O “Pai-Nosso” e a conjuntura brasileira

Maurício Abdalla

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No século I, na Palestina, o domínio romano extorquia os agricultores por meio de pesados impostos. Adicionalmente, na região camponesa da Galileia, o reinado perdulário de Herodes Antipas acrescentava outros tributos que sobrecarregavam ainda mais os que viviam da terra – que ainda tinham que pagar o imposto do Templo para os governantes judeus.

Como os impostos levavam a maior parte da colheita (principalmente nos períodos das grandes obras de Antipas), sobrava pouco para o sustento da família e para estoque para a próxima semeadura. Os agricultores eram, então, obrigados a recorrer a empréstimos. Os ricos proprietários de terra, que sustentavam o poder judaico e se aproveitavam de maneira submissa da dominação romana, passaram a ganhar ainda mais com os juros dos empréstimos e, principalmente, com o confisco das terras dos que não conseguiam saldar as pesadas dívidas. Esses eram os saduceus, que orbitavam o Templo, sede do poder judaico, e apresentavam-se como líderes religiosos e da tradição.

Um jovem líder daquela época, de origem camponesa (da Galileia), ao ensinar em público como se deve dirigir a Deus, disse: “Diga a Deus que perdoe as suas dívidas do mesmo jeito que você perdoa a de seus devedores…” Esse era Jesus.

Como essas palavras devem ter soado aos ouvidos religiosos dos saduceus, cuja riqueza sustentava-se e crescia justamente na cobrança, e não no perdão, das dívidas? Era como forçá-los a dizer “Deus, condene-nos”.

Com isso, Jesus expressava também a condenação ao sistema que levava ao endividamento e ao consequente enriquecimento de uns à custa do empobrecimento de muitos. Não se preocupou em fazer referência ao “compromisso de honra” do tomador do empréstimo com o seu pagamento. Preferiu chamar à consciência para o sentido ético-social de uma cobrança que tinha em sua raiz original um sistema de dominação e injustiça. Tem coragem de pedir a Deus que faça com você a mesma coisa que você faz com os outros? Se não, algo está errado, independente das justificativas.

Traduzida na fórmula de oração católica do “Pai-Nosso” por “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” e mantida na tradição protestante como “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, a oração de Jesus contém uma crítica social e econômica fulminante, inseparável da sua espiritualidade e só compreensível dentro de seu contexto.

O sentido original da oração foi um dos tantos fatores que levaram o jovem da Galileia a sofrer o castigo que os romanos reservavam aos contestadores da ordem: o assassinato político na cruz.

A retirada do contexto e o esvaziamento do sentido crítico das palavras de Jesus é a única coisa que permite que muitos sejam a favor da ordem atual e, paradoxalmente, se digam cristãos.

Com as riquezas do Brasil sendo entregues à rapina de banqueiros e empresários, o empobrecimento da população, a destruição do patrimônio e dos serviços públicos em nome de uma dívida não auditada, insolvível e fruto de um sistema injusto, onde você acha que Jesus estaria? No Facebook defendendo as privatizações, a destruição das leis trabalhistas e da previdência e o engessamento do orçamento primário em nome de uma ideologia liberal de comentadores de TV, ou com o chicote na mão liderando uma invasão ao Templo, chamando Herodes de raposa e dizendo que o diabo é a Legião (nome das tropas de ocupação romana)?

Pense nisso na próxima vez que for orar o “Pai-nosso”.

 

Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

(Texto publicado originalmente no site do Movimento Nacional de Fé e Política).

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Os profetas em épocas de transformações políticas e sociais (Rev. Joaquim Beato)

Texto publicado no livro 2 do Congresso “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”, realizado em 1962 no Recife.

CPRB fundo

QUEM SÃO “OS PROFETAS”?
Duas coisas devem ficar definidas desde já, neste começo de conversa: quem são “os profetas” e o que eram os profetas? Dizer quem são, para nós, os profetas, não é muito difícil, mesmo porque se trata de uma escolha que poderia ser feita arbitrariamente. Ao dizermos, porém, o que “os profetas” são para nós, os profetas hebreus, não estamos de modo algum fazendo uma escolha arbitrária, pois que na história das religiões, embora o fenômeno do profetismo não seja exclusivamente israelita, não há nada que se possa comparar, nem de longe à obra deles. Os profetas de Israel não constituem somente o movimento de mais alto valor espiritual que jamais eclodiu no seio das religiões semíticas; nem somente a fase mais criadora e normativa da religião de Israel. Embora não tendo sido os originadores da religião do Antigo Testamento, foram eles que, aprofundando à luz de novas situações, o conteúdo da revelação universal, forneceram a linha principal pela qual o cristianismo se insere na corrente central da tradição judaico-israelita; e é deles pela mediação do cristianismo que recebemos o conceito de unidade e propósito na História, e a interpretação da História do povo de Deus como âmbito e meio especifico da revelação divina.

QUE ERAM OS PROFETAS
Dizer o que eram os profetas não é tão simples, por causa de uma persistente distorção, que nossos dicionários na sua maioria, ajudam a perpetuar e difundir. Na acepção popular, profecia é, antes de tudo, “predição de futuro” e profeta é “aquele que prediz o futuro”. Embora reconhecendo, que a palavra grega usada na LEX para designar os profetas verdadeiros possa prestar-se a tal equívoco, e que a etimologia da palavra hebraica ainda constitui um enigma para os especialistas, certas passagens bíblicas (Ex 4:15-16; Ex 7:1; Amós 3:7-8) deixam claro que os profetas eram concebidos e se concebiam a si mesmos como porta-vozes de Deus, e como aqueles que, de posse do segredo do Senhor, eram os únicos capazes de perceber o sentido íntimo dos acontecimentos da história do povo de Deus, e os únicos chamados para proclamá-lo a seus contemporâneos. Graças à interpretação profética, as crises da história de Israel foram compreendidas como atos do Deus que age em juízo e em misericórdia contra o seu povo e pelo Seu povo (Am 3:1-2; Am 5:6-11; Os 11:1-9): “Ouvi a palavra do Senhor. Ouvi a palavra que o Senhor fala contra vós outros, filhos de Israel, contra toda a família que fiz subir da terra do Egito, dizendo: “…De todas as famílias da terra somente a vós outros escolhi, portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades”. Daí ser impossível uma boa inteligência da mensagem dos profetas sem um razoável conhecimento da situação histórica que lhe serve de fundo.

Que a predição não era, portanto, o elemento fundamental da profecia, mas que o era a proclamação da verdade religiosa, pode-se ver de passagens como Dt. 13: 1-3; 18: 21,22. Elas mostram que o cumprimento da predição de um profeta não seria suficiente para demonstrá-lo falso. Por outro lado, essas passagens demonstram que a predição tinha de referir-se ao futuro imediato, pois o que se estava tentando resolver era como os contemporâneos do profeta, aqueles que o ouviam, podiam saber se ele fora ou não enviado por Deus (Dt 18:21).

A predição aparece só nos oráculos proféticos de ameaça ou promessa. É evidente que, pôr força, ambas têm de estar associadas com a situação histórica em que se encontram os profetas e seus ouvintes. A ameaça segue-se, normalmente, a acusação e a promessa, a exortação. A predição contida na ameaça ou na promessa constitui um apelo ao arrependimento, que pode obstar o cumprimento da ameaça e é necessário ao cumprimento da promessa.

O monoteísmo é menos importante no Antigo Testamento do que o fato de que foi Yahweh que tirou Israel da casa do Egito e, por isto, Israel deve amá-lo com todas as veras d’alma (Dt 6:4-5) e, demonstrar esse amor na mais completa obediência (Ex 28:1-17). Que ninguém se escandalize, pois em o Novo Testamento se vê, também, a mesma coisa. Não é o monoteísmo que faz o cristão, mas o confessar a Jesus como Senhor (Rm 10:9; Jo 1:14; Jo 20:31; At 8:36-37; 2Co 5:19; Fp 2:9-11; 2Tm. 2.5-6). É possível ser monoteísta sem ser cristão, como era possível ser israelita fiel sem ser monoteísta teórico. O que não era possível ao verdadeiro israelita era não amar e servir exclusivamente a Yahweh. Esse fora o Deus que amara Israel, quando ele era menino, e chamara seu filho do Egito. A fé em Yahweh era por isso, um extremo amor, um interesse vital, uma dedicação total, que se nutrira da memória de seus feitos gloriosos de poder e graça na história de seu povo.

A FÉ QUE O PROFETA COMPARTILHA COM SUA GENTE 
Essa fé que transfigurava a história de Israel e a transformava na manifestação do propósito de Deus, o profeta a compartilhava com seu povo. Sua origem vinha de Moisés. Embora, tirando dela conclusões inteiramente diversas a tantas vezes opostas às do vulgo, ele, o profeta, não deixaria de recitar com o adorador comum esta confissão que alguém denominou “O coração do Pentateuco”, a saber, Dt. 6.20-24; Js. 24: 2-13. Assim, pois mesmo divergindo tão radicalmente, muitas vezes da mentalidade e da atitude do povo em certos momentos cruciais era de dentro de um patrimônio comum de fé e de experiência, de teologia e de história que o profeta apelava para seus contemporâneos israelitas; e era em nome de seu Deus e do melhor de sua herança cultural que lhes apelava. Os profetas eram, pois, verdadeiros homens de Israel.

OS PROFETAS NAS CRISES POLÍTICAS 
Crendo que nos acontecimentos históricos se revelara a intenção, o propósito de Deus para com seu povo, os profetas não se limitavam a interpretar esses acontecimentos.
Procuravam influir neles por todos os meios. Dispunham-se a imiscuir-se até mesmo na política, não por despeito de serem líderes religiosos, mas pelo fato mesmo de que o eram, e procuravam influir não só pela palavra, mas também pela ação.
Aliás, o movimento profético em Israel estava associado com a política desde seu nascimento. A primeira referência a um bando de profetas aparece em relação com a ameaça dos filisteus, ameaça tão séria que exigiu o estabelecimento da monarquia. Bandos de profetas, com os quais Saul encontraria no dia de sua escolha (lSm 10: 5-13), empenhavam-se em despertar o fervor patriótico do povo e incitá-lo a empenhar-se numa guerra santa contra os filisteus. E foi Samuel, o profeta-juiz, que ungiu os dois primeiros reis de Israel em resposta a essa necessidade.

A estrutura política de Israel era, até então, simples. Israel era uma confederação de tribos-livres com um culto comum e um santuário central. Nas horas de emergência, as tribos eram convocadas para a ação em nome do Deus do pacto. Essa estrutura que resistira bem enquanto os adversários a enfrentar foram as tribos do deserto ao sul e da Transjordânia, e de príncipes canaanitas, diante dos filisteus demonstrava-se inadequada. Não havia uma autoridade central permanente. Nas horas de crise a resposta das tribos independentes à convocação de Yahweh dependia da fidelidade delas ao pacto (Jz 5:16-17 e 23). E era natural que quanto mais distantes geograficamente do epicentro da perturbação tanto menos interessadas se demonstrassem em atender ao apelo e ao chamado à guerra santa.
O teste final da confederação de tribos foi a invasão dos filisteus. Estes eram parte do que os egípcios denominavam “povos do mar”. Vinham das ilhas do Mar Egeu. Inundaram a Grécia e destruíram na Ásia Menor, o Império Hitita; atacaram o Egito, pela Líbia e por mar. Repelidos, um grupo deles, conhecido como “filisteus”, enquistou-se no litoral sul de Canaã, pouco depois de 1.200 A.C. de onde começou a tentar conquistar a terra.

Culturalmente superiores, os filisteus mantinham, além disso, ciumento monopólio do uso do ferro, o que lhes garantia supremacia militar incontestável (lSm 13:19-22). Foi, pois nesta séria emergência que se estabeleceu a monarquia. Isto é, a antiga estrutura simples da federação de tribos livres deu lugar a uma forma de governo mais centralizada e a liderança passou dos carismáticos para uma dinastia, ficando com o profeta a função de porta-voz daquelas coisas da antiga ordem carismática que deviam ser preservadas em a nova, para conservação do caráter específico de Israel como povo de Yahweh. Entre essas coisas a mais importante, talvez, era a idéia expressa por Gideão (Jz 8:23) que rejeitou o reino dizendo: “Yahweh será o vosso Rei”. A ideia de Yahweh como rei de Israel é uma idéia central; que vem desde os tempos da Anfictionia (1). O rei só seria aceito como ungido de Yahweh, cuja voz ele, deveria obedecer e o alçançaria por mediação do profeta. Por ocasião da morte de Saul, o perigo filisteu não fora conjurado; ao contrário, seu domínio separava de novo, o norte do centro e sul da Canaã, visto como mataram Saul no Monte Gilboa dominavam a cidade de Betsehem no vale do Jordão.

Coube a Davi submeter os filisteus e estabelecer um governo central forte. Davi concluiu também a conquista de Canaã e submeteu os arameus, amonitas, moabitas, edomitas e amalequitas. Pela primeira vez, a Palestina foi unificada, e os israelitas passaram a desfrutar um nível mais alto de vida propiciado pela revolução econômica resultante da introdução do ferro no uso popular. Nós passamos nesse período em 1.200, da idade do bronze para a idade do ferro. E foi a vitoria sobre os Filisteus que tornou fácil o uso popular do ferro, cujo monopólio os Filisteus mantinham para seu domínio militar sobre Israel.

NATà
No fim do reinado de Davi, em 961 A.C, coube ao profeta Natã uma importante parte nas maquinações que levaram Salomão ao trono (e realmente foram intrigas palacianas que levaram Salomão ao trono) (1Rs 1:11-31)
Mas ao fim do reinado de Salomão, coube a outro profeta insuflar a divisão do reino, restando à dinastia davídica somente o domínio sobre Judá (1Rs 11:28-12.24). Um profeta que lutava contra a ordem política em nome de Yahweh.

AIAS SILONITA
Salomão tornara-se monarca no estilo luxuoso e despótico, tão comum ao Oriente Próximo, mas tão contrário à maneira de vida de Israel. Estabelecera uma corte faustosa, um imenso harém, e dividira seu reino em distritos fiscais. O objetivo desta última medida era sem dúvida, centralizar o poder na coroa, substituindo o velho sistema tribal pelos distritos administrativos, que alteravam deliberadamente os limites de metade dos antigos territórios tribais. Acrescente-se a isso seu programa de trabalho forçado (1Rs 5:13-18). Embora os povos conquistados fornecessem certamente muitos milhares de escravos para execução do programa de construções de Salomão, o texto nos informa que cerca de 30.000 israelitas eram obrigados a trabalhar de graça para o rei um mês em cada três. Havia ainda, oitenta mil nas pedreiras e setenta mil que levavam as cargas. Eram aproximadamente, portanto, 180.000 homens israelitas, talvez um décimo da população do tempo de Salomão, o que corresponderia hoje (1962 D.C.), entre nós a 7.000.000 de brasileiros em trabalho escravo para o Estado. O aviso de Samuel tornara-se realidade (1Sm 8:10-18). Um rei como os monarcas orientais, limitaria drasticamente a liberdade do povo, secularizaria seu modo de ser, e solaparia os próprios fundamentos da comunidade pactual. Por meio da ação de Aia, o silonita, o Deus de Israel se fez conhecido nos acontecimentos políticos que abalaram os próprios alicerces do reino que Salomão procurara construir a tão alto preço.

ELIAS, ELISEU
Do fim do reinado de Salomão e da divisão do reino, em 922 A. C., demos um salto quase de um século, e vamos ao tempo do reinado de Acabe sobre Israel (869 a 850 A. C.).
Acabe era filho de Onri, o “Davi” do Reino do norte. Onri conseguira o que nenhum dos reis de Israel fizera antes dele, isto é, estabelecer uma dinastia. Foi ele que construiu Samaria num local estratégico. Fez paz com Judá e estabeleceu a política de boa vizinhança com os Fenícios casando seu filho Acabe com a filha de Itobaal, rei do Tiro, a tristemente famosa Jezabel. Os registros assírios, muitos anos depois de sua morte, referiam-se ao reino do norte como “a terra da casa de Onri”, e dos reis de Israel como “filhos de Onri”. A aliança com os Fenícios, selada como o casamento de Acabe com Jezabel, não poderia deixar de ter consequências desfavoráveis para o Javismo (a religião de Israel). Toda gente conhece a luta de Elias contra Jezabel e os profetas de Baal e de Azerá, de modo que não é preciso repetir que realmente foi um período de crise para o Javismo, esse período de prosperidade econômica no tempo de Acabe. Por isso, vemos a atividade dos profetas Elias, Eliseu e outros, insuflando os ânimos e preparando a derrubada da dinastia onrita (1Rs 19:15-17; 2Rs 8:7-15; 2Rs 9:10). Este golpe de Estado promovido pela iniciativa dos profetas afetou o reino vizinho da Síria (2Rs 8:7-15), e o reino irmão de Judá (2Rs 9: 27-29; 2Rs 11:1-16). Suas conseqüências políticas não foram boas para Israel como se poderá ver no século seguinte; e sua violência foi condenada por Oséias, um século depois (Os 1:3-5). Mas os profetas do século IX, no reino do Norte, tomaram ativamente a iniciativa de produzi-lo.

ISAÍAS, DE JERUSALÉM 
Como a fé profética pode tornar-se atuante nas crises políticas pode-se ainda ver melhor, talvez, na carreira de Isaias, de Jerusalém. Em diversas ocasiões este profeta teve de aconselhar reis em Judá quanto ao curso que devia ser dado à política internacional do reino. A primeira foi a crise siro-efraimita. Em 738 A.C. Menaém, rei de Israel, e Rezim, rei de Damasco, pagaram tributo à Tiglate-Pileser, rei assírio, reconhecendo sua soberania. Mas essa capitulação, embora tivesse firmado nas mãos de Menaém e de seu filho Pecaias, o trono de Israel, era grandemente impopular, e isto devido ao fato de que o tributo era levantado por meio de pesados impostos sobre os ricos.

Esta impopularidade da política de Menaém e de seu filho facilitou a revolução chefiada por Pecá, que assassinou Pecaias em 737 A. C. Pouco depois, enquanto a Assíria estava envolvida com inimigos do Norte, Pecá e Rezim de Damasco tentaram formar uma coligação antiassíria nos moldes de uma que fôra bem sucedida no século anterior, e que enfrentara Salmanasar III, em 853 A.C., em Qargar, com bom êxito. Pecá e Rezim, em 733-732 investiram contra Jerusalém, ou para forçarem Acaz, rei de Judá, a entrar na aliança, ou para colocarem um títere em seu lugar (Is 7:6). O coração de Acaz e de todo o povo tremeu de medo (Is 7:2). Aterrorizado, o rei queimou seu filho em sacrifício (2Rs 16:3), esperando com esse rito pagão conjurar a ira divina (cf. 2Rs 3:26-27). Nessa situação desesperada, Acaz só via duas alternativas: a derrota diante dos invasores ou um pedido de socorro a uma grande potência. Isso o levava a inspecionar o suprimento d’água da cidade, essencial no caso de Jerusalém ter de resistir a um assédio, a um cerco militar. Nesse momento crítico, Isaías vai a seu encontro com a mensagem necessária e relevante para a hora (Is 7:3-9). O caminho é abandonar alianças humanas e depositar inteira confiança em Yahweh (Is 3:9). Tal fé exige completo e inabalável devotamento a Deus na confiança de que ele é o verdadeiro Rei (Is 28:16; Is 30:15). É esta atitude que Martin Buber intitulou “Teopolítica”. Sua aceitação cancelaria o plano de Acaz de apelar para a Assíria em favor de Judá. Yahweh subverteria a aliança siro-efraimita. Acaz, porém não podia crer nisso. Apelou para Tiglate-Pileser, com imensos prejuízos para Judá (2Rs 16:7-13; Sf 1:45; Ez 8:15-16; Jr 44:15-20).

Em duas ocasiões teve Isaías de aconselhar Ezequias que se afastasse de coligações. Ezequias subira ao trono em 715 A.C. e empreendera grande reforma religiosa. Assim como as alianças políticas envolviam o reconhecimento das religiões ou das divindades nacionais dos aliados, as reformas religiosas com sua ênfase num culto exclusivo e depurado de Yahweh tinham implicações políticas, nacionalistas e libertárias.
Que Ezequias era governante politicamente enérgico pode se ver no fato de ter garantido o suprimento d’água a Jerusalém, que constituiu um problema para o seu antecessor, construindo o túnel de Siloé, de uns 590 metros, escavando na rocha viva. Ampliou as muralhas e reforçou as fortificações de Jerusalém (2Rs 18:1-8; 2Rs 20:20-21; 2Cr 32:30; 2Cr 32:5)

Em 711 A. C. Ezequias foi tentado a participar de uma revolta contra a Assíria, insuflada pelo Egito e que estourou na cidade de Asdode, na Filistia (Is 14:28-32). Para dramatizar o juízo de Yahweh contra a conspiração, Isaias teve de realizar um ato simbólico (cap. 20): Ele andou nu e descalço durante três anos, para mostrar que o povo do Egito e da Etiópia iria para o cativeiro como, resultado daquela rebelião contra o rei da Assíria. Em conseqüência da influência de Isaías possivelmente, Ezequias evitou envolver-se demasiadamente na revolta e Judá escapou de ser invadida pelos exércitos de Sargão, que destruíram Asdade e outras cidades dos filisteus. Quando Sargão morreu em 705 A.C. parecia ter soado a hora final do Império Assírio. Por toda parte estouravam revoltas. O rei Marduk-apal-iddiana (o Merodaque-Baladã da Bíblia), de Babilônia, era o líder. A história da embaixada que ele enviou a Ezequias, e do veemente protesto de Isaías contra ela aparece em 2Rs 20:12-19 (cf. Is 39.1-8). O Egito, que sob o rei etíope Sabaco, desejava recuperar a glória antiga, parece que enviou também embaixadores a Ezequias para garantir a participação deste na revolta geral, fiel ao seu método de hostilizar a Assíria por meio de intriga diplomática. O oráculo que aparece em Isaias 18 parece provir desse tempo.

Condenou especialmente a recepção favorável que tiveram os enviados do Egito mencionados no capítulo 18, assim como denunciou as negociações secretas com Marodaque-Baladã (2Rs 20:12-19). Eloquentes são suas palavras contra os que procuravam a ajuda do Egito (Is 31:1-3). Tais esforços políticos eram evidência clara de que os homens não confiavam no “Santo de Israel”. Em Is 30:1-15 o profeta Isaías enfatiza a loucura de procurar “abrigo à sombra do Egito”. Um eco de seu conselho a Acaz aparece em Is 30:15, que é um resumo do significado da “fé” para o profeta.
“Em vos converterdes e sossegardes está a vossa salvação. Na tranqüilidade e na confiança, a vossa força; mas não o quisestes.”

A história do Crescente Fértil tem sempre estes dois pontos: ou na Mesopotâmia a Assíria ou Babilônia, ou o Egito no Sul. De modo que o povo de Deus era sempre envolvido na trama da política internacional, girando sempre entre esses dois pontos; uma facção a favor do Egito, uma facção a favor da Síria e facção defendendo uma política independente de confiança integral no Deus de Israel.

Apesar de tudo, o rei Ezequias se deixou envolver na conspiração. E assim, após haver dominado a situação na parte oriental do império, Senaqueribe marchou para o oeste. Marchou triunfantemente através da Fenícia, desceu à Filistia onde venceu um grande exército egípcio na cidade de Ecrom; daí avançou para o interior pela região montanhosa de Samaria e Judá, e ameaçou Jerusalém. Em Miquéias 1:10-16 e Is 10:28-32, temos passagens que refletem a inexorabilidade e a velocidade do avanço assírio. Os anais de Senaqueribe relatam que nessa campanha foram tomadas 46 cidades fortificadas de Ezequias, e numerosas pequenas cidades satélites, e foram levadas em cativeiro 200.150 pessoas (2Rs 8:13). Pouco mais restava do que Jerusalém, isolada de todo socorro externo. Senaqueribe diz que prendeu nela Ezequias como um “pássaro engaiolado”. Em linguagem mais forte ainda, Isaías, compara a catástrofe à destruição de Sodoma e Gomorra (Is 1:4-9). Mas desta vez, surpreendentemente, o profeta não aconselha a rendição da Assíria.

Em qualquer hipótese, ficará confirmada a veracidade da interpretação profética dos acontecimentos em que o profeta e seus ouvintes estejam envolvidos. Nisso se vê, por outro lado, uma vez mais, que o profeta é, antes de tudo, um intérprete do presente, da história contemporânea, que ele e ouvintes estão vivendo.

Não se pode negar, porém, nem é nosso interesse fazê-lo, que os profetas tenham falado, às vezes, de um futuro mais distante, não causal ou imediatamente relacionado com sua situação contemporânea. No entanto, comparadas com o volume total da literatura a que chamamos profecia, na Bíblia, essas predições não justificam a transformação dos profetas em meros prognosticadores gratuitos de um futuro além do horizonte histórico e das situações concretas e existenciais de seus ouvintes e contemporâneos.

OS PROFETAS – HOMENS DO SEU TEMPO
Definir assim o que eram os profetas pode parecer a muitos, reduzi-los injustamente a figuras do passado. Não se poderá fazer justiça aos profetas, porém, sem ter sempre presente que sua mensagem foi dirigida aos seus contemporâneos, dentro das condições e circunstâncias em que viviam. O reconhecimento desse condicionamento temporal dos profetas é essencial à correta interpretação de sua mensagem e é o único modo de protegê-lo de um interesse malsão (que não é sadio) em seu ensino, interesse que o desfigura, colocando no seu centro os elementos periféricos, e na periferia, os elementos centrais.

OS PROFETAS – HOMENS DO POVO
Outra limitação, se assim se pode dizer, muito importante, é o fato de que os profetas eram homens que falavam a Israel como porta-vozes do Deus de Israel. Este era um Deus particular, com nome particular e com povo particular. O fato de no sexto século A.C. se ter chegado a afirmar sua unicidade e conseqüente soberania universal, foi mais uma conclusão de fé coerente e aventurosa do que uma conclusão da lógica fria, silogística e cerebral.

Isto é uma evidência de que sua perspectiva não era política, mas religiosa. O poder dado a Assíria provinha de Deus, e era, portanto, um poder que seria anulado ou retirado quando aprou-vesse a Deus. Para ver que ele tinha razão, basta ler os relatos em 2Rs 18:19; Is 36:37. Jerusalém foi salva.

JEREMIAS
O grande profeta de Judá que acompanhou os últimos dias da nação até o fim, isto é, até a queda e destruição de Jerusalém, em 586 A.C., ter-se-ia poupado de amargos sofrimentos se tivesse fugido de imiscuir-se ativamente na política. Mas Jeremias não teria sido fiel a seu chamado, caso não tivesse ido até às últimas conseqüências práticas de sua mensagem. Principalmente no reinado de Zedequias, de 597 a 586 A.C., período de que provém grande parte do material que aparece nos capítulos 1 a 25, especialmente os capítulos 21-24, nos quais ele defendeu sozinho e corajosamente uma posição política que tem sido confundida com pacifismo ou colaboradorismo. Mas, não era nada disso, pois para o profeta, acima dos expedientes e concessões que o momento podia ditar, estava a convicção de que a Babilônia era agora para Judá o que no século anterior tinha sido a Assíria para Israel. Nabucodonosor era o “servo” de Yahweh (Jr 27:6-7), o instrumento de seu propósito na história. A Mensagem do profeta para Zedequias e para os líderes do povo era, portanto: “Metei o vosso pescoço no jugo do rei da Babilônia, servi-o… e viverás.” ( Jr 27:12-22 ).

Em 588 A.C, com a subida ao poder de um novo Faraó egípcio, Apries, chamado Hofra em Jr 44:30, o Egito retomou sua política militar de agressão, abandonando a de intriga diplomática dos predecessores imediatos de Hofra. O despertamento militar do Egito, com a nova possibilidade de mudança no jogo de poder da política internacional deu nova esperança às nações que estavam debaixo do jugo da Babilônia desde o ano de 612 A.C, quando se deu a queda de Nínive. Estourou a revolta cujo centro desta vez era Amom e Judá.

Nabucodonosor agiu rapidamente para sufocar a revolta. Nesse mesmo ano de 588 A.C., sitiou Jerusalém. Zedequias tinha esperança de que, como acontece por ocasião do cerco de Jerusalém por Senaqueribe em 701 A.C., Yahweh lançasse miraculosamente a retirada de Nabucodonosor. Mas Jeremias nunca vacilou em sua convicção de que o caminho único e certo era a rendição à Babilônia (Jr 21:8-9). Com o avanço do exército do faraó Hofra (Jr 37:5) para Jerusalém, tomando novo alento com a situação, Zedequias mandou uma mensagem a Jeremias, pedindo-lhe que orasse pelo povo. A reposta de Jeremias foi violenta (Jr 33:5-10), e foi a última gota. Era evidente que o profeta era “perigoso” demais para continuar andando “livre entre o povo”. (Jr 37:4). Aproveitando-se de um simples pretexto, os príncipes o prenderam. É de notar-se em tudo isto a fraqueza de Zedequias que sendo rei, e ansioso por ouvir a palavra de Yahweh por Jeremias (Jr 37:16-21; Jr 38:7-28), não teve coragem moral de opor-se a seus nobres pró-Egito e de defender a vida e a liberdade do profeta do Senhor (Jr 37:14-16; Jr 38:1-6 e 24-27). A coragem sobre-humana de Jeremias tirada de sua própria fraqueza (Jr 37:20), só poderia provir de sua íntima convicção de que naquela situação política estavam envolvidos princípios transcendentes a que ele devia mais fidelidade do que a segurança e sobrevivência de seu povo. E a história confirmou sua convicção.

OS PROFETAS NAS GRANDES CRISES SOCIAIS
A TRADIÇÃO NÔMADE PASTORIL 

Três diferentes sistemas de vida vieram a encontrar-se na sociedade israelita, em conseqüência da conquista de Canaã da historia posterior. No período pré-canaanita (antes de estabelecerem-se em Canaã) os israelitas foram nômades ou seminômades. Seu sustento dependia dos rebanhos, e, apenas como suplemento secundário da lavoura branca, plantada onde paradas mais longas o permitissem. Esse tipo de sociedade pastoril tinha características próprias. A mais fundamental era a “consciência de família”, o laço de parentesco, o senso de fraternidade que governava a maior parte das atividades do grupo social.

A sociedade era uma família de famílias. As famílias formavam os clãs, os clãs formavam as tribos, as tribos formavam o povo, que era uma federação pactual de tribos. Economicamente, a riqueza da comunidade era de fato, riqueza de todos, não havia pobres ou ricos no clã, senão na medida em que o clã inteiro fosse pobre ou rico. A autoridade pertencia aos chefes das famílias, e na agregação maior, a tribo pertencia ao conselho de anciãos. Este decidia as, questões, segundo a moral e os costumes aceitos da tribo. Não havia poder absoluto e despótico. A vida no deserto e o forte sentimento da fraternidade no clã redundaram em forte a duradouro amor pela liberdade e pela justiça igualitária.

SOCIEDADE AGRÍCOLA E SEDENTÁRIA 
Em Canaã, Israel encontrou uma sociedade agrícola sedentária. Ao aculturar-se, duas características fundamentais da sociedade agrícola sedentária chocavam-se contra a estrutura social pastoril serninômade: a ênfase na localidade, na vila, e não no clã, como ponta de aglutinação e de unidade; e o novo conceito de propriedade, da terra, o bem imóvel, permanente, diferente da propriedade em rebanhos, que podiam, da noite para o dia, ser tomados por assaltantes. Ao assimilar esse conceito, Israel modificou-o para harmonizá-lo com sua fé, transformando a propriedade de terra em usufruto apenas, sem direito de alienação (Lv 25:25; Dt l5:1-3; Lv 25:8-17 e 23). Não havia dono da terra em Israel. A terra era do clã, e o chefe de família só era dono da terra como representante do clã; não podia alienar senão temporariamente a terra. Então havia no clã, a distribuição mais equitativa para o labor pastoril.

SOCIEDADE COMERCIAL URBANA
O terceiro sistema de vida: a sociedade urbana comercial que aumentou as complexidades e tensões da sociedade israelita, e em que o espírito de Canaã encontrou sua expressão mais desenvolvida e característica (Pv 31:24). Esse tipo de sociedade urbana e comercial fez um grande impacto sobre os israelitas no reinado de Davi. Os fatores que contribuíram para tanto foram a conquista das restantes cidades canaanitas e sua assimilação por Israel, inclusive com seus costumes estabelecidos; o estabelecimento que, de uma capital que com sua corte e forças militares, não podia ser sustentada pelo solo imediatamente vizinho, mas dependia do superávit econômico de toda a terra; e o começo, no reinado de Davi, de relações comerciais internacionais em alta escala com os Fenícios, ou seja, os canaanitas do norte.

CRISE SOCIAL DO 10° SÉCULO A.C.
Mas foi no reinado de Salomão que Israel experimentou uma revolução social e econômica ainda maior do que a experimentada no tempo em que o povo passara da vida nômade para a sedentária. Os pesados impostos, o trabalho forçado, o despotismo que se manifestava num tipo de capitalismo de Estado, acabaram com a liberdade dos súditos, fazendo-os escravos do rei, e transformando a propriedade deles em propriedade do monarca, ou seja, do Estado. Só este tirava proveito da exportação de cobre de Edom, e, possivelmente, até da exportação de israelitas para servirem no Egito, como mercenários.

A importação de grande quantidade de ouro e prata provocou uma repentina inflação. Os cidadãos eram forçados a hipotecar suas terras, suas pessoas e seus filhos, para atender às exigências dos impostos. Os juros eram altos, e muitos israelitas livres perderam as terras e se tornaram escravos; enquanto outros que tinham tido alguma vantagem inicial, amontoavam terras e dinheiro. A fraternidade dos tempos do deserto desapareceu para sempre, dando lugar à permanente separação entre os poderosos e os oprimidos; os ricos e os pobres. A riqueza e o poder tornando-se a meta dos esforços do indivíduo, a pobreza, a injustiça e a luta de classes se estabeleceram para sempre na sociedade israelita.

CRISE SOCIAL DO 8° SÉCULO A.C.
A outra grande época de prosperidade econômica em Israel foi também acompanhada de males semelhantes, a respeito dos quais, temos farto testemunho na literatura profética do 8° século. Foi a época em que reinava em Israel Jeroboão II (786-746) e, em Judá, Uzias (783-742). Adade Nirari III, da Assíria, conquistara Damasco em 803 A.C., enfraquecendo-a de tal modo que os Sírios nunca mais foram ameaça séria em Israel. Em seguida, os armênios mantiveram os Assírios ocupados e enfraquecidos até que Tiglate-Pileser usurpasse o trono em 745. Essa trégua, em que Israel e Judá ficaram livres dos Assírios e Arameus foi suficiente para um renascimento dos dois reinos irmãos, só comparável à prosperidade do tempo de Davi e Salomão. Jeroboão II conquistou o norte da Galiléia e a Transjordânia, obtendo assim o controle das rotas comerciais. Tinha o cuidado de mantê-las livres de ladrões e salteadores, recebendo pelo serviço, como Davi e Salomão anteriormente compensadoras taxas. Samaria tornou-se um empório internacional, com todo tipo de mercadorias, suplantando muitos outros centros em quantidade e em qualidade. Em Ezequiel cap. 27, onde ele fala do rei de Tiro, podemos ver como o comércio já naquele tempo era bastante próspero. Samaria repetia esta situação.

A crescente prosperidade comercial foi acompanhada de maior luxo e imponência nos edifícios (Amós 3:15). Havia muitos palácios em Samaria (Amós 3:10), pertencentes não só ao rei, mas também aos novos príncipes mercadores que se tinham enriquecido no comércio. A pedra lavrada substituira os antigos tijolos e o cedro do Líbano o plebeu sicômoro (Is 9:10). Havia o luxo ilimitado dos ricos, tanto em Samaria como em Jerusalém. Havia a cupidez (2) os comerciantes gananciosos (Amós 8:5). Havia a dureza e a ambição das mulheres ricas (Amós 4.l). Os novos ricos atrás de riqueza e luxo espezinhavam os pobres. Havia as medidas e os pesos falsos; compravam por um padrão, e vendiam por outro padrão de medidas. O refugo de trigo, vendido como se fosse bom trigo (Amós 2:8). Os ricos sempre conseguiam sentenças favoráveis nos tribunais (Amós 2:6: Amós 8:6).

Além de tudo isso, havia outro grande mal, talvez maior: a extinção do pequeno proprietário. Os luxos da época e o crescente custo de vida levaram o pequeno proprietário a contrair dividas. Os pequenos tratos de terra eram absorvidos nos grandes latifúndios. Os proprietários ricos e os capitalistas das hipotecas devoravam homens e terras, mantendo o agricultor na terra como colono ou vendendo-o com sua família como escravos (Amós 5:11; 2Rs 4:1-7).

Havia assim, junto com o crescente enriquecimento de uns poucos, o crescente empobrecimento da maioria. No meio da abastança e do supérfluo, a miséria e a carência.

De par com o luxo e o ócio, a escravidão e a fome.

Essa total canaanitização era a negação absoluta da tradição do deserto. Contra ela eram os mais extremados em sua atitude contra a aculturação (Jr 35). Repudiavam toda a civilização, encontrando nela a causa de todos os males da situação. Ecos da negação da civilização agrícola, e da civilização urbana comercial, podem ser percebidos também, nas histórias de Caim e Abel e da Torre de Babel (Gn 4:1-16; Gn 11:1-9).

OS PROFETAS E A SUA REAÇÃO
Os profetas, também, como esses outros grupos, consideravam normativa a tradição do deserto. A época da peregrinação no deserto fora o tempo ideal (Amós 5:25; Os 9:10; Os 2:14; Jr 2:l-3). Mas eles não eram reacionários simplistas que considerassem possível ou suficiente um retorno à vida nômade, e sua condenação à ordem social se baseava no fato de que ela não encarnava nem protegia os valores humanos e sociais inerentes ao Javismo, à religião de Israel, e até os destruía. Os alicerces da estrutura econômica e política, segundo os profetas, deviam ser éticos e religiosos. Mas Israel tinha confundido um sistema devido mais elevado com uma civilização mais complexa, e tinha preferido as vantagens imediatas desta, aos valores fundamentais da religião de Israel.

OS PECADOS QUE ELES CONDENAVAM
Mas os profetas não se limitavam a condenar de maneira vaga e geral a estrutura social de seus dias. Apontavam pecados específicos e particulares, corajosa e desassombradamente. Pecados que podiam ser do homem comum ou dos líderes, do latifundiário ou do comerciante, dos nobres ou do rei. Eles condenavam apaixonada e veementemente, a opressão, a violência, a sensualidade, a ganância, o roubo, a desonestidade, a sede de poder, a desumanidade cruel, a falsidade. Pecados de homens e mulheres, pecados que podem aparecer em qualquer sociedade, dessa maneira, qualquer sociedade em que tais ou semelhantes pecados prevaleçam, cai sob a mesma condenação (Jr 7:9-10; Mq 3:11; Os 4:1-2; Amós, 8:5-6). Eles descrevem a situação ao vivo. Retiram o véu que encobre as aparências e exibem desnuda, a podridão e a corrupção (Amós 3:10; Os 6:8-9: Amós 2:6; Mq 2:8; Mq 3:l-3).

SUA DENÚNCIA CONTRA
OS BENEFÍCIOS DAS INIQUIDADES
E o peso de sua denúncia recai também sobre os beneficiários do sistema existente. O rei e os que exercem autoridade; os gordos sacerdotes, os gananciosos profetas profissionais, e os “sábios” parasitários (eram líderes e orientadores da comunidade, e todos eram condenados); os que vivem no luxo sem se incomodarem com os necessitados à sua porta; e em especial as mulheres ricas, vazias e irresponsáveis; os juízes venais, os credores em coração, os donos de casas suntuosas, e os cúpidos proprietários de terras (Os 4:4-6; Os 5:1; Mq 3:5-6 e 11; Am 4:l; Am 6:1-7; Is 3:1-3 e 13-15). À sua ira contra os opressores e sua piedade pelas vítimas, os profetas acrescentavam a denúncia da apatia e degeneração popular. Se os príncipes eram Sodoma, o povo era como o povo de Gomorra (Os 4:5; Is 1:10).

Duas coisas importantes que devemos notar, ainda: os males condenados não eram simples aberrações individuais, comuns, mas excepcionais. Eram características da sociedade como tal, permeando sua estrutura política, suas atividades econômicas, sua cultura e seus padrões morais aceitos, e afetando profundamente a religião.
E não eram males que aparecessem como fruta estranha; eram males, infelizmente, correspondentes à forma e aos fins da própria ordem social, correspondentes aos princípios sobre os quais ela se assentava, e aos valores que ela representava e defendia.

CONCLUSÕES
O assunto é vasto, mas não tratamos senão de alguns aspectos que consideramos mais importantes para este nosso encontro. Não podemos, no entanto, encerrar sem apontar algumas conclusões que nos parecem fundamentadas, pelo menos parcialmente, no que acabamos de dizer.

1. Para os profetas, religião não era, principalmente, assunto de experiência íntima e interna, nem pura questão de ritual, mas era interpretação da condição humana total à luz do propósito de Deus.

2. Os profetas eram porta-vozes de Deus para uma situação específica. A palavra que eles traziam, vinda de Deus, era eficaz e operante; mas muitas vezes eles mesmos se tornavam instrumentos do propósito de Deus. Não apenas como porta-vozes, antes como atores nos dramas da História.

3. Os profetas eram, por isso, homens de ação. Sujeitos a limitações humanas, suas ações eram susceptíveis de erros; mas mesmo assim incorporavam-se ao propósito de Deus para o momento que viviam.

4. Os profetas eram homens de seu povo e do seu tempo. Sua “particularidade” é o segredo de sua universalidade.

5. A ação política dos profetas era realizada à luz de seu entendimento do destino de seu povo, segundo o propósito de Deus.

6. A pregação social dos profetas não era, propriamente, democrática ou humanitária; seu pressuposto básico era o “pacto” que tornara Israel o povo de Yahweh.

7. Para os profetas, justiça e juízo, amor e integridade, eram mais importantes que a estrutura política, a religião organizada, e a organização e as instituições econômicas da nação.

8. Por isso os profetas só tinham compromisso com o Deus que os chamara e enviara. Seu ministério não era uma busca de aceitação humana, mas um desafio a toda ordem humana, criada à parte de Deus.

9. O Deus dos profetas entrava na luta pela justiça social, como o grande Aliado dos injustiçados e expoliados. Seu propósito era (como ainda o é!), criar comunidade, isto é, uma ordem de relações com e entre os homens, em que sua justiça encontrasse perfeito cumprimento.

Que diriam os profetas em nosso tempo? Que fariam os profetas em nosso tempo? Qual o propósito de Deus para como o povo brasileiro? Que testemunho daremos diante da nossa presente ordem social? Estas e outras perguntas que nos devemos fazer seriamente, se é que somos parte de uma igreja, que em Jesus Cristo é herdeira legítima de uma missão profética, para com o mundo contemporâneo. Estas perguntas não podem ter respostas pré-fabricadas, mas constituem o desafio que vamos corajosamente enfrentar nestes dias, sob orientação do mesmo Deus que falou “muitas vezes, e, de muitas maneiras, aos pais, nos profetas” (Hb 1:1).

CITAÇÕES:
(1) Reunião dos Anfictiones, direito de ser representado no conselho deles. Anfictiones: cada membro do Conselho de representantes dos antigos Estados gregos, que se reuniam para deliberar sobre negócios de interesse geral.
(2) Qualidade ou caráter de cúpido. Ávido de dinheiro ou bens materiais, cobiçoso.

Presidente Soares, 19 de julho de 1962.

“…O VENTO SOPRA ONDE QUER…” (Jo 3:8)

Confissões de um protestante obstinado 
Rubem Alves

 O teólogo Rubem Alves num depoimento apaixonado fala da sua trajetória humana pelos caminhos da fé, da Igreja, pelas veredas do ecumenismo e reitera seu compromisso com a construção da liberdade a ser conquistada a cada dia para o homem e toda a sociedade.

RubemtP

Memórias não podem ser esquecidas.

O passado, uma vez vivido, entra em nosso sangue, molda o nosso corpo, escolhe nossas palavras. É inútil renegá-lo. As cicatrizes e os sorrisos permanecem. Os olhos dos que sofreram e amaram serão, para sempre, diferentes de todos os outros. Resta-nos fazer as pazes com aquilo que já fomos, reconhecendo que, de um jeito ou de outro, aquilo que já fomos continua vivo em nós, seja sob a forma de demônios que queremos exorcizar e esquecer, sem sucesso, seja sob a forma de memórias que preservamos com saudade e nos fazem sorrir com esperança.

Digo isto como prelúdio a uma confissão: sou protestante. Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha estória não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas de um passado.
Mesmo que eu não quisesse, este passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me, às vezes, com pesadelos e fúria, às vezes, fazendo-me sonhar coisas ternas e verdadeiras.

Sou protestante. Hoje, muito diferente do que fui. Não há retornos. Tão diferente que muitos me contestarão, recusando-me cidadania no mundo da Reforma. Alguns me denunciarão como espião ou traidor. Outros permitirão minha presença, mas exigirão o meu silêncio. O que me faz duvidar de mim mesmo e suspeitar, quem sabe, que eu seja de fato um apóstata. Mas aí protestantes de outros lugares me confirmam, ouvindo-me, dando-me as mãos, o pão e o vinho…

Sou protestante. Perderão o seu tempo aqueles que tentarem descobrir as raízes da minha fé em catecismos ou teólogos. O amor e a dor vêm primeiro. Ê só muito mais tarde que a gente pensa a fim de entender o sofrido e o desejado. Tudo começa com canções de alegria e tristeza, muito antes de podermos chamar nossas ideias pelo nome. E é por isto que a gente não pode deixar de ser o que foi. Mudar de ideia é muito fácil. Mas ninguém pode fazer de contas que alegria e tristezas nunca existiram.

É assim na religião. Salmos e poemas vêm primeiro. Eles pertencem às origens, preservam aquele espanto primordial frente ao sagrado. Já os tratados de teologia e as explicações doutrinárias são construções tardias, depois que passou o amor e a dor se foi, depois que o espanto acabou e ficou o vazio…

Não foi no cérebro que me tornei protestante. Ao contrário, minha fé é companheira de imagens, memórias, perfumes, músicas, solidões, retiros, caminhadas por montanhas e beira-mar; rostos, sorrisos, acampamentos de trabalho em favelas; funerais, injustiças, esperanças enterradas, algumas ressuscitadas; certezas de lealdade a toda prova…

E aqui eu teria de ir colocando nomes: presenças ausentes com quem compartilho minha vida. É isto.

O decisivo não é a ideia. O decisivo é a pessoa que a gente invoca, não importa que já esteja morta…

Dizendo de outra forma: não sou protestante em virtude das ideias que tenho. Não somos o que somos por termos as ideias que temos. Temos as ideias que temos por sermos o que somos. Primeiro vem a vida, depois vem o pensar…

É muito importante entender isto. Não é curioso que tanto os inquisidores quanto São Francisco tenham-se chamado “católicos”? Não é curioso que tanto as pessoas que caçaram e mataram bruxas em Salem, quanto Schweitzer e Martin Luther King tenham-se denominado “protestantes”? Afinal de contas, que magia estranha é esta que faz com que uma mesma religião seja coisas tão opostas?
Religiões são como mesas de banquetes: tudo está preparado e há desde os pratos rigorosamente destinados às dietas vegetarianas até as gorduras chamuscadas nas brasas para aqueles que gostam de carne…
E os fiéis se aproximam, cada qual com o seu pratinho. E escolhem…

Veja, observe: Já vão saindo com seus pratos cheios. Os lobos, os inquisidores, os caçadores de bruxas trazem nos seus pratos coisas que não se encontram nos pratos dos cordeiros e das vítimas… Escolheram as ideias que mais apeteciam aos seus paladares e menos ofendiam aos seus estômagos.

Claro que se trata de uma parábola. Estou querendo simplesmente dizer que, assim como as pessoas constroem as suas dietas a partir das exigências dos seus corpos, também elas constroem as suas teologias a partir do que elas são… E é por isto que há tantos catolicismos diferentes, dos lobos e das ovelhas… Ê por isto que há tantos protestantismos diferentes, dos lobos e das ovelhas… É claro que os lobos se dão bem, não importa a cor de suas peles. E as ovelhas são sempre ovelhas, e se entendem… Seria bom tentar começar a entender o ecumenismo a partir deste ponto, deixando os debates sobre ideias para depois. Há muitas formas de organizar as experiências que o protestantismo guarda. Os inquisidores colocarão fogo nos olhos do seu deus e com o fogo consumirão aqueles que se atrevem a ser diferentes. Os pacificadores colocarão o fogo nas lanternas e nos fogões, para iluminar, aquecer, cozer…

Minha primeira experiência/memória protestante tem a ver com um hino. Meu pai tinha ido à falência. Tudo se perdeu. Morávamos numa casa emprestada, velha, daquelas fazendas antigas do sul de Minas, sem água encanada, sem privada, sem luz elétrica. Era o cheiro de querosene das lamparinas, do estrume das vacas, do capim-gordura, do milho fermentado, o barulho do monjolo, da água que caía do rego, os camundongos e os cães que ladravam pelas noites a dentro… Mas, como disse a Cecília Meireles, “quando a desgraça é profunda, que amigo se compadece?” De um homem falido fogem os amigos. E foi então que apareceu lá naquela solidão um evangelista, o senhor Firmino. Do que ele dizia nada me restou: eu só tinha três anos. Mas guardei a música que me pareceu a estória de um homem de nome esquisito, João Totrono… Depois descobri que era “Junto ao trono de Deus preparado, tens, cristão, um lugar para ti…” Iniciam-se minhas memórias com uma canção que ficou sendo sacramento de uma presença gratuita e estranha, quando os rostos familiares ficaram raros.

Chamei a memória da música não porque minha biografia tenha qualquer importância mas porque, puxando um pouco mais os fios, a gente acaba por agarrar a história. Esbarramos com a Reforma Protestante e vemos todo mundo cantando. A Reforma aconteceu através da música. Pode ser que Lutero e os outros líderes intelectuais do movimento tivessem pensado com rigor os seus pensamentos, mas as pessoas comuns cantaram a Reforma antes de entendê-la. Quem canta é mais perigoso do que quem só pensa. O canto põe asas nos pés. Haverá outra razão para as marchas militares que põem uma mesma cadência nos passos? O canto mobiliza o corpo, imobiliza o medo e transforma gestos solitários em caminhadas solidárias. E Lutero colocou sua fé em hinos que eram repetidos e decorados, mesmo por aqueles que — crianças talvez — não entendiam bem as ideias. A confiança se cristalizou em imagens. Qualquer um podia entender o que significava cantar “Castelo forte é nosso Deus, espada e bom escudo…”

O espírito protestante é um espírito cantante. Símbolo disto é um homem simples, João Sebastião Bach, que juntou em suas cantatas a palavra evangélica com a grandiosidade estrutural da música. Tanto ou mais que os documentos da Reforma, a música de Bach é minha amiga. Eu a invoco sempre em momentos de confusão. Fé cantada é melhor que fé falada. E descubro que o meu protestantismo tem muito a ver com o fato de que a música desse homem é como uma encantação mágica que desperta em mim coisas boas adormecidas das quais frequentemente me esqueço. E fico melhor do que sou.

Compreendo que alguém poderá dizer que gosto por Bach é coisa refinada, de gente que pode-se educar, o que está proibido à maioria… É possível. Mas Bach foi apenas um dos muitos que cantaram e continuam a cantar. E esta é a razão porque não me envergonho de pular de Bach para uma casinha de pau-a-pique, lá perto de Miguel Pereira, ao fim de uma trilha pelo meio do pasto, no buraco da noite, em que irmãos pentecostais de cabo de enxada e palavra reta cantavam sua fé singela e descomplicada, ao som das cordas, dos pandeiros, dos bumbos. E de lá voo para o último domingo de Páscoa, numa missa católica para crianças em que, para o meu espanto, repentinamente a Igreja explodiu num “Glória, glória, aleluia”, sacudido por dezenas ou centenas de chocalhos, triângulos, pandeiros e tambores infantis, do jeitinho que manda o salmo 150, tão lido e tão desacreditado… Que coisa mais ecumênica pode existir que a música? Para além de tudo o que nos divide, ela dá testemunho de que nós queremos cantar, cantar juntos, cantar que é bom viver… Se a teologia tivesse sido cantada é certo que menos fogueiras teriam sido acesas…

E descobri assim o Protestantismo como este espírito cantante, que vive desde a cantata de Bach até a cantoria dos que não sabem distinguir bemol de sustenido.
Pode ser que ninguém acredite, mas é fato: foi um padre que me fez sentir protestante peia primeira vez.
Eu não pedi para ser protestante.

Eram os meus pais que me levavam, meio à força, para a Escola Dominical. Aí aconteceu um acidente. Num grupo escolar, primeiro ano, lá no sul de Minas. Num belo dia, sem aviso prévio, a professora entrou em classe acompanhada de padre com batina preta. “Quem é que vai para a confissão e a comunhão?”, perguntou ele com voz taquaral clerical. A meninada toda levantou a mão. Menos eu e o Estelino, que era espírita. Todo mundo olhou espantado para a gente, enquanto o sangue subia ao rosto e os nossos olhos se enterravam no chão. Miseravelmente diferente, sem saber por quê, enquanto os outros cochichavam risos contra a minha singularidade. E o padre e a sua batina foram crescendo, crescendo, sem parar, e o menino indefeso foi sentindo a dor do estigma. Eu era diferente. Nunca me esqueci.

Mas aí aconteceu uma coisa gozada, que a psicanálise deve explicar. A vergonha de ser diferente virou orgulho de ser diferente. Foi então que eu, sem saber, me senti protestante pela primeira vez. De fato, o protestantismo tem muito a ver com a coragem para assumir a própria individualidade. Como aconteceu com um monge teimoso, que não dobrava o pescoço por medo da espada, mas fazia o corpo inteiro andar e falar ao som suave da voz da consciência. Este teimoso individualismo teve um gosto doce à minha boca, e nunca mais o abandonei.

De tão longe não é fácil entender o que significam os gestos do monge teimoso. Com eles Lutero não estava criando algo novo mas simplesmente “des-cobrindo” um espírito protestante já em gestação.
Foi necessária muita coragem para contrapor a voz da consciência individual à voz das autoridades constituídas. Fazendo isto, ele declarava que, se existe um referencial existe um lugar de verdade para o pensamento, tais lugares não se confundem com os lugares do poder, não importa que o poder tenha sido legitimamente constituído. O segredo e a verdade não habitam as instituições, mas invadem o nosso mundo através da consciência. Isto é subversão. Lutero colocou o mundo de cabeça para baixo. Se o Espírito de Deus não é monopólio de instituições, não é gerenciado por organizações, não é distribuído por burocracias, todas elas perdem a sua aura sagrada. Não podem mais pretender ser eternas.

O Espirito é algo diferente, livre.

Como o vento, imprevisível, assopra onde quer, não se sabe donde vem, nem para onde vai. Só podemos ficar à espera, quais meninos com suas pipas na mão…
Ter consciência é isto: ficar à espera, aguardando o movimento do vento… Tudo é imprevisível. Nada comparável à imponente imobilidade da catedral gótica, cuja beleza se encontra exatamente no fato de haver ela congelado o espírito de um certo momento da história. Mas ficar à espera do vento é esperar por um movimento, não se sabendo nem onde e nem quando ele se dará…
Duas coisas ficavam assim ligadas.

De um lado, a liberdade de Deus.

Pode parecer coisa abstrata mas não é. Dizer que Deus é livre significa que ele se ri das nossas tentativas de conhecê-lo pela teologia, aprisioná-lo em instituições, administrá-lo pela burocracia. Ele sempre anda por lugares não previstos, na companhia de gente estranha, fazendo coisas meio esquisitas, tal e qual Jesus Cristo. Traz do cativeiro um povo sem eira nem beira, faz uma mulher estéril dar à luz, dá vida a um vale de ossos secos, faz uma virgem engravidar, dá tombos nos fortes, põe os fracos nos lugares altos, confunde os sábios, joga mau cheiro sobre a piedade dos que confiam muito em si mesmos, transforma heróis em vilões e vilões em heróis… E os protestantes, conhecedores deste prazer divino nas inversões súbitas, poderiam prever que ele acabaria por subverter a própria Igreja Católica, derrubando blocos de pedra com o seu sopro suave e fazendo nascer flores entre as fendas das lápides, assombrando os bem-nascidos e fazendo rir as crianças… E se o Espírito de Deus anda por lá, quem somos nós para dizer não?
E, do outro lado, a consciência da pessoa, esta estranha capacidade que nos distingue dos bichos, e nos permite perceber as coisas novas e diferentes que o Espírito está fazendo, e mesmo ouvir a sua voz — sinais da gravidez universal da criação, o que faz a gente ficar feliz ( Rm 8.22). Era por causa da consciência que Lutero falava que todos os fiéis são sacerdotes.
Acabou-se o monopólio do divino.

Cada cristão, mesmo uma criança amedrontada, pode ficar de pé e dizer: “Aqui fico. Não posso ir contra a voz da minha consciência.”
Se os protestantes tivessem sido espertos e sensíveis à sua própria teologia, eles, há muito, teriam assumido a dianteira, e espalhado por este mundo a fora um sem número de Comunidades Eclesiais de Base. Por que é que bem-nascidos cardeais, bispos conservadores e padres de antanho ficam arrepiados com esta coisa? Isto é coisa de protestante, percebem eles muito bem. Dizia o falecido Gustavo Corção, com toda razão, que a Igreja Católica estava se protestantizando. E parece que nunca disse coisa tão verdadeira.

As comunidades protestantes primitivas eram de base, no sentido de que nasciam do povo comum — cada crente era um sacerdote. Eu não tenho medo de dizer que a Igreja Católica está passando hoje pela Reforma — mais uma façanha do vento suave… Com uma diferença. No século XVI a Igreja recuou, e deu aquilo que todos conhecemos. Depois, os protestantes tentaram converter os católicos no varejo, um a um. Mas o espírito ficou meio impaciente, e tratou de fazer a conversão por atacado. Pela Igreja toda sopra a liberdade de Deus e a voz da consciência: os fiéis estão à escuta, tentando ler os sinais dos tempos…
Quantas coisas nos conta a ideia protestante de que todos os homens são sacerdotes!

A primeira coisa que ela faz é colocar um enorme ponto de interrogação sobre as cabeças das pessoas que se dizem autoridades religiosas, políticas, militares, não importa. De saída é necessário dizer que a autoridade é algo estranho ao espírito do Novo Testamento. Quem quiser ser o maior, que seja o servo. Substituir a espada pelo lava-pés. Deus, poder e verdade, abre mão de tudo, esvazia-se… Leia-se o Novo Testamento e veja-se o papel que as autoridades desempenham ali, a partir de Herodes, mandando matar as crianças, até as autoridades romanas e autoridades judias, mandando matar Jesus. Parece que as pessoas em posição de autoridade são mais susceptíveis à idolatria e à crueldade.

É isto que nos conta a história. É claro que a ordem é necessária para tornar possível a nossa convivência. E destas coisas, surge, aos poucos, o espírito da democracia, expressão do doloroso reconhecimento da necessidade da autoridade e da determinação de manter sempre a autoridade no seu devido lugar: não em cima, mas em baixo, como serva e funcionária do corpo sacerdotal — claro! — o povo todo, cada um deles um sacerdote.

Depois ela nos dá permissão para pensar com ousadia os pensamentos mais loucos e mais avançados.
Reprimir o pensamento é reprimir a consciência, é colocar a autoridade estabelecida num nível mais alto que a liberdade do indivíduo. Sei que isto horroriza aqueles que habitam os espaços já organizados e disciplinados da vida eclesial. Tudo já está previsto.

O futuro não pode ser diferente do passado. A casa está em ordem e os velhos descansam tranquilos. Mas, de repente, uma classe de jardim de infância invade a casa e tudo fica em movimento, borbulhante de vida.
Cada peça de museu se transforma num brinquedo. Cada canto sagrado vira um esconderijo para o jogo de esconder. A ordem cristalizada se transforma na vitalidade indomável… Ê claro que há muitos que começam a sofrer vertigens, enquanto outros tratam de expulsar a criançada…
“Se não vos converterdes, e não vos fizerdes como crianças…”

Por séculos o ideal da igreja foi o de construir jardins geométricos, monocultura, em que tudo permanecesse sob o estrito controle do jardineiro. Agora os protestantes dizem que o Espírito é um semeador sem muito gosto pelos traçados geométricos, que mistura tudo quanto é tipo de semente e as espalha ao vento… E elas brotam na mais fantástica explosão de cores, na desordem maravilhosamente bela que surge da vida… E surge então o mandamento para a pluralidade e a diferença. Os especialistas em cortar pedras dirão que a pluralidade e a diferença são sinais de desintegração. Afinal, se os tijolos não forem todos iguais, a casa cai… Mas, quem é que falou em construir casas? Da mesma forma como a vida, na sua unidade, produz amores perfeitos, cravos-de-defunto, girassóis, musgos, cactos, caquis, bananas, jacas, algas, buchas, erva-doce, losna, abóboras e cerejas, também o Espírito de Deus, na sua unidade e vitalidade pode produzir as mais variadas formas de vida, sejam as culturas indígenas, as dançantes comunidades pentecostais africanas, ordens monásticas, experiências de contracultura, as religiões populares e até mesmo os estilos de vida em que nos sentimos em casa. E com os estilos de vida surgem novas formas de pensar e novas formas de falar sobre Deus, sobre Cristo, sobre a salvação… E quem seria aquele que tomaria da espada para liquidar os diferentes? Com que direito? Quem quer que se atreva a liquidar os dissidentes está possuído da ilusão de ser o detentor do monopólio do divino, e sucumbe à tentação e à crueldade da espada — eclesial ou secular, não importa.

Posso bem perceber o espanto incrédulo nos olhos do meu leitor, protestante de muito anos, que pela primeira vez ouve coisas tão insólitas.
E ele procurará ao seu redor para ver onde é que este protestantismo se encontra. Entre os Batistas? Na Igreja Presbiteriana? Quem sabe nas Comunidades Protestantes? Que dizer dos Metodistas? E vamos caminhando, inutilmente, reconhecendo as pedras, identificando a voz da autoridade, ouvindo o barulho típico da tesoura de poder que corta um broto novo…
O futuro deve ser uma continuação do passado. As mesmas ideias. A verdade já foi cristalizada em séculos idos. Proibidos de explorar o novo, de pensar o insólito… E as pessoas vão ficando tristes, pensando todos os dias os mesmos pensamentos, fazendo todos os dias as mesmas coisas, orando as mesmas orações espontâneas formadas com a colagem de frases feitas e esterotipadas, sem coragem para contar as coisas que acontecem no fundo da sua alma, porque isto pode perturbar a simetria da rotina…

E eu me lembro então da última coisa que quero dizer sobre a liberdade de Deus, coisa que todo protestante repete. Poucos, entretanto, tomam o risco. Salvação pela graça. Salvação não vai de baixo para cima. Salvação vem de cima para baixo. Deus nos ama. Deus resolveu o problema, por conta própria. Isto significa que ele não tem livro caixa, onde entram nossos débitos ou créditos. Os débitos são perdoados e os créditos ignorados. Salvação segundo o modelo do livro caixa é o que os teólogos denominavam “salvação pelas obras”. E quem é que pode estar tranquilo, sem recursos para pedir uma informação sobre o saldo da conta? Salvação pela graça significa: das questões depois da morte Deus já cuidou. Por isto é ocioso gastar pensamento e aflição com discussões sobre a mobília do céu e a temperatura do inferno. Mas sobra tudo o mais que nos ocupar: a preservação da natureza, a arte, a fogueira das armas, para transformá-las em arados e podadeiras; a luta contra os exploradores, a proteção dos oprimidos, o prazer da liturgia, da música, da comunidade, o brinquedo da teologia. A salvação pela graça significa: é inútil e desnecessário nos preocuparmos com o além. O além pertence a Deus, nossos braços não vão até lá. E Deus já resolveu o assunto, em amor. Somos então livres para sermos totalmente deste mundo, fazendo as coisas que a consciência nos comanda.

Imagino a sua perplexidade que pergunta se não existirá coisa mais oposta ao espírito cristão de amor que o individualismo que leva as pessoas a caminhar de forma solitária, cercadas de muros. Terei de responder que você tem razão. Mas terei de lhe perguntar, em troca, se existe coisa mais oposta à comunhão que a sociabilidade fácil daqueles que se satisfazem com a conversa ociosa da representação de papéis… Toda palavra genuína deve nascer do silêncio. Não posso crer nas declarações de solidariedade daqueles que não frequentam a solidão de sua própria consciência. Não, o individualismo da Reforma nasce de um profundo respeito pela pessoa, porque cada pessoa é uma “máscara” de Cristo, Cristo se fazendo presente, disfarçado… E assim, quando alguém é desrespeitado, violentado, torturado, quando alguém passa fome e não tem onde morar, é o próprio Cristo que está aí…

Sou protestante. Mas você já deve ter percebido que minha bem-amada está ausente. Meu protestantismo é uma saudade e uma esperança. Esta é a razão por que sinto uma enorme necessidade de ler os pais da Reforma e uma compulsão de ouvir o vento do espírito, para ver onde é que poderei empinar papagaio… Por enquanto, o espírito cantante e brincalhão do protestantismo (sob disfarce, é claro), está fazendo das suas na Igreja Católica. Como eu lhe disse, o Espírito é livre… Talvez ele tenha querido brincar conosco. Talvez não tenhamos querido brincar com ele. E ele está se indo. Ele, porém, volta de vez em quando e haverá de voltar para ficar.

É, sou protestante.

Nasci em Boa Esperança, a mesma da Serra da Boa Esperança, do Lamartine Babo. Em 1933. A falência de meu pai me levou para o Rio, cidade cuja solidão eu frequentei, o que me fez religioso e amante da música. Quis ser médico, pianista e teólogo — admiração por Alberto Schweitzer. Passei por um seminário protestante, fui pastor no interior de Minas, lá em Lavras. Fiz mestrado em Nova forque (62-63) e a volta ao Brasil, em 64. me segredou que seria melhor continuar a estudar fora do pais. Doutoramento em Princeton. Escrevi A theology of human hope (inglês, francês, espanhol, italiano), no ponto mesmo em que a teologia da libertação estava nascendo; Tomorrow’s child, sobre o triste destino dos dinossauros e a sobrevivência das lagartixas, para concluir que os grandes e os fortes perecerão, enquanto os mansos e fracos herdarão a terra: um exercício em utopia; O enigma da religião (português, italiano, espanhol); O que é religião (Brasiliense); Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras (Brasiliense): Protestantismo e repressão (Ática); Protestantismo (Vozes).
Gosto muito de música, especialmente Bach e Vivaldi. Para meditar, o canto gregoriano. Leituras de prazer especial: Nietzsche, Kierkegaard, Camus, Lutero, Agostinho. Pintura, especialmente Bosch e Brueget. Criado numa tradição calvinista, luto contra aquelas obsessões de pontualidade e trabalho companheiras das insônias e das úlceras. Minha experiência religiosa hipertrofiou meu faro por dogmatismos, que detesto com ódio absoluto. Não importa que sejam de direita ou de esquerda. Os da esquerda são piores, porque eles têm obrigação de saber… Vejo a função do filósofo como aquela do menino da estória de Andersen que gritou, no meio da festa:
“o rei está nu.” Gosto muito, muito, de viver. Encontro prazer especial em coisas muito simples, como soltar papagaio e armar quebra-cabeças. Tenho medo de morrer.
Rubem Alves, 1981.

 

JESUS E OS XINGAMENTOS

Enéas Alixandrino

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Em Mateus cap. 5:21- 22 Jesus se vale de uma expressão sírio ao utiliza-se da palavra “raká-imbecil-cretino” e um outro palavrão grego “môurós-parvo-louco-renegado”, sinalizando que nas relações comunitárias, ele abre novo inquérito contra ofensores, cuja intenção é desqualificar ou estigmatizar o irmão nas relações em comunidade. Diante das interpretações estereotipadas do Sinédrio em sua aplicabilidade do mandamento “não matarás”, reduzindo o assassinato somente ao ato físico, Jesus chama atenção para outras facetas do assassinato e da morte, que possuem desdobramentos psicológicos no ofendido. Portanto, um julgamento por parte daquele que sonda as intenções, está em pleno vigor com certo rigor no meio da comunidade, juízo este que não passa pelo crivo do Sinédrio, mas será executado em uma dimensão escatológica.

Ao utilizar-se da hipérbole, Jesus demonstra ao ofensor as implicações morais de suas ofensas que não passarão desapercebidas como algo inofensivo.
Raká-Imbecil: era uma forma de desqualificar o outro na comunidade como alguém incapaz de exercer seu direito de voto, uma anulação, completa ausência de alteridade. Para Jesus tais ofensas são sintomáticas, elas precedem o assassinato físico, assim como também a fumaça ao fogo. Entretanto, tais ofensas possuem o potencial de transformar ofensor em assassino por serem uma completa anulação do outro.

Môrós-Louco: normalmente usado nos escritos sapienciais como uma forma de chamar alguém de tolo, desobediente ou incrédulo.Uma aniquilação do outro, principalmente por desqualifica-lo no que se refere à capacidade de relacionar-se com seu o criador. Por isto que na fala de Jesus o “geena” é uma forma de juízo para o ofensor, pois da mesma forma que ele julga seu “irmão” de ser incapaz de se relacionar com Deus, ao mesmo tempo ele assume em suas ações para com outro, um completo afastamento de Deus no presente, que se concretiza com juízo do geena no escaton…

Portanto, o fato de Jesus empregar a hipérbole e a construção do texto se dar de forma poética, em nada diminui seu efeito como juízo sobre nossas ações, mas é uma advertência às nossas frivolidades, pois costumamos ser levianos quando o outro tem um ponto de vista diferente do nosso, seja nas reflexões teológicas ou mesmo nas discussões “politicas”, se não o anulamos, as vezes, é comum lançá-lo ao inferno. Nas recente polarizações do embate politico via redes social, o esteriótipos como “Coxinha” ou “petralhas” esconde mais do que uma completa despolitização e, sim, ódio, intolerância aqueles que se posiciona de forma diferente.  Tenho receios de lideres religiosos que, usam de seu populismo para promover ódio e intolerância em tempos como estes…

O NEGRO NA BÍBLIA

Joaquim Beato
Am 9.7; Is 18.1-2

É num texto bíblico que tem sido procurada a justificação do escravismo e do racismo anti-negro, entre os cristãos (Gn9e20-27). Por isso, convém lançar um olhar, ainda que rápido, sobre a Bíblia, num sentido mais amplo, para uma verificação mais segura do testemunho das Escrituras Sagradas sobre o negro.

Temos na Bíblia o testemunho da presença do negro no quotidiano da sociedade israelita:

Um escravo negro (cuxita) foi o mensageiro escolhido para levar a Davi a notícia da morte de seu filho e adversário, Absalão (28m 18.21-32). Um escravo ou um mercenário negro, por ser um estrangeiro foi, talvez por isso, preferido pelo comandante Joab, para levar ao rei a trágica notícia.

2. Depois de ter lido em público os oráculos de denúncia e ameaça do profeta Jeremias, Baruque, seu secretário, foi intimado a comparecer diante dos grandes de Judá, levando-lhes o rolo (Jr 36.1- 26). O mensageiro enviado para convocar Baruque foi Jeudi, bisneto de um negro (cuxita; Jr 36.14; CNBB e NTLH).

3. Por sua mensagem, que aconselhava abertamente a rendição de Judá a Nabucodonosor, rei de Babilônia, Jeremias foi perseguido como traidor da pátria e entregue pelo rei Zedequias ao arbítrio dos príncipes. Estes o jogaram num poço em que não havia água, só havia lama (Jr 38.1-6). E o profeta se atolou na lama, correndo o perigo de se afogar e morrer. Aparece, então, um negro, um cuxita, cujo nome é dado como Êbed-Mélekh (literalmente, servo, isto é, ministro do rei). Ele vai ao rei, intercede por Jeremias e consegue permissão para salvar a vida do profeta. Esse negro é, portanto, alguém em alta posição na corte, tendo acesso direto ao rei, que o devia ter em alta consideração, e, por isso, atendeu seu pedido, embora fosse em desafio à decisão dos príncipes, diante dos quais o rei se confessara sem nenhum poder (Jr 38.3, 7-13). Essa foi uma ação tão notável que o etíope Êbed-Mélekh recebeu, em recompensa, um oráculo, por intermédio do próprio Jeremias, em que lhe era prometido livramento, quando acontecesse a destruição de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor. Sua vida seria poupada, porque ele confiara no Deus Eterno (Jr 39.15-19).

4. Duas coisas chamam a atenção no cabeçalho do livro de Sofonias (Sf 1.1). A primeira: é o único entre os profetas que tem seus antepassados citados até a quarta geração. Charles Taylor Jr. afirma: “A razão é, sem dúvida, porque o Ezequias mencionado é o rei daquele nome, que governara Judá de 715 a 687 a. C.,, A segunda: Sofonias é declarado filho do Negro (Cuxita). Podem ser formuladas duas hipóteses, para explicar esse caso:

a) uma dama nobre, neta do rei Ezequias, casara-se com um etíope, com um negro, que veio a ser o pai do profeta;
b) ou, então, seu pai, este sim, neto de Ezequias, recebera o nome de Cuxita (etíope), em homenagem ao Egito, pais com que Judá se aliara em oposição à Assíria. Qualquer que seja a hipótese adotada, torna-se evidente a alta conta em que eram tidos os cuxitas (etíopes, negros) pela família real de Judá.

5. Abraão foi o pai dos crentes, para judeus e cristãos, seu primeiro antepassado na fé (Gn 12..1-4a), que teve a honra de ser considerado um dos dois amigos de Deus, no AT (Antigo Testamento) (Is 41.8). Para os maometanos, ele foi um dos quatro grandes profetas: Ibraim, Musa, Issa e Maomé. Seu primeiro filho, Ismael, nasceu de sua relação com Agar, escrava egípcia, camita, portanto, negra, visto como Gn 10.6 e lCr 1.8 colocam Etiópia, Egito, Líbia e Canaã como filhos de Cam. Além disso, Deus sustentou, no deserto, essa mulher negra e seu filho e, mais ainda, concedeu-lhe o privilégio de uma teofania, isto é, apareceu diante dela e lhe falou (Gn 16..1-16; 17.23-27; 21.8-21). Através de Ismael, Agar se tornou a matriarca de numerosos povos beduínos que habitavam o sul da Palestina. E, segundo outras traduções, tornou-se uma ancestral de Maomé, o fundador do islamismo, tido como descendente de Ismael.

6. Da máxima importância, neste contexto, é uma tradução que envolve o próprio Moisés, o líder máximo do povo de Deus, no AT (Antigo Testamento), libertador do povo de Israel, em seu Êxodo do Egito, fundador da fé “javista.” Grande profeta, que também teve o privilégio de ser considerado, como Abraão, um amigo de Deus. Homem ímpar, de quem se diz: “Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés” (Dt 34.10-12). Existem três diferentes traduções sobre a origem étnica de sua esposa. Uma atribui a ela origem midianita (Ex 2.16-22; 3.1; 4.24-26; 18.1; Nm 10.29). Outra, uma origem quenita (Jz 1.16; 4.11). A terceira fala de seu casamento com uma cuxita (etíope, negra; Nm 12.1).. Em todas as três, o grande libertador de Israel tem por esposa uma mulher estrangeira. A terceira tradução fala de uma esposa etíope, embora num texto que contém algumas dificuldades. Qualquer que seja a solução das dificuldades, o texto indica, de maneira suficientemente clara, que se trata de um casamento recente e, por conseguinte, a esposa mencionada não era Zípora. E mais, que a causa da rebelião de Minam foi a posição de Moisés como mediador único entre Deus e o povo (Nm 12.2). Conclui-se, então, que não há nenhuma recusa contra o fato, que é aceito, portanto, como normal, de que o fundador e legislador do povo de Israel, — o homem com quem Deus falava “face a face”, a quem colocara “como responsável” por todo o seu povo, — o fato de que Moisés tivesse desposado uma cuxita, uma mulher etíope, uma mulher negra.

7. Salomão foi, segundo a tradição, o mais sábio, o mais rico e o mais famoso dos reis de Israel, e construtor do primeiro templo de Jerusalém. Pois bem, entre as mais importantes raínhas-esposas de Salomão, estava a filha de um faraó da 2 ia dinastia, o faraó Shishak (cerca de 945-924 a.C.), pertencente a uma dinastia de famosos mercadores. Essa egípcia era a mais importante das raínhas-esposas. Seu pai tomou a cidade de Guézer dos canaanitas e deu-a como dote à filha, à esposa camita, à rainha-esposa negra de Salomão (1Rs 3.1; 9.16; 11.1).

II

Temos, na Bíblia, o testemunho sobre a imagem dos negros como pareciam aos olhos dos israelitas:

1. Os etíopes habitavam num país distante, remoto (Ez 29.10; Et1.1; 8.9), que ficava nos confins da terra (Sl 72.8-9).. No mundo da cultura grega, igualmente, Homero, no nono ou oitavo século a. C., dizia: “Posêidon, porém, partira para longe, em visita aos etíopes, que vivem nos confins da Terra…” (Odisséia 1.22-24).

2. Seu país era muito rico (Is 45.14a; Jó 28.19). Também no mundo da cultura grega, talvez um século depois dessa passagem bíblica, Heródoto fala de presentes enviados por Cambises, da Pérsia, a um rei dos etíopes: “um traje de púrpura, um colar de ouro, braceletes, um vaso de alabastro cheio de essência e um barril de vinho de palmeira”; e registra que só em relação ao invento do vinho o rei etíope admitiu a superioridade dos persas. Relata que, na prisão a que o soberano etíope levou, em visita, os emissários de Cambises, todos os presos estavam agrilhoados com correntes de ouro, pois, afirma Heródoto, entre os etíopes não era o ouro o metal mais raro e precioso, mas o cobre (História, livro m, cps. XX-XXIII).

3. Eram um povo guerreiro. Um povo forte e orgulhoso, de quem o mundo inteiro tinha medo (Is 18.2; cf. 2Cr 14.8). Esse capítulo de Isaías de Jerusalém (8o. século a..C.) fala-nos de mensageiros, de diplomatas etíopes, que tinham vindo tentar conseguir a participação de Judá numa rebelião geral contra a dominação dos assírios (Is 18.1-2a). A Etiópia estava no auge de seu poder. Em cerca de 725 a.C., Pianki empreendeu uma vitoriosa campanha militar para o norte, chegando até o mar Mediterrâneo, e unificou o Egito. Pianki tornara-se, assim, o primeiro conquistador estrangeiro desse pais. Por cerca de sessenta anos, na 25a. dinastia, os soberanos etíopes controlaram todo o vale do rio Nilo, até 663, quando os assírios, sob Assurbanipal, tiraram, finalmente, o Egito de sob seu poder. Um desses soberanos, Tiraká, parece ter até tentado proteger Ezequias, rei de Judá, contra a segunda invasão de Senaqueribe, rei da Assíria (2Rs 19.9; Is 37.9), entre 689 e 686 a.C. Um século mais tarde, ao prever a queda de Ninive (portanto, do império assírio), o profeta Naum cita a destruição de Tebas e, recordando o período áureo do poderio etíope, diz: “A Etiópia era a sua força.” (Na 3.9). Isaias, no oitavo século a.C., diz da Etiópia do seu tempo: «Povo forte e poderoso; um povo de quem o mundo inteiro tem medo” (Is 18,2df).

4. Mas é em Jr 13.23,– que alguns comentadores cristãos têm interpretado como se os antigos israelitas compartilhassem o moderno preconceito racial ocidental, que identifica o negro com o mal — onde pode, ao contrário, ser encontrada uma confirmação da fama guerreira dos etíopes: “Pode um etíope mudar a sua pele, ou um leopardo tirar as suas manchas?” Temos aqui um claro paralelismo, recurso estilístico dos mais importantes da poesia hebraica. Aqui ele é sinonímico, isto é, os termos do hemistíquio se eqüivalem, um por um, termo por termo:

pode um etíope / b. mudar a sua pele,

a’. ou um leopardo / b’. tirar as suas manchas?

A associação dos termos é bastante espontânea e significativa: Etíope, homem de uma nação poderosa e ameaçadora, que causava medo por seu valor militar; Leopardo: animal feroz, imagem da força, da rapidez no bote, da agressão violenta (Os 13.7; Is 11.6; Jr 5.6; Hab 1.8; Ct 4.8; De 7.6).

Não se trata, portanto, de preconceito racial. Quando muito, se trata de um ressentimento implícito, gerado pelas freqüentes situações de guerra, nas quais esse “povo de quem o mundo inteiro tem medo” aparecia, ou no papel de inimigo ou como guerreiros mercenários, lutando lado a lado com o Egito, apoiando seu imperialismo (1Rs 14.25s; 2Cr 14.8-14; Na 3.9; Jr 46.9; Ez 38.53). O etíope, o negro, temível guerreiro, é comparado, por uma livre associação de idéias, a um verdadeiro leopardo feroz. À imagem do etíope associava-se a imagem do leopardo, o que, nem de longe, se compara aos estereótipos que se ligam à imagem do negro, em nossa sociedade.

5. Os etíopes, os negros, eram vistos pelos olhos dos israelitas antigos, como homens belos. As palavras lisonjeiras da diplomacia com que Isaias se refere a eles (Is 18.2bcd) transpiram admiração. Falam de sua alta estatura, de sua pele lisa, lustrosa, suave. Também nisso concorre e concorda o mundo da cultura grega. Heródoto, já citado anteriormente, diz a respeito dos etíopes: “Dizem que os etíopes são, de todos os homens, os de maior estatura e de mais bela compleição física… Entre eles, o mais digno de usar a coroa é o que apresenta maior altura e força proporcional ao seu porte” (História, Livro III, cp. XX).

6. No Cântico dos Cânticos 1.5, fazem da noiva-rainha uma mulher morena, uma mulher trigueira, uma mulher escura. Mas bons dicionários da língua hebraica nos garantem afirmá-la uma mulher negra. Ela não diz: “Sou morena”, mas, “Sou negra” (heb. Sh.hora ‘ani). E não diz: “Sou negra, mas sou formosa”; Diz: “Sou negra e formosa” (heb. W.na’wah). A conjunção waw pode ter sentido adversativo, mas é, normalmente uma simples conjunção aditiva. Pode-se, portanto, com fez a LXX, traduzir: “Sou negra e formosa” – Mélaina elmi kai kalê.. Fica quase a certeza de que o senso estético preconceituoso e etnocêntrico dos tradutores ocidentais não lhes permite dizer, simplesmente, “negra e formosa”; preferem dizer “negra, porém formosa” ou «formosa, embora negra”. E nem mesmo «negra” a dizem. Como grande parte dos brasileiros, inconscientemente (?) preconceituosos, preferem chamá-la “morena”. E nada empana, nem mesmo essa noiva negra e formosa, esse amor entre a noiva e o noivo, descrito de maneira tão poética, tão livre e eloqüentemente, que faz do Cântico dos Cânticos um dos mais belos poemas de amor da literatura universal.

III

Mais do que isso, temos na Bíblia o testemunho bastante explícito sobre o lugar dos etíopes, dos negros, no propósito universal e escatológico de Deus:

1.. Sua conversão está anunciada abundantemente. Haverá o dia em que também eles trarão ao SENHOR as suas oferendas. Todas as nações distantes louvarão o SENHOR. Todos os povos abandonarão seus ídolos e adorarão e obedecerão somente ao SENHOR (Is 41.1,5; 42.4,10,12; 49.1; 18.7). Superada a alienação, a idolatria, os povos chegarão a reconhecer no projeto da Aliança o único caminho possível (Is 45.14).

Na mesma perspectiva, falam:

o salmo 68, especialmente os versos.. 29-32, onde se encontra a seguinte promessa: “E a Etiópia estenderá as mãos para Deus”;

b) o salmo 87, onde se declara que “O SENHOR escreverá uma lista dos povos, e nela todos eles serão cidadãos de Jerusalém”(v.6); e, entre esses povos, são citados, especificamente. os etíopes: “Os povos da Filistéia, de Tiro e da Etiópia eu tratarei como se eles tivessem nascido em Jerusalém” (v.4b).

3. Mais significativo ainda é Am 9,7.0 SENHOR Deus é o Senhor de toda a história humana e todos os povos são iguais diante dele. Israel não deve presumir ter mais importância para o SENHOR do que os etíopes, os negros: “Povo de Israel, eu amo o povo da Etiópia tanto quanto amo vocês”. Os filisteus e arameus foram também objetos do cuidado divino, e suas migrações foram igualmente dirigidas pela vontade soberana do mesmo Deus que tirou Israel da terra do Egito e lhe fez a dádiva da terra “que mana leite e mel”. Esse universalismo expresso no oráculo do profeta nega a qualquer povo uma relação exclusiva com Deus e afirma a igualdade de todos eles aos olhos dele. E a relação que é primeiro apresentada nessas vigorosas palavras é a do SENHOR com os etíopes. Essas palavras combatem qualquer veleidade de orgulho nacional e, para o nosso tempo e para a nossa sociedade, qualquer sentimento de orgulho racial.

4. É nessa mesma linha que se coloca a narrativa da conversão do oficial superior, tesoureiro real, da corte da rainha Candace da Etiópia. A conversão se deu por intermédio do ministério do evangelista Filipe (At 8.26-39). O texto é de grande importância, pois mostra:

a. como os helenistas, tendo evangelizado Samaria, partem para a evangelização das nações, de acordo com o programa do Senhor Jesus, em At 1.8;

b. um trabalho missionário cristão com uma estrutura reduzida e sob a orientação direta do Espírito Santo; embora, assim mesmo, esse trabalho estivesse subordinado aos apóstolos, em Jerusalém;

c. sobretudo, para os afro-descendentes, é importante porque mostra que o primeiro não-judeu introduzido, pelo poder e pela orientação do Espírito Santo, no novo povo de Deus, era um etíope, um negro.

Cumprem-se, portanto, no Evangelho de Cristo, a promessa e a esperança do AT. A partir de Is 53.7-8, que o eunuco está lendo, Filipe lhe anuncia a Boa Nova a respeito de Jesus. E ele aceita, imediatamente essa Boa Nova, Para José Combím: «O africano representa aqui um papel messiânico. Foi escolhido para representar a multidão de nações que viriam até das extremidades da terra pra formar o único povo de Deus”. Era um homem rico e proeminente. Viera do norte da África, da região hoje correspondente ao Sudão, para adorar. Era um homem que estava diligente, sincera e insistentemente. buscando alguma coisa. Inquieto, procurava alguma coisa que jamais tinha conhecido antes – e a encontrou. Era um homem negro, que se tornou as primícias das missões cristãs em todo o mundo não-judaico. Ele tornou-se o antepassado de todos os homens negros, afro-descendentes, ganhos para a fé em Jesus, nesses vinte e um séculos de história da Igreja e da missão cristã. Um símbolo de inclusão no projeto do Deus que não faz acepção de pessoas e que, se jamais manifestou alguma preferência, foi pelos oprimidos, os humilhados, os excluídos.
CONCLUSÃO

Do ponto de vista da Bíblia, não há, portanto, por que nós, afrodescendentes, carregarmos nossa negritude como se fosse um fardo, uma humilhação, idéia nefasta essa que o racismo anti-negro presente em nossa sociedade insiste em introjetar, desde nossos primeiros anos de escola, de diversas maneiras, em muitos de nós. A Bíblia reconhece um Deus que inclui no seu projeto de salvação até mesmo “os confins da terra” e os humilhados deste mundo. A Bíblia dá testemunho da beleza e da força da mulher negra e do homem negro. E esse reconhecimento e esse testemunho devem constituir um poderoso impulso para nós, negros cristãos, em nossa luta pela igualdade de oportunidade, pela nossa cidadania, pelo pleno reconhecimento de nossa humanidade!


Joaquim Beato
Faculdade de Teologia Richard Shaull
Igreja Presbiteriana Unida

A Urgência do Chamado

A Urgência do Chamado – Tony Campolo[1]

(“The Urgency of The Call”, extraído de “Urban Mission”, 1988)

Há dois mil anos atrás pregaram nosso Jesus na cruz. Há dois mil anos atrás, pregaram-no e o puseram em exposição, como fazia a tradição Romana. Há dos mil anos atrás, com sua morte, um milagre aconteceu. Como uma esponja, ele absorveu os pecados de cada um de nós. Há dois mil anos atrás, Jesus morreu na cruz. Ele que não cometeu pecado, se tornou pecado. A boa notícia é que todos aqueles que crêem e confiarem nele não serão punidos pelos seus pecados, porque na cruz ele foi punido em nosso lugar.

E não fosse isso suficiente, Deus esqueceu nossos pecados. Nossos pecados foram apagados, conforme dizem as Escrituras, enterrados nas profundezas do mar, esquecidos. Eu não sei o que você pensa, mas eu odiaria ir para o céu se Deus lembra-se de nossos pecados.

Você consegue imaginar John Kyle[2], de pé diante da cadeira do tribunal e o Senhor dizendo: “Kyle, nós estávamos esperando por você”. Eu não sei se eles têm um livro do Kyle, mas se eles abrirem esse livro, eu tenho uma boa notícia: não haverá nada das coisas podres e sujas que Kyle fez escritas no livro. Tudo foi esquecido.

E tem mais uma coisa. Além de tomar nossos pecados para si e esquecer-se sequer que nós um dia pecamos, ele também “imputou a nós a sua justiça”. Isso vem da versão King James [da Bíblia]. Eu sou um adepto da velha versão King James, e infelizmente várias das novas versões não tem palavras profundas como imputou. É uma palavra fantástica. Significa que ele nos deu o crédito de todas as coisas boas que ele fez.

Eu mal posso esperar para ir para a glória. Quando eles abrirem meu livro, eles verão no livro com o nome Tony Campolo todas as coisas boas que Jesus fez. Eu vou levar o crédito delas. Isso será imputado a mim.

Eu não desejo nenhum mal a minha esposa, mas eu gostaria que ela estivesse lá quando eu chegar, pois tenho certeza que quando eles começarem a ler todas as coisas boas que Jesus fez, ela irá dizer “você não fez tudo isso”.

E eu direi: “É o livro Dele”. E poderei dizer com alegria “portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1 – RSV).

Talvez você esteja pensando, “Esse é um ponto de vista teológico interessante. Mas há vários pontos de vista quanto à salvação. Há as interpretações do Budismo, do Confucionismo e do Marxismo. Como você pode ter uma mente tão limitada para dizer que a sua interpretação, o ponto de vista bíblico, o ponto de vista Cristão, é a única interpretação correta?”.

Eu estava em um avião indo da Califórnia para a Filadélfia. Sentei perto de um cara. Era um vôo especial, a uma da manhã, e ele queria conversar. “Qual é seu nome?”, me perguntou.

“Tony Campolo”, respondi.

E me perguntou “O que você faz?”.

Quando eu não quero conversar, eu digo, “Eu sou sociólogo”. E a pessoa responde, “Oh, que interessante”. Mas se eu realmente quero que eles se calem, eu digo “Oh, eu sou um pregador Batista”. Normalmente isso corta a pessoa na hora. E, como eu não queria conversar nem um pouco, eu disse, “eu sou um pregador batista”.

E o cara disse, “Sabe em que eu acredito? [eu não agüentava de ansiedade para ouvir] Eu acredito que ir para o céu é como ir para Filadélfia. Há muitos caminhos para se chegar a Filadélfia. Alguns vão de avião. Alguns vão de trem. Alguns vão de ônibus. Alguns vão de carro. Não faz a menor diferente como chegamos lá. Tudo termina no mesmo lugar”.

Eu disse “Profundo”, e fui dormir.

Quando estávamos chegando a Filadélfia, tudo estava cercado por neblina. O vendo estava soprando, a chuva batia no avião, as asas estavam sacudindo e parecia que o avião ia partir no meio. Todos estavam nervosos e se segurando. Enquanto circulávamos a neblina, eu disse para o expert em teologia a minha direita, “Ainda bem que o piloto não concorda com a sua teologia”.

“Como assim?”.

Eu respondi, “As pessoas no controle estão dando instruções para o piloto, ‘vá para o norte pelo noroeste, três graus, você está na rota, você está na rota, não saia da rota’. Ainda bem que o piloto não está dizendo ‘Há muitos caminhos para chegar ao aeroporto. Há várias aproximações possíveis. Há vários caminhos para pousar esse avião’. Ainda bem que ele está dizendo ‘Há apenas um caminho de pousar esse avião, e eu vou segui-lo’”.

Não há outro nome pelo qual nós somos salvos a não ser o nome de Jesus. Esse Jesus que morreu há dois mil anos atrás na cruz, esse Salvador que é o único caminho para nos afastar do pecado, é um Jesus ressurecto. E ele se aproxima de nós hoje. Ele vive, e está presente pessoalmente nessa sala, nessa noite. Ele está aqui. E muitas pessoas aqui precisam recebê-lo, muitas pessoas aqui precisam se render a ele.

O Jesus Cultural

Porém, frequentemente as pessoas se afastam de Jesus por não saber realmente como ele é. O primeiro capítulo de Romanos diz que “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar. Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos.”(Rm 1:20-25)

Essa não é a descrição de uma sociedade antiga, iletrada. É a descrição da sociedade Americana. A nossa sociedade pegou Jesus e o fez a sua própria imagem. Quando ouço Jesus ser proclamado nos canais de televisão espalhados pelo país, dos púlpitos mais distantes aos mais próximos, ele é apresentado não como o Jesus bíblico, não como o Jesus descrito no livro, mas como branco, Anglo-Saxão, Republicano e Protestante. Um Jesus que encarna quem nós somos, ao invés de um Jesus que encarne o Deus Eterno, não é um Jesus que possa salvar.

Quando eu dava aula na Universidade da Pensilvânia de vez em quando um aluno meu dizia “eu não acredito em Deus”.

Nessas ocasiões, eu sempre os pedia: “descreva para mim esse Jesus no qual você não acredita; descreva para mim esse Deus no qual você não acredita”. Eles normalmente pensavam que era uma pergunta idiota. Mas eu os forçava a responder. E quando eles terminavam de me falar de como era Deus, eu os congratulava e dizia: “Vocês estão a meio caminho de se tornarem cristãos, porque a maior barreira entre confrontar e amar o Jesus verdadeiro está sendo confundida pela descrição cultural de Jesus que surgiu em nossa sociedade”.

Nós, de fato, fizemos algo terrível. Deus nos criou a Sua imagem e semelhança, mas nós decidimos retribuir o favor e criamos um deus que é a nossa imagem.

Você tem uma decisão a tomar. Qual Deus, qual Jesus, você escolhe seguir? Você escolhe seguir o Jesus descrito na Bíblia, o Jesus que morreu na cruz por nossos pecados, o Jesus que ressuscitou e está aqui hoje nessa noite? Ou você escolhe olhar para um outro Jesus, um Jesus criado pela cultura e que incorpora e reflete nossos valores?

Que carro Jesus Compraria?

Quais são as diferenças entre os dois? As diferenças são gritantes. O Jesus da Bíblia difere do Jesus da cultura naquilo que exige de você. O Jesus bíblico ordena que você venha até ele entregue a si mesmo por completo, e entregue tudo o que tem a ele. O Jesus bíblico diz, de maneira simples, “leia meu livro; leia minhas Escrituras; venha e aprenda comigo; e em cada dia da sua vida, seja como eu”. É necessário ter em nossa mente aquilo que está na mente de Jesus Cristo. Ser um seguidor do Jesus Bíblico é fazer exatamente o que o Jesus bíblico faria se o Jesus bíblico estivesse no seu lugar, e nas mesmas circunstancias que você.

Nada é mais controverso do que ser um seguidor e discípulo de Jesus. Nada é mais perigoso do que viver a vontade de Jesus no mundo contemporâneo de hoje. Em primeiro lugar, isso muda todo o estilo de vida que você leva com as suas finanças. Aquilo que você faz com o seu dinheiro vai mudar.

As pessoas me perguntam, “o que você quer dizer? Quer dizer então que se eu sou um seguidor de Jesus eu não posso sair e comprar um BMW?” Exatamente!

Eu conheço muitas pessoas que tem carros BMW. Quando eles estiverem cheios do amor de Deus, eles irão se arrepender dos seus BMW porque BMW são carros luxuosos que simbolizam concupiscência consumista, ao invés da compaixão preocupada com aqueles que sofrem no mundo.

Vamos supor que Jesus tivesse que comprar um carro, uma vez que não há mais jumentos nas vias expressas hoje em dia. Se ele tivesse $40.000 e soubesse a respeito das crianças que estão sofrendo no Haiti, que tipo de carro ele compraria? Isso não é irrelevante. É aqui que o Cristianismo precisa ser aplicado.

Você deve comprar o carro que Jesus compraria. Você tem que vestir aquilo que Jesus vestiria. Não há lugar para a concupiscência consumista. Essa cultura tem de fato condicionado você a querer mais e mais coisas que você não precisa, e enquanto você se torna um consumidor das riquezas de Deus, os famintos do mundo sofrem, os famintos do mundo morrem.

É hora de nos arrependermos de nossa opulência. Os cristãos perderam o coração de pobre. Dr. Hestenes, meu chefe, me disse ontem à noite: “você não um Cristão, no sentido completo da palavra, até que seu coração seja partido por aquelas coisas que partiam o coração de Jesus”.

Na universidade onde dou aula eu conclamei todo os nossos graduandos em sociologia a irem para a Republica Dominicana ou para o Haiti em intercâmbios estudantis durante o mês de janeiro. Eu os quero lá. Na primeira vez que levei um grupo de estudantes para o Haiti nós ficamos em uma casa suja, imunda, no meio de uma favela.

No início da manhã, o padre da cidade nos convidou a andar com ele. Havia uma epidemia de gripe. Eu nunca tinha visto nada como aquilo. Nos Estados Unidos ou no Canadá quando uma pessoa pega uma gripe, ela deixa de ir à escola. Mas quando as pessoas estão em um estado grave de má nutrição e contraem uma gripe, elas morrem. Enquanto andávamos pelas ruas enlameadas da favela, mães saiam de seus barracos naquela manhã carregando os corpos das crianças que morreram durante a noite.

Nós fomos para os arredores da cidade e cavamos uma cova. E nessa cova nós colocamos essas crianças mortas. Nós olhávamos para aquela cova enquanto o padre rezava sua oração e as mulheres choravam como apenas elas podem chorar na República Dominicana.

Eu observei um dos meus alunos que era um jogador de basquete. Ele sempre foi durão. Mas ele não parecia durão naquele dia. Lagrimas rolavam abaixo nas suas bochechas. Seus punhos estavam cerrados. Seu queixo tremia. E eu sabia, eu sabia que seu coração havia sido partido pelas coisas que partiram o coração de Jesus. Bem aventurados são aqueles que choram.

Tony, você está sugerindo que não se pode ser rico e ser cristão ao mesmo tempo? Não fui eu o cara que falou que é mais difícil pessoas ricas entrarem no reino dos céus do que um camelo passar pelo buraco de uma agulha. Foi outra pessoa.

Tony, você vai insultar as pessoas ricas. Você está cheio da grana? E você consegue ver uma pessoa desesperada e continuar com suas riquezas enquanto essas pessoas sofrem e morrem? Se esse é o caso, I João 3:17-18 pergunta “como pode estar nele o amor de Deus?” É isso que eu estou perguntando.

O Jesus perigoso

Quando me tornei cristão, a Guerra da Coréia estava acontecendo. Foi uma experiência incrível porque eu não sabia se deveria aceitar ou não o serviço militar. Então eu conversei com um coronel, e discutimos por um tempo.

Ele me disse: “qual é o seu problema?”.

“Meu problema é que eu quero fazer aquilo que Jesus faria”.

“Você conseguiria entrar em um avião, voar sobre uma vila inimiga e lançar bombas?”.

Eu respondi: “Eu conseguiria entrar no avião. Eu conseguiria voar sobre a vila inimiga. Porém, no momento em que eu estive pronto para soltar a bomba eu teria que perguntar, ‘Jesus, se você estivesse em meu lugar, você lançaria as bombas?’”.

E eu me lembro do coronel gritando comigo, “Essa é a coisa mais estúpida que eu já ouvi. Todo mundo sabe que Jesus não lançaria as bombas!” Aquele coronel provavelmente conhecia mais de Jesus do que a maioria dos pregadores batistas que eu conheço.

Tony, isso está começando a ficar complicado. O que você está falando está começando a ficar politicamente perigoso. Mas quando foi que ser cristão deixou de ser politicamente perigoso? Nós estamos buscando por um novo grupo de cristãos que irá até o Sermão no Monte e irá viver aquilo de maneira radical. O mundo precisa urgentemente de pessoas radicalmente comprometidas com o Jesus bíblico.

O Jesus cultural vai criar uma igreja muito diferente daquela do Jesus bíblico. A igreja gerada pela divindade cultural que nós inventamos a partir de nossa imaginação protestante é um presidente honorário de uma instituição estática. O Jesus bíblico é o líder de um movimento revolucionário destinado a desafiar esse mundo e transforma-lo no mundo que Deus inicialmente desejou que existisse.

Se você se envolver com esse Jesus você se tornará uma pessoa perigosa. Se você for enviado a África do Sul, você não irá tolerar a injustiça da opressão que existe naquele lugar. Você fará questionamentos quando nossos exércitos marcharem para a guerra em lugares como a Nicarágua[3]. Você se tornará uma pessoa perigosa porque essa igreja é comprometida com a justiça.

Eu estou procurando por uma igreja que envie pessoas a todas as avenidas da vida – nos negócios, nas artes, no setor de educação, e no setor de entretenimento – para ser o fermento revolucionário que transformará o mundo. A missão da igreja não é se preparar para o céu. É proclamar o Reino de Deus no meio desse mundo. O reino desse mundo irá se transformar no Reino do nosso Deus.

Quando eu leio sobre a vida de John Wesley e ouço sobre os grandes avivamentos Wesleyanos (que foram incidentalmente iniciados por estudantes), eu percebo que o cristianismo pode ser um instrumento de transformação não violenta em um mundo que precisa de mudança. Quando eu leio as histórias de Charles Finney, o grande reavivalista dos 1800, eu entendo que Jesus pode ser uma presença inspiradora que transforme o mundo hoje como transformou naquela época. O movimento antiescravista, o movimento abolicionista, o movimento feminista nasceram todos dos reavivamentos de Charles Finney.

Este é um momento histórico porque Deus quer levantar uma geração de homens e mulheres que irão adentrar todos os setores da sociedade como agentes de mudança, transformando o mundo no tipo de mundo que Ele quer que seja.

Será isso sempre não-violento? Sim, eu acredito que sim. Eu acredito que nós precisamos nos levantar pela verdade e proclamar a profética palavra de Deus.

Era isso que eu amava em Martin Luther King. Ele vinha marchando de Selma e se encontrava com aquele velho Bull Connors. E lá estavam eles. Bull Connors tinha suas armas. Bull Connors tinha seus cassetetes. Bull Connors tinha tropas. E King e seus seguidores se ajoelhavam e oravam. E não há nada mais vulnerável do que uma pessoa ajoelhada orando. E depois de contar até dez, as tropas de Connors marchavam e batiam nas cabeças dos seguidores de King e os viam espancados, arrebentados, sangrando por toda aquela avenida. Eu sabia – quando assistia pela televisão – que Deus acabara de vencer, que o movimento por direitos civis iria vencer.

Eu sei que você deve estar se perguntando, “como você pode achar que eles venceram? Eles levaram pancadas na cabeça. Eles foram pisoteados. Eles foram chutados. Eles foram mortos”. Você está certo. Mas nós Cristãos temos um terrível hábito de nos levantarmos de novo.

O Amor pelo Poder

Eu quero uma igreja que transforme o mundo não a partir de uma posição de poder, mas a partir de uma posição de amor e comprometimento. Eu me assusto com os cristãos de hoje porque eles estão em busca de poder. Nós pensamos que se tivermos poder suficiente, se tivermos bastante gente no poder, se tomarmos os Estados Unidos, então poderemos forçar a América a ser justa e correta. Por que será que Jesus nunca pensou nisso? Eu acredito que nós temos que mudar o mundo com as armas da igreja, e não com as armas do mundo. Nós temos outro estilo, outros caminhos. É amar ser servo. É se entregando a si mesmo, se mexendo, se preocupando, amando, redimindo, não destruindo.

Eu consigo entender o poder porque todos amam o poder. Eu amo o poder. Um dia quando eu voltava da Universidade da Pensilvânia onde eu dava aula, eu vinha pela via expressa e quando cruzei a Avenida Cityline, eu ouvi um barulho. Era um pneu furado. Então eu encostei e desliguei o carro.

Enquanto eu trocava o pneu eu ouvia o rádio e começou dar notícias do helicóptero do transito. “Senhoras e senhores, vocês não vão chegar em casa hoje. Está tudo parado na via expressa até a Avenida Montgomery. Transito parado nas duas direções da Citylane. A cidade da Filadélfia está praticamente parada”.

E eu comecei a me perguntar, “o que será que fez a cidade da Filadélfia parar? O que será que paralisou a bela cidade do amor fraternal? Por que a cidade de Frank Rizzo de repente parou?”.

Então o repórter disse, “há um carro marrom parado na pista direita da Avenida Cityline”. Era eu! Era o meu carro! O pequeno Tony Campolo paralisou a cidade da Filadélfia. Mães não conseguem chegar em casa. Crianças choram chamando por seus pais. Negócios deixaram de ser fechados. Namorados não estão se encontrando e eu estou sendo a causa disso!

Qual de nós é imune a sedução do poder? Quem é que não se encanta por ela? Porém o Jesus bíblico não está no poder. O Jesus bíblico abriu mão do poder. Ele poderia ter forçado o mundo inteiro a justiça e retidão, não poderia? Ao invés disso, ele vem e enche as pessoas com seu Espírito e os chama a viver em amor sacrificial neste mundo.

Um Povo Clandestino

Se eu fui um pouco controverso até aqui, serei agora muito controverso. Eu tenho um amigo no Brooklyn que é pastor. Ele tem uma igreja em uma comunidade decadente. Sempre que quero uma boa história eu ligo para ele, porque ele sempre as tem, mesmo que ele não saiba disso. Eu roubo todo o material dele.

“O que aconteceu na última terça-feira?”, perguntei.

“Ah! Foi muito estranho”, ele disse. “Teve um funeral”.

Perceba que ele é um cara que ganha tão pouco que tem que fazer alguns funerais para ganhar alguma grana e se manter. Ele disse que a funerária local ligou para ele com um funeral que ninguém queria fazer porque o sujeito morreu de AIDS. Então ele aceitou o fazer o funeral.

“E como foi?”.

“Quando cheguei lá, foi muito estranho. Havia uns vinte cinco ou trinta homossexuais sentados. Eles estavam sentados e paralisados, com as mãos segurando nas cadeiras. Seus olhos estavam vidrados olhando para a frente. Eles não olhavam nem para a direita nem para a esquerda. Eu li uma parte das Escrituras. E fiz uma oração. Quando o funeral chegou ao fim, eu sai, entrei no carro e dirigi até o cemitério para o enterro.

“E fiquei lá, na beira da cova enquanto o caixão entrava no buraco. Mais uma vez eu li uma parte das Escrituras. Mais uma vez eu fiz uma oração. E quando eu já tinha dado a benção apostólica e tinha me virado para ir embora eu percebi que nenhum dos rapazes homossexuais se mexia. Eu me virei de volta e perguntei, ‘há mais alguma coisa que eu possa fazer?”.

“E um deles respondeu: ‘Sim, há mais uma coisa que você pode fazer. Eu não vou há igreja há anos. Na verdade eu estava ansioso pelo funeral, pois eu amo ouvir a leitura do Salmo 23. Pastor, você poderia ler o Salmo 23?’ Então eu li o Salmo 23”.

“Quando terminei um outro homem falou, ‘há uma passagem no livro de Romanos, que diz que nada pode nos separar do amor de Deus. Você conhece essa passagem?’ E eu li para aqueles homens homossexuais ‘nada pode nos separar do amor de Deus. Nem altura nem profundidade, nem coisas do presente ou do porvir, nem poderes, nem principados, nada – nada pode nos separar você do amor de Deus, nada pode separar você do amor de Deus.’ E fiquei ali perto da cova lendo para aqueles rapazes homossexuais passagens das Escrituras que eles pediam, durante quase uma hora”.

Quando eu ouvi isso, eu chorei. Eu chorei porque sabia que esses homens estavam sedentos pela Palavra de Deus, mas jamais poderiam colocar um pé dentro de uma igreja porque acreditavam que a igreja os desprezava. E eles estavam certos.

Estaria eu aprovando o estilo de vida homossexual? Com certeza não! Tudo que estou dizendo é, quando iremos começar a amar aquelas pessoas que ninguém mais ama?

Alguém me perguntou, “Se você fosse o pastor de uma grande igreja no centro de uma cidade grande, o que você faria?” Me perguntaram isso em uma conferencia de imprensa ontem. Eu respondi simplesmente, que “pediria a igreja para hipotecar o prédio, pegar o dinheiro e construir um hospital beneficente para vítima da AIDS porque acredito que nós precisamos dizer alguma coisa a comunidade homossexual”.

Há pessoas latinas que falam espanhol, pessoas negras e pessoas italianas no centro da cidade. Estou aqui para te dizer que há aproximadamente de 9 a 10 milhões de homossexuais, e que a igreja de Jesus Cristo os forçou a se tornarem um povo clandestino. Já chegou o tempo em que devemos, sem aprovar o pecado, amar as pessoas.

Eu estou procurando toda uma nova empreitada missionária. Estou procurando cristãos que irão organizar hospitais beneficentes cristãos para vítimas de AIDS, por jovens homens e mulheres que se tornarão médicos e enfermeiros para cuidar dessas pessoas que alguns de nossos médicos mais seculares não querem tocar. Está na hora dos cristãos criarem uma igreja ousada – uma igreja que ousa amar.

Audaciosamente Indo Onde Nenhum Homem Jamais Esteve

Por fim, o Jesus cultural apenas nos pede para sermos reverentes e religiosos. Eu não estou chamando você a ser religioso. Eu estou chamando você a pegar a sua vida e dizer hoje a noite, “Jesus, eu te amo. Eu te amo tanto, eu quero você tome minha vida e me use em alguma coisa especial. Eu quero que você me envie para aqueles lugares onde você quer que eu vá. Estou aqui. Me leve. Se é na África, que seja. Se é na Filadélfia, que seja. Se é Buenos Aires, que seja. Se é Calcutá, que seja. Eu irei onde você quiser que eu vá, Senhor. Eu sou seu.”

O Jesus bíblico quer empregar você no lugar onde ele poderá usá-lo no seu nível ótimo. Por que tem que ser além mar? Porque a América já está lotada. Nós formamos tantas pessoas nas universidades por aqui hoje em dia que nossa sociedade não consegue empregar a todos. Você não tem que ir trabalhar na General Motors. Ela vai sobreviver sem você. Você também não tem que ser um médico nos Estados Unidos, eles já têm médicos suficientes. E você certamente não precisa somar-se a multidão de advogados na América.

O que eu amo em “Star Trek” é a nave Enterprise sumindo na escuridão e a voz dizendo, “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. Eu estou aqui para dizer pra você ir onde ninguém foi antes, fazer o que ninguém fez, ser o que ninguém jamais foi. Ser missionário é difícil. Mas a maioria das alternativas é bem fácil. Se você quer ser um Yuppie, tudo bem. Só é chato, apenas isso. O que eles fazem? Trabalham a semana inteira, chegam em casa, entram na Jacuzzi e falam uns aos outros das suas maravilhas.

Na última cena de A Morte do Caixeiro Viajante quando eles descem Willie Lowman na cova, a esposa dele diz, “Bif, Bif, por que ele fez isso? Por que ele se matou? Por que ele cometeu suicídio? Por que ele fez isso, Bif?”. E Bif responde: “Ah, que pena mãe. Ah, que pena, ele tinha os sonhos errados. Ele tinha os sonhos errados”. Se há algo que se possa dizer dessa geração, é que vocês todos têm os sonhos errados.

Se você quer ser um professor, porque ficar em um lugar onde não precisam de você? Por que não permitir que Deus o leve até o lugar onde você é absolutamente essencial? Se você quer ser um médico, por que não ir onde você será desesperadamente essencial? Por que alguém gostaria de ser um médico num lugar onde nem metade de seus pacientes está verdadeiramente doente, quando você pode ir para um lugar onde a vida e a morte de centenas de pessoas vai estar dependendo de você diariamente?

Eu sou como o velho Oswald Smith. Eu não entendo porque alguém tem que ouvir o evangelho duas vezes antes que todos tenham a chance de ouvi-lo pela primeira vez. Entregue sua vida a Jesus. As necessidades são imensas. Se você acha que não pode ajudar, você está louco.

Uma vez fui chamado para ser conselheiro em um acampamento cristão de juniores. Todos deveriam ser conselheiros em um acampamento de juniores pelo menos uma vez. Se há algum Católico aqui, vocês estão certos, existe um purgatório. Nós tentamos de tudo para explicar a essas crianças sobre o que era o evangelho. Mas nada funcionou. O conceito de se divertir dos juniores é azucrinar os outros. E nesse caso, naquele acampamento, havia um garoto com paralisia cerebral, e eles foram mexer com ele.

Eles encarnaram no pequeno Billy. Como eles encarnaram nele. Conforme ele andava com seu corpo descordenado, eles se punham em fila e imitavam os movimentos grotescos do garoto. Eu fiquei olhando para ele um dia enquanto ele veio até mim e perguntou na sua voz devagar e arrastada, “Onde fica a loja de artesanato?”. E os garotos responderam imitando a sua voz e seus movimentos, “é para lá Billy”. E riram dele. Foi revoltante.

Contudo meu furor chegou ao limiar máximo quando na quinta-feira pela manhã, quando foi o dia do quarto do Billy fazer o devocional. Eles indicaram o Billy para falar. E enquanto ele se arrastava no caminho até o púlpito, era possível ouvir as risadas rolando por toda a platéia. E levou quase cinco minutos para o pequeno Billy conseguir dizer “Jesus…ama…a mim….e…eu….amo…Jesus”. Quando ele terminou, houve um silencio mortal. Eu olhei para trás e havia juniores chorando por todo o lugar. Um reavivamento havia acontecido.

Conforme eu viajo pelo mundo, encontro missionários e pregadores em todo canto que dizem, “lembra de mim? Eu me converti naquele acampamento de juniores”. Nós havíamos tentado de tudo. Nós trouxemos até jogadores de baseball que passaram a acertar mais a bola depois que começaram a orar. Mas no fim, Deus resolveu não usar as celebridades. Ele escolheu um garoto com paralisia cerebral para quebrantar os espíritos da desdenha. Ele é esse tipo de Deus.

Entregue sua vida a Jesus não importa como você seja e não importa o que você pode ou não fazer. Ele quer ter você. Ele quer preencher você. E quer usá-lo no trabalho do Reino.

[1] Tony Campolo, autor, professor e evangelista, catedrático do departamento de sociologia e ministro da juventude do Eastern College.

[2] Kyle foi o Diretor do congresso missionário de Urbana em 1987, local onde em que Campolo apresentou este texto [nota do tradutor].

[3] É bem provável que numa atualização desta pregação Campolo citaria os casos do Iraque e do Afeganistão [nota do tradutor].