Moro e Neymar: a vaidade é o pecado favorito do Diabo

 Wilson Roberto Vieira Ferreira

vanity

 

Em 72 horas os maiores investimentos semiótico-ideológicos da grande mídia foram desconstruídos: Sérgio Moro e Neymar Jr. O primeiro caiu na armadilha do habeas corpus que supostamente iria soltar Lula. E o segundo, na arapuca tautista midiática que fez o jogador acreditar que era intocável, até a viralização do mote “cai-cai” em vídeos pelo mundo eliminá-lo junto com a Seleção. Duas bombas semióticas: uma intencional (o objetivo não era soltar Lula, mas criar um fato político para o mundo) e outra involuntária (efeito da blindagem tautista da mídia e mercado publicitário).

Al Pacino fazendo o papel do próprio demônio em “O Advogado do Diabo” tinha razão: “a vaidade é meu pecado favorito…”. A vaidade dos juízes e do jogador deixou-os cegos. A mídia sentiu o golpe: enquanto o Fantástico teve que se desfazer de Neymar (“hoje não se tolera mais ludibriar o juiz”, fuzilou Tadeu Schmidt), Globo News começou a falar em “instabilidade jurídica” e “politização do Judiciário”. Bombas semióticas perfeitas que produzem efeitos fatais: detonação, letalidade, impasse midiático e dissonância cognitiva.

“Vaidade… definitivamente é o meu pecado favorito!”, diz Milton, o Diabo disfarçado de advogado em O Advogado do Diabo, 1999, ao ver Keanu Reeves cair mais uma vez na mesma armadilha criada por ele no início do filme.

Essa foi a casca de banana jogada pelos advogados e deputados Wadih Damous e Paulo Pimenta com o pedido de habeas corpus no TRF-4. Em férias, o juiz de primeira instância Sérgio Moro caiu na verdadeira arapuca da vaidade. Criou um imbróglio e expôs a autofagia do Judiciário.

Como um verdadeiro homem-bomba, o desembargador plantonista Rogério Favreto expediu o habeas corpus no domingo e determinou a soltura imediata de Lula dos cárceres da PF de Curitiba. Moro acusou o golpe e, desesperado e com orgulho ferido, ligou para o diretor-geral da Polícia Federal para os carcereiros não acatarem a ordem. E em seguida, também para o relator da Lava Jato no TRF-4, Gebran Neto.

Criado o impasse, teve que entrar em cena o presidente do TRF-4, Eduardo Thompson Flores (o campeão da Globo com uma entrevista de destaque aoFantástico, antes do julgamento de Lula em segunda instância no Tribunal Federal de Porto Alegre) para por fim à “batalha de decisões”, o que só explicitou todo o freak out de juízes feridos no orgulho.

De repente, todos voltaram de férias. Todos querendo ser o juiz de plantão, reivindicando ser o juiz natural do processo – fogueira das vaidades: como assim, um juiz petista vai libertar Lula depois que todos correram e leram milhares de páginas de processos em tempo recorde para prender Lula antes das eleições?

triplex-ocupado
Tudo começou no triplex do Guarujá

A estratégia do Empate

Quebra de hierarquia e um cabo de guerra que poderiam ser sido facilmente evitados libertando Lula para, em 24 horas, o STF indeferir a decisão do desembargador plantonista. Mas a armadilha da vaidade foi bem armada: expos os intestinos do Judiciário, o voluntarismo político de Moro, além de criar um explosivo fato político num momento em que Lula estava “esquecido” pela grande mídia.

Bomba semiótica perfeita, com timing mas, principalmente, pela estratégia ativista do “empate” – tática intermediária entre o pacifismo e o belicismo para criar um impasse institucional. Que lembrou um outro gol anterior da esquerda: a invasão do triplex do Guarujá pelo MTST e a Frente Povo Sem Medo em abril.

Lá a ocupação criou um potencial impasse institucional (se o apartamento é de Lula, então estavam autorizados pelo dono para invadirem; se não, quem vai pedir a retomada de posse? – clique aqui). Mas aqui, na expedição dohabeas corpus, o impasse se deteriorou em um cabo de guerra, quebra de hierarquia, desobediência e posicionamento político explícito em decisões supostamente processuais.

 moro2bisca
Moro e a isca

Era óbvio que e a libertação de Lula cairia rapidamente no STJ. Mas era o que menos importava. O ardil estava em outra cena, assim como em abril no Guarujá: lá, foi o vídeo gravado no interior do tríplex desmentindo os supostos 1,2 milhões investidos pela OAS; em Porto Alegre, a isca da vaidade que expôs a politização do Judiciário. Tão politizado quanto a bomba semiótica de efeito retardado jogada pelo PT.

Como vimos na postagem anterior sobre a invasão do tríplex, a perfeita bomba semiótica produz como efeito: Detonação, Letalidade, Dilema Midiático e Dissonância Cognitiva.

(a) O timing da Detonação

Uma bomba de efeito retardado aproveitando o timing da eliminação do Brasil na Copa. A derrota brasileira foi à tarde. À noite, os advogados deram entrada com o habeas corpus no TRF-4.

Aliás, o mesmo timing da grande mídia: seguindo a denúncia da Globo no portal G1 e no Jornal nacional na noite de sexta, a mídia repercutiu a denúncia contra o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, de oferecer facilidades de serviços públicos para pastores, igrejas evangélicas e fiéis. Além da Globo voltar ao bate-bumbo da Lava Jato no Estado do Rio.

Eliminada a Seleção, a opinião pública sai do transe. Para a bomba semiótica da vaidade explodir em pleno domingo.

Será que a esquerda está aprendendo a lutar no mesmo campo simbólico da grande mídia?

 globo2bnews
Valdo e Camarotti: pegos de surpresa nas suas residências gaguejando

(b) Letalidade: Globo sentiu o golpe

Não tem preço ver apresentadores e comentaristas de política da Globo News como Gerson Camarotti e Valdo Cruz pegos de surpresa no domingo, falando de suas residências via Internet, todos gaguejando e tentando costurar alguma narrativa para dar sentido a tudo.

Primeiro, tentando desautorizar o desembargador que determinou a soltura de Lula: filiado ao PT por 19 anos etc. Argumento fraco, já que ministros como Joaquim Barbosa foram indicados por Lula e nem por isso deixaram de colaborar com o golpe de 2016. Sem falar de juízes e ministros do STF com íntimas relação com políticos tucanos flagrados em festas e eventos.

No mínimo, a esquerda estaria lutando com as mesmas armas tão familiares a seus adversários. 

Segundo, com o argumento de que o PT faz o jogo de “politizar decisões judiciais”.

Para no dia seguinte mostrarem que sentiram o golpe: Natuza Nery teve que admitir a “instabilidade jurídica”, “quebra de hierarquia”, “cabo de guerra” e “politização do Judiciário” que deve ser resolvida pelo STF com uma “mudança de legislação”… Bola passada para a presidenta do STF Carmen Lúcia.

Mais tarde na TV aberta,  no Jornal Nacional, o episódio nem mereceu figurar na escalada. Acabou espremido entre as notícias da Copa e da família real inglesa… A Globo parecia tentar superar o dilema midiático do domingo, simplesmente não falando mais do assunto.

 6858188_x720
Como mostrar aquilo que se deseja esconder…

(c) Dilema midiático: como noticiar aquilo que prova o que se pretende esconder?…

Típico dilema, efeito do marketing de guerrilha que está na essência da bomba semiótica: como sócia do consórcio jurídico-midiático que atualmente pauta a vida política nacional, como deixar de noticiar um evento cuja própria descrição desmente a narrativa dos comentaristas da Globo?

Todas últimas munições foram gastas para tentar provar que não havia “fato novo” (a prisão de Lula que supostamente atrapalharia a isonomia entre os candidatos à eleição presidencial), como justificou Rogério Favreto na expedição dohabeas corpus. Porém, a própria mobilização atabalhoada de juízes em tempo recorde para manter Lula preso confirmaram que há, sim, um fato novo: a proximidade da campanha à presidência com um dos candidatos preso.

Sentindo esse dilema, o Jornal Nacional decidiu nem colocar o assunto na escalada da edição de segunda-feira.  

(d) Dissonância cognitiva: desconstrução da narrativa

Até esse momento, a narrativa sustentada pela grande mídia era que todo o processo judicial e a sentença que levou o ex-presidente à cadeia eram “tecnicamente irrepreensíveis”, “imparciais”, resultado do “exame irretocável das provas dos autos”.

A ação desesperada, transformando magistrados em lutadores num ringue no qual tentavam, a todo custo, manter as aparências através de todas as “data vênias” que o “juridiquês” pode proporcionar, foi a dissonância suficiente para contradizer a narrativa dominante da imparcialidade – que nem os colunistas políticos conseguiram mais sustentar: agora, clamam para Carmen Lúcia fazer alguma coisa para manter a “estabilidade jurídica”.

 tadeu-schmidt-le-editorial-em-defesa-de-neymar-no-encerramento-do-fantastico-1531144477468_v2_900x506
Tadeu Schmidt: depois de defender em jogos anteriores, finalmente teve que despachar o Neymar

Desconstruindo Neymar

A grande mídia (liderada pela Globo) e o mercado publicitário criaram na mente de Neymar Jr. a ilusória blindagem tautista. E mais uma vez, Al Pacino tem razão: a vaidade é o pecado favorito do Diabo.

O jogador sentiu-se no centro de todos os olhares com a narrativa midiática do “craque caçado em campo”. Com toda a sua autoindulgência, esqueceu de jogar bola graças à performance “overacting” ridicularizada no mundo inteiro. Tal como um ator canastrão. Quando caiu em si (desculpem o trocadilho…), já era tarde.

Até a Globo teve que despachá-lo com uma crônica, cheia de dedos e pisando em ovos, feita pelo apresentador Tadeu Schmidt no Fantástico desse último domingo.

Mais uma vez, a Globo sentiu o golpe. E ironicamente, enquadrando Neymar Jr. no indefectível discurso anticorrupção que martela diariamente: “Houve um tempo que era bonito ludibriar o juiz, não incomodava ninguém. Hoje, não se tolera mais… que as imagens de Neymar no chão não escondam todas as jogadas e o brilho que produziu…”, alertou Schmidt.

Ou seja, para a Globo, Neymar foi corrupto, tentando enganar juízes na Copa.

Enquanto isso, Moro e o imbróglio dos desembargadores some da escalada do telejornal da rede.

A esquerda está aprendendo a lutar no mesmo campo simbólico dos seus adversários.


Texto publicado originalmente em https://cinegnose.blogspot.com/2018/07/moro-e-neymar-vaidade-e-o-pecado.html#more

 

Anúncios

O dia em que Fernando Holiday descobriu que é preto

¹NÊGGO TOM

images_cms-image-000594717

Como diz aquele velho ditado: “Nada como um dia após o outro”. E não é que esse dia chegou para o vereador e ex-menudo do MBL, Fernando Holiday? O mesmo, que durante a campanha prometeu aos seus eleitores que as suas primeiras medidas como vereador seriam combater o vitimismo, acabar com as cotas raciais em concursos públicos e revogar o dia da consciência negra.

O problema é que Fernando Holiday sempre se comportou como branco, ou como o preto de alma branca, que a casa grande costuma adotar como seu. E só descobriu que é tão preto, como todos os outros, os quais ele costuma ignorar o preconceito sofrido, ao ser chamado de “Capitãozinho do mato” pelo presidenciável Ciro Gomes. “Esse Fernando Holiday aqui é um capitãozinho do mato. Porque a pior coisa que tem é um negro usado pelo preconceito para estigmatizar, que era o capitão do mato no passado”, disse Ciro.

Ciro Gomes se referia, justamente, às ideias expressas por Holiday e ao seu posicionamento diante da questão racial no país. Posicionamento este que fez com que ele (Holiday) se tornasse o queridinho da direita branca, neoliberal e racista, que sempre precisou de um preto para chamar de seu ou para servir como exemplo de uma meritocracia forjada nas entrelinhas do nosso racismo estrutural e institucionalizado.

O mote do preto, gay e favelado, como o próprio Fernando Holiday já se apresentou, é o enredo ideal para contar uma história de igualdade racial e de justiça social, escrita pela parte mais racista, preconceituosa e seletiva da nossa sociedade. E o que passar disso, é vitimismo, “mi mi mi” ou qualquer outra bobagem que valha. De certa forma, os capitães do mato de outrora eram usados de forma semelhante.

Normalmente, eram pretos alforriados ou até mesmo ainda escravizados, que eram selecionados pelos senhores de engenho, para vigiar escravos rebeldes e capturar os fugitivos. Podendo inclusive, serem encarregados de açoitá-los ou de aplicar-lhes castigos ou punições. Devido a autonomia e o “cargo de confiança” que exerciam, estes pretos já não se consideravam iguais aos outros e faziam de tudo para servir aos seus senhores como todo zelo e empenho, para provar que nem todos os pretos eram “iguais” e que eles podiam ser considerados diferenciados. Tanto devido ao bom trabalho realizado, quanto a negação de suas origens.

Fernando Holiday se comporta, sim, como um capitão do mato moderno. O cavalo foi substituído pelo carro oficial e o chicote deu lugar a uma caneta, cujo uso parlamentar tem como prioridade, açoitar os direitos conquistados a duras penas, pela comunidade preta. Tudo para agradar aos seus senhores. Os mesmos que financiaram a sua campanha e o concedeu a chancela de ser um preto bem aceito. Nunca igual a eles, porém, aceito. Pelo menos até quando ele estiver do lado certo.

Ao dizer que vai processar Ciro Gomes por injúria racial, o vereador feriado contradiz a sua superioridade meritocrática e sucumbe ao mesmo “vitimismo” que ele tanto condena. Mas pelo menos o seu “mi mi mi” pode ser considerado legítimo e literal. Porque é por conveniência e tem a finalidade de atrair o apoio daqueles os quais, ele sempre desprezou os sentimentos. Em seu Twitter, o vereador do DEM publicou que “Ciro Gomes responderá na justiça pela injúria racial proferida e, não tenho dúvida, será rejeitado pelo povo brasileiro, brancos e negros, que não admitem o atraso do racismo.”

O oportunismo de Holiday é digno de um capitão do mato, covarde e vendido que ao primeiro revez desce do cavalo, põe o chicote entre as pernas e chama os escravos que ele sempre açoitou para beber um copo d’água e descansar um pouco na sua companhia e à sombra da sua falsidade. Uma prova disso é o outro twitter que ele publicou e que diz: “Ser acometido por ataques racistas como esse é a triste realidade de todos os negros deste país, julgados e apontados pela cor de sua pele, e não por sua capacidade, suas ideias e realizações.”

A bipolaridade de Holiday é mais do que oportuna. O seu Alzheimer ideológico é providencial, mas é apenas em sua legítima defesa. Deve ter sido bem doloroso para alguém que se julga incomparável com os outros de sua mesma etnia, ver-se retratado de forma tão precisa, fiel e conveniente, nas palavras de um branco. Que decepção! Pensara ele que todos os brancos fossem iguais aos “sinhozinhos” e as “sinhás”, que o patrocinaram e delegaram a ele função de “caçar” os pretos “fugidos” de hoje em dia, que se recusam a se submeterem a opressão estrutural e sistêmica, e devolver-lhes na condição de novos escravizados.

Tem preto que gosta de sentir o único branco da turma. Holiday é desse jeito. Não foi fácil chegar onde ele chegou. Tem que ter estômago forte e caráter fraco. Não é justo, que depois de todo o apoio dado a direita golpista, toda reverência prestada ao pato amarelo, todo combate aos direitos adquiridos por seus irmãos de etnia e toda a dignidade perdida, trocada por uma cadeira na câmara municipal de São Paulo, ele agora seja comparado com um preto.

É muita injúria!


Nêggo Tom é músico. Texto publicado originalmente em https://www.brasil247.com/pt/colunistas/neggotom/359029/O-dia-em-que-Fernando-Holiday-descobriu-que-%C3%A9-preto.htm

As próprias pedras Gritaram – relato de tortura de Frei Tito

frei tito
Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, então com 24 anos. Dominicano. O texto redigido por ele mesmo na prisão. Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.
Fui levado do presídio Tiradentes para a “Operação Bandeirantes”, OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno”. Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.
Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.
Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me “telefones” (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do “pau-de-arara”. O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pe sada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.
Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.
Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. “Vai ter que falar senão só sai morto daqui”, gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na “cadeira do dragão” (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao “pau-de-arara”. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.
“Nosso assunto agora é especial”, disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. “Quando venho para a OB – disse – deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede… Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo “não” que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber”. Eram três militares na sala. Um deles gritou: “Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)”. Quando respondi: “não sei” recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.
Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte “metidos na subversão”. Partiu para a ofensa moral: “Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?”. Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido “a toque de caixa” e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo “tratamento”. Disse que a “Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo”. Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.
Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma “explicação”. Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O “interrogatório” reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estômago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo “corredor polonês”. Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no “pau-de-arara”. Mas o capitão Albernaz objetou: “não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis”. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”.
Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.
Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.
Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: “o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos”. Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a “gillete” para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pron to-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: “Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos”. No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.
No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: “A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo”. Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.
Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era “uma estupidez” e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.
De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.
É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.
A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo.
“Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2Cor, 8-9).
Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.
Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970

Deus é plural

Por Adroaldo Palaoro

“…batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19)

5397_ecumenismo2.jpg

A Igreja celebra, neste domingo, a Festa da Trindade, cume e compêndio de todas as festas do ano: do Deus que é Pai, é Filho e é Espírito.

Assim, a festa de hoje vem plenificar o tempo pascal, como uma espécie de “síntese”.

Síntese pascal

Síntese, não intelectual, mas “misterial”, ou seja, celebração de nossa participação no fluxo amoroso das pessoas divinas; pois a SS. Trindade não é uma questão especulativa, é, sobretudo, uma experiência de um Deus amoroso.

A liturgia nos convoca a viver a experiência do Deus “comunhão de Pessoas”; para isso, ela nos convida a fazer uma viagem ao interior de Deus, como vida de amor que se revela na história da humanidade, vida entendida como Pai, Filho e Espírito Santo.

A imensa maioria dos cristãos não sabe que, ao adorar a Deus como Trindade, está confessando que Deus, em sua intimidade mais profunda, é só amor, acolhida, ternura, misericórdia.

Essa viagem ao coração da Trindade culmina na grande comunhão humana, pois o Deus Pai, Filho e Espírito integra no amor todos os povos da terra.

Dessa forma, a viagem ao interior de Deus se converte em movimento ao exterior, no encontro expansivo com todos os homens e mulheres.

Quanto mais mergulhemos em Deus, comunidade de Amor, mais poderemos expandir-nos em solidariedade, amor e justiça para com todas as pessoas, porque o interior de Deus é princípio de reconciliação e unidade (na diversidade) de todos os povos e raças do mundo.

Foi-nos dito que o dogma da Trindade é o mais importante de nossa fé católica; no entanto, a imensa maioria dos cristãos não consegue compreender o que ele quer dizer. Com a Trindade, nós cristãos não queremos “multiplicar” Deus. O que queremos é expressar a experiência singular de que Deus é comunhãoe não solidão.

“No princípio está a comunhão dos TRÊS e não a solidão do UM” (Leonardo Boff).

Aproximar-nos do Deus de Jesus é descobrir a Trindade. E em cada um de nós a Trindade deixa-se refletir. Nossa vida deveria ser um espelho que em todo momento refletisse o mistério da Trindade. O grande ensinamento da Trindade é que só vivemos, se convivemos.

Viver a experiência do Deus Trino implica saber com-viver; fomos feitos para o encontro e a comunicação. Estamos, portanto, falando de uma única realidade que é relação.

Deus-Trindade é a relacionalidade por excelência; Deus só existe como ser em relação; Deus é só relação, porque Deus é só amor. “No princípio está a relação” (G. Bachelard).

E sendo Deus essencialmente relação, não poderia permanecer fechado n’Ele mesmo; num gesto de pura gratuidade, essa relação se manifesta como transbordamento de vida, chamando toda a Criação à existência e convidando a humanidade a entrar no fluxo dessa relação trinitária.

Mas, para nos aproximar do Deus comunhão de Pessoas, temos de superar o ídolo ao qual nos apegamos. Sim, o “falso deus” identificado com um ser poderoso que se manifesta como um déspota, um tirano destruidor, um ditador arbitrário; um ser onipotente que ameaça nossa pequena e limitada liberdade. É muito difícil abandonar-nos a alguém infinitamente poderoso. Parece mais fácil desconfiar, ser cautelosos e salvaguardar nossa independência.

Mas Deus Trindade é um mistério de Amor. E sua onipotência é a onipotência de quem só é amor, ternura insondável e infinita. É o amor de Deus que é onipotente. E sempre que esquecemos isso e saímos do fluxo do amor, nós fabricamos um Deus falso, uma espécie de ídolo que não existe.

A Trindade não é uma verdade para crer mas uma presença a ser acolhida, uma experiência a ser vivida. Uma profunda experiência da mensagem cristã será sempre uma aproximação ao mistério Trinitário.

A festa da Trindade deve nos libertar do “Deus Ser todo poderoso” e empapar-nos do Deus Ágape que nos identifica com Ele. A imagem do “Deus todo poderoso” não expressa bem a experiência do “Deus trino”. Deus é amor e só amor. Só na medida que amemos, poderemos conhecer a Deus.

Esta é talvez a conversão que muitos cristãos mais precisam: fazer a passagem de um Deus considerado como Poder a um Deus adorado alegremente como Amor.

Felizes aqueles que descobrem que a Trindade não é um mistério incompreensível, mas a cotidiana experiência do Amor, a partir de uma vida encarnada em nossa história, com um respiro, um ânimo e uma paixão especial por continuar vivendo cada dia com os mesmos sentimentos de Jesus, junto a tantas pessoas que trabalham por outro mundo mais fraterno, justo e solidário. A Trindade é o espelho que nos mostra como devemos ser e viver à luz da “melhor Comunidade”.

Ora, tal Mistério fonte de todo ser, constitui o modelo ideal de todo e qualquer convívio humano. Somos feitos à “imagem e semelhança da Trindade”.

Trazemos em nós impulsos de comunhão.

Sempre que construirmos relações pessoais e sociais que facilitem a circulação da vida, a comunhão de diferentes à base da igualdade, estaremos tornando visível um pouco do mistério íntimo de Deus.

Deus quer inserir-nos nesta sua comunhão eterna, como no-lo disse Jesus“Que todos sejam um como Tu, Pai, estás em mim, e eu em Ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo. 17,21).

Portanto, Trindade é a glória de Deus que se expressa na vida da humanidade; é o Amor mútuo, a comunhão pessoal, de Palavra (Filho) e de Afeto (Espírito Santo) que sustenta as relações entre os seres humanos. Assim é a Trindade na terra: quando todos compartilham a vida e se amam.

Não crê na Trindade quem simplesmente professa que há “em Deus três pessoas”, ou quem faz mecanicamente o sinal da Cruz, mas aquele que vive o impulso e a expansão do Amor Redentor, que se expressa como compaixão, reconciliação e compromisso. Crer na Trindade é amar de um modo ativo, como dizia S. Agostinho. Contempla-se a Trindade ali onde nos amamos e nos comprometemos com a libertação do próximo. Estamos envolvidos pelo mesmo movimento do Amor sem fim que parte do Pai, passa pelo filho e se consuma no Espírito.

Só quem tem coração solidário adora um Deus Trinitário, pois no compromisso libertador torna-se visível a presença trinitária.

Para meditar na oração

Como pessoas trazemos uma força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão.

Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas. (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade.

  • Em quê aspectos concretos de sua vida se manifesta o mistério do Deus trinitário como amor e vida?
  • Como poderia abrir-se mais à ação do Espírito da Verdade em sua vida, para que o(a) leve a um conhecimento existencial e atualizado do Evangelho de Jesus?
  • Com quais iniciativas concretas você poderia contar para que sua comunidade cristã seja cada dia mais imagem da comunidade de amor infinito que é a Trindade divina?
  • Quais diferenças estão criando divisões e intolerâncias em sua comunidade? Quais elementos da vida comunitária são fatores de união, fazendo-os crescer como irmãos(ãs) e fortalecendo a missão evangelizadora?
  • Sua comunidade é sinal e instrumento de salvação de Deus Trindade, através da iniciativa do amor (Pai), da entrega radical (Filho) e da abertura à novidade dos caminhos de Deus (Espírito)?

Traduzido e publicado no site do Instituto Humanitas, 25/05/2018.

Reduzir a maioridade é manter a exclusão social da juventude

Texto: Plínio Gentil

3386_z1

É claro que existe violência praticada por menores de 18 anos e que deve ser de alguma forma enfrentada. A questão é “a partir de que idade” esse enfrentamento deve ser regulado pelo direito penal. Toda repressão, antes ou depois da maioridade, deve ser acompanhada de um processo de reeducação. Esse processo é um para adolescentes e outro para adultos – imaginando como adulto o maior de 18 anos.

Os países em que a chamada maioridade penal é anterior a essa idade aplicam, na verdade, medidas parecidas com as nossas para os adolescentes, só que chamam isto de pena. Nós as chamamos de medidas sócio-educativas, que também incluem a prisão, chamada de internação. Há, portanto, uma diferença de nomes mais que de conteúdos.

Sobre a questão dos 18 anos: as legislações que adotam este número para início da maioridade penal atendem recomendações de fóruns mundiais multidisciplinares, cujas conclusões apontam que o pleno desenvolvimento mental de uma pessoa, na média, somente é alcançado aos 18 anos de idade. Assim, ao adotarmos esse padrão, nos alinhamos com o que há de mais desenvolvido, do ponto de vista da psiquiatria, psicologia, sociologia, direito e outras ciências, no que diz respeito à fixação da maioridade penal.

Fora isto, há, como se sabe, elementos sociais e políticos no tema: o destinatário preferencial do direito penal é o indivíduo marginalizado, a quem o nosso modelo sócio-econômico-cultural tudo dificultou, a começar do acesso a bens fundamentais, como alimentação, lazer, educação, cultura, moradia e outros. A violência que manifestam é, antes de tudo, resultado dessa miséria sociocultural. Cultural também, porque às vezes o sujeito tem recursos, mas culturalmente é um alienado, para quem a ostentação é o máximo de realização pessoal possível.

Para os infratores menores de dezoito anos, a legislação brasileira, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê diversas medidas, que vão da advertência à internação, que pode durar até três anos. Só que, normalmente, nossas autoridades aplicam somente essas duas, que são extremas: uma de nada adianta, a outra às vezes é desnecessária e põe o adolescente em contato com delinquentes piores do que ele. Dá-se pouca importância ao estudo do direito do adolescente. Tanto que o assunto quase não é tratado nas faculdades e ninguém vê escritórios de advocacia especializados nessa matéria.

Talvez o pouco caso que se faz do tema esteja alimentando o discurso dos que são favoráveis a tratar o adolescente infrator como criminoso adulto. Acham que a cadeia dos adultos é que vai consertar o jovem. Só que criticam a superlotação das mesmas cadeias, chamam-nas de escolas do crime e dizem que o sistema carcerário está falido. O que querem, então? Será o capital privado desejando mais e mais presos pra mais tarde ganhar dinheiro com presídios particulares?

Parte dos defensores da redução da maioridade, aqueles que têm fácil acesso à grande imprensa, que vive da publicidade de ricos anunciantes, bem sabe que não serão os seus filhos adolescentes que arcarão com o peso da repressão penal, mas, sim, aqueles habitualmente excluídos e discriminados: jovens da periferia, vítimas de todo tipo de violência, inclusive policial e racial.

Além disso, tratar a questão como caso de polícia é, mais que tudo, arranjar uma bela desculpa para não fazer nada em relação à exclusão social de grande parcela da população adolescente. Algo como varrer a sujeira pra debaixo do tapete. Será uma boa política simplesmente desistir da nossa juventude?


Texto publicado originalmente em  CENTRO DE ESTUDOS BÍBLICOS – CEBI

Moradia e movimentos sociais: ‘Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito’

via Rede Brasil Atual*

pexels-photo-248913.jpeg

Entidades prestam solidariedade às famílias desalojadas de ocupação incendiada em São Paulo, repudiam a criminalização dos movimentos sociais e exigem enfrentamento da questão da moradia pelo poder público

São Paulo – Em notas divulgadas na noite de terça-feira (1˚), um total de 38 movimentos sociais ligados à luta por moradia manifestaram solidariedade às cerca de 150 famílias vítimas do incêndio que destruiu uma ocupação no centro da capital paulista, na madrugada do mesmo dia. As entidades também repudiam a tentativa – pela mídia tradicional e pelo poder público – de responsabilizar os moradores pela tragédia e cobram políticas públicas que atendam à demanda por moradia popular na cidade e no país.

“Reafirmamos mais uma vez: as ocupações não são uma escolha, mas a única opção para milhares de famílias, diante da grave crise que assola o país e da falta de políticas públicas de habitação”, disse o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto(MTST), em nota própria.

As entidades, além de reafirmar a unidade dos movimentos por moradia, exigem a responsabilização do Estado pelas omissões que resultaram na tragédia – em que ao menos uma pessoa morreu e, até a manhã de hoje (2) 44 estavam desaparecidas –, e medidas que façam o enfrentamento à especulação imobiliária, que inviabiliza o acesso à habitação para as famílias de baixa renda.

“Enquanto a população de baixa renda é penalizada, os latifúndios urbanos concentram dívidas milionárias e descumprem reiteradamente a Constituição Federal. Quantos prédios ainda irão cair até que sociedade e governos entendam que a moradia é um direito de todos e um dever do Estado? Permaneceremos mobilizados?”

O MTST explica ainda que não tem ocupações no centro de São Paulo e que não cobra das famílias nenhuma taxa por fazerem parte das ocupações organizadas, como foi divulgado de forma mentirosa.

Leia as íntegras das notas:

Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) tem mais de 20 anos de história de luta por moradia no Brasil. Nesse período colaborou para que milhares de pessoas tivessem acesso à moradia digna, um direito constitucional negado a mais de 6 milhões de famílias no país.

Nos últimos dois anos, estivemos na linha de frente das lutas e denúncias contra os cortes no orçamento da habitação. No ano de 2017, o governo Temer destinou apenas 9% dos valores previstos com moradia no orçamento. A faixa mais afetada foi a de baixa renda, que compreende famílias que recebem até 1.800 reais. Enquanto isso a Caixa Econômica ampliou o limite de financiamento para imóveis de luxo, uma completa inversão de prioridades.

O incêndio no edifício no Centro de São Paulo essa madrugada (1º de maio) deixou mais de 150 famílias desalojadas; não se sabe ainda o número exato de vítimas.

A solidariedade às famílias que perderam tudo nessa tragédia é dever de todos nesse momento. Não podemos aceitar que uma catástrofe como essa seja utilizada para criminalizar aqueles que lutam por uma vida mais digna. Por isso repudiamos notícias tendenciosas da imprensa e comentários como o do governador Marcio França, que culpam as próprias famílias pelo seu infortúnio. Repudiamos também comentários preconceituosos que se amontoam nas redes.

Reafirmamos mais uma vez: as ocupações não são uma escolha, mas a única opção para milhares de famílias, diante da grave crise que assola o país e da falta de políticas públicas de habitação.

Aproveitamos o momento para esclarecer alguns pontos:
  • A ocupação vítima do incêndio não era organizada pelo MTST e sim por outro movimento de moradia, o Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM);
  • Desde que tivemos acesso às notícias do incêndio, integrantes do MTST, juntamente com outros movimentos de moradia de São Paulo se mobilizaram para discutir estratégias de solidariedade às famílias;
  • O MTST não tem ocupações no centro de São Paulo e não pratica a cobrança de nenhum valor das famílias organizadas em nossas ocupações.

‘Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito’

Na madrugada do dia 1º de maio de 2018, em São Paulo, uma tragédia aconteceu na ocupação do Largo Paissandu. As entidades e movimentos sociais que atuam na defesa do direito à moradia vêm manifestar solidariedade às famílias que estavam no imóvel. É inadmissível que este momento de tristeza e dor seja manipulado pelos verdadeiros responsáveis por tais situações para criminalizar os movimentos e os trabalhadores de baixa renda, que não têm alternativa senão viver nas ocupações.

As famílias que vivem em ocupações são vítimas do descaso, da irresponsabilidade do Estado e da especulação imobiliária – que impõem alto custo de habitação, sobretudo nas áreas centrais. Não é a primeira e não será a última tragédia, enquanto o investimento público para o enfrentamento do problema habitacional não for significativo e comprometido com o acesso à moradia como um direito.

Enquanto a população de baixa renda é penalizada, os latifúndios urbanos concentram dívidas milionárias e descumprem reiteradamente a Constituição Federal.

A Prefeitura desrespeita o Plano Diretor, uma vez que há mais de um ano deixou de notificar os proprietários de imóveis que não cumprem a função social da propriedade, o Governo Federal corta o Programa Minha Casa Minha Vida para os mais pobres e o Governo do Estado tem apostado suas ações na implantação das Parcerias Público-Privadas, que não atendem os mais pobres e enriquecem as empreiteiras e donos de imóveis.

Ainda, o Poder Judiciário – que goza de um imoral auxílio moradia – ignora o descumprimento da lei pelos proprietários e se posiciona, via de regra, pelo despejo e remoção de milhares de famílias, agravando a desigualdade social. Existem inúmeros imóveis públicos em plenas condições de reforma para uso habitacional.

As ocupações são a resposta das famílias organizadas frente a essa situação. Os atuais Governos, ao acusar os movimentos, demonstram uma atitude covarde por parte daqueles que são os principais responsáveis por essa crise e, em aliança com o mercado, pelo aprofundamento da tragédia urbana.

Por fim, reiteramos unidade na resistência de cada ocupação e exigimos: a responsabilização do Estado em cada recusa à regularização de energia elétrica, saneamento e prevenção de riscos em ocupações; o investimento público na viabilização de moradias dignas; o enfrentamento à especulação imobilária; políticas de mediação de conflitos fundiários com participação popular; a conversão dos edifícios ociosos em moradia popular; e a regularização fundiária de ocupações.

Quantos prédios ainda irão cair até que sociedade e governos entendam que a moradia é um direito de todos e um dever do Estado? Permaneceremos mobilizados.

São Paulo, 1º de maio de 2018

Assinam:

Central de Movimentos Populares
Frente de Luta Por Moradia
UMM SP – União dos Movimentos de Moradia
MTST
Movimento de Moradia para Todos
Frente Brasil Popular
Frente Povo Sem Medo
Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Peabiru TCA
Usina CTAH
Laboratório Justiça Territorial UFABC
Coletivo de ocupações, favelas e cortiços da cidade de São Paulo
Observatório de Remoções
Observa SP
Labcidade FAU USP
LabHab FAU USP
Fórum Aberto Mundaréu da Luz
Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo – SASP
Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico – IBDU
Instituto Pólis
Rede Mulher e Habitat
Secretaria Latino Americana de Vivienda y Habitat Popular
Hic – Coalizão Internacional Habitat
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1
Movimento de Moradia da Região Sudeste
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra da Zona Oeste
Unificação das Lutas de Cortiços e Moradia
Movimento em Defesa do Favelado da Região Belem
Movimento de Defesa dos Favelados – Santo André
Associação dos Sem Teto Taboão Diadema
Associação Independente Da Vila Nova Esperança
Associação de Moradores da Sólon
Movimento de Moradia City Jaraguá
Movimento de Moradia na Luta por Justiça
Associação Nossa Luta Nossa Terra Diadema
Central Pró Moradia Suzanense Cemos
Movimento Independente de Luta Por Habitação de Vila Maria – Ocupação Douglas Rodrigues
Associação de moradores Pantanal capela do socorro
Movimento Terra Livre