Jesus com fome e sede de Justiça

Por Henri Nouwen

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Jesus, o Bem-aventurado Deus de Deus, tem fome e sede de retidão. Ele aborrece a injustiça. Ele resiste a quem procura reunir riqueza e influenciar a opressão e a exploração. Todo o seu ser anseia por as pessoas se tratarem como irmãos e
irmãs, filhos e filhas do mesmo Deus.
Com fervor, ele proclama que o caminho para o Reino não é encontrado ao dizer muitas orações ou oferecer muitos sacrifícios, mas ao alimentar os famintos, vestir os nus e visitar os doentes e os prisioneiros (ver Mateus 25: 31-46). Ele anseia por um mundo justo. Ele quer que vivamos com a mesma fome e sede.

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13 pontos para embasar qualquer análise de conjuntura

O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros. Maurício Abdalla

por Maurício Abdalla, do  Le Monde Diplomatique

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1 – O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.

2 – Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.

3 – O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.

4 – Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de “imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.

5 – Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.

6 – O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.

7 – Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha, Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.

8 – O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.

9 – Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem, na conjuntura atual, a reforma na previdência, o fim das leis trabalhistas, a manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais ricos.

10 – Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o destino de seu país.

11 – Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.

12 – A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que virá depois.

13 – Lembremo-nos: eles são mais espertos. Por isso estão no poder.

Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

A empatia como compaixão

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[Por: José Neivaldo de Souza]

As coisas que nos custam mais são as que mais valorizamos. E nos custa muito mais dar do que receber. Michel de Montaigne

O tempo e as experiências, negativas e positivas, têm me ensinado que a “Empatia” é essencial para a paz interior. É um instinto de projeção, uma emoção. Faz-nos unir e fundir ao outro, ser humano, animal ou objeto. Em outras palavras, nos colocamos no lugar do outro e nos comunicamos com ele.

Porém, minha ideia, diferente de alguns autores que veem só lado amoroso desta comunicação, vai em direção ao seu duplo caminho, à sua contradição. Ela pode gerar compaixão e, ao mesmo tempo, indiferença, antipatia, inveja. Eis o verso e o reverso da mesma moeda: ou nos enxergamos com os olhos do outro e isso nos provoca a mudanças ou nos vemos refletidos nos olhos dele e isso para nós pouco importa; ou o rosto alheio nos ajuda a enxergar o que não percebemos, ou projetamos nele o que gostaríamos que ele fosse: nossa extensão. Assim, a Empatia pode nos levar à admiração, ao cuidado e à compaixão, como também pode nos ejetar no preconceito, na inveja e na indiferença em relação ao sofrimento alheio. No primeiro momento quero pensar a Empatia enquanto compaixão e o assunto sobre a indiferença fica para outra semana.

A Empatia como compaixão. Edith Stein, filósofa judia, convertida à fé cristã, produziu em textos o que viveu na Alemanha nazista. Simpática ao amor de Cristo, procurou vivenciar a compaixão, mas experimentou a antipatia, o ódio e o preconceito de seus detratores, sendo perseguida, torturada e morta numa câmara de gás em Auschwitz. Para ela, a Empatia é uma vivência fundamental na formação da pessoa humana, porém deve ser direcionada à compaixão.

Rubem Alves, em tom poético, dizia que a compaixão nos faz ter vontade de abraçar e sentir o que a outro sente. Enxergar no outro, o que eu gostaria que enxergassem em mim, não é fácil. É preciso exercitar, treinar muito. Adélia Prado diz que viver de mal com o mundo é muito fácil, faz parte de nossa natureza, difícil é amar, envolver a alma, cuidar da vida. Numa perspectiva psicanalítica, é a luta que o Eros, pulsão de vida, trava contra o Tânatos, pulsão de morte.

A palavra compaixão quer dizer: sentir “com” o outro o que ele “sente”. Viver no mesmo sentimento. Não é melhor cultivarmos ternura, solidariedade em relação ao ser humano, aos animais e à natureza? Para Dalai Lama, o estado de serenidade das pessoas depende deste sentimento. O líder budista observa que a falta de compaixão abre as portas para os crimes. Concordo!

Jesus Cristo ensinou e viveu esta serenidade em meio à perseguição. Levado ao tribunal e condenado como culpado, pelos criminosos, se colocou no lugar das pessoas aflitas e desamparadas e as via como “ovelhas sem pastor”, perdidas, sem encontrar um caminho. Se resumissem o ensinamento de Jesus talvez diriam: “saia do seu lugar e coloque-se no lugar dos que sofrem. Procure uma oportunidade para a salvação de ambos e da humanidade. Este é o caminho”.

Oração da fraqueza

Texto de Caio Marçal

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Sozinho no meu quarto, venho a ti, meu Senhor, celebrar minha fraqueza. Sim, eu a celebro! É nela que descubro que careço de Ti e que todo espírito de autossuficiência é tolice de quem é incapaz de amar e aprender com o outro.

Diante de Ti reconheço que não sou um super-herói, que não tenho todas as respostas, que não sei a solução de tudo, que sinto cansaço e preciso de ajuda. Farto de ver tanta injustiça, miséria e corrupção, clamo por Teu socorro!

Diante de Ti, vejo quem sou: pequeno, temeroso, vacilante e errante. Um pecador! Por vezes incrédulo, descrente, em estado de falência. Sozinho na tua presença, lanço fora minhas máscaras e retiro minhas maquiagens religiosas que estupidamente uso para disfarçar minhas imperfeições, carências e medos.

Agora está minha alma nua. Desnudo, é possível ver minha cobiça por poder, meus desejos camuflados e interesses mais mesquinhos. Também percebo a falsa necessidade de ser o centro das atenções, de manipular os outros, de tirar proveito das situações.

É impossível esconder-me de tua presença e tapeá-lo, Meu Senhor! Por mais que tente apresentar uma versão editada de mim, és o supremo Mestre. Tu sabes tudo, sabes quem sou.

Salva-me de mim mesmo! Perdoa-me, mas não tires de mim a minha humanidade. Torna-me mais sensível, mais gente! Deus, livrai-me do mal de projetos religiosos megalomaníacos de tornar pessoas em anjos… Agradeço-te porque na medida em que te revelas a mim em oração, mais tenho consciência da minha natureza.

Faz-me lembrar sempre que sou um ser humano enraizado no chão desse mundo. Desejo ser vaso de barro em tuas mãos e que em minha fraqueza, operes teu poder. Só assim posso promover teu Reino e Justiça, lutar pela vida e me derramar em favor dos pobres e esquecidos desse mundo mau.

Tu conheces minha estrutura e assim como um Pai se compadece de seus filhos, me amas com amor paciente. É o teu amor que me dá dignidade e que rompe os grilhões da baixa estima. Obrigado por não me lançares fora.

Ajuda-me a olhar para meu próximo com a mesma misericórdia que tens por mim. Ao experimentar a tua graça, que eu seja mais gracioso. Tu perdoaste os meus pecados, que eu viva como um perdoador.

Deus, que eu nunca esqueça que sou feito do pó dessa terra. Que eu proclame o tesouro da graça que depositaste em mim!

Peço-te em nome Daquele que se fez fraco abrindo mão de seu trono, porém venceu até a morte, para trazer abundância de vida. Amém!


Publicado originalmente no Boletim de Oração da Rede Fale.

Lyndon de Araújo: “Temos que abandonar a lógica da conquista como missão”

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Por Lyndon de Araújo Santos* 

Equidade – O que significa isto? Qual a relevância deste conceito para a Igreja de Cristo? Temos sido fieis na busca pela equidade enquanto cristãos? 

Equidade – Não falamos de algo que esteja distante de nós na América Latina e no Brasil. A partir da situação e do contexto em que nos encontramos, quero falar sobre equidade começando com 3 inflexões:

1 – O lugar de onde falamos: Sabemos que nos encontramos em espaços onde existem agudos déficits históricos e sociais em todas as esferas. Nos encontramos sob arraigadas estruturas promovedoras da desigualdade. Somos o resultado de uma sociedade formada pelas lógicas da invasão, exploração da sociedade e da escravidão. Somos síntese desses vetores e forças históricas, sociais e religiosas. O cristianismo foi um elemento que fez parte deste projeto. Organicamente inserido e cúmplice deste projeto, mas em vários momentos se contrapondo a ele.

Somos resultado de uma missão que obedeceu à lógica da conquista. E se pensamos em equidade como missão da igreja, temos que abandonar a lógica da conquista como missão. Se a equidade é o centro da missão, temos que renunciar à qualquer lógica da conquista.

2 – A igreja da qual falamos:

3 perspectivas:

  • igreja vista de baixo pra cima
  • igreja na sua horizontalidade
  • igreja na sua capilaridade social

Se eu pensar na igreja na lógica da conquista eu não posso chegar na equidade. Se falamos de equidade como missão da igreja, não entendemos ser possível nas suas estruturas que se comprometem com outras estruturas de poder. A igreja corpo como contraponto à igreja estrutura de poder e como lugar de comunidade integral.

3 – O tempo do qual falamos: a concepção de que a equidade não é possível para todos. Isso está no germe do pensamento moderno.

Por outro lado, se existe desigualdade, ela é responsabilidade dos que não conseguem ser iguais. Se a equidade só pode ser experimentada por um segmento social, deixa de ser igualdade, resultando portanto em uma falácia.

Nos encontramos diante de um paradigma que predominou durante o “infeliz século XX”: todas as promessas deste século desembocam frustradas no início do século XXI. Se o mundo está desigual, sobretudo na América Latina, podemos pensar na nossa condição. Liberalismo.

Os sentidos e as dimensões da equidade:

Político, social e teológico. A igualdade e a equidade são princípios fundamentais que norteiam as lutas por uma sociedade melhor. Os sentidos da palavra equidade que se relacionam com igualdade são vários e as dimensões dessa palavra são pelo menos três à igualdade, reparação, simetria, imparcialidade, justiça, justa distribuição, equilíbrio, imparcialidade e compensação.

Ela agrega as dimensões:

Jurídica – lei e sua aplicação.

Econômica – compreende a relação entre a produção de víveres, de bens e riquezas extraídas da natureza pela instrumentalização da tecnologia e a sua distribuição suficiente ou justa para a satisfação de necessidades materiais. A maneira como essa distribuição é concentrada pode gerar equidade ou iniquidade. Essa dimensão econômica exige a administração da casa. Temos que distribuir conforme as necessidades numa relação de equidade que pressupõe distribuição, eficiência e satisfação dessas necessidades.

Relacional – essas relações interpessoais são mediadas por conflitos, dramas e conciliações em que há equidade ou não.

Essas dimensões não se separam, estão fundidas no mundo. A questão ambiental tem dimensões jurídicas, econômicas e relacionais. Esgotamento dos recursos naturais explorados segundo a lógica que reduz as dimensões humanas a uma mera mercadoria: mercantilização da vida. O que vemos nos últimos tempos é o esvaziamento dessa dignidade em que trabalhador, o seu trabalho e o produto do seu trabalho perdem a condição de dignidade.

Como igreja, qual o nosso lugar diante dessa coisificação do humano e da natureza? Ética da solidariedade: está presente na Lei Mosaica, nos profetas, na literatura de sabedoria, na pregação e exemplo do Senhor Jesus e na pregação apostólica. Aquele que ama o seu próximo cumpre toda a lei, logo pratica a equidade. Se buscamos a justiça do Reino, a equidade está nela.

Na história da igreja isto está na pregação patrística. Os movimentos monásticos, com as abençoadas heresias e ordens mendicantes medievais que foram movimentos de protestos social, e também no pensamento reformado.

Cristianismo primitivo – o etos do amor ao próximo e a renúncia ao status à isso gerou uma experiência de equidade incomum no mundo antigo. Essa experiência das igrejas macedônicas, da Acaia e de Corinto foi resultado da Graça de Deus.

A ética da solidariedade só é possível em uma relação de horizontalidade. A coragem do amor radical ao próximo e de renúncia ao status nós precisamos reaver e retomar.

Alguns norteamentos para a missão:

A equidade como princípio, valor e prática exemplificada na encarnação de Jesus e da experiência da abundante graça comunitária. A ação generosa e voluntária resulta da graça, a propriedade privada se torna relativa ante a proporcionalidade da contribuição de acordo com as posses, “nem alívio para uns, nem sobrecarga para outros”, “para que haja igualdade”.

Citando John Stott:

  • Deus tem provido o suficiente para satisfazer as necessidades de todos;
  • Toda marca da disparidade entre abundância e carência e pobreza lhe é inaceitável;
  • Quando surge uma situação de séria disparidade, deve ser corrigida mediante um ajuste com o fim de lograr a igualdade ou a justiça;
  • A motivação de buscar a igualdade é o amor.

Uma agenda da missão:

Construir as possibilidades de uma ética da solidariedade.

Dizer que a concentração de poder religioso equivale à concentração de renda, à iniquidade.

Denunciar a falácia da equidade desde a lógica do capital.

Anunciar a equidade como vontade de Deus.

Praticar a equidade na dinâmica social das igrejas e comunidades.

Agregar-se a movimentos sociais que se propõem à construção da equidade em todas as dimensões.

 


* Lyndon de Araújo Santos é historiador, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica Congregacional em São Luís, MA. Equidade foi um dos três eixos temáticos que nortearam as palestras e exposições bíblicas do Congresso Caminhos da Missão: A Igreja e seu tempo, realizado entre os dias 26 e 29 de junho de 2017 em Vitória (ES). 

Texto publicado originalmente em http://tearfundbrasil.org/lyndon-de-araujo-temos-que-abandonar-logica-da-conquista-como-missao/

Quem é o meu próximo? Uma pergunta que não se faz…

Texto de Carlos Mesters publicado originalmente pelo Observatório da Evangelização

O porquê da perguntado doutorcross-jesus-bible-god-161034.jpeg

Quem é o meu próximo? Foi o doutor da Lei que fez a pergunta. Ele a fez, foi mais para justificar-se (Lc 10,29). Diante da reação de Jesus à sua pergunta anterior, ele ficou com vergonha. Perguntara: Mestre, o que devo fazer para obter a vida eterna? (Lc 10, 25). E Jesus, em vez de responder diretamente, disse: O que está escrito na lei? O que você lê ali? (Lc 10,26). Foi como se dissesse: Você, então, não sabe uma coisa tão evidente, você que se diz conhecedor da lei! E, querendo ou não, ele mesmo teve que dar a resposta: amar a Deus e amar ao próximo (Lc 10,27). Perguntara uma coisa já sabida de todos. Parecia uma desonestidade da sua parte. Por isso, para justificar-se, tornou a perguntar: E quem é o meu próximo?.

Mas não foi só para justificar-se e para salvar a sua reputação de doutor da Lei. Para ele, doutor da Lei, aquela pergunta era importante mesmo. Já imaginou: se o pagão não fosse próximo, se o romano, o pobre, o operário, a empregada em casa, não caíssem na categoria de próximo, isso faria uma diferença muito grande e tiraria da vida uma grande preocupação. Estaria livre de prestar-Ihes um serviço por amor. A miséria do mundo e a injustiça generalizada já não seriam uma acusação contra ele. Passaria tranqüilo ao lado dos pobres e das favelas, sem que a consciência lhe mordesse e lhe fizesse aqueles apelos incômodos. Pois a Lei, isto é, Deus, mandava amar somente os próximos, e aquela gente não era próximo. Já não haveria motivo para preocupar-se tanto. Saber direitinho quem era o próximo daria mais tranqüilidade. Realmente, para ele, o doutor, aquilo era uma pergunta muito importante, mas muito importante mesmo.

A resposta de Jesus

Jesus respondeu, mas respondeu a seu modo, como sempre, por meio de um exemplo tirado da vida. Tais exemplos ou histórias falam mesmo a quem não quer ouvir, pois da vida todos entendem ao menos alguma coisa. Jesus falou de um homem que desceu de Jerusalém para Jericó (Lc 10, 30), uns vinte quilômetros de viagem, pelo deserto perigoso de Judá, cheio de bandidos e ladrões, fugidos da polícia, e de subversivos e guerrilheiros, dispostos a matarem qualquer romano que passasse por lá. Esse homem passou por lá, e aconteceu o que se podia esperar. Caiu na mão de ladrões que o roubaram e o deixaram meio morto, ao lado da estrada, de tanta pancada que deram nele. Fugiram com o dinheiro (Lc 10,30). Quem sabe, naqueles dias mesmo tivesse ocorrido um assalto desse tipo. Estaria ainda bem vivo na lembrança de todos. Nada mais eficiente do que fazer um sermão com fatos da vida.

Passa um sacerdote no local onde agonizava a vítima. Era o doutor da Lei, passando ao lado da miséria do povo, agonizante, devido às feridas, feitas pela sociedade sem amor. O sacerdote era alguém que estava por dentro das coisas da religião, conhecia teologia, sabia situar-se, com a sua fé, neste mundo complicado. Chega lá olha e percebe o fulano indefeso que necessitava de ajuda urgente. Mas, na história que Jesus estava contando, o sacerdote olhou e passou, desviando para o outro lado da estrada. Deixou o homem ali. Não ajudou. Era o doutor da lei, passando ao lado da miséria do mundo e raciocinando consigo mesmo: Aquela gente não cai dentro da categoria de próximo. Portanto, não tenho nenhuma obrigação para com ela. Deus, aqui, nada me pede. Posso passar tranqüilo, sem correr o risco de perder a recompensa que Ele prometeu àqueles que observam fielmente a sua Lei. Estou dentro da Lei. A Lei está do meu lado! O sacerdote passou, como o doutor passava pela vida, tranqüilo, sem que a consciência lhe acusasse. O doutor, porém, pelo que parece, já não andava de todo tranqüilo, pois, do contrário, não teria feito aquela pergunta. Alguma coisa, lá dentro dele, o devia estar incomodando.

Passa, em seguida, um levita, um sacerdote de segunda categoria (Lc 10,32). Seria como um sacristão de hoje, alguém que, como o sacerdote e o doutor, estava por dentro das coisas da religião. Sabia aplicar as distinções necessárias, para não se sentir angustiado, neste mundo tão confuso, com tantos apelos. Também ele chegou, olhou e passou, pelo outro lado da estrada, tranqüilo com Deus e consigo. Não ajudou. O homem continuou estendido no chão, sangrando, meio morto. O mundo com a sua miséria continuava aí, sangrando pelas feridas aplicadas pela falta de justiça e não curadas por falta de amor entre os homens. E eram precisamente os que professavam sua fé no Deus justo e bondoso, os que deveriam protestar, reagir, ajudar, esses nada faziam: o doutor, o sacerdote, o levita. A esses, o outro não importava nem um pouco. Importava ter a consciência tranqüila, juridicamente tranqüila.

Chega um samaritano (Lc 10, 33). Na opinião do doutor, um samaritano era um energúmeno, um herege, um renegado, um bandido, um comunista ateu. O que é que esse samaritano vinha a fazer na história que Jesus estava contando? Até agora o doutor pôde segui-lo perfeitamente. Identificou-se com o sacerdote e o levita. Gente direita. Mas agora? Onde é que esse Jesus queria chegar? O samaritano chega, olha, pára, fica com dó, desce do cavalo, se aproxima, aplica curativo, joga azeite e vinho nas feridas, coloca o homem no seu próprio cavalo, vai a pé ao lado dele, leva-o até à hospedaria, recomenda o caso ao dono, cuida dele, paga pelos gastos e deixa ainda o aviso: Cuide bem desse homem. Caso as despesas forem mais, eu, na volta, pagarei tudo (Lc 10, 33-35). Depois continuou a sua viagem, também ele, tranqüilo. E para o samaritano, Deus não entrou, nem a lei. Foi o bom senso de um homem que não pode ver o outro sofrer.

A nova pergunta lançada por Jesus

Foi essa a história que Jesus contou como resposta àquela pergunta do doutor: Quem é o meu próximo? A história de um assalto. Não tirou nenhuma conclusão. Aliás, o doutor nem via como se poderia tirar alguma conclusãodessa história estranha. O que é que tudo isso tinha a ver com a pergunta que ele fizera? Também não era do interesse de Jesus dar uma resposta. Em vez de tirar uma conclusão e de dar uma resposta, ele prefere formular, ele por sua vez, uma nova pergunta.Perguntas incomodam mais do que respostas, porque forçam o outro a pensar: Jesus termina a história: Qual dos três lhe parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Era, novamente, a vez do doutor de falar. A pergunta de Jesus era bem diferente daquela que o doutor tinha feito. O doutor queria saber: Quem é o meu próximo?. Jesus nada respondeu, mas perguntou: Quem dos três se mostrou mais próximo? E o doutor teve que responder, querendo ou não: Aquele que usou de misericórdia para com ele (Lc 10, 37). De tanta raiva que tinha dos samaritanos, dos comunistas, nem sequer o identificou, e disse simplesmente: Aquele que usou de misericórdia. Então, Jesus encerra o assunto: Vai e faça o mesmo! (Lc 10,37). Terminou a conversa. O que será que o doutor pensou? Encontrou ou não encontrou uma resposta para a sua pergunta?

Jesus inverteu tudo. O doutor queria saber: Quem é o meu próximo? Queria ter um critério mais seguro para poder distinguir nos outros quem era e quem não era o seu próximo. Queria viver com a consciência mais tranqüila. Queria ficar livre do medo de não ter cumprido a Lei de Deus. Queria enquadrar os outros nos esquemas do seu próprio pensamento. Estava preocupado com o seu problema. Pouco ligava os outros. Mas, em vez de receber um critério nesse sentido, acaba de receber exatamente o contrário: um conselho de como ele mesmo devia fazer para tornar-se próximo dos outros. Não recebe um critério para poder julgar e classificar os outros, mas um estímulo para agir e aproximar-se dos outros. Caso, no futuro, não ajudasse o fulano caído nas mãos de ladrões e dele não se aproximasse, ele é que não estaria amando o próximo como Deus, isto é, a Lei, o mandava. Ele estaria fora da Lei. Em vez de tranqüilo, ficou mais angustiado ainda.

Pela história do assalto, Jesus fez saber que o erro do doutor estava na pergunta dele. Não se deve perguntar: Quem é o meu próximo? Isto é fuga! Isso é querer colocar em segurança a sua própria consciência, ao abrigo das exigências de Deus, que chegam até nós, em todas as esquinas da vida. Isso é querer obter mérito diante de Deus à custa do outro, identificado como próximo. O outro a quem se ama, por ser ele próximo, já não é amado por ele mesmo; mas é amado apenas porque eu, para poder salvar-me, devo amar o outro, o próximo. O outro, então, já não interessa mais. Já não interessa aquele que é amado nem aquele que não é amado. Interessa só eu que devo amar. Tal atitude é matar o amor na raiz. Faz cair o homem num egoísmo fechado, que já não permite abertura. A preocupação de saber quem é o próximo que deve ser amado, mata, na raiz, o amor ao próximo.

Próximo? Jesus o faz saber: isso depende de você mesmo. Se você se aproximar, você é que faz com que o outro fique mais próximo. Se você não se aproximar, ele jamais será o seu próximo. Não existe gente com rótulo na cabeça: Eu sou próximo! Então, vai depender de mim mesmo decidir quem é o meu próximo? Certo! E se eu não me aproximar dos outros, não terei próximo e não terei ninguém para amar e a Lei não se aplica a mim. Estarei dentro da Lei, sem fazer nada! Sem dúvida!, a aplicação e a execução da Lei fica a seu critério, fica a critério da sua aproximação do outro. Nesse caso, sobra ainda uma outra pergunta: Quando é que devo aproximar-me do outro? Leia a história do assalto que Jesus contou, veja quem cruza o seu caminho. Se ele precisar dos seus cuidados, então: Vá e faze o mesmo que o samaritano fez. Depende de sua generosidade e criatividade. Se esse outro é bom ou mau, ateu ou crente, protestante ou católico, comunista ou capitalista, terrorista ou cidadão cumpridor da Lei, samaritano ou herege, homossexual ou heterossexual, isso não vem ao caso. É homem? Precisa de você? Então, vá, e faça o mesmo. Em outro lugar, Jesus deu o seguinte critério: Tudo aquilo que você gostaria que o outro lhe fizesse, faça-o você a ele: isso é, em resumo, toda a Lei e os Profetas (Mt 7,12).

Conclusão

Próximo é todo aquele que cruzar o seu caminho, seja ele quem for, e do qual você se aproxima. Ou melhor, próximo não existe. Existe é você, com a sua obrigação de fazer-se próximo do outro. Fazer-se próximo, como o samaritano o fez, já é amar o outro como Jesus o quer. Com isso, tudo mudou totalmente.

A sociedade do doutor da Lei estava baseada no principio de que alguns são próximos, outros não. Hoje, na sociedade, existe a mesma coisa. Existem os que estão por dentro e os que estão por fora. Existem os que são aceitos, porque se adaptam aos critérios vigentes, e existem os que são marginalizados, porque não se adaptam ou porque não querem ou porque não podem. E todo mundo acha isso normal. Nós nos identificamos perfeitamente com o sacerdote e o levita da história do assalto. Se nós fôssemos hoje aplicar a parábola do bom samaritano, muita coisa iria mudar. Seria a revolução mais radical que jamais houve na história. Seria a coisa mais subversiva que a gente se possa imaginar. Somos todos como os doutores da Lei, querendo saber quem é o próximo. Tratar e conviver com alguém que a sociedade não aceita, que a Lei declara como não-próximo, isso poderia comprometer a nossa vida. E isso, nós não o queremos. Teremos que ouvir de novo que tais perguntas não se fazem. Seria querer esconder, debaixo da capa de uma suposta caridade, o apego que temos à segurança que a sociedade nos dá. Mas a miséria do mundo nos acusa, como ao doutor. Ninguém fica realmente tranqüilo. De vez em quando, incomodado pela realidade, todo o homem honesto faz como o doutor: quer saber quem é mesmo o próximo. E nesse sentido, a intranqüilidade da qual nasce a pergunta, essa é boa.

Bernie Sanders: é hora de nova rebeldia global

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Às vésperas do Fórum de Davos, ex-candidato rebelde à presidência dos EUA propõe um movimento articulado para enfrentar, em todo o mundo, os poderosos, os bilionários e a desigualdade estrutural

Eis onde estamos como planeta em 2018: depois de todas as guerras, revoluções e grandes encontros  internacionais nos últimos 100 anos, vivemos em um mundo onde um pequeno punhado de indivíduos incrivelmente ricos exercem níveis desproporcionais de controle sobre a vida econômica e política da comunidade global.

Difícil de compreender, o fato é que as seis pessoas mais ricas da Terra agora possuem mais riqueza do que a metade mais empobrecidada população mundial — 3,7 bilhões de pessoas. Além disso, o top 1% tem agora mais dinheiro do que os 99% de baixo. Enquanto os bilionários exibem sua opulência, quase uma em cada sete pessoas luta para sobreviver com menos de US$ 1,25 [algo como R$ 4] por dia e – horrivelmente – cerca de 29 mil crianças morrem diariamente de causas totalmente evitáveis, como diarreia, malária e pneumonia.

Ao mesmo tempo, em todo o mundo, elites corruptas, oligarcas e monarquias anacrônicas gastam bilhões nas mais absurdas extravagâncias. O Sultão do Brunei possui cerca de 500 Rolls-Royces e vive em um dos maiores palácios do mundo, um prédio com 1.788 quartos, avaliado em US$ 350 milhões. No Oriente Médio, que possui cinco dos 10 monarcas mais ricos do mundo, a jovem realeza circula pelo jet set ao redor do mundo, enquanto a região sofre a maior taxa de desemprego entre os jovens no mundo e pelo menos 29 milhões de crianças vivem na pobreza, sem acesso a habitação digna, água potável ou alimentos nutritivos. Além disso, enquanto centenas de milhões de pessoas vivem em condições de vida indignas, os comerciantes de armas do mundo enriquecem cada vez mais, com os gastos governamentais de trilhões de dólares em armas.

Nos Estados Unidos, Jeff Bezos — fundador da Amazon, e atualmente a pessoa mais rica do mundo — tem um patrimônio líquido de mais de US$ 100 bilhões. Ele possui pelo menos quatro mansões que, em conjunto, valem várias dezenas de milhões de dólares. Como se isso não bastasse, está gastando US$ 42 milhões na construção de um relógio dentro de uma montanha no Texas, que supostamente funcionará por 10.000 anos. Mas, nos armazéns e escritórios da Amazon em todo o país, seus funcionários usualmente trabalham em jornadas longas e extenuantes e ganham salários tão baixos que precisam crucialmente do Medicaid, de cupons de alimentos e subsídios públicos para habitação, pagos pelos contribuintes dos EUA.

Não só isso: neste momento de riqueza concentrada e desigualdade de renda, pessoas em todo o mundo estão perdendo a fé na democracia. Eles percebem cada vez mais que a economia global foi manipulada para favorecer os que estão no topo à custa de todos os demais — e estão revoltados.

Milhões de pessoas estão trabalhando mais horas por salários mais baixos do que há 40 anos, tanto nos Estados Unidos quanto em muitos outros países. Elas olham à frente e sentem-se indefesas diante de poucos poderosos que compram eleições e uma elite política e econômica que se torna mais rica, enquanto futuro de seus próprios filhos torna-se cada dia mais incerto.

Em meio a toda essa disparidade econômica, o mundo está testemunhando um aumento alarmante do autoritarismo e do extremismo de direita — que alimenta, explora e amplifica os ressentimentos dos que ficaram para trás e inflamam o ódio étnico e racial.

Agora, mais do que nunca, aqueles que acreditamos na democracia e em governos progressistas devemos mobilizar as pessoas de baixa renda e trabalhadoras em todo o mundo para uma agenda que atenda suas necessidades. Em vez de ódio e divisão, devemos oferecer uma mensagem de esperança e solidariedade. Devemos desenvolver um movimento internacional que rejeite a ganância e a ideologia da classe bilionária e conduza-nos a um mundo de justiça econômica, social e ambiental. Isso será uma luta fácil? Certamente não. Mas é uma luta que não podemos evitar. Os riscos ao futuro são altos demais.

Como o Papa Francisco observou corretamente em um discurso no Vaticano em 2013: “Criamos novos ídolos; a adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e impiedosa imagem no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem propósito verdadeiramente humanos.” Ele continuou: “Hoje, tudo está sob as leis da competição e da sobrevivência dos mais aptos enquanto os poderosos se alimentam dos sem poder. Como consequência, milhões de pessoas encontram-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem possibilidades, sem meios de escapar”.

Um novo movimento progressista internacional deve comprometer-se a enfrentar a desigualdade estrutural tanto entre as nações como em seu interior. Tal movimento deve superar o “culto do dinheiro” e a “sobrevivência dos mais aptos”, como advertiu o Papa. Deve apoiar políticas nacionais e internacionais destinadas a aumentar o nível de vida das pessoas pobres e da classe trabalhadora — desde o pleno emprego e salário digno até o ensino superior e saúde universais e acordos de comércio justo. Além disso, devemos controlar o poder corporativo e interromper a destruição ambiental do nosso planeta que tem resultado nas mudanças climáticas.

Este é apenas um exemplo do que precisamos fazer: apenas alguns anos atrás, a Rede de Justiça Fiscal (Tax Justice Network) estimou que as pessoas mais ricas e as maiores corporações em todo o mundo esconderam entre US$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões em paraísos fiscais, para evitar o pagamento de sua justa contribuição em impostos. Se trabalharmos juntos para eliminar o abuso tributário offshore, a nova receita que será gerada poderá pôr fim à fome global, criar centenas de milhões de novos empregos e reduzir substancialmente a concentração de renda e a desigualdade. Tais recursos poderão ser usados para promover de forma acelerada uma agricultura sustentável e para acelerar a transição de nosso sistema de energia dos combustíveis fósseis e para as fontes de energia renováveis.

Rejeitar a ganância de Wall Street, o poder das gigantescas corporações multinacionais e a influência da classe dos bilionários globais não é apenas a coisa certa a fazer — é um imperativo geopolítico estratégico. Pesquisa realizada pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas mostrou que a percepção dos cidadãos sobre a desigualdade, a corrupção e a exclusão estão entre os indicadores mais consistentes para definir se as comunidades apoiarão o extremismo de direita e os grupos violentos. Quando as pessoas sentem que as cartas estão  empilhadas na mesa contra si e não veem caminho para o recurso legítimo, tornam-se mais propensas a recorrer a soluções prejudiciais a elas próprias e que apenas exacerbam o problema.

Este é um momento crucial na história do mundo. Com a explosão da tecnologia avançada e os novos paradigmas que ela permitiu, agora temos a capacidade de aumentar substancialmente a riqueza global de forma justa. Os meios estão à disposição para eliminar a pobreza, aumentar a expectativa de vida e criar um sistema de energia global barato e não poluente.

Isto é o que podemos fazer se tivermos a coragem de nos unir e confrontar os poderosos que querem cada vez mais para si mesmos. Isto é o que devemos fazer pelo bem de nossos filhos, netos e o futuro do nosso planeta.

Tradução: Mauro Lopes | Publicado originalmente no “Outras Palavras”