trarão ao SENHOR as suas oferendas. Todas as nações distantes louvarão o SENHOR. Todos os povos abandonarão seus ídolos e adorarão e obedecerão somente ao SENHOR (Is 41.1,5; 42.4,10,12; 49.1; 18.7). Superada a alienação, a idolatria, os povos chegarão a reconhecer no projeto da Aliança o único caminho possível (Is 45.14).

Na mesma perspectiva, falam:

o salmo 68, especialmente os versos.. 29-32, onde se encontra a seguinte promessa: “E a Etiópia estenderá as mãos para Deus”;

b) o salmo 87, onde se declara que “O SENHOR escreverá uma lista dos povos, e nela todos eles serão cidadãos de Jerusalém”(v.6); e, entre esses povos, são citados, especificamente. os etíopes: “Os povos da Filistéia, de Tiro e da Etiópia eu tratarei como se eles tivessem nascido em Jerusalém” (v.4b).

3. Mais significativo ainda é Am 9,7.0 SENHOR Deus é o Senhor de toda a história humana e todos os povos são iguais diante dele. Israel não deve presumir ter mais importância para o SENHOR do que os etíopes, os negros: “Povo de Israel, eu amo o povo da Etiópia tanto quanto amo vocês”. Os filisteus e arameus foram também objetos do cuidado divino, e suas migrações foram igualmente dirigidas pela vontade soberana do mesmo Deus que tirou Israel da terra do Egito e lhe fez a dádiva da terra “que mana leite e mel”. Esse universalismo expresso no oráculo do profeta nega a qualquer povo uma relação exclusiva com Deus e afirma a igualdade de todos eles aos olhos dele. E a relação que é primeiro apresentada nessas vigorosas palavras é a do SENHOR com os etíopes. Essas palavras combatem qualquer veleidade de orgulho nacional e, para o nosso tempo e para a nossa sociedade, qualquer sentimento de orgulho racial.

4. É nessa mesma linha que se coloca a narrativa da conversão do oficial superior, tesoureiro real, da corte da rainha Candace da Etiópia. A conversão se deu por intermédio do ministério do evangelista Filipe (At 8.26-39). O texto é de grande importância, pois mostra:

a. como os helenistas, tendo evangelizado Samaria, partem para a evangelização das nações, de acordo com o programa do Senhor Jesus, em At 1.8;

b. um trabalho missionário cristão com uma estrutura reduzida e sob a orientação direta do Espírito Santo; embora, assim mesmo, esse trabalho estivesse subordinado aos apóstolos, em Jerusalém;

c. sobretudo, para os afro-descendentes, é importante porque mostra que o primeiro não-judeu introduzido, pelo poder e pela orientação do Espírito Santo, no novo povo de Deus, era um etíope, um negro.

Cumprem-se, portanto, no Evangelho de Cristo, a promessa e a esperança do AT. A partir de Is 53.7-8, que o eunuco está lendo, Filipe lhe anuncia a Boa Nova a respeito de Jesus. E ele aceita, imediatamente essa Boa Nova, Para José Combím: «O africano representa aqui um papel messiânico. Foi escolhido para representar a multidão de nações que viriam até das extremidades da terra pra formar o único povo de Deus”. Era um homem rico e proeminente. Viera do norte da África, da região hoje correspondente ao Sudão, para adorar. Era um homem que estava diligente, sincera e insistentemente. buscando alguma coisa. Inquieto, procurava alguma coisa que jamais tinha conhecido antes – e a encontrou. Era um homem negro, que se tornou as primícias das missões cristãs em todo o mundo não-judaico. Ele tornou-se o antepassado de todos os homens negros, afro-descendentes, ganhos para a fé em Jesus, nesses vinte e um séculos de história da Igreja e da missão cristã. Um símbolo de inclusão no projeto do Deus que não faz acepção de pessoas e que, se jamais manifestou alguma preferência, foi pelos oprimidos, os humilhados, os excluídos.
CONCLUSÃO

Do ponto de vista da Bíblia, não há, portanto, por que nós, afrodescendentes, carregarmos nossa negritude como se fosse um fardo, uma humilhação, idéia nefasta essa que o racismo anti-negro presente em nossa sociedade insiste em introjetar, desde nossos primeiros anos de escola, de diversas maneiras, em muitos de nós. A Bíblia reconhece um Deus que inclui no seu projeto de salvação até mesmo “os confins da terra” e os humilhados deste mundo. A Bíblia dá testemunho da beleza e da força da mulher negra e do homem negro. E esse reconhecimento e esse testemunho devem constituir um poderoso impulso para nós, negros cristãos, em nossa luta pela igualdade de oportunidade, pela nossa cidadania, pelo pleno reconhecimento de nossa humanidade!


Joaquim Beato
Faculdade de Teologia Richard Shaull
Igreja Presbiteriana Unida

A Urgência do Chamado – Tony Campolo[1]

(“The Urgency of The Call”, extraído de “Urban Mission”, 1988)

Há dois mil anos atrás pregaram nosso Jesus na cruz. Há dois mil anos atrás, pregaram-no e o puseram em exposição, como fazia a tradição Romana. Há dos mil anos atrás, com sua morte, um milagre aconteceu. Como uma esponja, ele absorveu os pecados de cada um de nós. Há dois mil anos atrás, Jesus morreu na cruz. Ele que não cometeu pecado, se tornou pecado. A boa notícia é que todos aqueles que crêem e confiarem nele não serão punidos pelos seus pecados, porque na cruz ele foi punido em nosso lugar.

E não fosse isso suficiente, Deus esqueceu nossos pecados. Nossos pecados foram apagados, conforme dizem as Escrituras, enterrados nas profundezas do mar, esquecidos. Eu não sei o que você pensa, mas eu odiaria ir para o céu se Deus lembra-se de nossos pecados.

Você consegue imaginar John Kyle[2], de pé diante da cadeira do tribunal e o Senhor dizendo: “Kyle, nós estávamos esperando por você”. Eu não sei se eles têm um livro do Kyle, mas se eles abrirem esse livro, eu tenho uma boa notícia: não haverá nada das coisas podres e sujas que Kyle fez escritas no livro. Tudo foi esquecido.

E tem mais uma coisa. Além de tomar nossos pecados para si e esquecer-se sequer que nós um dia pecamos, ele também “imputou a nós a sua justiça”. Isso vem da versão King James [da Bíblia]. Eu sou um adepto da velha versão King James, e infelizmente várias das novas versões não tem palavras profundas como imputou. É uma palavra fantástica. Significa que ele nos deu o crédito de todas as coisas boas que ele fez.

Eu mal posso esperar para ir para a glória. Quando eles abrirem meu livro, eles verão no livro com o nome Tony Campolo todas as coisas boas que Jesus fez. Eu vou levar o crédito delas. Isso será imputado a mim.

Eu não desejo nenhum mal a minha esposa, mas eu gostaria que ela estivesse lá quando eu chegar, pois tenho certeza que quando eles começarem a ler todas as coisas boas que Jesus fez, ela irá dizer “você não fez tudo isso”.

E eu direi: “É o livro Dele”. E poderei dizer com alegria “portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1 – RSV).

Talvez você esteja pensando, “Esse é um ponto de vista teológico interessante. Mas há vários pontos de vista quanto à salvação. Há as interpretações do Budismo, do Confucionismo e do Marxismo. Como você pode ter uma mente tão limitada para dizer que a sua interpretação, o ponto de vista bíblico, o ponto de vista Cristão, é a única interpretação correta?”.

Eu estava em um avião indo da Califórnia para a Filadélfia. Sentei perto de um cara. Era um vôo especial, a uma da manhã, e ele queria conversar. “Qual é seu nome?”, me perguntou.

“Tony Campolo”, respondi.

E me perguntou “O que você faz?”.

Quando eu não quero conversar, eu digo, “Eu sou sociólogo”. E a pessoa responde, “Oh, que interessante”. Mas se eu realmente quero que eles se calem, eu digo “Oh, eu sou um pregador Batista”. Normalmente isso corta a pessoa na hora. E, como eu não queria conversar nem um pouco, eu disse, “eu sou um pregador batista”.

E o cara disse, “Sabe em que eu acredito? [eu não agüentava de ansiedade para ouvir] Eu acredito que ir para o céu é como ir para Filadélfia. Há muitos caminhos para se chegar a Filadélfia. Alguns vão de avião. Alguns vão de trem. Alguns vão de ônibus. Alguns vão de carro. Não faz a menor diferente como chegamos lá. Tudo termina no mesmo lugar”.

Eu disse “Profundo”, e fui dormir.

Quando estávamos chegando a Filadélfia, tudo estava cercado por neblina. O vendo estava soprando, a chuva batia no avião, as asas estavam sacudindo e parecia que o avião ia partir no meio. Todos estavam nervosos e se segurando. Enquanto circulávamos a neblina, eu disse para o expert em teologia a minha direita, “Ainda bem que o piloto não concorda com a sua teologia”.

“Como assim?”.

Eu respondi, “As pessoas no controle estão dando instruções para o piloto, ‘vá para o norte pelo noroeste, três graus, você está na rota, você está na rota, não saia da rota’. Ainda bem que o piloto não está dizendo ‘Há muitos caminhos para chegar ao aeroporto. Há várias aproximações possíveis. Há vários caminhos para pousar esse avião’. Ainda bem que ele está dizendo ‘Há apenas um caminho de pousar esse avião, e eu vou segui-lo’”.

Não há outro nome pelo qual nós somos salvos a não ser o nome de Jesus. Esse Jesus que morreu há dois mil anos atrás na cruz, esse Salvador que é o único caminho para nos afastar do pecado, é um Jesus ressurecto. E ele se aproxima de nós hoje. Ele vive, e está presente pessoalmente nessa sala, nessa noite. Ele está aqui. E muitas pessoas aqui precisam recebê-lo, muitas pessoas aqui precisam se render a ele.

O Jesus Cultural

Porém, frequentemente as pessoas se afastam de Jesus por não saber realmente como ele é. O primeiro capítulo de Romanos diz que “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar. Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos.”(Rm 1:20-25)

Essa não é a descrição de uma sociedade antiga, iletrada. É a descrição da sociedade Americana. A nossa sociedade pegou Jesus e o fez a sua própria imagem. Quando ouço Jesus ser proclamado nos canais de televisão espalhados pelo país, dos púlpitos mais distantes aos mais próximos, ele é apresentado não como o Jesus bíblico, não como o Jesus descrito no livro, mas como branco, Anglo-Saxão, Republicano e Protestante. Um Jesus que encarna quem nós somos, ao invés de um Jesus que encarne o Deus Eterno, não é um Jesus que possa salvar.

Quando eu dava aula na Universidade da Pensilvânia de vez em quando um aluno meu dizia “eu não acredito em Deus”.

Nessas ocasiões, eu sempre os pedia: “descreva para mim esse Jesus no qual você não acredita; descreva para mim esse Deus no qual você não acredita”. Eles normalmente pensavam que era uma pergunta idiota. Mas eu os forçava a responder. E quando eles terminavam de me falar de como era Deus, eu os congratulava e dizia: “Vocês estão a meio caminho de se tornarem cristãos, porque a maior barreira entre confrontar e amar o Jesus verdadeiro está sendo confundida pela descrição cultural de Jesus que surgiu em nossa sociedade”.

Nós, de fato, fizemos algo terrível. Deus nos criou a Sua imagem e semelhança, mas nós decidimos retribuir o favor e criamos um deus que é a nossa imagem.

Você tem uma decisão a tomar. Qual Deus, qual Jesus, você escolhe seguir? Você escolhe seguir o Jesus descrito na Bíblia, o Jesus que morreu na cruz por nossos pecados, o Jesus que ressuscitou e está aqui hoje nessa noite? Ou você escolhe olhar para um outro Jesus, um Jesus criado pela cultura e que incorpora e reflete nossos valores?

Que carro Jesus Compraria?

Quais são as diferenças entre os dois? As diferenças são gritantes. O Jesus da Bíblia difere do Jesus da cultura naquilo que exige de você. O Jesus bíblico ordena que você venha até ele entregue a si mesmo por completo, e entregue tudo o que tem a ele. O Jesus bíblico diz, de maneira simples, “leia meu livro; leia minhas Escrituras; venha e aprenda comigo; e em cada dia da sua vida, seja como eu”. É necessário ter em nossa mente aquilo que está na mente de Jesus Cristo. Ser um seguidor do Jesus Bíblico é fazer exatamente o que o Jesus bíblico faria se o Jesus bíblico estivesse no seu lugar, e nas mesmas circunstancias que você.

Nada é mais controverso do que ser um seguidor e discípulo de Jesus. Nada é mais perigoso do que viver a vontade de Jesus no mundo contemporâneo de hoje. Em primeiro lugar, isso muda todo o estilo de vida que você leva com as suas finanças. Aquilo que você faz com o seu dinheiro vai mudar.

As pessoas me perguntam, “o que você quer dizer? Quer dizer então que se eu sou um seguidor de Jesus eu não posso sair e comprar um BMW?” Exatamente!

Eu conheço muitas pessoas que tem carros BMW. Quando eles estiverem cheios do amor de Deus, eles irão se arrepender dos seus BMW porque BMW são carros luxuosos que simbolizam concupiscência consumista, ao invés da compaixão preocupada com aqueles que sofrem no mundo.

Vamos supor que Jesus tivesse que comprar um carro, uma vez que não há mais jumentos nas vias expressas hoje em dia. Se ele tivesse $40.000 e soubesse a respeito das crianças que estão sofrendo no Haiti, que tipo de carro ele compraria? Isso não é irrelevante. É aqui que o Cristianismo precisa ser aplicado.

Você deve comprar o carro que Jesus compraria. Você tem que vestir aquilo que Jesus vestiria. Não há lugar para a concupiscência consumista. Essa cultura tem de fato condicionado você a querer mais e mais coisas que você não precisa, e enquanto você se torna um consumidor das riquezas de Deus, os famintos do mundo sofrem, os famintos do mundo morrem.

É hora de nos arrependermos de nossa opulência. Os cristãos perderam o coração de pobre. Dr. Hestenes, meu chefe, me disse ontem à noite: “você não um Cristão, no sentido completo da palavra, até que seu coração seja partido por aquelas coisas que partiam o coração de Jesus”.

Na universidade onde dou aula eu conclamei todo os nossos graduandos em sociologia a irem para a Republica Dominicana ou para o Haiti em intercâmbios estudantis durante o mês de janeiro. Eu os quero lá. Na primeira vez que levei um grupo de estudantes para o Haiti nós ficamos em uma casa suja, imunda, no meio de uma favela.

No início da manhã, o padre da cidade nos convidou a andar com ele. Havia uma epidemia de gripe. Eu nunca tinha visto nada como aquilo. Nos Estados Unidos ou no Canadá quando uma pessoa pega uma gripe, ela deixa de ir à escola. Mas quando as pessoas estão em um estado grave de má nutrição e contraem uma gripe, elas morrem. Enquanto andávamos pelas ruas enlameadas da favela, mães saiam de seus barracos naquela manhã carregando os corpos das crianças que morreram durante a noite.

Nós fomos para os arredores da cidade e cavamos uma cova. E nessa cova nós colocamos essas crianças mortas. Nós olhávamos para aquela cova enquanto o padre rezava sua oração e as mulheres choravam como apenas elas podem chorar na República Dominicana.

Eu observei um dos meus alunos que era um jogador de basquete. Ele sempre foi durão. Mas ele não parecia durão naquele dia. Lagrimas rolavam abaixo nas suas bochechas. Seus punhos estavam cerrados. Seu queixo tremia. E eu sabia, eu sabia que seu coração havia sido partido pelas coisas que partiram o coração de Jesus. Bem aventurados são aqueles que choram.

Tony, você está sugerindo que não se pode ser rico e ser cristão ao mesmo tempo? Não fui eu o cara que falou que é mais difícil pessoas ricas entrarem no reino dos céus do que um camelo passar pelo buraco de uma agulha. Foi outra pessoa.

Tony, você vai insultar as pessoas ricas. Você está cheio da grana? E você consegue ver uma pessoa desesperada e continuar com suas riquezas enquanto essas pessoas sofrem e morrem? Se esse é o caso, I João 3:17-18 pergunta “como pode estar nele o amor de Deus?” É isso que eu estou perguntando.

O Jesus perigoso

Quando me tornei cristão, a Guerra da Coréia estava acontecendo. Foi uma experiência incrível porque eu não sabia se deveria aceitar ou não o serviço militar. Então eu conversei com um coronel, e discutimos por um tempo.

Ele me disse: “qual é o seu problema?”.

“Meu problema é que eu quero fazer aquilo que Jesus faria”.

“Você conseguiria entrar em um avião, voar sobre uma vila inimiga e lançar bombas?”.

Eu respondi: “Eu conseguiria entrar no avião. Eu conseguiria voar sobre a vila inimiga. Porém, no momento em que eu estive pronto para soltar a bomba eu teria que perguntar, ‘Jesus, se você estivesse em meu lugar, você lançaria as bombas?’”.

E eu me lembro do coronel gritando comigo, “Essa é a coisa mais estúpida que eu já ouvi. Todo mundo sabe que Jesus não lançaria as bombas!” Aquele coronel provavelmente conhecia mais de Jesus do que a maioria dos pregadores batistas que eu conheço.

Tony, isso está começando a ficar complicado. O que você está falando está começando a ficar politicamente perigoso. Mas quando foi que ser cristão deixou de ser politicamente perigoso? Nós estamos buscando por um novo grupo de cristãos que irá até o Sermão no Monte e irá viver aquilo de maneira radical. O mundo precisa urgentemente de pessoas radicalmente comprometidas com o Jesus bíblico.

O Jesus cultural vai criar uma igreja muito diferente daquela do Jesus bíblico. A igreja gerada pela divindade cultural que nós inventamos a partir de nossa imaginação protestante é um presidente honorário de uma instituição estática. O Jesus bíblico é o líder de um movimento revolucionário destinado a desafiar esse mundo e transforma-lo no mundo que Deus inicialmente desejou que existisse.

Se você se envolver com esse Jesus você se tornará uma pessoa perigosa. Se você for enviado a África do Sul, você não irá tolerar a injustiça da opressão que existe naquele lugar. Você fará questionamentos quando nossos exércitos marcharem para a guerra em lugares como a Nicarágua[3]. Você se tornará uma pessoa perigosa porque essa igreja é comprometida com a justiça.

Eu estou procurando por uma igreja que envie pessoas a todas as avenidas da vida – nos negócios, nas artes, no setor de educação, e no setor de entretenimento – para ser o fermento revolucionário que transformará o mundo. A missão da igreja não é se preparar para o céu. É proclamar o Reino de Deus no meio desse mundo. O reino desse mundo irá se transformar no Reino do nosso Deus.

Quando eu leio sobre a vida de John Wesley e ouço sobre os grandes avivamentos Wesleyanos (que foram incidentalmente iniciados por estudantes), eu percebo que o cristianismo pode ser um instrumento de transformação não violenta em um mundo que precisa de mudança. Quando eu leio as histórias de Charles Finney, o grande reavivalista dos 1800, eu entendo que Jesus pode ser uma presença inspiradora que transforme o mundo hoje como transformou naquela época. O movimento antiescravista, o movimento abolicionista, o movimento feminista nasceram todos dos reavivamentos de Charles Finney.

Este é um momento histórico porque Deus quer levantar uma geração de homens e mulheres que irão adentrar todos os setores da sociedade como agentes de mudança, transformando o mundo no tipo de mundo que Ele quer que seja.

Será isso sempre não-violento? Sim, eu acredito que sim. Eu acredito que nós precisamos nos levantar pela verdade e proclamar a profética palavra de Deus.

Era isso que eu amava em Martin Luther King. Ele vinha marchando de Selma e se encontrava com aquele velho Bull Connors. E lá estavam eles. Bull Connors tinha suas armas. Bull Connors tinha seus cassetetes. Bull Connors tinha tropas. E King e seus seguidores se ajoelhavam e oravam. E não há nada mais vulnerável do que uma pessoa ajoelhada orando. E depois de contar até dez, as tropas de Connors marchavam e batiam nas cabeças dos seguidores de King e os viam espancados, arrebentados, sangrando por toda aquela avenida. Eu sabia – quando assistia pela televisão – que Deus acabara de vencer, que o movimento por direitos civis iria vencer.

Eu sei que você deve estar se perguntando, “como você pode achar que eles venceram? Eles levaram pancadas na cabeça. Eles foram pisoteados. Eles foram chutados. Eles foram mortos”. Você está certo. Mas nós Cristãos temos um terrível hábito de nos levantarmos de novo.

O Amor pelo Poder

Eu quero uma igreja que transforme o mundo não a partir de uma posição de poder, mas a partir de uma posição de amor e comprometimento. Eu me assusto com os cristãos de hoje porque eles estão em busca de poder. Nós pensamos que se tivermos poder suficiente, se tivermos bastante gente no poder, se tomarmos os Estados Unidos, então poderemos forçar a América a ser justa e correta. Por que será que Jesus nunca pensou nisso? Eu acredito que nós temos que mudar o mundo com as armas da igreja, e não com as armas do mundo. Nós temos outro estilo, outros caminhos. É amar ser servo. É se entregando a si mesmo, se mexendo, se preocupando, amando, redimindo, não destruindo.

Eu consigo entender o poder porque todos amam o poder. Eu amo o poder. Um dia quando eu voltava da Universidade da Pensilvânia onde eu dava aula, eu vinha pela via expressa e quando cruzei a Avenida Cityline, eu ouvi um barulho. Era um pneu furado. Então eu encostei e desliguei o carro.

Enquanto eu trocava o pneu eu ouvia o rádio e começou dar notícias do helicóptero do transito. “Senhoras e senhores, vocês não vão chegar em casa hoje. Está tudo parado na via expressa até a Avenida Montgomery. Transito parado nas duas direções da Citylane. A cidade da Filadélfia está praticamente parada”.

E eu comecei a me perguntar, “o que será que fez a cidade da Filadélfia parar? O que será que paralisou a bela cidade do amor fraternal? Por que a cidade de Frank Rizzo de repente parou?”.

Então o repórter disse, “há um carro marrom parado na pista direita da Avenida Cityline”. Era eu! Era o meu carro! O pequeno Tony Campolo paralisou a cidade da Filadélfia. Mães não conseguem chegar em casa. Crianças choram chamando por seus pais. Negócios deixaram de ser fechados. Namorados não estão se encontrando e eu estou sendo a causa disso!

Qual de nós é imune a sedução do poder? Quem é que não se encanta por ela? Porém o Jesus bíblico não está no poder. O Jesus bíblico abriu mão do poder. Ele poderia ter forçado o mundo inteiro a justiça e retidão, não poderia? Ao invés disso, ele vem e enche as pessoas com seu Espírito e os chama a viver em amor sacrificial neste mundo.

Um Povo Clandestino

Se eu fui um pouco controverso até aqui, serei agora muito controverso. Eu tenho um amigo no Brooklyn que é pastor. Ele tem uma igreja em uma comunidade decadente. Sempre que quero uma boa história eu ligo para ele, porque ele sempre as tem, mesmo que ele não saiba disso. Eu roubo todo o material dele.

“O que aconteceu na última terça-feira?”, perguntei.

“Ah! Foi muito estranho”, ele disse. “Teve um funeral”.

Perceba que ele é um cara que ganha tão pouco que tem que fazer alguns funerais para ganhar alguma grana e se manter. Ele disse que a funerária local ligou para ele com um funeral que ninguém queria fazer porque o sujeito morreu de AIDS. Então ele aceitou o fazer o funeral.

“E como foi?”.

“Quando cheguei lá, foi muito estranho. Havia uns vinte cinco ou trinta homossexuais sentados. Eles estavam sentados e paralisados, com as mãos segurando nas cadeiras. Seus olhos estavam vidrados olhando para a frente. Eles não olhavam nem para a direita nem para a esquerda. Eu li uma parte das Escrituras. E fiz uma oração. Quando o funeral chegou ao fim, eu sai, entrei no carro e dirigi até o cemitério para o enterro.

“E fiquei lá, na beira da cova enquanto o caixão entrava no buraco. Mais uma vez eu li uma parte das Escrituras. Mais uma vez eu fiz uma oração. E quando eu já tinha dado a benção apostólica e tinha me virado para ir embora eu percebi que nenhum dos rapazes homossexuais se mexia. Eu me virei de volta e perguntei, ‘há mais alguma coisa que eu possa fazer?”.

“E um deles respondeu: ‘Sim, há mais uma coisa que você pode fazer. Eu não vou há igreja há anos. Na verdade eu estava ansioso pelo funeral, pois eu amo ouvir a leitura do Salmo 23. Pastor, você poderia ler o Salmo 23?’ Então eu li o Salmo 23”.

“Quando terminei um outro homem falou, ‘há uma passagem no livro de Romanos, que diz que nada pode nos separar do amor de Deus. Você conhece essa passagem?’ E eu li para aqueles homens homossexuais ‘nada pode nos separar do amor de Deus. Nem altura nem profundidade, nem coisas do presente ou do porvir, nem poderes, nem principados, nada – nada pode nos separar você do amor de Deus, nada pode separar você do amor de Deus.’ E fiquei ali perto da cova lendo para aqueles rapazes homossexuais passagens das Escrituras que eles pediam, durante quase uma hora”.

Quando eu ouvi isso, eu chorei. Eu chorei porque sabia que esses homens estavam sedentos pela Palavra de Deus, mas jamais poderiam colocar um pé dentro de uma igreja porque acreditavam que a igreja os desprezava. E eles estavam certos.

Estaria eu aprovando o estilo de vida homossexual? Com certeza não! Tudo que estou dizendo é, quando iremos começar a amar aquelas pessoas que ninguém mais ama?

Alguém me perguntou, “Se você fosse o pastor de uma grande igreja no centro de uma cidade grande, o que você faria?” Me perguntaram isso em uma conferencia de imprensa ontem. Eu respondi simplesmente, que “pediria a igreja para hipotecar o prédio, pegar o dinheiro e construir um hospital beneficente para vítima da AIDS porque acredito que nós precisamos dizer alguma coisa a comunidade homossexual”.

Há pessoas latinas que falam espanhol, pessoas negras e pessoas italianas no centro da cidade. Estou aqui para te dizer que há aproximadamente de 9 a 10 milhões de homossexuais, e que a igreja de Jesus Cristo os forçou a se tornarem um povo clandestino. Já chegou o tempo em que devemos, sem aprovar o pecado, amar as pessoas.

Eu estou procurando toda uma nova empreitada missionária. Estou procurando cristãos que irão organizar hospitais beneficentes cristãos para vítimas de AIDS, por jovens homens e mulheres que se tornarão médicos e enfermeiros para cuidar dessas pessoas que alguns de nossos médicos mais seculares não querem tocar. Está na hora dos cristãos criarem uma igreja ousada – uma igreja que ousa amar.

Audaciosamente Indo Onde Nenhum Homem Jamais Esteve

Por fim, o Jesus cultural apenas nos pede para sermos reverentes e religiosos. Eu não estou chamando você a ser religioso. Eu estou chamando você a pegar a sua vida e dizer hoje a noite, “Jesus, eu te amo. Eu te amo tanto, eu quero você tome minha vida e me use em alguma coisa especial. Eu quero que você me envie para aqueles lugares onde você quer que eu vá. Estou aqui. Me leve. Se é na África, que seja. Se é na Filadélfia, que seja. Se é Buenos Aires, que seja. Se é Calcutá, que seja. Eu irei onde você quiser que eu vá, Senhor. Eu sou seu.”

O Jesus bíblico quer empregar você no lugar onde ele poderá usá-lo no seu nível ótimo. Por que tem que ser além mar? Porque a América já está lotada. Nós formamos tantas pessoas nas universidades por aqui hoje em dia que nossa sociedade não consegue empregar a todos. Você não tem que ir trabalhar na General Motors. Ela vai sobreviver sem você. Você também não tem que ser um médico nos Estados Unidos, eles já têm médicos suficientes. E você certamente não precisa somar-se a multidão de advogados na América.

O que eu amo em “Star Trek” é a nave Enterprise sumindo na escuridão e a voz dizendo, “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. Eu estou aqui para dizer pra você ir onde ninguém foi antes, fazer o que ninguém fez, ser o que ninguém jamais foi. Ser missionário é difícil. Mas a maioria das alternativas é bem fácil. Se você quer ser um Yuppie, tudo bem. Só é chato, apenas isso. O que eles fazem? Trabalham a semana inteira, chegam em casa, entram na Jacuzzi e falam uns aos outros das suas maravilhas.

Na última cena de A Morte do Caixeiro Viajante quando eles descem Willie Lowman na cova, a esposa dele diz, “Bif, Bif, por que ele fez isso? Por que ele se matou? Por que ele cometeu suicídio? Por que ele fez isso, Bif?”. E Bif responde: “Ah, que pena mãe. Ah, que pena, ele tinha os sonhos errados. Ele tinha os sonhos errados”. Se há algo que se possa dizer dessa geração, é que vocês todos têm os sonhos errados.

Se você quer ser um professor, porque ficar em um lugar onde não precisam de você? Por que não permitir que Deus o leve até o lugar onde você é absolutamente essencial? Se você quer ser um médico, por que não ir onde você será desesperadamente essencial? Por que alguém gostaria de ser um médico num lugar onde nem metade de seus pacientes está verdadeiramente doente, quando você pode ir para um lugar onde a vida e a morte de centenas de pessoas vai estar dependendo de você diariamente?

Eu sou como o velho Oswald Smith. Eu não entendo porque alguém tem que ouvir o evangelho duas vezes antes que todos tenham a chance de ouvi-lo pela primeira vez. Entregue sua vida a Jesus. As necessidades são imensas. Se você acha que não pode ajudar, você está louco.

Uma vez fui chamado para ser conselheiro em um acampamento cristão de juniores. Todos deveriam ser conselheiros em um acampamento de juniores pelo menos uma vez. Se há algum Católico aqui, vocês estão certos, existe um purgatório. Nós tentamos de tudo para explicar a essas crianças sobre o que era o evangelho. Mas nada funcionou. O conceito de se divertir dos juniores é azucrinar os outros. E nesse caso, naquele acampamento, havia um garoto com paralisia cerebral, e eles foram mexer com ele.

Eles encarnaram no pequeno Billy. Como eles encarnaram nele. Conforme ele andava com seu corpo descordenado, eles se punham em fila e imitavam os movimentos grotescos do garoto. Eu fiquei olhando para ele um dia enquanto ele veio até mim e perguntou na sua voz devagar e arrastada, “Onde fica a loja de artesanato?”. E os garotos responderam imitando a sua voz e seus movimentos, “é para lá Billy”. E riram dele. Foi revoltante.

Contudo meu furor chegou ao limiar máximo quando na quinta-feira pela manhã, quando foi o dia do quarto do Billy fazer o devocional. Eles indicaram o Billy para falar. E enquanto ele se arrastava no caminho até o púlpito, era possível ouvir as risadas rolando por toda a platéia. E levou quase cinco minutos para o pequeno Billy conseguir dizer “Jesus…ama…a mim….e…eu….amo…Jesus”. Quando ele terminou, houve um silencio mortal. Eu olhei para trás e havia juniores chorando por todo o lugar. Um reavivamento havia acontecido.

Conforme eu viajo pelo mundo, encontro missionários e pregadores em todo canto que dizem, “lembra de mim? Eu me converti naquele acampamento de juniores”. Nós havíamos tentado de tudo. Nós trouxemos até jogadores de baseball que passaram a acertar mais a bola depois que começaram a orar. Mas no fim, Deus resolveu não usar as celebridades. Ele escolheu um garoto com paralisia cerebral para quebrantar os espíritos da desdenha. Ele é esse tipo de Deus.

Entregue sua vida a Jesus não importa como você seja e não importa o que você pode ou não fazer. Ele quer ter você. Ele quer preencher você. E quer usá-lo no trabalho do Reino.

[1] Tony Campolo, autor, professor e evangelista, catedrático do departamento de sociologia e ministro da juventude do Eastern College.

[2] Kyle foi o Diretor do congresso missionário de Urbana em 1987, local onde em que Campolo apresentou este texto [nota do tradutor].

[3] É bem provável que numa atualização desta pregação Campolo citaria os casos do Iraque e do Afeganistão [nota do tradutor].

Excelente texto de Derval Dasílio

Cristãos de Esquerda

Por Denis Eduardo Serio

bolsonaroTenho mais de 200 evangélicos em minha timeline. Fiquei paralisado ao não ver uma única reação de indignação desse grupo nesta semana com a apologia que o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) fez ao estupro. Pior, vi defesas.

Antes que meus amigos todos me excluam do Facebook, faço aqui uma separação. A maioria não gosta de usar a rede social para temas políticos, debater tais assuntos ou expor a sua opinião. Isso é absolutamente respeitável. Embora eu considere uma lástima para o país que pessoas não queiram se aprofundar na política, os perfis não têm necessariamente um caráter opinativo e, portanto, cada um usa o estilo que bem entende. Porém, há vários também que são ativos no panorama de Brasília e outros que, embora se calem por quatro anos e não saibam nem o nome de três ministros do STF de cabeça, aprazem-se em xingar os outros…

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Entrevista concedida por mim no ano passado para o Diário do Centro do Mundo e fala sobre a diversidade no mundo evangélico, a bancada religiosa e o discurso de ódio dos fundamentalistas.

Até que ponto Marco Feliciano representa o pensamento dos evangélicos?

Os evangélicos não são todos iguais. Há muitos de nós que não concordamos com a maneira como Marco Feliciano opera. Ele se utiliza de um discurso odioso e agressivo. Nós desejamos o debate, mas considerando o direito do outro a fazer suas escolhas. Eu faço parte de um grupo que crê que todo ser humano é alcançado pela graça de Deus. Por mais pecadores que sejamos, Jesus olha para as pessoas em sua essência.

Qual o papel da bancada evangélica?

Nós não precisamos da política. A igreja não precisa de defesa. Ao invés de defender os evangélicos, é melhor defender o povo como um todo. Fazer com que a sociedade não vire um terreno de discussões belicosas. A gente quer estar sintonizado com Deus e com Jesus. O Feliciano espalha o ódio. Nós não vamos ficar parados.

O Evangelho não endossa esse tipo de postura. Aprendemos a não agredir e a oferecer a outra face. Tocar os que estão à margem. Não podemos estar mancomunados com o poder ou com um projeto de poder. Nosso projeto é de serviço, de servir o outro. Não se trata de dominação e controle.

Além do mais, os interesses não estão claros. Por que esse ataque ao PT agora, se eles fazem parte da base aliada do governo? O que eles vão ganhar com isso? O discurso do ódio só interessa para quem quer semear temor e pânico. Pessoas tomadas pelo pânico não pensam direito.

Por que há pastores evangélicos que  falam tanto em dinheiro?

Essa leitura teológica do Feliciano é equivocada. Pastores como ele têm uma posição privilegiada. Ele é um “homem de Deus”. A fixação pelo dinheiro tem a ver com a Teologia da Prosperidade, criada por religiosos americanos. Eles precisam ter um estilo de vida condizente com o que pregam: avião, carro importado etc.

Mas há igrejas evangélicas na periferia, na cracolândia, nas favelas. Isso não está na mídia. Boa parte do que aparece sobre os evangélicos na mídia é por causa desses caras. Dá essa ideia de que todos funcionamos da mesma forma.

O Brasil precisa tratar de forma mais responsável os direitos humanos. Temos de superar problemas com relação ao índio, à mulher, à criança. Temos membros filiados a partidos, mas fazemos questão de manter nossa isenção. Não queremos fazer parte de bancada evangélica.

Existem homossexuais na sua igreja?

Não sei se há homossexuais na minha igreja. Se tem, a gente não sabe… Mas entendemos que não se pode entrar no joguete da política do ódio e da perseguição. A perspectiva da negação do outro não pode existir. Não podemos impor uma agenda de santificação. Acredito piamente que nosso dever é fazer o bem, dar amor e pregar o evangelho.

 

“Insensato, esta noite hão de reclamar a tua alma” Lucas 12:20.
Martin Luther king

 

Gostaria de partilhar convosco a leitura duma história pequenina e dramática, muito importante nas suas implicações e significativa nas suas conclusões. É a história dum homem que, dentro dos conceitos modernos, seria considerado como uma pessoa que tinha vencido na vida. Jesus, no entanto, chamou-lhe insensato.

A figura central do drama é um “certo homem rico” que decidiu construir grandes celeiros novos, porque as colheitas da sua herdade tinham sido tão ricas que já não tinha onde guardá-las. “Aqui guardarei todo o meu trigo e os meus bens”, disse ele, “e depois direi à minha alma: agora descansa, come, bebe e diverte-te”. Deus, porém avisou-o: “Insensato, esta noite hão de reclamar a tua alma!” E assim foi. No auge da sua prosperidade, morreu.

Meditemos sobre este homem. Se ele vivesse hoje, todos o considerariam como “um tipo esperto”. Abundaria em prestígio social e em importância, e seria decerto um dos raros privilegiados dentro da estrutura do poder econômico. E, contudo, um camponês da Galiléia ousou chamar-lhe insensato.

Não foi simplesmente por ser rico que Jesus o chamou insensato. Nunca condenou propriamente a riqueza, mas o abuso que dela fazemos. Como qualquer outra energia, o dinheiro é amoral, e tanto pode servir para o bem como para o mal. É certo que Jesus ordenou ao jovem rico: “Vende tudo quanto tens”, mas, neste caso, como disse o dr. George H. Buttrick, Jesus receitava um remédio individual e não fazia um diagnóstico universal. Nada há de inerentemente vicioso na riqueza, assim como na pobreza nada há de inerentemente virtuoso.

Jesus não condenou este homem por ter sido desonesto na maneira de ganhar o seu dinheiro. Aparentemente, adquirira-o com o esforço do seu trabalho e com a experiência e a visão dum homem de negócios competente. Porque seria então insensato?

Era insensato porque confundira os fins para que vivia com os meios de que vivia. A estrutura econômica da sua vida absorvera-lhe o destino. Cada um de nós vive em dois mundos diferentes, um interior e outro exterior.

O interior é o mundo das coisas espirituais, cuja expressão nos é dada pela arte, a literatura, a moral e a religião. O exterior consta dum conjunto de invenções, técnicas, máquinas e instrumentos, de que depende a nossa maneira de viver. Incluem-se aqui as nossas casas, o nosso carro, os fatos que vestimos, os bens que adquirimos, enfim, toda a parte material necessária às nossas vidas. Mas existe sempre o risco de substituir os fins da nossa vida pelos meios de que vivemos e deixar que o mundo interior seja absorvido pelo exterior. O homem rico foi insensato porque não soube distinguir os meios dos fins, nem o contexto da sua vida com o do seu destino. Consentiu que a vida espiritual fosse submergida pela vida material.

Isto não significa que o lado exterior das nossas vidas não seja importante. É nosso privilégio, e também nosso dever, procurar os meios necessários à nossa subsistência. Só uma religião inconsciente poderia desinteressar-se do bem-estar econômico do homem. A religião sabe que um corpo torturado pela fome, ou obcecado pela falta de um abrigo, destrói a alma. Jesus conhecia a necessidade que temos do alimento, do vestuário, do abrigo e também da estabilidade econômica. Disse-o em termos claros e concisos: “O vosso Pai sabe o que vos é necessário” (Mateus 6:8). Mas Jesus também sabia que o homem não se contenta, como os cães, com alguns ossos econômicos, e que a sua vida interior é tão importante como a exterior; por isso disse a seguir: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mateus 6:33). A tragédia do homem rico foi a de ter procurado primeiro os meios e deixar que a finalidade da sua vida fosse absorvida por eles.

Quanto mais enriquecia materialmente, mais pobre ficava em espírito e em inteligência. Talvez fosse casado, mas não soubesse amar a mulher. É natural que lhe oferecesse muitos presentes caros, mas não pudesse dar-lhe o amor e a afeição que ela desejaria. É possível que tivesse filhos e os não soubesse apreciar. Teria talvez bem arrumados na biblioteca livros bons e antigos, que nunca lera, ou a possibilidade de ouvir boa música sem nunca o ter feito. O espírito desse homem não se abria para o pensamento dos poetas, profetas ou filósofos. Merecia bem o seu título de “insensato”.

Foi também insensato porque não conseguiu perceber que dependia dos outros. O seu solilóquio compunha-se aproximadamente de sessenta palavras, das quais as mais correntes eram “eu” e “meu”; tantas vezes as empregou que perdera já a capacidade de pronunciar “nós” ou “nossos”. Vítima do cancro do egoísmo, esqueceu que a riqueza particular depende sempre da riqueza pública. Falava como se pudesse cultivar campos ou construir celeiros sem a ajuda de ninguém. Não reconhecia a sua qualidade de herdeiro dum vasto tesouro de idéias e obras, para os quais haviam contribuído tanto os vivos como os mortos. Quando um indivíduo ou uma nação desconhece essa interdependência demonstra uma trágica insensatez.

O significado desta parábola aplica-se nitidamente à crise do mundo atual. Toda a máquina produtora do nosso país fabrica uma tal abundância de alimentos que temos também de construir maiores celeiros e gastar mais de um milhão de dólares por dia para armazenar os excedentes. De ano para ano, perguntamos: “Que hei de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita?”. Li a resposta nos rostos de milhões de homens e mulheres esfomeados que habitam a Ásia, a África ou a América do Sul; li a resposta na espantosa miséria do Delta do Mississipi e na trágica instabilidade dos desempregados das cidades industriais do Norte. Que havemos de fazer? A resposta é simples: dar de comer a quem tem fome, vestir os nus e socorrer os que sofrem. Onde guardaremos as nossas colheitas? Mais uma vez, a resposta é fácil: podemos guardá-las no estômago construído de milhões de filhos de Deus que vão à noite para a cama sem terem comido. Podemos empregar os nossos vastos materiais na abolição da miséria do mundo.

Todas estas coisas demonstram algo de fundamental na interdependência dos homens e das nações. Todos nós, tendo ou não consciência disso, estamos eternamente em débito para com outras pessoas, conhecidas ou desconhecidas. Ninguém acaba de almoçar sem ficar a dever qualquer coisa a mais de meio-mundo. Quando, de manhã, nos levantamos da cama e vamos para a casa de banho, servimo-nos da esponja que um indígena do Pacífico forneceu; Lavamos-nos com um sabonete fabricado por um francês; a toalha foi importada da Turquia. Depois, à mesa, bebemos café que vem da América do Sul ou chá da China, ou cacau africano. Antes de sairmos para o emprego, já dependemos de quase todo o mundo.

No seu verdadeiro sentido, toda a vida é “inter-relacionada”. Todos os homens inevitavelmente apanhados pela rede da mutualidade e amarrados nas malhas dum mesmo destino. Aquilo que afeta diretamente alguém, afeta, indiretamente, toda a gente. Eu nunca posso ser aquilo que devo ser, sem que tu sejas aquilo que deves ser; assim como tu também não podes ser o que deves, sem que eu seja aquilo que devo. Esta é a estrutura “inter-relacionada” da realidade.

O homem rico não viu isto. Julgou poder viver num mundo limitado, de que só ele fosse o centro. Era o individualista levado ao excesso. Foi, realmente, o eterno insensato!

Jesus chamou a esse homem insensato por ele ter esquecido que dependia de Deus. Falava como se fosse ele a comandar as estações do ano, a prover à fertilidade do solo, a regular o processo natural das chuvas e do orvalho ou a dirigir o nascer e o pôr-do-sol. Julgava, sem ter a noção disso, que era o Criador e não a criatura.

Este louco egocentrismo tem sido desastroso na história da humanidade. Algumas vezes encontra a sua expressão teórica na doutrina materialista, que sustenta poder explicar a realidade em termos de movimento de matéria; a vida, como “um processo fisiológico com um significado fisiológico”; o homem, como ocasional acidente provocado pela cega deslocação de prótons e elétrons; o pensamento, como produto eventual da matéria cinzenta; e os acontecimentos históricos, como a ação do conjunto da matéria e do movimento provocado pelo princípio da necessidade. O materialismo tanto se opõe ao ateísmo como ao idealismo, porque nele não há lugar para Deus nem para ideais eternos.

Esta filosofia materialista conduz inevitavelmente a um destino sem rumo, num mundo intelectualmente sem sentido. Acreditar que a pessoa humana é o resultado dum encontro fortuito de átomos com elétrons, é tão; absurdo como acreditar que um macaco, ao carregar, eventualmente no teclado duma máquina de escrever possa, por simples acaso, criar uma peça shakespeariana. Pura fantasia! Seria bem mais sensato dizer, como o físico Sir James Jean, que “o universo parece estar mais próximo duma grandiosa concepção do que duma grande máquina”, ou então, como o filósofo Arthur Balfour, que dizia: “Já hoje conhecemos demasiadamente bem a matéria para podermos ser materialistas”. O materialismo é uma chama tênue que se apaga ao sopro dum pensamento amadurecido.

Outra tentativa para diminuir a importância de Deus encontra-se no humanismo ateísta, filosofia que deífica o homem, afirmando que a humanidade é Deus e o homem a medida de todas as coisas. Muitos homens modernos que perfilham esta doutrina sustentam, como Rousseau, que a natureza é essencialmente boa. Só nas instituições existe o mal e, se conseguíssemos abolir a pobreza e a ignorância, tudo seria perfeito. Foi dentro deste exuberante otimismo que nasceu o século XX. Os homens acreditavam que a civilização lhes facultaria um paraíso terrestre. Habilidosamente, Herbert Spencer adaptou a teoria de Darwin sobre a evolução à idéia predominante do progresso mecânico. Os homens convenceram-se de que havia uma lei sociológica do progresso, tão válida como a lei física da gravitação.

Cheio de otimismo, o homem moderno mergulhou no domínio da natureza e saiu de lá com conhecimentos científicos e processos técnicos que revolucionaram completamente o mundo. As realizações científicas foram maravilhosas, tangíveis e concretas. Ao assistir a este espantoso desenvolvimento científico, o homem moderno exclamava:

A ciência é meu pastor; nada me pode faltar.
Ela me leva a prados de água fresca
refaz a minha alma nas águas repousantes.
Nenhum mal me mete medo.
Pois que a ciência está ao pé de mim
consolam-me o seu báculo e bordão.
Paráfrase do Salmo 22.

As aspirações do homem já não se voltavam para Deus nem para o Céu. O pensamento agora cingia-se a ele próprio e à terra. Parodiando de forma estranha a prece do Senhor, poderia dizer: “Irmão nosso que estais na terra, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino e que a vossa vontade se faça na terra porque já não há Céu”. Os que dantes recorriam a Deus a fim de solucionarem os seus problemas pessoais, viraram-se agora para a ciência e para a tecnologia, convencidos de que possuíam os instrumentos necessários para singrar na nova sociedade.

Deu-se então a explosão deste mito. Atingiu o paroxismo nos horrores de Nagasaki e Hiroshima e na crucial ferocidade das bombas de cinqüenta megatóns. Compreendeu-se então que a ciência podia proporcionar a força física mas que esta, sem a força espiritual a controlá-la, conduziria inevitavelmente à destruição cósmica. Ainda hoje são verdadeiras as palavras de Alfredo, o Grande: “O poder nunca é um bem, a menos que o seu detentor seja bom”. Precisamos de alguma coisa mais do que a ciência para nos sentirmos apoiados espiritualmente e dirigidos moralmente. A ciência, quando guiada pelo espírito de Deus, pode ser o instrumento que ajuda o homem a alcançar a maior segurança física, mas, quando afastada de Deus, pode também transformar-se numa arma perigosíssima que nos precipita no caos. Porquê enganarmo-nos acerca do progresso mecânico ou da capacidade do homem em se salvar a si próprio? Ergamos antes os olhos ao céu, donde nos vem o verdadeiro auxílio. Só assim os progressos da ciência moderna poderão ser uma bênção, em vez duma maldição.

Sem dependermos de Deus, todos os nossos esforços se reduzem a cinzas e transforma-se em escuridão o sol mais brilhante. Sem o Seu espírito que ilumine as nossas vidas, apenas encontraremos o que G. K. Chesterton chamava “curas que não curam, benefícios que não beneficiam, soluções que não solucionam”. “Deus é o nosso refúgio e a nossa força, mostrou-se nosso amparo nas tribulações” (Salmo 45:2).

Infelizmente, o homem rico nada disto viu. Como tantos outros do século vinte, tão ocupado estava com os grandes negócios e com trivialidades, que se esqueceu de Deus. Dava infinita importância ao que era transitório e manifestava um exagerado interesse pelo que era de importância mínima.

Depois de ter acumulado a sua grande fortuna e no momento exato em que os seus interesses prosperavam, e o seu palácio era o assunto do dia, o homem rico experimentou aquilo que é o irredutível denominador comum de todos os homens: a morte. O fato de ter morrido nessa determinada ocasião empresta a esta história um certo travo irônico e dramático, mas o significado essencial da parábola, tivesse ele atingido a idade de Matusalém, seria sempre igual. Se não tivesse morrido, fisicamente, já antes haveria morrido espiritualmente; a paragem do coração era apenas o anúncio tardio duma morte já antes consumada. Morrera quando não soube distinguir os meios de que vivia dos fins para que vivia, e quando não reconheceu a sua dependência tanto dos outros como de Deus.

Não representará a civilização ocidental este “homem rico”? Rica de bens e de recursos materiais, a medida do êxito anda ligada quase inextricavelmente ao desejo desmedido da aquisição. São, de fato, maravilhosos os recursos de que dispomos para viver mas há, porém, alguma coisa que falta: aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não conseguimos aprender a simples arte de vivermos unidos como irmãos. A abundância não nos trouxe a paz de consciência nem a serenidade de espírito. Um escritor oriental descreve em cândidos termos este nosso dilema:

“Chamam aos seus mil inventos materiais ‘economia de trabalho’ e, contudo, estão permanentemente ‘ocupados’. À medida que sua mecanização se multiplica, mais lhes cresce a fadiga, a ansiedade, o nervosismo e a insatisfação. Quanto mais têm mais querem, e onde quer que estejam sentem sempre a necessidade de estar noutro lado. Possuem máquinas para extrair a matéria em bruto (…), máquinas para a fabricar (…), máquinas para transportar, máquinas para varrer e limpar o pó, para transmitir mensagens, para escrever, para falar, para cantar, para recitar, para votar, para coser (…) e centenas de outras tantas que produzem tantas outras centenas de coisas para eles e, contudo, são os homens mais enervados, mais sobrecarregados do mundo (…). Os seus inventos não economizam trabalho nem arranjam maneira de salvar as almas. São como esporas que os estimulam a criar novas máquinas e novos processos para os ocupar ainda mais” (Abraham Mitrie Rihbany, Wise Men from the East and from the West, 1922).

Isto é uma verdade pungente, e diz-nos alguma coisa sobre a civilização ocidental que ultrapassa o preconceito faccioso dum escritor do Oriente, invejoso da prosperidade ocidental. Não podemos fugir à acusação. Os meios de que vivemos distanciam-se muito dos fins para que vivemos, e o poder científico passa à frente do poder espiritual: teleguiamos mísseis e não sabemos guiar os homens. Como esse tal homem rico, desprezamos insensatamente a nossa vida interior e exaltamos a exterior. Deixamos que as condições da nossa vida absorvam a própria vida. A nossa geração não terá paz enquanto não aprendermos de novo que “a vida de um homem não consiste na abundância das coisas que possui” (Lucas 12:15), mas no recôndito daquele tesouro espiritual “de onde o ladrão não se aproxima e que a terra não corrói” (Lucas 12:30).

A nossa esperança duma vida criadora reside na capacidade de reintegrar a finalidade espiritual da nossa vida no caráter pessoal e na justiça social. Sem um novo despertar moral e espiritual, seremos destruídos pelo abuso dos nossos próprios instrumentos. A nossa geração não pode fugir à pergunta do Senhor: De que servirá ao homem possuir todo o mundo exterior (aviões, luz elétrica, automóveis e televisão), se perder o interior, isto é, a sua própria alma?

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Publicado no site I Have Dream